{"id":15581,"date":"2023-02-01T12:41:15","date_gmt":"2023-02-01T12:41:15","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=15581"},"modified":"2023-02-01T12:41:38","modified_gmt":"2023-02-01T12:41:38","slug":"modos-de-interacao-entre-ciencia-e-religiao-%cf%80-6-berry-e-a-comunhao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/modos-de-interacao-entre-ciencia-e-religiao-%cf%80-6-berry-e-a-comunhao\/","title":{"rendered":"Modos de intera\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e religi\u00e3o | \u03c0.6 ~ Berry e a Comunh\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><strong><em>Modos de intera\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e religi\u00e3o\u00a0<\/em><\/strong><\/h5>\n<h2 style=\"margin: 13pt 0cm 6.5pt; text-align: right;\"><em>\u03c0\u00a0[Pessoas &amp; Ideias]<\/em><\/h2>\n<hr \/>\n<h2 style=\"margin: 13pt 0cm 6.5pt; text-align: center;\">\u03c0.6 ~ Berry e a Comunh\u00e3o<\/h2>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Miguel Oliveira Pan\u00e3o<\/h4>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><a href=\"http:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\">Blog<\/a> &amp; <a href=\"https:\/\/www.miguelpanao.com\/livros\/\">Autor<\/a> &amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Newsletter<\/a><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas Berry, sacerdote Passionista, era uma combina\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m sem medo da mudan\u00e7a, com uma insaci\u00e1vel curiosidade intelectual, interesse em coisas grandes e ser feliz com pequenas coisas. No seu <em>\u201dO Sonho da Terra\u201d<\/em> (<em>The Dream of the Earth<\/em>), Berry diz que vivemos entre duas hist\u00f3rias: a descri\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da evolu\u00e7\u00e3o e o relato b\u00edblico da cria\u00e7\u00e3o. O resultado desta dicotomia para muitas pessoas foi a aliena\u00e7\u00e3o do ser humano relativamente ao mundo natural. Por isso, Berry sugere que s\u00f3 uma <em>nova hist\u00f3ria<\/em> pode integrar as dimens\u00f5es material e espiritual da evolu\u00e7\u00e3o. Que tipo de hist\u00f3ria?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das frases mais marcantes do pensamento de Thomas Berry \u00e9 a de que<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00abO universo \u00e9 uma comunh\u00e3o de sujeitos, n\u00e3o uma colec\u00e7\u00e3o de objectos.\u00bb<\/em> (\u201cEvening Thoughts\u201d, Sierra Club Books, 2006, p. 17)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, coloca no centro narrativo da nossa hist\u00f3ria, a relacionalidade presente entre todos os elementos que comp\u00f5em o universo, independentemente do seu grau de subjectividade. Por outro lado, Berry dir\u00e1, tamb\u00e9m, que \u2014 <em>\u00abO universo \u00e9 o \u00fanico texto sem contexto.\u00bb<\/em> Por isso, todo o modo particular de ser no mundo refere-se ao universo e \u00e0 forma como esse \u201ctexto\u201d enquadra tudo o que nele existe. Berry est\u00e1 convicto que somente compreendendo a hist\u00f3ria do universo se revelar\u00e1 o nosso papel nessa narrativa e nessa revela\u00e7\u00e3o encontraremos a orienta\u00e7\u00e3o do caminho a seguir no futuro, come\u00e7ando pela tomada de consci\u00eancia de uma transi\u00e7\u00e3o de era geol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste momento, vivemos na era geol\u00f3gica do Cenoz\u00f3ico pela nova vida que surgiu ap\u00f3s o cataclismo que ter\u00e1 resultado na extin\u00e7\u00e3o dos dinoss\u00e1urios, mas no pensamento de Berry, a comunh\u00e3o de sujeitos aponta para a emerg\u00eancia de uma nova \u00e9poca geol\u00f3gica: o <em>Ecoz\u00f3ico<\/em>. Nessa nova \u00e9poca do planeta Terra, a participa\u00e7\u00e3o integral de todos os membros da comunidade planet\u00e1ria salienta a exig\u00eancia de um novo tipo de comunh\u00e3o assente na maior compreens\u00e3o de como e porqu\u00ea tudo est\u00e1 relacionado com tudo. Por\u00e9m, essa emerg\u00eancia ainda n\u00e3o \u00e9 certa porque implica abdicar de uma coisa: o controlo. O desenvolvimento tecnol\u00f3gico tem acontecido pelo fasc\u00ednio que o ser humano tem pela sua capacidade de controlar as coisas atrav\u00e9s da tecnologia. Da\u00ed que, em vez de nos dirigirmos ao Ecoz\u00f3ico, continuamos a insistir no movimento orientado para o <em>Tecnoz\u00f3ico<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Tecnoz\u00f3ico favorece uma compreens\u00e3o do mundo como colec\u00e7\u00e3o de objectos a controlar. Num epis\u00f3dio da s\u00e9rie recente \u201cUndeclared War\u201d, explica-se o modo como se pode controlar as pessoas e os eventos atrav\u00e9s da tecnologia das redes sociais. Cria-se um grupo falso com um ideal e pessoas comuns aderem ao grupo. Depois, cria-se um grupo falso com a ant\u00edtese do primeiro ideal e pessoas normais aderem, tamb\u00e9m, a esse grupo. Atrav\u00e9s de <em>posts<\/em>, estimulamos a emo\u00e7\u00e3o das pessoas por cada Ideal e combina-se uma manifesta\u00e7\u00e3o no mesmo dia, hora e local para ambos os grupos. Resultado? Viol\u00eancia a partir do controlo das emo\u00e7\u00f5es das pessoas para alimentar a ideia falsa de um governo que n\u00e3o sabe lidar com as situa\u00e7\u00f5es e, por isso, n\u00e3o merece ser eleito. Berry afirma que \u2014 <em>\u00abO que ganh\u00e1mos ao controlar o mundo como uma colec\u00e7\u00e3o de objectos, perdemos na nossa capacidade para a intimidade na comunh\u00e3o de sujeitos.