{"id":15430,"date":"2023-01-01T07:00:09","date_gmt":"2023-01-01T07:00:09","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=15430"},"modified":"2022-12-31T10:17:05","modified_gmt":"2022-12-31T10:17:05","slug":"modos-de-interacao-entre-ciencia-e-religiao-%cf%80-5-polkinghorne-e-o-cha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/modos-de-interacao-entre-ciencia-e-religiao-%cf%80-5-polkinghorne-e-o-cha\/","title":{"rendered":"Modos de intera\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e religi\u00e3o | \u03c0.5 ~ Polkinghorne e o Ch\u00e1"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><strong><em>Modos de intera\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e religi\u00e3o\u00a0<\/em><\/strong><\/h5>\n<h2 style=\"margin: 13pt 0cm 6.5pt; text-align: right;\"><em>\u03c0\u00a0[Pessoas &amp; Ideias]<\/em><\/h2>\n<hr \/>\n<h2 style=\"margin: 13pt 0cm 6.5pt; text-align: center;\">\u03c0.5 ~ Polkinghorne e o Ch\u00e1<\/h2>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Miguel Oliveira Pan\u00e3o<\/h4>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><a href=\"http:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\">Blog<\/a> &amp; <a href=\"https:\/\/www.miguelpanao.com\/livros\/\">Autor<\/a> &amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Newsletter<\/a><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Como pode um corpo que morreu, ressuscitar, se n\u00e3o se manifesta materialmente? A tend\u00eancia \u00e9 a de separarmos as \u00e1guas e darmos explica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas ou teol\u00f3gicas, sem que se cruzem. Um dia, ouvi John Polkinghorne (1930-2021) dar um simples exemplo que mudou a minha percep\u00e7\u00e3o. Polkinghorne foi um f\u00edsico te\u00f3rico, te\u00f3logo e sacerdote anglicano que muito contribuiu para o di\u00e1logo interactivo entre ci\u00eancia e religi\u00e3o, tendo ganho o pr\u00e9mio Templeton em 2002 pelos imensos e profundos contributos que deu ao longo da sua vida para a descoberta da dimens\u00e3o espiritual humana. Por\u00e9m, dos v\u00e1rios contributos, um dos que mais me marcou foi a mensagem que surge a simples pergunta: por que raz\u00e3o ferve a \u00e1gua?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa sala de aula diante de estudantes adolescentes, verto \u00e1gua para dentro de um jarro el\u00e9trico e encarno uma ideia brilhante de Polkinghorne que parte da pergunta \u2014 <em>\u00abpor que raz\u00e3o diriam que ferve a \u00e1gua?\u00bb<\/em> \u2014 De seguida, come\u00e7o a explicar que dentro do jarro existe uma resist\u00eancia el\u00e9ctrica que, ligada \u00e0 corrente, dissipa calor fornecendo-o \u00e0 \u00e1gua por efeito de Joule, at\u00e9 que esta atinge a temperatura de satura\u00e7\u00e3o. Depois de atingida esta temperatura, a \u00e1gua come\u00e7a a mudar da fase l\u00edquida para a gasosa, e forma bolhinhas de vapor de \u00e1gua. Essas bolhinhas crescem e indicam-nos que a \u00e1gua est\u00e1 a ferver. Em s\u00edntese, a \u00e1gua ferve porque forne\u00e7o energia para que mude do estado l\u00edquido ao estado gasoso. Mas a este momento, Polkinghorne acrescenta \u2014 <em>\u00abou a \u00e1gua ferve porque quero fazer ch\u00e1.\u00bb<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para a raz\u00e3o da \u00e1gua ferver e a explica\u00e7\u00e3o sobre a inten\u00e7\u00e3o que tenho para isso \u2014 fazer ch\u00e1 \u2014 ilustra como duas explica\u00e7\u00f5es distintas para a mesma pergunta n\u00e3o precisam de ser competitivas, mas podem ser complementares na descri\u00e7\u00e3o que fazem da realidade. Essa complementaridade prov\u00e9m da exist\u00eancia de v\u00e1rios n\u00edveis de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade. No caso do ch\u00e1 feito de \u00e1gua que fervi, o n\u00edvel f\u00edsico n\u00e3o se sobrep\u00f5e ao n\u00edvel da inten\u00e7\u00e3o humana. O mesmo acontece quando ci\u00eancia e religi\u00e3o procuram responder \u00e0s mesmas quest\u00f5es. N\u00e3o s\u00e3o competitivas, mas as respostas encontram-se a diferentes n\u00edveis de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade. Por exemplo, se Deus criou o universo, por que raz\u00e3o surgem novas esp\u00e9cies e conseguimos encontrar uma explica\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica para isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Polkinghorne diz que \u2014 <em>\u00abum mundo evolucion\u00e1rio deve ser teologicamente compreendido como uma cria\u00e7\u00e3o que o Criador permitiu \u201ccriar-se a si pr\u00f3pria\u201d.