{"id":16136,"date":"2023-07-12T07:00:06","date_gmt":"2023-07-12T06:00:06","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=16136"},"modified":"2023-06-05T23:30:34","modified_gmt":"2023-06-05T22:30:34","slug":"regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-15-um-deus-assim-alimenta-a-esperanca-e-o-sonho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-15-um-deus-assim-alimenta-a-esperanca-e-o-sonho\/","title":{"rendered":"\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 | 15 | Um Deus assim alimenta a esperan\u00e7a e o sonho"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019<\/em> | Parceria com a revista <a href=\"http:\/\/www.movimento-acr.pt\/accao-catolica-portuguesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pela m\u00e3o de Ulisses, no regresso a casa depois da guerra de Troia, temo-nos mantido movidos pelo sonho do \u00c9den. Desde o in\u00edcio, temos feito as pontes entre as duas mais profundas matrizes do ocidente: a influ\u00eancia greco-romana e a raiz judaico-crist\u00e3. Como diz George Steiner, no seu incontorn\u00e1vel ensaio \u2018<em>A ideia de Europa\u2019<\/em>, na \u2018nossa descend\u00eancia dupla de Atenas e Jerusal\u00e9m\u2019 est\u00e1 um dos cinco axiomas para definir a Europa (p. 44 \u2013 edi\u00e7\u00e3o de 2007 de Gradiva). Atenas e Jerusal\u00e9m s\u00e3o, aqui, cidades-s\u00edmbolo desta dupla fonte.<\/p>\n<p>Fi\u00e9is a este nosso lento caminhar, olhemos, agora, em espelho, de que nos falam a \u2018teologia\u2019 de Atenas e Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p>A \u2018teologia\u2019 grega (\u00e9 muito impreciso falar-se de uma teologia, neste contexto. Utilizo, aqui, o termo no sentido da vis\u00e3o sobre \u2018o mundo divino\u2019 e n\u00e3o considerando-a como uma detida e argumentativa reflex\u00e3o\u2026) n\u00e3o poder\u00e1 alhear-se do seu multitudin\u00e1rio pante\u00e3o, encimado pela trilogia de Zeus, Hera e Atena \u2013 replicados no J\u00fapiter, Juno e Minerva romanos. Todos os deuses cl\u00e1ssicos t\u00eam nascimento e fragilidades, revelam-se ciumentos e agressivos nas seus rea\u00e7\u00f5es, ao ponto de Ev\u00e9mero, um siciliano dos s\u00e9culos IV e III a.C. ter sustentado, como nos recorda Pierre Grimal, no seu <em>dicion\u00e1rio da mitologia grega e romana<\/em> (sigo, aqui, a edi\u00e7\u00e3o da editora Ant\u00edgona, edi\u00e7\u00e3o de 2020), \u2018que os deuses [gregos] s\u00e3o simplesmente homens a quem, pelos seus m\u00e9ritos, pelos servi\u00e7os que prestaram aos seus semelhantes, foram prestadas honras divinas.\u2019 (introdu\u00e7\u00e3o, p. XLII)<\/p>\n<p>E uma leitura atenta dos mitos gregos tornar\u00e1 f\u00e1cil a ades\u00e3o a uma tal abordagem, que a hist\u00f3ria consagrou como \u2018evemerismo\u2019, decorrendo do nome do seu proponente.<\/p>\n<p>Zeus, o \u2018mais importante deus do Pante\u00e3o hel\u00e9nico\u2019 (p. 468), \u00e9 filho do tit\u00e3 Crono e de Reia. Sem me alongar na descri\u00e7\u00e3o dos mitos que se conservam sobre o deus maior da mitologia grega, sublinho um elemento que passar\u00e1 despercebido ao olhar distra\u00eddo. Crono, o pai de Zeus, \u00e9 o tit\u00e3 do tempo. Como nos recordam as mitologias a ele associadas, devora os seus filhos (tenho-o recordado, repetidamente: os gregos lembravam que o tempo (cronos) devora os seus filhos. Nisto, havia muita profundidade de leitura: o tempo devora-nos, de facto!). Para sobreviver, Zeus tem de ser escondido do pai, para que n\u00e3o o devore.<\/p>\n<p>Tudo \u00e9 tr\u00e1gico e muito comezinho. Tudo \u00e9 humano, demasiado humano, para aludir a express\u00e3o de Nietzsche, esse pensador que nos pretendeu apresentar o cristianismo como decadente e a mitologia grega como o modelo.<\/p>\n<p>Mas onde ficaria o sonho, onde ficaria a fonte da esperan\u00e7a se dos deuses nada mais poderia esperar-se do que encontramos, j\u00e1, entre os humanos?<\/p>\n<p>Jamais, de facto, poderia encontrar-se entre estes deuses uma qualquer sombra sequer de que o perd\u00e3o pudesse ser a verdadeira fonte de novas rela\u00e7\u00f5es entre os homens.<\/p>\n<p>Ter\u00e1 de se esperar, de facto, pelo cristianismo, para se ousar afirmar que o amor n\u00e3o s\u00f3 possa vir a possuir-se como, afinal, que ele \u00e9, efetivamente, a origem \u00faltima de tudo.