{"id":15909,"date":"2023-06-12T07:00:18","date_gmt":"2023-06-12T06:00:18","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=15909"},"modified":"2023-06-12T16:07:03","modified_gmt":"2023-06-12T15:07:03","slug":"regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-do-meio-homem-meio-peixe-ou-meio-passaro-ao-verdadeiramente-homem-verdadeiramente-deus-ou-de-como-o-nosso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-do-meio-homem-meio-peixe-ou-meio-passaro-ao-verdadeiramente-homem-verdadeiramente-deus-ou-de-como-o-nosso\/","title":{"rendered":"\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 | 14 | Do \u2018meio-homem, meio-peixe ou meio-p\u00e1ssaro\u2019 ao \u2018verdadeiramente Homem, verdadeiramente Deus\u2019! (Ou de como o nosso \u2018regresso\u2019 nos leva do Furadouro a Calced\u00f3nia\u2026)"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019<\/em> | Parceria com a revista <a href=\"http:\/\/www.movimento-acr.pt\/accao-catolica-portuguesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O medo e o perigo acompanham as mais long\u00ednquas e enraizadas hist\u00f3rias m\u00edticas de seres que eram \u2018meio-homem, meio-animal\u2019 (seja p\u00e1ssaro, seja peixe\u2026). As trevas e o abismo devorador est\u00e3o enla\u00e7ados com a descri\u00e7\u00e3o de seres que, por serem metade humanos, metade animais, se caracterizavam, paradoxalmente, por possu\u00edrem um poder sedutor. E o que ter\u00e3o tais narrativas m\u00edticas a ver com este \u2018regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019? Onde se encontram ou divergem, aqui, a cultura cl\u00e1ssica e o cristianismo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de nos lan\u00e7armos a estabelecer essa \u2018ponte\u2019, partilho uma confid\u00eancia. A mat\u00e9ria que dar\u00e1 corpo a este texto nasceu de forma muito improv\u00e1vel: uma visita \u00e0 casa-museu J\u00falio Dinis, em Ovar, ocasi\u00e3o em que soube da exist\u00eancia de um conto do autor de \u2018as pupilas do senhor reitor\u2019, para mim, at\u00e9 ent\u00e3o desconhecido. Ali\u00e1s, desconhecido, ainda hoje, de significativa parte do grande p\u00fablico, e s\u00f3 descoberto por estudo feito pelo m\u00e9dico Egas Moniz, em 1924. O t\u00edtulo: \u2018o canto da sereia\u2019. Segundo nos \u00e9 dito na apresenta\u00e7\u00e3o deste conto, Egas Moniz encontrou numa lenda de Pardilh\u00f3 (Estarreja) a base que ter\u00e1 servido de mote para o conto criado por J\u00falio Dinis, no per\u00edodo em que esteve enfermi\u00e7o em casa de uma tia, na ent\u00e3o vila piscat\u00f3ria de Ovar (de maio a setembro de 1863).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao ler este conto<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, enquadr\u00e1vel no g\u00e9nero dos contos fant\u00e1sticos, dei-me conta de qu\u00e3o enraizadas est\u00e3o as hist\u00f3rias de sereias, esses seres dotados de um poder sedutor a que dificilmente os sujeitos humanos se conseguem opor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recordei, ao ler a hist\u00f3ria contada pelo Ti\u2019 Caba\u00e7a, passada em terras do Furadouro, e que tem em Pedro do Ramires o protagonista, a dif\u00edcil viagem de Ulisses no seu regresso a \u00cdtaca, ao passar pela ilha das sereias. Na epopeia de Homero, estas s\u00e3o mulheres-p\u00e1ssaro que, pelo seu canto, atraem para a morte, tendo a Circe recomendado a Ulisses que selasse com cera os ouvidos dos seus companheiros e que se prendesse ao mastro da nau.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois tra\u00e7os ret\u00eam a aten\u00e7\u00e3o de quem l\u00ea estas hist\u00f3rias: por um lado, estes seres, metade humanos, metade animais, s\u00e3o sedutores, mas atraem para o abismo; por outro, est\u00e3o associados ao mar, que na cultura antiga, era sinal abissal e associado ao mal. Dali, nada de bom poder\u00e1 vir, exceto perigos e perdi\u00e7\u00e3o. (N\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil reconhecermos nestes tra\u00e7os as \u2018tintas\u2019 com que se pintavam os mitos que tomavam conta da cabe\u00e7a dos nossos primeiros navegadores e t\u00e3o poeticamente descritos por Cam\u00f5es, n\u2019Os Lus\u00edadas.