\u00bb<\/em> \u2014 abrindo um rasgo intelectivo sobre a potencialidade criativa presente no \u00edntimo da pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o. Quando um fen\u00f3meno na natureza se explica com a inven\u00e7\u00e3o de uma lei f\u00edsica, uma vis\u00e3o antiquada da ac\u00e7\u00e3o de Deus pode sentir-se amea\u00e7ada pelo progresso cient\u00edfico. Por\u00e9m, se acolhermos que Deus criou um mundo que se cria, qualquer fruto da evolu\u00e7\u00e3o enquadra-se na pintura que possui a assinatura criativa do Seu Criador. E mesmo os milagres, que muitos associam a uma ac\u00e7\u00e3o pontual e intervencionista de Deus, exigem uma mudan\u00e7a de perspectiva iluminada pelos diferentes n\u00edveis de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade de uma cria\u00e7\u00e3o que se cria a si mesma. No seu livro <em>\u201cOne World\u201d<\/em>, Polkinghorne ajuda a entender os milagres de um modo aberto e mais profundo, partindo da universalidade question\u00e1vel da Lei de Ohm.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um fio el\u00e9trico conduz electricidade por ter dispon\u00edvel uma diferen\u00e7a de potencial el\u00e9trico ou voltagem. Nas tomadas que temos em nossas casas acedemos a essa voltagem. Depois, como os nossos aparelhos possuem uma certa resist\u00eancia el\u00e9trica, ser\u00e1 preciso uma voltagem m\u00ednima para que a corrente el\u00e9trica possa fluir pelos fios el\u00e9tricos e aceder a l\u00e2mpada para podermos ler um livro de noite. Por\u00e9m, em 1911, Kammerlingh Onnes arrefeceu de tal modo uns metais que, abaixo de uma certa temperatura cr\u00edtica, a resist\u00eancia el\u00e9trica praticamente n\u00e3o existia, e contra a Lei de Ohm, a corrente el\u00e9trica flu\u00eda sem qualquer voltagem. Havia-se descoberto os materiais <em>supercondutores<\/em>. Diz Polkinghorne que \u2014 <em>\u00aba descoberta do estado supercondutor n\u00e3o significou que a f\u00edsica, de repente, tornou-se irracional. Era, simplesmente, o caso da exist\u00eancia de uma racionalidade mais elevada do que a conhecida at\u00e9 ent\u00e3o no mundo quotidiano de Ohm.\u00bb<\/em> E o que tem isto a ver com os milagres?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se, de um momento para o outro, um acto nosso nunca realizado, abre uma nova perspectiva sobre a realidade e sobre o modo como as coisas acontecem, a ci\u00eancia generaliza e verifica a reprodutibilidade. Por\u00e9m, quando os eventos s\u00e3o \u00fanicos como a emerg\u00eancia de um universo, ou o nascimento de uma certa personalidade hist\u00f3rica (e.g. Einstein), n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel reproduzir o Big Bang ou Einstein, por serem eventos \u00fanicos que alteraram, profundamente, a nossa vis\u00e3o do mundo. \u00c9 sobre esta perspectiva que Polkinghorne diz que \u2014 <em>\u00abos milagres s\u00e3o vistos, n\u00e3o como truques celestiais conjurados, mas como sinais, intelec\u00e7\u00f5es para uma racionalidade mais profunda do que a que normalmente nos \u00e9 percept\u00edvel.\u00bb<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os milagres existem quando alteram profundamente a nossa vis\u00e3o do mundo e da realidade. Quando Polkinghorne naquele v\u00eddeo diz, \u2014 <em>\u00aba \u00e1gua ferve porque quero fazer ch\u00e1.\u00bb<\/em> \u2014 dentro da minha mente realizou-se uma sinapse \u00fanica que alterou profundamente o modo como passei a ver o mundo. Sem que se desse conta, Polkinghorne havia ajudado Deus a realizar no meu pensamento, um pequeno e profundo milagre.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/rosy_photo-12828122\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5857839\">Rosalia Ricotta<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5857839\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Modos de intera\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15432,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[57,62,180,174],"tags":[],"class_list":["post-15430","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-miguel-oliveira-panao","category-modos-de-interacao-entre-ciencia-e-religiao","category-pi-pessoas-ideias","category-rubricas-tematicas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15430","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15430"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15430\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15433,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15430\/revisions\/15433"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15432"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15430"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15430"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15430"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}