<\/p>\n<p>Qu\u00e3o longe est\u00e1 destas invejas e f\u00farias divinas a afirma\u00e7\u00e3o joanina de que Deus possa n\u00e3o s\u00f3 \u2018ter\u2019 amor, mas \u2018ser\u2019, Ele mesmo, Amor!<\/p>\n<p>Tudo, na teologia judaico-crist\u00e3 aponta para reden\u00e7\u00e3o. Tudo parece apontar, na mitologia greco-romana, para a trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Bem certo que a dimens\u00e3o tr\u00e1gica nos desperta de toda a tenta\u00e7\u00e3o de ilus\u00e3o, mas teria de redundar numa insuper\u00e1vel desilus\u00e3o?<\/p>\n<p>Tal \u00e9 a dist\u00e2ncia entre o desejo humano e a resposta de que nos fala o cristianismo que dificilmente se lhe poder\u00e1 atribuir a condi\u00e7\u00e3o de proje\u00e7\u00e3o, como pretenderam alguns descrentes do s\u00e9culo XIX, com Feuerbach \u00e0 cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Uma proje\u00e7\u00e3o entregaria o poder aos fortes.<\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o do lugar do amor e do perd\u00e3o partilha o poder entre todos, tornando-nos credores e devedores uns dos outros, simult\u00e2nea e incessantemente.<\/p>\n<p>O evemerismo \u00e9 insustent\u00e1vel quando aplicado ao cristianismo, por muito que o pretendam os Feuerbach de outrora e de hoje.<\/p>\n<p>Bem recorda Berdi\u00e1iev, no seu \u2018<em>contra a indignidade dos crist\u00e3os\u2019<\/em>, que a verdadeira cr\u00edtica \u00e0s insufici\u00eancias dos crist\u00e3os n\u00e3o tem de procurar-se fora do pr\u00f3prio cristianismo, pois nele est\u00e3o os crit\u00e9rios mais do que necess\u00e1rios para um exigente ju\u00edzo. Como ele recorda, \u2018a rejei\u00e7\u00e3o do cristianismo baseado na imperfei\u00e7\u00e3o e nos defeitos dos crist\u00e3os \u00e9, em ess\u00eancia, uma ignor\u00e2ncia e uma incompreens\u00e3o do pecado original. Para os que s\u00e3o conscientes da queda, est\u00e1 claro que a indignidade dos crist\u00e3os n\u00e3o desmente a dignidade do cristianismo, mas antes a confirma. O cristianismo \u00e9 a religi\u00e3o da reden\u00e7\u00e3o e da salva\u00e7\u00e3o; anuncia que o mundo vive no mal e que o homem \u00e9 pecador. Outras doutrinas pensam que se pode alcan\u00e7ar a vida perfeita sem ter vencido o mal de forma efetiva. Mas o cristianismo n\u00e3o pensa assim, antes exige uma vit\u00f3ria real, espiritual sobre o mal, um renascimento espiritual.\u2019 (p. 155-156. Edi\u00e7\u00e3o de 2019, das ediciones S\u00edgueme)<\/p>\n<p>Como poderia esperar-se a reden\u00e7\u00e3o se em Deus se n\u2019Ele se projetassem os comportamentos humanos? Donde nos viria a esperan\u00e7a de deuses em tudo iguais aos humanos, igualmente ego\u00edstas e irasc\u00edveis?<\/p>\n<p>Ah, qu\u00e3o oportunas s\u00e3o, nestes tempos cinzentos e nebulosos, as palavras de Berdi\u00e1iev que interpelam a que se regresse \u00e0 fonte de que pode esperar-se a renova\u00e7\u00e3o, em tempos lamacentos e em que a indignidade dos que se dizem crist\u00e3os parece projetar-se sobre a pr\u00f3pria dignidade do cristianismo!<\/p>\n<p>O nosso sonho \u00e9 o do \u00c9den, n\u00e3o como um passado a que queremos regressar, mas como um horizonte para que queremos caminhar: o da correspond\u00eancia ao Amor que Deus \u00e9!<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura e autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado em <a href=\"http:\/\/teologicus.blogspot.com\/search?q=eutan%C3%A1sia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.teologicus.blogspot.com<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem: <a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Jupiter_Smyrna_Louvre_Ma13.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Zeus de Esmirna<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16137,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,177],"tags":[],"class_list":["post-16136","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16136","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16136"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16136\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16138,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16136\/revisions\/16138"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16137"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16136"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16136"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16136"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}