{"id":15271,"date":"2022-11-23T13:19:59","date_gmt":"2022-11-23T13:19:59","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=15271"},"modified":"2022-11-23T13:19:59","modified_gmt":"2022-11-23T13:19:59","slug":"tiago-ramalho-xxxiii-ivan-illich-e-a-escolarizacao-i-27","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-xxxiii-ivan-illich-e-a-escolarizacao-i-27\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | XXXIII | Ivan Illich e a Escolariza\u00e7\u00e3o (I-27)"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00ad<strong> &#8211; Um discurso de Ivan Illich &#8211;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<em>Introdu\u00e7\u00e3o geral: <\/em>nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-ivan-illich-uma-apresentacao\/\">1<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-vi-ivan-illich-uma-apresentacao-conclusao\/\">8<\/a>\/ I. <em>Ivan Illich e a Escolariza\u00e7\u00e3o: <\/em>nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-vii-i-ivan-illich-e-a-escolarizacao\/\">9<\/a> e ss.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 35. <em><u>Em busca de alternativas.<\/u> <\/em>\u2013 \u00c9 especialmente vigorosa a cr\u00edtica de Ivan Illich ao sistema de escolariza\u00e7\u00e3o. E \u00e9 tamb\u00e9m radical, porque assenta na identifica\u00e7\u00e3o das ra\u00edzes das pretens\u00f5es que aquele faz suas, e no reconhecimento de que \u00e9 somente a ponta da lan\u00e7a \u2013 de particular relev\u00e2ncia porque inici\u00e1tica \u2013 das institui\u00e7\u00f5es modernas (n.\u00ba 12). No sistema de escolariza\u00e7\u00e3o, segundo Illich, v\u00eaem-se somente reflectidas caracter\u00edsticas que permeiam as mais diferentes institui\u00e7\u00f5es sociais: \u00abUma das maneiras de preencher o tempo \u00e9 estimular a crescente procura do consumo de bens e, simultaneamente, de produ\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os. Aquela implica uma economia que produz uma constantemente crescente variedade de novas coisas que podem ser feitas, consumidas, gastas, e recicladas. A \u00faltima implica a f\u00fatil tentativa de \u201cfazer\u201d de ac\u00e7\u00f5es virtuosas produtos de institui\u00e7\u00f5es que prestam \u201cservi\u00e7os\u201d. Isto conduz \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o entre escolariza\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o, entre servi\u00e7os de sa\u00fade e sa\u00fade, entre ver programas de televis\u00e3o e entretimento, entre velocidade e efectiva locomo\u00e7\u00e3o. A primeira op\u00e7\u00e3o tem agora o nome de desenvolvimento.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 63)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda assim, e por mais que, ao tempo em que formulada, a cr\u00edtica de Illich tivesse obtido alguma resson\u00e2ncia (n.\u00ba 6), deve reconhecer-se o seu reduzido impacto a meio prazo. Olhando o \u00faltimo meio s\u00e9culo, o sistema de escolariza\u00e7\u00e3o apenas se desenvolveu, crescendo em intensidade, dura\u00e7\u00e3o e pretens\u00f5es. O pr\u00f3prio Ivan Illich se ver\u00e1 for\u00e7ado a reconhecer, em vis\u00e3o retrospectiva, que subestimara a profundidade do enraizamento das institui\u00e7\u00f5es de escolariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e9 talvez num outro ponto que se encontra a raz\u00e3o explicativa para os efeitos limitados da cr\u00edtica de Ivan Illich. Ivan Illich conjuga, na sua obra, a radicalidade da den\u00fancia prof\u00e9tica com a radicalidade das propostas que apresenta: uma total reformula\u00e7\u00e3o dos meios educativos (cf. as suas propostas constantes especialmente do cap. 6 de <em>Deschooling, <\/em>pp. 72 e ss.: \u00abLearning webs\u00bb). A primeira ser\u00e1 de aplaudir: s\u00f3 a radicalidade da den\u00fancia cria o efeito de choque que permite a releitura da pr\u00f3pria pr\u00e1tica, a <em>metan\u00f3ia, <\/em>mudan\u00e7a de mentalidade que impulsiona a altera\u00e7\u00e3o do comportamento.\u00a0 J\u00e1 n\u00e3o assim com a segunda: a radicalidade da proposta de reformula\u00e7\u00e3o dos meios educativos pode ter por consequ\u00eancia a r\u00e1pida perda de referentes de ac\u00e7\u00e3o. Aqui n\u00e3o se pediria radicalidade, mas prud\u00eancia. De outro modo, pela impraticabilidade real dos projectos de altera\u00e7\u00e3o propostos, corre-se o risco de se procurar ref\u00fagio seguro naquelas precisas institui\u00e7\u00f5es que, mesmo alvo de leg\u00edtima cr\u00edtica, oferecem conforto e orienta\u00e7\u00e3o \u2013 sobretudo quando se tornaram o meio ambiente normal da sociedade moderna. Em lugar de a cr\u00edtica ter por resultado a revis\u00e3o institucional, pode antes conduzir \u00e0 respectiva cristaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De todo o modo, nalguma medida a pr\u00f3pria vida de Ivan Illich espelha a procura de alternativas a essa proposta de mudan\u00e7a radical que o pr\u00f3prio acaba por reconhecer como fracassada. Tal \u00e9 vis\u00edvel no modo como se relaciona com a universidade. Embora tamb\u00e9m sobre ela invista, \u00e9 em seu redor que passar\u00e1 a \u00faltima fase da sua vida (n.