{"id":16331,"date":"2023-08-06T16:28:38","date_gmt":"2023-08-06T15:28:38","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=16331"},"modified":"2023-08-06T16:34:54","modified_gmt":"2023-08-06T15:34:54","slug":"luis-manuel-pereira-da-silva-as-jmj-e-a-via-da-beleza-via-pulchritudinis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-as-jmj-e-a-via-da-beleza-via-pulchritudinis\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | As JMJ e a via da beleza (via pulchritudinis)"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os ecos das JMJ ecoam no cora\u00e7\u00e3o de todos os que participaram, ao longe ou perto! Um dos maiores erros na abordagem de tudo o que foi ali vivido seria reduzir \u00e0 interroga\u00e7\u00e3o sobre \u2018para quem eram as mensagens do Papa Francisco\u2019, em busca de um destinat\u00e1rio que aliviasse a dor da transforma\u00e7\u00e3o que elas exigem de quem as ouve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, de facto, as palavras de Francisco n\u00e3o s\u00e3o, apenas, para outros (s\u00ea-lo-\u00e3o, certamente, e por isso, podem conduzir a mudan\u00e7as profundas), mas, principalmente, para os que ousarem ouvi-las como sendo para si mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu estou nessa disposi\u00e7\u00e3o e muitas interroga\u00e7\u00f5es me t\u00eam &#8216;assaltado&#8217;, ao longo destes dias. N\u00e3o como uma tomada de bens sem consentimento, mas como um &#8216;assalto&#8217; que consinto que conduza ao meu pr\u00f3prio despojamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como presidente da comiss\u00e3o diocesana da cultura, olho para tudo o que foi vivido e vejo o poder da beleza, a <em>via pulchritudinis<\/em>, em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estas JMJ foram, para al\u00e9m de tudo, lugares de beleza. \u2018Fazei das vossas vidas lugares de beleza\u2019, recordou, j\u00e1 em outros momentos, em visita a Portugal, um dos <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/benedict-xvi\/pt\/speeches\/2010\/may\/documents\/hf_ben-xvi_spe_20100512_incontro-cultura.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">sucessores de Pedro<\/a>, repercutindo como, perante o caos, Deus \u00e9 o que ordena e organiza (faz, do &#8216;caos&#8217;, &#8216;cosmos&#8217;), como, perante o que cinde e divide (em grego, \u2018diabolos\u2019), Deus \u00e9 o que une (\u00e9 \u2018s\u00edmbolo\u2019), como, perante o decadente e informe, Deus \u00e9 o Belo e a fonte da beleza. Ali\u00e1s, assim come\u00e7am os textos sagrados: por dizer-nos que o poder criador e \u2018c\u00f3smico\u2019 de Deus se confirma nas palavras do narrador que nos d\u00e1 consci\u00eancia de que o Criador v\u00ea que tudo era bom\u2026 Uma bondade que come\u00e7a por ser expressa na beleza e harmonia com que o mundo se afigura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dan\u00e7a, a pintura e o canto, a m\u00fasica e as formas da arquitetura dos espa\u00e7os, as pr\u00f3prias palavras, foram cuidados, nestas JMJ, para proporcionar caminho para o sublime, contrariando a ideia de uma juventude satisfeita com o caos e o ru\u00eddo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00fasica, dirigida por quem se percebia viver o que expressava musicalmente, a maestrina Joana Carneiro, evocou o que de melhor a hist\u00f3ria da m\u00fasica foi proporcionando \u00e0 humanidade em resultado deste encontro entre a f\u00e9 e a arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao ouvi-la, lembrei, bem certo, os ecos da longa e profunda hist\u00f3ria da m\u00fasica sacra, que ter\u00e1, provavelmente, em Palestrina, em Bach, em Mozart, em Allegri, em Buxtehude, etc. alguns dos seus expoentes m\u00e1ximos, cuja mem\u00f3ria poder\u00e1, por\u00e9m, gerar a impress\u00e3o de uma nascente que j\u00e1 secou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este encontro continua fecundo. Que o digam nomes como Arvo P\u00e4rt, Henrik Odegaard, Penderecki, Messiaen, Gubaidulina, Carrapatoso, etc., express\u00f5es contempor\u00e2neas da ininterrupta rela\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e arte e, em particular, entre o cristianismo e a cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do mesmo modo, poder\u00edamos olhar para outros vetores de fecundidade deste encontro, como, por exemplo, para a literatura, com Chesterton, C. S. Lewis, Tolkien, ou, para a arquitetura, com Gaud\u00ed, ou, para a escultura, em Portugal, com Paulo Neves, ou para&#8230; ou para&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As JMJ mostraram ao mundo que a busca do sublime n\u00e3o tem de ser iconoclasta e que a f\u00e9 n\u00e3o tem de temer a cultura, mas a sublimiz\u00e1-la, lev\u00e1-la a recuperar a consci\u00eancia de que nos deve encaminhar em dire\u00e7\u00e3o ao sublime que nos sara as feridas que a vida, tantas vezes ca\u00f3tica, nos abre na \u2018pele\u2019 da alma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou\u00e7o, enquanto escrevo, \u2018Medita\u00e7\u00f5es sobre o banquete de Santa Madalena em Nidaros\u2019, de <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=HW_SgqQrQHk&amp;t=4s\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Henrik Odegaard<\/a>, compositor que tem dedicado parte significativa da sua obra \u00e0 m\u00fasica sacra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escuta desta obra, em que se sente a densidade do encontro entre o gregoriano e o contempor\u00e2neo, serve-me, n\u00e3o apenas para deleite est\u00e9tico, mas, por evocar a figura de Santa Maria Madalena, faz reavivar em mim a mem\u00f3ria de uma obra escult\u00f3rica dedicada a esta santa e que \u00e9 particularmente grata ao Papa Francisco. Refiro-me a um capitel da Igreja de Santa Madalena (s\u00e9culo XI), em Vezelay, cuja foto repousa na secret\u00e1ria do sumo Pont\u00edfice.