{"id":15212,"date":"2022-11-07T15:56:34","date_gmt":"2022-11-07T15:56:34","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=15212"},"modified":"2022-11-07T15:56:34","modified_gmt":"2022-11-07T15:56:34","slug":"modos-de-interacao-entre-ciencia-e-religiao-%cf%80-3-whitehead-e-o-processo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/modos-de-interacao-entre-ciencia-e-religiao-%cf%80-3-whitehead-e-o-processo\/","title":{"rendered":"Modos de intera\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e religi\u00e3o | \u03c0.3 ~ Whitehead e o Processo"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><strong><em>Modos de intera\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e religi\u00e3o<\/em><\/strong><\/h5>\n<h2 style=\"margin: 13pt 0cm 6.5pt; text-align: right;\"><em>\u03c0\u00a0[Pessoas &amp; Ideias]<\/em><\/h2>\n<hr \/>\n<h2 style=\"margin: 13pt 0cm 6.5pt; text-align: center;\">\u03c0.3 ~ Whitehead e o Processo<\/h2>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Miguel Oliveira Pan\u00e3o<\/h4>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><a href=\"http:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\">Blog<\/a> &amp; <a href=\"https:\/\/www.miguelpanao.com\/livros\/\">Autor<\/a> &amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Newsletter<\/a><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alfred North Whitehead \u00e9 um matem\u00e1tico que escreveu uma das obras mais complexas que li de filosofia sobre o <em>Processo e a Realidade<\/em>, onde afirma que a realidade \u00e9 processo. A primeira luz que a ideia de Whitehead sobre o <em>processo<\/em> acendeu na minha mente foi quando a associou \u00e0 natureza do ser humano, soando como uma ideia fundamental para nos ajudar a desenvolver uma vis\u00e3o de pessoa mais assente sobre a sua transforma\u00e7\u00e3o do que na sua realiza\u00e7\u00e3o. Para Whitehead, o ser constitui-se pelo seu <em>devir<\/em> (<em>becoming<\/em>). E, nesse sentido, o <em>processo<\/em> \u00e9 o devir da experi\u00eancia. Em s\u00edntese, do ponto de vista do <em>processo<\/em>, n\u00e3o \u00e9s enquanto n\u00e3o te tornares permanentemente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 Her\u00e1clito nos seus fragmentos afirmava que todas as coisas mudam (Fragmento 36), mas Whitehead considera existirem dois tipos de mudan\u00e7as associadas ao \u00e0 flu\u00eancia dos processos: a <em>concresc\u00eancia<\/em> e a <em>transi\u00e7\u00e3o<\/em>. Na concresc\u00eancia, <em>crescemos juntos<\/em>, ou seja, os diversos elementos separados juntam-se para constituirem-se num s\u00f3 e transformam-se. Na transi\u00e7\u00e3o, assistimos a uma perp\u00e9tua morte para que algo no presente nas\u00e7a de acordo com o potencial do passado. A criatividade emerge de uma <em>transi\u00e7\u00e3o<\/em> (morte) que impulsiona novas <em>concresc\u00eancias<\/em> (vida). Todo o processo no pensamento de Whitehead parece permear-se deste sentido c\u00edclico de toda a vida que nasce de uma morte. E se o universo \u00e9 assim, quem acreditamos que o criou, Deus, pode mudar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No di\u00e1logo entre a ci\u00eancia e a f\u00e9, esta ideia de processo de Whitehead leva-nos a repensar a ideia que temos de imutabilidade de Deus. Se Deus criou o universo e esse \u00e9 mut\u00e1vel, n\u00e3o ser\u00e1 a mutabilidade um tra\u00e7o \u201conto-sapiencial\u201d da percep\u00e7\u00e3o de que Deus muda ao interagir com o mundo? Talvez o exemplo mais evidente da mutabilidade de Deus seja Jesus. Deus assume uma vida humana sem qualquer hip\u00f3tese de evitar a morte, mas ao morrer, gera nova vida para l\u00e1 da materialidade com a ressurrei\u00e7\u00e3o. Muda para mudar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imutabilidade de Deus presente na ideia de processo est\u00e1 na alian\u00e7a que Ele estabeleceu com a humanidade. E pela imut\u00e1vel ideia de Deus-presente no \u00edntimo de cada elemento criado, todo o processo que dinamiza a vida humana \u00e9 g\u00e9rmen de criatividade cuja fonte de inspira\u00e7\u00e3o encontramos, naturalmente, em Deus. Se Deus n\u00e3o amasse de tal forma o mundo, n\u00e3o teria aceite ser transformado como aconteceu na vida de Jesus, fisicamente, mentalmente e at\u00e9 espiritualmente. Nas palavras do te\u00f3logo John Haught \u2014 <em>\u00abo que acontece no mundo interessa, eternamente, ao amor dom-de-si-mesmo que chamamos de Deus. Neste sentido, Deus pode mudar com aquilo que acontece ao mundo.