{"id":16297,"date":"2023-08-01T18:52:48","date_gmt":"2023-08-01T17:52:48","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=16297"},"modified":"2023-08-01T18:53:00","modified_gmt":"2023-08-01T17:53:00","slug":"pedro-ferreira-a-festa-e-a-polemica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/pedro-ferreira-a-festa-e-a-polemica\/","title":{"rendered":"Pedro Ferreira | A festa e a pol\u00e9mica"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;\"><strong>Pedro Ferreira*<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Atrevo-me a dizer que a maioria dos portugueses que paga impostos, se visse algumas obras de arte ou eventos culturais que o estado portugu\u00eas subsidia, encomenda ou adquire, ficaria escandalizada. Se esses portugueses que pagam impostos tivessem representa\u00e7\u00e3o na comunica\u00e7\u00e3o social ou nos locais de decis\u00e3o, ou se fossem instrumentalizados por quem pode, de certeza que andariam a\u00ed pelas esquinas a dizer mal da vida e do destino que os pol\u00edticos d\u00e3o ao dinheirinho dos seus descontos.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Acresce dizer que a maioria dos portugueses que pagam impostos, sobretudo nestes tempos em que o dinheiro anda mais que contado, n\u00e3o tem acesso a museus, cinema ou teatro, at\u00e9 porque uma grande fatia da cultura subsidiada est\u00e1 concentrada em Lisboa, e Lisboa fica longe para a maioria dos portugueses.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">No entanto, n\u00e3o me passa pela cabe\u00e7a sugerir que o estado feche os museus, deixe de encomendar esculturas para as rotundas, deixe de adquirir obras de arte, deixe de financiar orquestras, coros, teatro e cinema. Eu at\u00e9 gosto de museus, e mesmo quando olho para um quadro ou uma escultura que n\u00e3o me diz nada, dou-lhe o benef\u00edcio da d\u00favida: a culpa h\u00e1 de ser minha e n\u00e3o da pe\u00e7a. Eu at\u00e9 sou \u201cconsumidor\u201d de concertos musicais, por vezes com entrada livre. Eu at\u00e9 vou ao teatro e ao cinema com alguma regularidade. Algumas vezes at\u00e9 vou a espet\u00e1culos culturais em audit\u00f3rios quase vazios de p\u00fablico. Neste pa\u00eds, sou um privilegiado cultural.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Dei por mim a fazer esta reflex\u00e3o a prop\u00f3sito do esc\u00e2ndalo que se pretende propalar a prop\u00f3sito dos gastos com a Jornada Mundial da Juventude. H\u00e1 quem ache que se poderia receber mais de um milh\u00e3o de pessoas sem se gastar dinheiro. H\u00e1 quem ache que se poderia ou deveria fazer uma celebra\u00e7\u00e3o para mais de um milh\u00e3o de pessoas sem se construirem a infraestruturas necess\u00e1rias e, por conseguinte, para esses, as jornadas poderiam ficar de gra\u00e7a. Outros at\u00e9 acham que as jornadas nem se deviam realizar, pois \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o religiosa e tudo o que \u00e9 religioso deve estar escondidinho, n\u00e3o v\u00e1 algu\u00e9m ficar incomodado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">E n\u00e3o adianta explicar que os crist\u00e3os t\u00eam tanto direito a manifestar-se e a ocupar o espa\u00e7o p\u00fablico como qualquer outro grupo. N\u00e3o adianta lembrar que organizar a JMJ \u00e9 prestigiante para a cidade de Lisboa e para Portugal. \u00c9 perda de tempo referir que uma parte substancial do investimento feito resultar\u00e1 em equipamentos que permanecer\u00e3o ap\u00f3s a jornada para benef\u00edcio de todos. \u00c9 in\u00fatil apontar os enormes benef\u00edcios econ\u00f3micos que adv\u00eam diretamente da presen\u00e7a de uma multid\u00e3o, e indiretamente da proje\u00e7\u00e3o internacional que resultar\u00e1 em maior procura tur\u00edstica. J\u00e1 nem me atrevo a evocar a promo\u00e7\u00e3o de valores humanos que um acontecimento destes proporcionar\u00e1 certamente.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00c9 perda de tempo argumentar seja o que for pois, do outro lado, vem sempre o sacrossanto argumento da laicidade do estado. \u00c9 que algu\u00e9m decidiu e outros repetiram que vivemos num estado laico. N\u00e3o que a constitui\u00e7\u00e3o o diga. Mas algu\u00e9m disse, depois algu\u00e9m repetiu e, de repente, tornou-se \u201cverdade\u201d. E uma \u201cverdade\u201d que implica que cada vez que um crist\u00e3o sai da sacristia sinta que pode estar a pisar o risco. Se for de uma religi\u00e3o minorit\u00e1ria, ainda v\u00e1 l\u00e1 em nome da toler\u00e2ncia, mas cat\u00f3licos s\u00f3 escondidinhos.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Por acaso a nossa constitui\u00e7\u00e3o at\u00e9 defende a liberdade religiosa. Isso n\u00e3o significar\u00e1 nada?<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Imaginemos que, apesar da constitui\u00e7\u00e3o defender o direito de aprender e ensinar, os senhores que decidem o que \u00e9 \u201cverdade\u201d, decretam que o estado n\u00e3o pode gastar dinheiro em escolas ou universidades. N\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o dif\u00edcil de argumentar: afinal, h\u00e1 muita gente que n\u00e3o tem filhos, logo, n\u00e3o tem obriga\u00e7\u00e3o de pagar a educa\u00e7\u00e3o dos filhos dos outros. N\u00e3o faz sentido, pois n\u00e3o? Soa a ego\u00edsmo, n\u00e3o soa? Esvazia o direito constitucional, n\u00e3o esvazia?