{"id":14975,"date":"2022-09-29T07:00:05","date_gmt":"2022-09-29T06:00:05","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14975"},"modified":"2022-09-26T16:01:23","modified_gmt":"2022-09-26T15:01:23","slug":"tiago-ramalho-xxv-ivan-illich-e-a-escolarizacao-i-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-xxv-ivan-illich-e-a-escolarizacao-i-19\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | XXV | Ivan Illich e a Escolariza\u00e7\u00e3o (I-19)"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00ad<strong> &#8211; \u00abNulla salus extra scholam\u00bb (cont.) &#8211;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<em>Introdu\u00e7\u00e3o geral: <\/em>nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-ivan-illich-uma-apresentacao\/\">1<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-vi-ivan-illich-uma-apresentacao-conclusao\/\">8<\/a>\/ I. <em>Ivan Illich e a Escolariza\u00e7\u00e3o: <\/em>nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-vii-i-ivan-illich-e-a-escolarizacao\/\">9<\/a> e ss.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 32. <em><u>Educa\u00e7\u00e3o e aliena\u00e7\u00e3o<\/u><\/em><em>. \u2013 <\/em>Um segundo \u00e2mbito em que se sentem os efeitos do sistema educativo respeita \u00e0 autocompreens\u00e3o da pessoa. Servindo-se de um termo muito caro a uma corrente de pensamento que, ao tempo desta reflex\u00e3o de Ivan Illich, gozava de grande capacidade de atrac\u00e7\u00e3o, o sistema de educa\u00e7\u00e3o \u00e9 visto como <em>alienat\u00f3rio. <\/em>Neste mesmo ponto, o sistema escolar \u00e9 t\u00e3o s\u00f3, como j\u00e1 se referiu (n.\u00ba 12), uma manifesta\u00e7\u00e3o mais patente de uma caracter\u00edstica gen\u00e9rica das institui\u00e7\u00f5es modernas: \u00abRicos e pobres dependem igualmente de escolas e de hospitais que guiem as suas vidas, formem a sua perspectiva do mundo, e lhes definam o que \u00e9 leg\u00edtimo e o que n\u00e3o \u00e9.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 2)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Correlato dessa depend\u00eancia pessoal est\u00e1 o crescimento burocr\u00e1tico institucional. \u00abAlienar\u00bb significa tornar alheio o que \u00e9 pr\u00f3prio. Neste caso, o novo titular passa a ser o aparato burocr\u00e1tico que se serve do sistema escolar para realizar o respectivo projecto de sociedade. Desde esta perspectiva, o sistema escolar \u00e9 interpretado como um meio de legitima\u00e7\u00e3o desse mesmo aparato institucional: \u00abPor toda a parte, o curr\u00edculo oculto da escolariza\u00e7\u00e3o inicia o cidad\u00e3o no mito de que as burocracias guiadas pelo conhecimento cient\u00edfico s\u00e3o eficientes benevolentes. Por todo o lado este mesmo curr\u00edculo instila no pupilo o mito de que o aumento de produ\u00e7\u00e3o vai permitir uma melhor vida. E por todo o lado desenvolve o h\u00e1bito de um consumo autodestrutivo de servi\u00e7os e de produ\u00e7\u00e3o alienante, de toler\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 depend\u00eancia institucional, e reconhecimento de rankings institucionais. O curr\u00edculo oculto da escola faz tudo isto apesar dos esfor\u00e7os em sentido contr\u00e1rio levados a cabo por professores, n\u00e3o interessa que ideologia prevale\u00e7a.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 74)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vejamos como reconstr\u00f3i a cr\u00edtica marxista \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o pela explora\u00e7\u00e3o do trabalho: \u00abAliena\u00e7\u00e3o, no quadro tradicional, era uma consequ\u00eancia directa da rela\u00e7\u00e3o entre trabalho e remunera\u00e7\u00e3o que privava a pessoa da oportunidade de criar e de ser recriada. Mas agora os jovens s\u00e3o pr\u00e9-alienados por escolas que os isolam enquanto pretendem ser, quer produtores, quer consumidores do seu pr\u00f3prio conhecimento, que \u00e9 concebido como um produto colocado no mercado pela escola. A escola torna a aliena\u00e7\u00e3o preparat\u00f3ria para a vida, assim privando a educa\u00e7\u00e3o de realidade e o trabalho de criatividade. A escola prepara para a institucionaliza\u00e7\u00e3o alienadora da vida ao ensinar a necessidade de ser ensinado. Assim que esta li\u00e7\u00e3o \u00e9 aprendida, as pessoas pedem o seu incentivo para crescer em independ\u00eancia; j\u00e1 n\u00e3o acham os mais pr\u00f3ximos interessantes, e fecham-se elas pr\u00f3prias \u00e0s surpresas que a vida oferece quando n\u00e3o s\u00e3o predeterminadas por defini\u00e7\u00e3o institucional.