{"id":14998,"date":"2022-10-09T13:08:27","date_gmt":"2022-10-09T12:08:27","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14998"},"modified":"2022-10-09T13:08:27","modified_gmt":"2022-10-09T12:08:27","slug":"modos-de-interacao-entre-ciencia-e-religiao-%cf%80-2-teilhard-e-a-noosfera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/modos-de-interacao-entre-ciencia-e-religiao-%cf%80-2-teilhard-e-a-noosfera\/","title":{"rendered":"Modos de intera\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e religi\u00e3o | \u03c0.2 ~ Teilhard e a Noosfera"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><strong><em>Modos de intera\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e religi\u00e3o<\/em><\/strong><\/h5>\n<h2 style=\"margin: 13pt 0cm 6.5pt; text-align: right;\"><em>\u03c0\u00a0[Pessoas &amp; Ideias]<\/em><\/h2>\n<hr \/>\n<h2 style=\"margin: 13pt 0cm 6.5pt; text-align: center;\">\u03c0.2 ~ Teilhard e a Noosfera<\/h2>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Miguel Oliveira Pan\u00e3o<\/h4>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><a href=\"http:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\">Blog<\/a> &amp; <a href=\"https:\/\/www.miguelpanao.com\/livros\/\">Autor<\/a> &amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Newsletter<\/a><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era adolescente e estava num grupo de ora\u00e7\u00e3o quando um di\u00e1cono, homem culto e conhecido por ler centenas de livros, volta-se para mim e diz &#8211; <em>\u00abHaverias de ler Teilhard de Chardin.\u00bb<\/em> Ele sabia que eu gostava de ci\u00eancia e o nome ficou-me na mem\u00f3ria, mas s\u00f3 passados alguns anos \u00e9 que me cruzaria com um edi\u00e7\u00e3o de 1998 do famoso livro daquele padre jesu\u00edta paleont\u00f3logo intitulado <em>\u201dO fen\u00f3meno humano\u201d<\/em>. N\u00e3o conhe\u00e7o qualquer cientista e sacerdote que tenha a capacidade de Teilhard de elaborar um discurso onde a ci\u00eancia se entrela\u00e7a de tal forma com a teologia que se torna imposs\u00edvel ver uma, sem ver nessa a outra. O entrela\u00e7ar ocorre no significado a dar \u00e0s coisas em si mesmas, sem que a teologia viole as leis cient\u00edficas que usamos para descrever e explicar o mundo \u00e0 nossa volta, ou a ci\u00eancia impe\u00e7a o perscrutar teol\u00f3gico do sentido mais elevado das coisas, mantendo qualquer ideia de Deus permanentemente aberta, acolhendo o que Ele quiser revelar de Si mesmo. Por\u00e9m, Teilhard teve uma ideia que me parece de tal modo universal que considero abrir novos horizontes de sentido e significado relativos ao pensamento tanto na ci\u00eancia como na teologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando pensamos na hist\u00f3ria do universo, notamos algo de extraordin\u00e1rio. Nos prim\u00f3rdios do cosmos existiam apenas part\u00edculas. Essas come\u00e7aram a interagir umas com as outras para formarem \u00e1tomos. Depois, os \u00e1tomos come\u00e7aram a interagir uns com os outros para formarem mol\u00e9culas. Da interac\u00e7\u00e3o entre mol\u00e9culas surgem macro-mol\u00e9culas e, eventualmente, os primeiros organismos uni-celulares. Da interac\u00e7\u00e3o entre estas c\u00e9lulas emergem os organismos multi-celulares e, assim, se entrev\u00ea um padr\u00e3o de incremento de complexidade na hist\u00f3ria do universo. Mas a um dado momento, Teilhard diz que \u2014<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00ab&#8230;se o universo nos aparece sideralmente como em vias de expans\u00e3o espacial (do \u00ednfimo ao imenso), do mesmo modo, e ainda mais claramente, ele se nos apresenta, fisico-quimicamente, como em vias de envolvimento org\u00e2nico sobre si pr\u00f3prio (do muito simples ao extremamente complicado) achando-se este envolvimento particular de <em>complexidade<\/em> experimentalmente ligado a um aumento correlativo de interioridade, quer dizer de psique ou <em>consci\u00eancia.<\/em>\u00bb (O Fen\u00f3meno Humano, 1998, Paulus, p. 286)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E assim introduz a Lei da Complexidade-Consci\u00eancia. Ser\u00e1 esta lei que justifica a ideia desconcertante e universal de Teilhard \u2014 a <em>Noosfera<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos reconhecemos a geosfera como o conjunto de tudo o que se refere \u00e0 mat\u00e9ria s\u00f3lida da Terra. Reconhecemos ainda a atmosfera, hidrosfera e, por \u00faltimo, o caso da biosfera como o conjunto de tudo o que se refere \u00e0 vida na Terra. Por\u00e9m, a partir do momento em que o ser humano revela <em>consci\u00eancia<\/em> atrav\u00e9s dos pensamentos que gera na sua mente e exterioriza por palavras, gestos ou desenhos, emerge tudo o que se refere ao pensamento que manifesta, na Terra, atrav\u00e9s da nossa esp\u00e9cie, a <em>noosfera<\/em> com ra\u00edz na palavra grega <em>\u00a0\u03bd\u03cc\u03bf\u03c2<\/em> (nous, \u201cmente\u201d). Assim introduz Teilhard esta ideia de amplitude planet\u00e1ria:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abA mudan\u00e7a de estado biol\u00f3gico que leva ao despertar do pensamento n\u00e3o corresponde simplesmente a um ponto cr\u00edtico atravessado pelo