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em s\u00edntese, recolhamos, para o nosso \u2018regresso\u2019, estas duas notas: a sedu\u00e7\u00e3o para a perdi\u00e7\u00e3o por parte de seres que s\u00e3o quimeras (meio-humano, meio-animal) e o perigo do mar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E que ponte poder\u00e1 estabelecer-se com o cristianismo? Que \u2018reden\u00e7\u00e3o\u2019 poder\u00e1 esperar-se deste para estes t\u00e3o radicais medos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mar parece ser abissal, no texto b\u00edblico, e, com ele, as pr\u00f3prias \u00e1guas. Mas essa seria uma conclus\u00e3o precipitada se excluirmos a dimens\u00e3o redentora com que as diversas narrativas b\u00edblicas se acercam do elemento \u2018mar\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem certo que as \u00e1guas destroem, pelo dil\u00favio, separam da salva\u00e7\u00e3o, antes de se abrirem fazendo barreira \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, distanciam e afastam da salva\u00e7\u00e3o que se espera, em N\u00ednive, etc. Mas essa \u00e9 apenas parte de cada narrativa b\u00edblica, pois s\u00f3 h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o do que precisa de ser salvo. E a salva\u00e7\u00e3o \u00e9 a resposta b\u00edblica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa mensagem \u00e9 particularmente vis\u00edvel na narrativa de Mateus 14, 22-33.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 noite! (Mais um s\u00edmbolo do abismo\u2026) Jesus, ap\u00f3s ter despedido as multid\u00f5es, pede que o levem para a outra margem do mar da Galileia, para rezar. Sem grandes elementos interm\u00e9dios, percebemos que o barco regressa ao mar, ficando Jesus no monte. O mar est\u00e1 encapelado, enchendo-se os disc\u00edpulos de medo. O medo! Sempre o medo e o que ele significa de perigo e sedu\u00e7\u00e3o do abismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem que percebam que \u00e9 Jesus, este acerca-se deles, caminhando sobre as \u00e1guas (que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam poder sobre Jesus\u2026 Ele \u00e9 superior ao abismo que o mar representava.) Neste passo, Mateus revela-nos que \u2013 ao contr\u00e1rio do que acontece nas narrativas gregas \u2013 a palavra dita, proferida, n\u00e3o seduz para levar para o abismo (como acontecia com as sereias), mas antes \u00e9 libertadora. Jesus n\u00e3o diz palavras para seduzir para o abismo. Antes, assegura que o abismo j\u00e1 n\u00e3o vence: \u2018Tranquilizai-vos! Sou eu! N\u00e3o temais!\u2019 Termina a per\u00edcope afirmando que, perante o amainar do mar, \u2018os que se encontravam no barco prostraram-se diante de Jesus, dizendo: \u00abTu \u00e9s, realmente, o Filho de Deus!\u00bb\u2019 O abismo j\u00e1 n\u00e3o tem poder de seduzir para destruir. Antes, est\u00e1 definitivamente vencido, na linha do que se afirma no credo dos ap\u00f3stolos que profere que Jesus \u2018desceu ao reino dos mortos\u2019, n\u00e3o porque este tivesse o poder de o levar, mas sim para que atue o poder redentor daquele que diz \u2018Eu Sou!\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fixemo-nos, agora, no outro elemento da nossa s\u00edntese inicial: os seres \u2018quimera\u2019 (meio-humano, meio-animal)\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao afirmar \u2018Eu Sou\u2019, express\u00e3o recordada por este evangelista que ter\u00e1 escrito para judeus, Jesus est\u00e1 a afirmar a sua divindade. Com efeito, \u2018Eu Sou\u2019 \u00e9 express\u00e3o muitas vezes associadas a um \u2018cair por terra\u2019 da parte dos que a ouvem, pois ela evoca a pr\u00f3pria teofania de Deus, no Sinai, quando Se apresenta como \u2018Eu Sou Aquele que sou\u2019 (Yahweh).