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o que retrata esta foto, este capitel, que serve de ilustra\u00e7\u00e3o a este artigo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retrata, \u00e0 esquerda, um enforcado, e \u00e0 direita, algu\u00e9m que o transporta aos ombros. Neste densa cena, descreve-se, pela arte, aquela que ter\u00e1 sido mensagem fundamental do Papa Francisco, ao longo destes dias de JMJ.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O enforcado \u00e9 Judas Iscariotes, arrependido. \u00c0 direita, retrata-se Jesus que o leva aos ombros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A miseric\u00f3rdia de Deus \u00e9, aqui, densamente representada numa cena que nos comove.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u2018todos, todos, todos\u2019 que o Papa Francisco pediu aos jovens que repetissem e que continua a ecoar aos nossos ouvidos, encontra suporte na mais longa e profunda hist\u00f3ria da teologia e da arte crist\u00e3s: seremos julgados no encontro com o Amor, diante do qual, como em tempos me recordava uma aluna de escatologia, baixaremos os olhos por nos sentirmos impuros diante do Amor de Deus. N\u00e3o ser\u00e1 Deus a julgar-nos, mas sim n\u00f3s mesmos a \u2018julgarmo-nos\u2019 perante o Amor que Deus \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recordo, a este prop\u00f3sito, o que me disse, nos idos de 90, o saudoso sr. D. Manuel de Almeida Trindade, Bispo em\u00e9rito de Aveiro, numa das v\u00e1rias conversas que tive o privil\u00e9gio de partilhar com ele, no Semin\u00e1rio de Coimbra, que frequentei at\u00e9 1996: &#8216;repara, Lu\u00eds, como a Igreja sempre nos disse que havia santos que pod\u00edamos imitar e invocar, mas nunca ousou dizer de ningu\u00e9m que estaria em Inferno, por acreditar no poder da miseric\u00f3rdia de Deus&#8217;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 desta miseric\u00f3rdia sem limite que dever\u00e3o falar-nos a arte e a cultura fermentadas de cristianismo, miseric\u00f3rdia que n\u00e3o nos acomoda no que j\u00e1 somos, mas que nos desafia a \u2018partirmos apressadamente\u2019. A tenta\u00e7\u00e3o que sinto, m\u00faltiplas vezes, por\u00e9m, \u00e9 a de me aquietar na certeza da miseric\u00f3rdia, como se ela n\u00e3o me interpelasse \u00e0 convers\u00e3o. O lema das JMJ fala, contudo, de um outro estado e condi\u00e7\u00e3o perante a vida: Maria n\u00e3o se aquietou, n\u00e3o se acomodou \u2013 \u2018partiu apressadamente\u2019. Importa recordar que essa certeza da ultimidade da miseric\u00f3rdia foi fonte de uma subtil tenta\u00e7\u00e3o, em alguns tempos da hist\u00f3ria da Igreja, como ocorreu com Or\u00edgenes (s\u00e9c. II-III), que defendeu uma apocat\u00e1stase, uma restaura\u00e7\u00e3o de tudo e todos sem a participa\u00e7\u00e3o dos mesmos, como se a miseric\u00f3rdia n\u00e3o envolvesse os sujeitos e se operasse ao arrepio da sua pr\u00f3pria vontade e convers\u00e3o. A miseric\u00f3rdia \u00e9 encontro, \u00e9 rela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o imposi\u00e7\u00e3o. Interpela, faz partir de si, convida a caminhar, a \u2018partir apressadamente\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A arte que fala do sublime convida a transcender os \u2018caos\u2019 da vida, n\u00e3o a permanecer neles\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Palavras para mim. N\u00e3o para outros\u2026<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem recolhida <a href=\"https:\/\/media.semprefamilia.com.br\/semprefamilia\/2016\/11\/h03judas-2546d2d8.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Lu\u00eds Manuel<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16332,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55],"tags":[],"class_list":["post-16331","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16331","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16331"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16331\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16333,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16331\/revisions\/16333"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16332"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16331"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16331"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16331"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}