{"id":15421,"date":"2023-03-12T07:00:32","date_gmt":"2023-03-12T07:00:32","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=15421"},"modified":"2023-04-11T15:18:28","modified_gmt":"2023-04-11T14:18:28","slug":"regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-a-pedra-de-sisifo-ja-repousa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-a-pedra-de-sisifo-ja-repousa\/","title":{"rendered":"\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 | 12 | A pedra de S\u00edsifo j\u00e1 repousa"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019<\/em> | Parceria com a revista <a href=\"http:\/\/www.movimento-acr.pt\/accao-catolica-portuguesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Regresso a \u00cdtaca e o meu pensamento, o meu sonho ilumina-se no \u00c9den.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este tem sido o nosso caminho ao longo deste percurso que atinge, com este texto, a sua d\u00e9cima segunda etapa. Em todas elas, o nosso objetivo foi colocar em di\u00e1logo e, eventualmente, em confronto, duas das principais ra\u00edzes do pensamento ocidental: a influ\u00eancia grega e a marca crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00cdtaca \u00e9 aqui, o sin\u00f3nimo da viagem de Ulisses de regresso a casa, \u00cdtaca, ap\u00f3s a sua participa\u00e7\u00e3o na guerra de Troia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9den \u00e9 a express\u00e3o do sonho com que Deus criou o mundo e \u00e0 luz do qual toda a cria\u00e7\u00e3o, na sua fragilidade hist\u00f3rica, deve ser refletida e iluminada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste passo do nosso caminho, centramos a nossa aten\u00e7\u00e3o na vis\u00e3o tr\u00e1gica da vida que os gregos nos deixaram como heran\u00e7a que continua a \u2018queimar-nos as m\u00e3os\u2019. De facto, a vis\u00e3o tr\u00e1gica continua, m\u00faltiplas vezes, a ganhar terreno em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vis\u00e3o sustentada na esperan\u00e7a, marca indel\u00e9vel do cristianismo no ocidente. Muitos s\u00e3o os que daquela se reivindicam herdeiros, sem dela quererem abdicar, mesmo quando a esperan\u00e7a lhes mostrou fazer sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestes tempos de discuss\u00e3o sobre a eutan\u00e1sia, estas duas vis\u00f5es cruzam-se, de forma radical e quase que inconcili\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evoca essa vis\u00e3o tr\u00e1gica da vida o mito de S\u00edsifo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre S\u00edsifo impende uma maldi\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada por Zeus: a de que arrastar\u00e1, monte acima, uma enorme pedra que, prestes a ser depositada no alto, volta a rolar, uma e outra vez, monte abaixo. Perante esta vis\u00e3o tr\u00e1gica e esta circularidade e repetitividade do tempo, o cristianismo fez rolar a pedra, com efeito, mas para a deixar, definitivamente, onde deveria permanecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o muitas as alus\u00f5es b\u00edblicas \u00e0 pedra. O <em>Vocabul\u00e1rio de teologia b\u00edblica<\/em>, coordenado por Xavier L\u00e9on-Dufour (Editora Vozes) recorda que a pedra simbolizava, nas culturas envolventes ao povo b\u00edblico, o poder m\u00e1gico, proibido em Israel. Esse significado vem, por\u00e9m, a ser superado pela simbologia que \u00e0 perman\u00eancia e durabilidade da pedra se associar\u00e1 como express\u00e3o de fidelidade e perman\u00eancia de Deus fiel \u00e0 Sua Palavra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pedra j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1, ent\u00e3o, um sinal negativo (nem m\u00e1gico, nem tr\u00e1gico), mas o s\u00edmbolo de que \u00e0 Palavra caber\u00e1 a \u00faltima decis\u00e3o sobre o rumo vertiginoso e ef\u00e9mero do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a esse significado que aludir\u00e3o as ideias de \u2018pedra angular\u2019, da escolha de Cefas como \u2018pedra\u2019 da Igreja ou, ainda, a pr\u00f3pria refer\u00eancia a Cristo como \u2018pedra de trope\u00e7o\u2019, numa alus\u00e3o n\u00e3o tr\u00e1gica (como se o que acontece fosse resultado de uma fatalidade), mas sim volunt\u00e1ria e livre: s\u00e3o os homens que, pelas suas decis\u00f5es, veem em Cristo motivo de trope\u00e7o; n\u00e3o \u00e9 o resultado de um qualquer poder fatalista ou determina\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em qualquer destas simbologias, h\u00e1 uma marca de liberdade, por um lado, e de sentido, por outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pedra exprime que o Deus da Hist\u00f3ria \u00e9 vencedor e a Sua Palavra atrai a Si o rumo dessa mesma Hist\u00f3ria. \u00c9 pela Sua a\u00e7\u00e3o que Mois\u00e9s faz jorrar \u00e1gua do rochedo, da pedra que, no deserto, era