indiv\u00edduo, ou mesmo pela esp\u00e9cie. Mais vasta do que isso, ela afecta a pr\u00f3pria vida na sua totalidade org\u00e2nica, e, por conseguinte, assinala uma transforma\u00e7\u00e3o que afecta o estado do planeta inteiro. (&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A psicog\u00e9nese levara-nos at\u00e9 ao homem. Apaga-se agora, revelada ou absorvida por uma fun\u00e7\u00e3o mais elevada: o parto, primeiro, e depois, todos os desenvolvimentos do esp\u00edrito, a noog\u00e9nese. Quando, pela primeira vez, num ser vivo, o instinto se avistou no espelho de si pr\u00f3prio, o mundo inteiro deu um passo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por termos reconhecido e isolado na hist\u00f3ria da evolu\u00e7\u00e3o a nova era de uma noog\u00e9nese, eis-nos for\u00e7ados, correlativamente, a distinguir, na majestosa ordena\u00e7\u00e3o das folhas tel\u00faricas, um suporte proporcionado \u00e0 opera\u00e7\u00e3o, quer dizer, uma membrana mais. Em volta da centelha das primeiras consci\u00eancias reflexivas, os progressos de um c\u00edrculo de fogo. O ponto de igni\u00e7\u00e3o alastrou-se. O fogo ganha terreno. Finalmente, a incandesc\u00eancia envolve todo o planeta. Uma \u00fanica interpreta\u00e7\u00e3o, um \u00fanico nome se encontram \u00e0 medida deste grande fen\u00f3meno. <em>\u00c9 verdadeiramente uma camada nova, a camada pensante<\/em>, exactamente t\u00e3o extensiva, mas muito mais coerente ainda, como veremos, do que todas as camadas precedentes, que, ap\u00f3s ter germinado no terci\u00e1rio declinante, se expande desde ent\u00e3o por cima do mundo das plantas e dos animais: fora e acima da biosfera, uma <em>noosfera<\/em>.\u00bb (Fen\u00f3meno Humano, pp. 165-166)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que raz\u00e3o haver\u00edamos de considerar esta ideia de Teilhard, e desenvolvida contemporaneamente pelo bio-geo-qu\u00edmico russo Vladimir Vernadsky, como uma ideia universal?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O reconhecimento da noosfera encontra a sua demonstra\u00e7\u00e3o no antropoceno. Isto \u00e9, na observa\u00e7\u00e3o de que o nosso pensamento come\u00e7ou a mudar, literalmente, a face do planeta. Por\u00e9m, esse pensamento abriu as portas de uma dimens\u00e3o da realidade mensur\u00e1vel somente pela relacionalidade entre os seres pensantes \u2014 a dimens\u00e3o espiritual. A percep\u00e7\u00e3o da realidade que est\u00e1 para al\u00e9m da materialidade \u00e9 um fruto exclusivo da consci\u00eancia humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pensamento \u00e9 subjectivo porque emerge a partir do sujeito. Da\u00ed que n\u00e3o exista instrumento que me\u00e7a a veracidade do pensamento porque todo o pensamento \u00e9, materialmente, real a partir do momento que \u00e9 exteriorizado. Mas do mesmo modo que a ac\u00e7\u00e3o humana tem afectado a biosfera com a amea\u00e7a da extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies, ser\u00e1 que come\u00e7a, tamb\u00e9m, a afectar a noosfera com a amea\u00e7a da extin\u00e7\u00e3o dos pensamentos? \u00c9 poss\u00edvel extinguir pensamentos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivemos na Era da Informa\u00e7\u00e3o e o ser humano orgulha-se da liberdade de express\u00e3o, mas a onda cultural que assisto \u00e9 a da uniformiza\u00e7\u00e3o e esquecimento do pensamento. Parece haver cada vez menos espa\u00e7o para a diversidade de pensamento e cada vez menos interesse em aprofundar pensamentos. Um pensamento \u00fanico \u00e9 diferente de termos o mesmo pensamento. Por exemplo, \u201ctoda a vida tem valor\u201d \u00e9 um pensamento \u00fanico que encontra muitas e diferentes express\u00f5es mediante as culturas. Nesse sentido, redescobrir Teilhard de Chardin e a sua ideia da <em>noosfera<\/em> poder\u00e1 dar ao di\u00e1logo entre o conhecimento cient\u00edfico e o saber teol\u00f3gico o vislumbre de um caminho ainda por explorar. J\u00e1 agora, uma nota. Repararam que s\u00e3o parcas as tradu\u00e7\u00f5es para portugu\u00eas das obras intemporais deste pensador?<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Foto: Pe. Pierre Teilhard de Chardin &#8211; 1955 [Archives des j\u00e9suites de France]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Modos de intera\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14999,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[57,62,180],"tags":[],"class_list":["post-14998","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-miguel-oliveira-panao","category-modos-de-interacao-entre-ciencia-e-religiao","category-pi-pessoas-ideias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14998","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14998"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14998\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15000,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14998\/revisions\/15000"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14999"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14998"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14998"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14998"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}