\u00ba 7). Ou\u00e7a-se em primeiro lugar a cr\u00edtica: \u00abO fim estrutural da universidade moderna tem pouco que ver com a investiga\u00e7\u00e3o tradicional. Desde Gutenberg, a troca de investiga\u00e7\u00e3o disciplinada, cr\u00edtica, moveu-se, na sua maioria, da \u201cc\u00e1tedra\u201d para a impress\u00e3o. A universidade moderna perdeu a sua chance de propiciar um esquema simples para encontros, que s\u00e3o simultaneamente aut\u00f3nomos e an\u00e1rquicos, concentrados mas n\u00e3o planeados e em ebuli\u00e7\u00e3o, e optou pelo contr\u00e1rio por gerir o processo pelo qual aquilo a que chamam investiga\u00e7\u00e3o e instru\u00e7\u00e3o se produz.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>pp. 35-36) E observa ainda: \u00abN\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que presentemente a universidade oferece uma combina\u00e7\u00e3o \u00fanica de circunst\u00e2ncias que permite a alguns dos seus membros criticar o conjunto da sociedade. Fornece tempo, mobilidade, acesso a pares e informa\u00e7\u00e3o, e certos privil\u00e9gios de impunidade n\u00e3o igualmente dispon\u00edveis para outros sectores da popula\u00e7\u00e3o. Mas a universidade fornece esta liberdade apenas \u00e0queles que j\u00e1 foram profundamente iniciados na sociedade de consumo e na necessidade de algum tipo de escolaridade p\u00fablica obrigat\u00f3ria.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 37) Mesmo se assim olha a universidade, \u00e9 por\u00e9m nela que se acoberta nos anos finais da sua vida. Mesmo numa institui\u00e7\u00e3o modernizada, portanto, acaba por reconhecer a possibilidade de, nela, se restaurarem formas de rela\u00e7\u00e3o que se suporiam imposs\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, pois, de que a cr\u00edtica de Ivan Illich perde for\u00e7a no que tem de interpela\u00e7\u00e3o \u00abrevolucion\u00e1ria\u00bb, isto \u00e9, enquanto exorta\u00e7\u00e3o a uma substitui\u00e7\u00e3o integral do sistema de escolariza\u00e7\u00e3o por um outro a que se haveria de (rapidamente) dar lugar. Mas j\u00e1 enquanto interpela\u00e7\u00e3o a, desde dentro das institui\u00e7\u00f5es modernas, abrir espa\u00e7o a que, nelas, se criem condi\u00e7\u00f5es \u00abconviviais\u00bb, ou ainda enquanto exorta\u00e7\u00e3o a uma gradual transforma\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es, mant\u00e9m ela todo o seu vigor \u2013 menos como revolu\u00e7\u00e3o, e mais como fermento a levedar a massa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temperada a radicalidade da cr\u00edtica pela prud\u00eancia das propostas de ac\u00e7\u00e3o, a reflex\u00e3o de Ivan Illich n\u00e3o perde nenhuma da sua frescura. Serve antes de est\u00edmulo e alento para, por entre um quadro institucional cinzento, burocr\u00e1tico, instrumental, conseguir obter, enquanto mais n\u00e3o for poss\u00edvel, que aqui e ali se abram espa\u00e7os para viver a <em>Age of Leisure <\/em>(<em>Deschooling, <\/em>p. VIII). Pois \u00e9 nessa propicia\u00e7\u00e3o do prazer, do \u00f3cio, do lazer, vividos na dignidade do estudo pessoalmente comprometido e no conforto confrontativo da interac\u00e7\u00e3o dialogal, que consiste a \u00abschole\u00bb que toda a escola deveria desejar ser.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/alexandra_koch-621802\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=6009150\">Alexandra_Koch<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=6009150\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15272,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-15271","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15271","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15271"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15271\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15273,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15271\/revisions\/15273"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15272"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15271"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15271"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15271"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}