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curiosamente, por\u00e9m, Jesus n\u00e3o \u00e9 \u2018metade Homem, metade Deus\u2019. Ele n\u00e3o \u00e9 uma quimera. \u00c0s quimeras associamos, como anteriormente descrito, o perigo e a ambiguidade que seduz para o abismo. Vejamos o que consagrou o conc\u00edlio de Calced\u00f3nia, em pleno s\u00e9culo V, contexto de acesas pol\u00e9micas sobre a identidade e a presen\u00e7a das duas naturezas na pessoa \u00fanica de Jesus Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diz o Conc\u00edlio de Calced\u00f3nia (451), quarto conc\u00edlio ecum\u00e9nico, na quinta sess\u00e3o (22 de outubro de 451), onde formula o \u2018credo de Calced\u00f3nia\u2019, acerca das duas naturezas em Cristo: \u201cSeguindo, pois, os Santos Padres, ensinamos unanimemente que h\u00e1 que confessar um s\u00f3 e mesmo Filho e Senhor nosso Jesus Cristo: perfeito na divindade, e perfeito na humanidade; verdadeiramente Deus, e verdadeiramente homem &lt;composto&gt; de alma racional e corpo; consubstancial ao Pai segundo a divindade, e consubstancial a n\u00f3s, segundo a humanidade, em tudo semelhante a n\u00f3s, exceto no pecado; gerado do Pai antes dos s\u00e9culos segundo a divindade, e nos \u00faltimos dias, por n\u00f3s e pela nossa salva\u00e7\u00e3o, gerado de Maria Virgem, a m\u00e3e de Deus, segundo a humanidade.\u201d (Tradu\u00e7\u00e3o nossa, a partir da edi\u00e7\u00e3o de Heinrich Denzinger e Peter H\u00fcnermann, <em>El magist\u00e9rio de la Iglesia: Enchiridion symbolorum definitionum et declarationum de rebus fidei et morum<\/em>, Barcelona, Herder, 1999, n. 301<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus Cristo n\u00e3o tem as caracter\u00edsticas de uma quimera, em que cada uma das naturezas tem de ceder espa\u00e7o \u00e0 outra para poder existir. As duas naturezas est\u00e3o presentes, plenamente, numa afirma\u00e7\u00e3o clara de que Deus n\u00e3o anula o homem nem a plenifica\u00e7\u00e3o deste significa a anula\u00e7\u00e3o de Deus. Ele \u00e9 \u2018verdadeiramente Deus e verdadeiramente Homem\u2019. Uma tal verifica\u00e7\u00e3o contraria, ali\u00e1s, as presun\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria, em particular do s\u00e9culo XIX, onde algumas correntes ateias pretenderam denunciar que a f\u00e9 religiosa significaria a anula\u00e7\u00e3o do ser humano. A afirma\u00e7\u00e3o de Calced\u00f3nia rejeita tal conclus\u00e3o. Jesus n\u00e3o \u00e9, \u00e0 maneira das sedutoras sereias, voz que atrai para o abismo, supondo que uma natureza limite a outra: pelo contr\u00e1rio, na Pessoa de Jesus Cristo, explicita-se que a realiza\u00e7\u00e3o m\u00e1xima do Homem n\u00e3o significa o recuo de Deus, assim como a plena express\u00e3o de Deus, na Hist\u00f3ria, n\u00e3o comporta o esvaziamento da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A voz que atraiu Pedro do Ramires para o abismo era a de uma quimera, assim como a que obrigara Ulisses a prender-se ao mastro. A Palavra, que \u00e9 o Verbo encarnado, atrai, mas j\u00e1 n\u00e3o para o abismo; antes eleva e redime os limites que se simbolizavam no mar, enquanto met\u00e1fora do abismo. E s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque, n\u2019Ele, as duas naturezas est\u00e3o completas, sem se limitarem uma \u00e0 outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Li a edi\u00e7\u00e3o de 2021, da Oro, apoiada pela C\u00e2mara Municipal de Ovar e pelo Museu J\u00falio Dinis, e coordenada por Jos\u00e9 Lic\u00ednio Pimenta e Ant\u00f3nio Fran\u00e7a.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura e autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado em <a href=\"http:\/\/teologicus.blogspot.com\/search?q=eutan%C3%A1sia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.teologicus.blogspot.com<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem: <a href=\"https:\/\/ca.m.wikipedia.org\/wiki\/Fitxer:GiorcesBardo54.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Ulisses e as sereias<\/em>| Mosaico [s\u00e9culo II d.C.]<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15911,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,177],"tags":[],"class_list":["post-15909","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15909","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15909"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15909\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16155,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15909\/revisions\/16155"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15911"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15909"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15909"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15909"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}