<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Pois tamb\u00e9m n\u00e3o faz sentido a defesa de que o estado, embora reconhecendo o direito \u00e0 liberdade religiosa, se negue a colaborar para que ela se exer\u00e7a. Pois tamb\u00e9m soa a ego\u00edsmo a defesa de que o estado n\u00e3o colabore com as religi\u00f5es s\u00f3 porque h\u00e1 quem n\u00e3o tenha religi\u00e3o.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Pode colocar-se a quest\u00e3o da propor\u00e7\u00e3o. De facto a JMJ \u00e9 um evento caro. Ser\u00e1 que o apoio estatal a este evento estar\u00e1 dentro das possibilidades do nosso pa\u00eds? Comparemos com o Europeu de Futebol de 2004. De acordo com as estimativas, empata com as jornadas em n\u00famero de visitantes. J\u00e1 em investimento do estado, ultrapassou mais de dez vezes as jornadas da juventude (mesmo n\u00e3o contando com os dezanove anos de infla\u00e7\u00e3o). No que diz respeito a retorno, de acordo com estudos de entidades prestigiadas, mais uma vez h\u00e1 quase um empate (embora, mais uma vez, esteja a negligenciar a infla\u00e7\u00e3o). Ou seja, enquanto o Europeu de 2004 deu ao estado portugu\u00eas um monumental saldo negativo entre investimento e o retorno econ\u00f3mico, as previs\u00f5es apontam para que a JMJ deem um elevado saldo positivo. Conv\u00e9m que reflitam nisto aqueles que defendem a realiza\u00e7\u00e3o do Mundial de Futebol em Portugal e Espanha. Cheira-me que o futebol nem sequer \u00e9 um direito constitucional!<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">No custo total da JMJ (suportado em menos de metade pelo estado portugu\u00eas), est\u00e3o inclu\u00eddas centenas de atividades culturais, infraestruturas de seguran\u00e7a, infraestruturas ambientais entre outras. E mesmo o mais ac\u00e9rrimo defensor da pretensa laicidade do estado h\u00e1 de reconhecer que estes investimentos n\u00e3o s\u00e3o in\u00fateis.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Conv\u00e9m referir ainda que os visitantes que as jornadas atraem n\u00e3o s\u00e3o daqueles que procuram Portugal atra\u00eddos apenas pela cerveja barata e pelas drogas acess\u00edveis. No programa destes jovens n\u00e3o est\u00e1 a destrui\u00e7\u00e3o da decora\u00e7\u00e3o dos hot\u00e9is nem a vandaliza\u00e7\u00e3o de esplanadas. Estes visitantes, at\u00e9 podem ensinar a muitos dos nossos jovens que a verdadeira alegria s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel na posse de plena consci\u00eancia.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Mas a JMJ tem ainda a seu favor um aspeto que nenhum outro evento teve: a penetra\u00e7\u00e3o no Portugal profundo. Todo pa\u00eds (incluindo as regi\u00f5es aut\u00f3nomas) receberam jovens de todas as partes do mundo para as chamadas pr\u00e9-jornadas. Nem a Expo, nem o Europeu se espalharam assim por todo o pa\u00eds, n\u00e3o discriminando entre grandes os centros urbanos do litoral e os espa\u00e7os mais rurais do interior. Os participantes nas jornadas entraram nas casas e no cora\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias portuguesas. Como se quantifica a alegria que estes jovens espalharam at\u00e9 nas ruas das aldeias mais rec\u00f4nditas do nosso pa\u00eds?<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Nem todas as pessoas t\u00eam f\u00e9. Quem a tem tem direito a t\u00ea-la e o dever de respeitar os que a n\u00e3o t\u00eam. Mas exige-se reciprocidade. E \u00e9 s\u00f3 isso que se exige.<\/div>\n<div style=\"text-align: right;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>*Professor e secret\u00e1rio da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura | Aveiro<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: right;\">\n<hr \/>\n<p>Imagem recolhida de <a href=\"https:\/\/rr.sapo.pt\/noticia\/religiao\/2022\/11\/16\/jmj-2023-obras-do-altar-onde-o-papa-vai-discursar-concluidas-em-maio-do-proximo-ano\/308375\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">R\u00e1dio Renascen\u00e7a<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Ferreira* Atrevo-me<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16299,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[195,14],"tags":[],"class_list":["post-16297","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pedro-ferreira","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16297","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16297"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16297\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16301,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16297\/revisions\/16301"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16299"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16297"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16297"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16297"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}