\u00bb<\/em> Algo que se liga \u00e0 intui\u00e7\u00e3o que temos da <em>k\u00e9nose<\/em> de Deus, isto \u00e9, de Algu\u00e9m que se esvazia de si mesmo (Fil 2, 7), como S. Paulo reconhece em Deus-filho, Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entrar num processo de di\u00e1logo entre ci\u00eancia e teologia implica que tanto o cientista, como o te\u00f3logo, precisam de esvaziar-se de si mesmos (uma <em>k\u00e9nose<\/em>) e das ideias pr\u00e9-concebidas que t\u00eam, para poderem, plenamente, partilhar e acolher a ideia do outro, fazendo-a sua e chegar, talvez, a uma ideia diferente. S\u00f3 se estiverem dispostos a deixarem as suas ideias morrer poder\u00e3o transitar para a ideia que prov\u00e9m do crescimento que fazem juntos. Uma ideia que emerge da concresc\u00eancia dialogal. Por outro lado, a ideia de <em>processo<\/em> \u00e9 profundamente relacional e alinhada com ci\u00eancias como a mec\u00e2nica qu\u00e2ntica, onde \u2014 <em>\u00abo mundo das coisas existentes \u00e9 reduzido ao mundo das interac\u00e7\u00f5es poss\u00edveis. A realidade \u00e9 reduzida a interac\u00e7\u00e3o. A realidade \u00e9 reduzida a rela\u00e7\u00e3o.\u00bb<\/em> \u2014 como afirmou Carlo Rovelli no seu livro \u201cA realidade n\u00e3o \u00e9 o que parece\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando olhas para o Montejunto em Alenquer enquanto viajas na auto-estrada A1, contemplas a hist\u00f3ria do processo. V\u00e1rios eventos energ\u00e9ticos dan\u00e7aram com passos de devir e perecer ao longo do tempo para comp\u00f4r a sinfonia do complexo fen\u00f3meno natural que deslumbra o nosso olhar, ou enche de sentimento o nosso caminhar ao trilhar pela encosta da montanha. Uma montanha cont\u00e9m em si a heran\u00e7a de milh\u00f5es de anos de processos silenciosos que pouco se notam no nosso tempo de vida. Por\u00e9m, todo o processo que tem um fim, finaliza, para dar origem a novos processos e assim permitir ao mundo evoluir. E poder\u00e1 ser essa natureza perec\u00edvel do processo que nos custa a aceitar uma vis\u00e3o de Deus em processo? Mas n\u00e3o era Jesus feito, como n\u00f3s, do p\u00f3 das estrelas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia do processo \u00e9 uma s\u00edntese de experi\u00eancias que nos abre \u00e0 novidade. <em>\u00abA experi\u00eancia<\/em> \u2014 diz o te\u00f3logo australiano Denis Edwards alinhado com Whitehead \u2014 <em>do incomensur\u00e1vel tamanho e abund\u00e2ncia do universo, a experi\u00eancia de unidade e inter-relacionamento de todas as coisas, a experi\u00eancia de amizade, a experi\u00eancia de compaix\u00e3o e da luta partilhada pela justi\u00e7a, a experi\u00eancia de solitude, a experi\u00eancia de perda e morte, a experi\u00eancia dos limites e a experi\u00eancia da transcend\u00eancia do esp\u00edrito humano, estas e muitas outras experi\u00eancias abertas a mulheres e homens ao mist\u00e9rio que est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia humana no universo.\u00bb<\/em> Por isso, se a realidade \u00e9 processo, e o processo \u00e9 na sua ess\u00eancia relacional, ent\u00e3o, a realidade \u00e9 relacional e isso faz toda a diferen\u00e7a para a nossa vis\u00e3o do mundo.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/jameswheeler-5314099\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2297204\">James Wheeler<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2297204\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Modos de intera\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15213,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[57,62,180],"tags":[],"class_list":["post-15212","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-miguel-oliveira-panao","category-modos-de-interacao-entre-ciencia-e-religiao","category-pi-pessoas-ideias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15212","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15212"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15212\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15214,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15212\/revisions\/15214"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15213"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15212"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15212"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15212"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}