\u00bb<\/em> Sair do Tecnoz\u00f3ico e caminhar na direc\u00e7\u00e3o do Ecoz\u00f3ico pode come\u00e7ar por compreendermos melhor os diferentes modos de ser dos sujeitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra <em>animal<\/em> tem a sua raiz em <em>anima<\/em> \u2014 alma \u2014 uma vis\u00e3o que confere interioridade \u00e0 psique de cada ser do mundo vivente e a base de uma presen\u00e7a interior que se pode experimentar entre os seres. Por\u00e9m, Berry prop\u00f5e irmos mais longe e \u2014 <em>\u00abEnquanto o mundo n\u00e3o vivente n\u00e3o tem uma alma vivente como princ\u00edpio de vida, cada membro no mundo n\u00e3o vivente possui o equivalente do ser no princ\u00edpio interior de ser. Esta \u00e9 uma forma interior que <strong>comunica<\/strong> uma pot\u00eancia, uma qualidade, e uma majestade que nem o mundo vivente pode transmitir. De um modo mais \u00edntimo, o mundo n\u00e3o vivente oferece a misteriosa subst\u00e2ncia que se transforma em vida. Em todo este processo, acontece uma <strong>comunh\u00e3o<\/strong> que pertence ao reino do esp\u00edrito. Existe o esp\u00edrito da montanha, o esp\u00edrito seguramente dos rios e do grande mar azul. (\u2026) [Tais] esp\u00edritos s\u00e3o reconhecidos como modos de presen\u00e7a pessoal.\u00bb<\/em> A escritora Nan Shepherd demonstra esta intui\u00e7\u00e3o ao partilhar a sua experi\u00eancia de que <em>\u00aba montanha tem um interior\u00bb<\/em> (A Montanha Viva, Edi\u00e7\u00f5es 70, 2022) e \u2014 <em>\u00abexiste mais no luxo do topo de uma montanha do que um ajuste fisiol\u00f3gico perfeito. O algo mais que existe reside dentro da montanha. Algo move-se entre mim e essa. Lugar e mente podem interpenetrar-se at\u00e9 que a natureza dos dois se altere.\u00bb<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somos p\u00f3 das estrelas e ao p\u00f3 retornamos ap\u00f3s a nossa morte. Mas a consci\u00eancia que experimentamos enquanto, animados, caminhamos pela Terra, expressa uma transforma\u00e7\u00e3o do modo de ser do universo atrav\u00e9s da nossa exist\u00eancia. Esse universo que podemos compreender como a revela\u00e7\u00e3o principal do divino, a Primeira Escritura, como diz Berry, o <em>locus<\/em> principal da comunh\u00e3o humano-divina. \u2014 <em>\u00abA unidade do universo precisa de ser compreendida. O universo \u00e9 uma comunidade interactiva atrav\u00e9s da sua total extens\u00e3o no espa\u00e7o e desenvolvimento no tempo.\u00bb<\/em> (\u201cEvening Thoughts\u201d, p. 70). Em n\u00f3s, o universo assume uma consci\u00eancia. N\u00f3s somos parte do universo, n\u00e3o estamos \u00e0 parte desse. E o nosso papel parece ser o de aprofundar a realidade da <em>comunidade<\/em> da qual todos os seres viventes e n\u00e3o-viventes fazem parte, reconhecendo nisso a <em>unidade do universo<\/em>. Pois, como diz Berry, <em>\u00abn\u00e3o h\u00e1 comunidade, seja a que n\u00edvel for, que possa sobreviver se n\u00e3o estiver fundada na unidade do universo.\u00bb<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que tipo de hist\u00f3ria, afinal, pode integrar as dimens\u00f5es material e espiritual da evolu\u00e7\u00e3o? A vis\u00e3o de Thomas Berry parece-me apontar para uma hist\u00f3ria de Comunh\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/geralt-9301\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4715585\">Gerd Altmann<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4715585\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Modos de intera\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15584,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[57,62,180],"tags":[],"class_list":["post-15581","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-miguel-oliveira-panao","category-modos-de-interacao-entre-ciencia-e-religiao","category-pi-pessoas-ideias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15581","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15581"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15581\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15585,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15581\/revisions\/15585"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15584"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15581"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15581"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15581"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}