{"id":15469,"date":"2023-01-02T21:04:12","date_gmt":"2023-01-02T21:04:12","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=15469"},"modified":"2023-07-07T17:12:50","modified_gmt":"2023-07-07T16:12:50","slug":"luis-silva-tres-ideias-que-devo-a-bento-xvi-e-mais-uma-a-que-chegamos-em-tempos-diferentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-silva-tres-ideias-que-devo-a-bento-xvi-e-mais-uma-a-que-chegamos-em-tempos-diferentes\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | Tr\u00eas ideias que devo a Bento XVI\u2026 e mais uma a que cheg\u00e1mos em tempos diferentes!"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho, desde h\u00e1 muito, a convic\u00e7\u00e3o de que a hist\u00f3ria guardar\u00e1 marca indel\u00e9vel de Bento XVI, muito para al\u00e9m da que resulta das suas decis\u00f5es, seja enquanto Prefeito da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9 (1981-2005), seja enquanto Papa (2005-2013).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou, mesmo, convicto de que a hist\u00f3ria da Igreja o revisitar\u00e1, vez ap\u00f3s vez, sem esgotar a profundidade e perenidade do seu pensamento e o reconhecer\u00e1, enquanto \u2018sapient\u00edssimo\u2019, como um dos Mestres para as gera\u00e7\u00f5es vindouras, atribuindo-lhe o t\u00edtulo de Doutor da Igreja, na companhia de S\u00e3o Tom\u00e1s, Santo Agostinho, Santo Anselmo, Santa Teresa de \u00c1vila, Santa Catarina de Sena, entre outros que hoje completam esse restrito are\u00f3pago de encontro entre o tempo e o eterno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fecundidade do seu pensamento exige humildade na abordagem que me proponho fazer\u2026 Guardar da sua extensa leitura dos sinais dos tempos uma reserva de tr\u00eas ideias preenche, aqui, apenas o objetivo de aliciar os leitores \u00e0 descoberta do muito que Bento XVI tem para nos dar de entre o seu tesouro intelectual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem certo que aos leitores mais atentos logo ocorrer\u00e1 a ideia da cr\u00edtica ao relativismo que perdeu a refer\u00eancia \u00e0 verdade. Deixo essa linha evidente e vou em busca de outras, menos recordadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O cristianismo \u00e9 um advento\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira de entre as ideias que guardo e revisito encontrei num op\u00fasculo editado em 2009, pela Princ\u00edpia, e que li em mar\u00e7o de 2010. Nele, recolhem-se tr\u00eas homilias proferidas por Joseph Ratzinger, entre 13 e 15 de dezembro de 1964, sob o t\u00edtulo de \u2018Do sentido do ser crist\u00e3o\u2019. Afirma, ali, que o cristianismo \u00e9 um advento, ideia que desloca a f\u00e9 de uma l\u00f3gica passadista, de uma l\u00f3gica de divis\u00e3o do mundo entre bons e maus, projetando-a para diante, sabendo da sua condi\u00e7\u00e3o de provisoriedade e de estar a caminho. Uma ideia verdadeiramente revolucion\u00e1ria e transformadora\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A \u2018Raz\u00e3o\u2019 iluminista \u00e9 a-hist\u00f3rica\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda ideia encontrei-a no livro \u2018A Europa de Bento: na crise das culturas\u2019, editado pela Al\u00eatheia, em 2005. Li-o em agosto de 2009, tendo-o anotado com diversos \u2018muito interessante\u2019. Assim era a minha leitura das obras deste insigne pensador\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre esses \u2018muito interessante\u2019, guardei a descoberta de que um dos problemas da modernidade n\u00e3o est\u00e1 na \u2018Raz\u00e3o\u2019, pois ela \u00e9 fonte de ilumina\u00e7\u00e3o, se sustentada na genu\u00edna busca da verdade. O problema est\u00e1 naquilo em que a Raz\u00e3o moderna a transformou: tornou-a \u2018a-hist\u00f3rica\u2019, como se o sujeito humano pudesse existir sem ser numa circunst\u00e2ncia concreta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como \u00e9 fecunda esta segunda ideia! Nela podemos, por exemplo, descobrir uma das maiores falhas das perspetivas sobre a liberdade que a concebem como se fosse a-hist\u00f3rica, sem ser situada, sem ser a de humanos concretos, como se eles pudessem ser \u2018deus\u2019, o que significa e redunda numa nega\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio ser humano. Como afirma o pr\u00f3prio Bento XVI, \u2018a separa\u00e7\u00e3o radical da filosofia iluminista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas ra\u00edzes [hist\u00f3ricas] torna-se, em \u00faltima an\u00e1lise, um prescindir do homem\u201d. Recorda, um pouco adiante, que [em nome de uma raz\u00e3o a-hist\u00f3rica, negadora das ra\u00edzes hist\u00f3ricas, situadas] \u201cno fundo, o homem n\u00e3o tem liberdade nenhuma \u2013 dizem os porta-vozes das ci\u00eancias naturais, em total contradi\u00e7\u00e3o com o ponto de partida de toda a quest\u00e3o. Ele n\u00e3o deve acreditar que \u00e9 diferente de todos os outros seres vivos, e portanto deveria ser tratado como eles \u2013 dizem-nos at\u00e9 os porta-vozes mais avan\u00e7ados de uma filosofia claramente afastada das ra\u00edzes da mem\u00f3ria hist\u00f3rica da humanidade.\u201d (p. 33)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o estamos a viver, hoje, as r\u00e9plicas destas ideias profeticamente denunciadas por Bento XVI?