seca e \u00e1rida. Onde h\u00e1 trag\u00e9dia, onde h\u00e1 circularidade fatal e insuper\u00e1vel, o Deus da Hist\u00f3ria faz emergir o sentido, a Palavra que d\u00e1 rumo e quebra a circularidade eterna de um fastidioso rumor de abismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o sinal definitivo desse sentido encontramo-lo no rolar de uma pedra que n\u00e3o voltar\u00e1 a deslocar-se: a pedra do sepulcro que, rolada uma vez, se depositou como \u2018pedra\u2019 sobre o assunto \u2018morte\u2019; a ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 a Palavra que faz repousar, de uma vez por todas, sobre o monte, a pedra roli\u00e7a de S\u00edsifo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, por isso, se parecia ter raz\u00e3o Albert Camus, autor franc\u00eas de origem argelina que escreveu um livro que se prop\u00f5e enfrentar e sustentar o absurdo da exist\u00eancia humana, a que deu o t\u00edtulo de \u2018o mito de s\u00edsifo\u2019 e que come\u00e7a com a afirma\u00e7\u00e3o de que \u201cs\u00f3 h\u00e1 um problema filos\u00f3fico verdadeiramente s\u00e9rio: \u00e9 o suic\u00eddio\u201d (Albert Camus, O mito de S\u00edsifo, Edi\u00e7\u00e3o \u00ablivros do Brasil\u00bb, p. 13), a nossa constata\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, de que o autor acabou o livro sem levar at\u00e9 ao limite a seriedade filos\u00f3fica permite-nos perceber que a pedra rolou de uma vez por todas e que podemos, por fim, deixar descansar S\u00edsifo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cristianismo n\u00e3o expressa o mero desejo de que assim seja; n\u00e3o \u00e9 uma teoria, uma discuss\u00e3o. Parte de um evento, de um acontecimento que, come\u00e7ando no tempo da Hist\u00f3ria, se prolonga para al\u00e9m da hist\u00f3ria. O monte sobre o qual S\u00edsifo fazia rolar a pedra permanecia totalmente na Hist\u00f3ria. E, na Hist\u00f3ria, n\u00e3o pode encontrar-se o sentido definitivo: s\u00f3 eventuais antecipa\u00e7\u00f5es provis\u00f3rias do Sentido ou, para utilizar terminologia de W. Pannenberg, manifesta\u00e7\u00f5es \u2018prol\u00e9pticas\u2019 (antecipadoras) do \u00daltimo Sentido que nos \u00e9 concedido por Deus, a Realidade que tudo determina, n\u00e3o como destino sem liberdade, mas, antes como atra\u00e7\u00e3o que chama e convida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O verdadeiro e definitivo Sentido est\u00e1 para al\u00e9m da Hist\u00f3ria. E dessa perman\u00eancia \u00faltima s\u00e3o sinais as ef\u00e9meras, mas dur\u00e1veis, rochas que, ainda assim, se desgastam e pulverizam: elas s\u00e3o s\u00edmbolo. O Eterno s\u00f3 transparece na Hist\u00f3ria, mas n\u00e3o \u00e9 a Hist\u00f3ria: \u2018j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 aqui\u2019! O que ficam s\u00e3o os sinais antecipadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta \u00e9 a linha que separa as duas vis\u00f5es: uma busca o sentido definitivo aqui, na Hist\u00f3ria, mas o que encontra \u00e9 um eterno circular do tempo que se desfaz e pulveriza; a outra encaminha-se para o al\u00e9m, do qual volta a olhar o tempo, mas sabendo-o o primeiro momento do rumo \u00faltimo para que o agora se encaminha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00edsifo est\u00e1 s\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 Aquele que d\u00e1 sentido est\u00e1 sempre acompanhado, pois, enquanto Amor, \u00e9, em si mesmo, encontro e rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00edsifo pode, por fim, descansar, se livremente aceitar n\u00e3o se submeter ao poder de um destino tr\u00e1gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aceitar\u00e3o isso os seus herdeiros?<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\"><i>S\u00edsifo | <\/i>Tiziano [1549]<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura e autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado em <a href=\"http:\/\/teologicus.blogspot.com\/search?q=eutan%C3%A1sia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.teologicus.blogspot.com<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15422,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,177],"tags":[],"class_list":["post-15421","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15421","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15421"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15421\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15927,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15421\/revisions\/15927"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15422"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15421"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15421"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15421"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}