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O amor \u00e9 muito mais do que um sentimento\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, devo-lhe uma terceira ideia: a de que o amor \u00e9 muito mais do que sentimento\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para se chegar a esta ideia, \u00e9 necess\u00e1rio ter arrumada a antropologia, isto \u00e9, a vis\u00e3o sobre quem \u00e9 o ser humano. E Bento XVI tinha uma ideia esclarecida: o ser humano envolve, no seu agir, n\u00e3o apenas as emo\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m a vontade e a intelig\u00eancia, numa unidade indissol\u00favel de alma-corpo, mat\u00e9ria enfrentada, sem receios nem ambiguidades, na sua \u2018introdu\u00e7\u00e3o ao cristianismo\u2019, que foi reeditada, em portugu\u00eas, em 2005, pela Princ\u00edpia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia de que o amor \u00e9 muito mais do que sentimento encontramo-la na sua primeira enc\u00edclica, \u2018<em>Deus caritas est\u2019<\/em>, no seu n\u00famero 17. Ali, afirma que \u201co reconhecimento do Deus vivo \u00e9 um caminho para o amor, e o sim da nossa vontade \u00e0 dele une intelecto, vontade e sentimento no ato globalizante do amor.\u201d Esta ideia ser\u00e1 revisitada uma e outra vez, sendo condi\u00e7\u00e3o para se perceber o alcance da afirma\u00e7\u00e3o de que \u201csem verdade, a caridade cai no sentimentalismo.\u201d (<em>Caritas in veritate<\/em>, 3) S\u00f3 a medita\u00e7\u00e3o, sustentada e dispon\u00edvel, na densidade desta ideia pode evitar os erros de quem, em nome de uma ideia incompleta do amor, se disp\u00f5e a tra\u00ed-lo, supondo, por exemplo, que possa ser ato amoroso o ato de matar. O ato designado como de amor n\u00e3o mais ser\u00e1, aqui, do que express\u00e3o de um sentimento n\u00e3o iluminado pela verdade que deveria levar ao respeito integral pelo outro, mas que se basta em descansar as emo\u00e7\u00f5es, sem ver o que nelas possa ser desafio de busca da verdade do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deixar-se tomar pela lonjura e alcance desta ideia permite olhar com uma atitude cr\u00edtica tantas das decis\u00f5es que, hoje, diante de n\u00f3s, s\u00e3o apresentadas como atos de amor, disfar\u00e7ando, antes, insufici\u00eancias do amor ou, mesmo, ego\u00edsmos mascarados\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Etsi Deus daretur\u2026<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somo a estas tr\u00eas ideias uma quarta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste caso, n\u00e3o se trata de uma d\u00edvida, mas de uma feliz coincid\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2006, escrevi sobre uma hip\u00f3tese que me ocorrera, por ocasi\u00e3o da leitura de uma an\u00e1lise do pensamento de Dietrich Bonhoeffer. Este te\u00f3logo alem\u00e3o, pertencente \u00e0 igreja confessante e que morrera \u00e0s m\u00e3os dos nazis, defendera que, nestes tempos, dever\u00edamos viver \u2018etsi Deus non daretur\u2019, \u2018como se Deus n\u00e3o existisse\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pareceu-me ser uma ideia sincera, mas senti que fazia perder a for\u00e7a da f\u00e9, diluindo-a em nome de um respeito que n\u00e3o me parecia fazer justi\u00e7a nem \u00e0 f\u00e9 nem aos descrentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na altura, ocorreu-me que poderia ser interessante inverter a afirma\u00e7\u00e3o e pensar que seria de propor ao mundo que ousasse refletir e agir \u2018etsi Deus daretur\u2019, isto \u00e9, que pensasse e agisse \u2018como se Deus existisse\u2019. Colocar o desafio sob uma condi\u00e7\u00e3o serviria a causa da f\u00e9 e serviria a causa do respeito pelos n\u00e3o crentes. Recolheria o melhor da f\u00e9 sem impor aos n\u00e3o crentes a pr\u00f3pria f\u00e9. Deus seria pensada \u2018como se\u2019 existisse. Para os crentes, o \u2018como se\u2019 seria substitu\u00eddo por \u2018porque\u2019, mas, para os n\u00e3o crentes, permaneceria como possibilidade, \u2018como se existisse\u2019\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entusiasmei-me com a hip\u00f3tese e escrevi sobre ela\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para meu espanto, encontrei, alguns tempos depois, a mesma ideia em Joseph Ratzinger, sem que eu o tivesse lido. Senti um misto de alegria e de desilus\u00e3o para comigo por me ver ultrapassado pelo meu desconhecimento. Mas saber-me acompanhado por t\u00e3o ilustre companhia reconfortou-me\u2026 E, principalmente, d\u00e1-me a certeza de que a verdade pode, de facto, unir quem se deixa mover e atrair por ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao Sapient\u00edssimo Papa em\u00e9rito Bento XVI deixo o pedido de que interceda para que eu seja sempre fiel buscador da verdade, \u00e0 luz da qual sirva o amor, certo de que n\u00e3o h\u00e1 verdadeira caridade sen\u00e3o a que se realiza na verdade.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura e autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado em <a href=\"http:\/\/teologicus.blogspot.com\/search?q=eutan%C3%A1sia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.teologicus.blogspot.com<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Papa Bento XVI na Bas\u00edlica da Sant\u00edssima Trindade, em F\u00e1tima, em 2010.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Manuel Pereira<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15470,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[173,55],"tags":[],"class_list":["post-15469","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-intelligo-quia-credo","category-luis-manuel-pereira-da-silva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15469","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15469"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15469\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16236,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15469\/revisions\/16236"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15470"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15469"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15469"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15469"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}