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>pp. 46-47) O \u00f3pio do povo, de efeito alienat\u00f3rio, tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a religi\u00e3o, mas a ind\u00fastria do conhecimento (<em>Deschooling, <\/em>p. 47).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Onde uma colectividade pol\u00edtica adquira tais fei\u00e7\u00f5es, dificilmente se pode continuar a considerar-se <em>liberal, <\/em>isto \u00e9, estruturada desde e para a garantia e promo\u00e7\u00e3o da liberdade dos seus cidad\u00e3os. A autonomia c\u00edvica \u00e9 totalmente subordinada \u00e0 pron\u00fancia de col\u00e9gios de especialistas, que, em nome de uma nebulosa \u00abci\u00eancia\u00bb ou daquilo a que chamam \u00abevid\u00eancias\u00bb, revelam sob uma m\u00edtica forma oracular qual o rumo que se deve imprimir \u00e0 sociedade:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abA certa altura durante as \u00faltimas duas gera\u00e7\u00f5es, triunfou na cultura americana um compromisso com a terapia, e os professores passaram a ser vistos como terapeutas de cujos aux\u00edlios todas as pessoas precisam se querem gozar da igualdade e da liberdade com as quais, de acordo com a Constitui\u00e7\u00e3o, nasceram.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 70)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E ainda:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abSe n\u00e3o desafiamos o pressuposto de que o conhecimento que tem valor \u00e9 um produto que sob certas circunst\u00e2ncias pode ser imposto ao consumidor, a sociedade ser\u00e1 crescentemente dominada por pseudo-escolas sinistras e por <em>managers <\/em>de informa\u00e7\u00e3o totalit\u00e1rios. Terapeutas pedag\u00f3gicos v\u00e3o drogar cada vez mais os seus pupilos em ordem a ensin\u00e1-los melhor, e os estudantes v\u00e3o drogar-se eles pr\u00f3prios para se aliviarem das press\u00f5es dos professores e da corrida aos certificados.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 49)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas talvez o efeito mais alienante esteja num diferente plano. Onde o sistema escolar adquira inten\u00e7\u00f5es praticamente salv\u00edficas, a exclus\u00e3o desse mesmo sistema \u00e9 experimentada como uma verdadeira condena\u00e7\u00e3o existencial. \u00c9 nesse sentido que Ivan Illich afirma: \u00abEnt\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as mais pobres \u00e9 roubado o seu auto respeito ao subscreverem um credo que garante a salva\u00e7\u00e3o apenas atrav\u00e9s da escola.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 29)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fruto deste processo de aliena\u00e7\u00e3o <em>pessoal <\/em>est\u00e1 a impossibilita\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es <em>interpessoais<\/em>. Toda a interac\u00e7\u00e3o ter\u00e1 agora de ser mediatizada por estruturas institucionais, que a programam nos termos que entendam mais conveniente: \u00abO ideal contempor\u00e2neo \u00e9 um mundo pan-higi\u00e9nico: um mundo no qual todos os contactos entre as pessoas, e as pessoas e o seu mundo, s\u00e3o resultado de previs\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o. A escola tornou-se um processo planeado que torna a pessoa um instrumento para um mundo planeado, o principal instrumento para apanhar o homem numa armadilha humana. \u00c9 suposto moldar cada ser humano num n\u00edvel adequado para tomar parte neste jogo.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 110) Uma vez introduzida uma tal din\u00e2mica, a tend\u00eancia ser\u00e1 para o seu constante crescimento. Com efeito, \u00abpara o tecnocrata, o valor de um determinado ambiente aumenta qu\u00e3o mais contactos entre cada pessoa e o seu meio envolvente podem ser programados.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 70) De facto, qu\u00e3o maior a frequ\u00eancia de contacto maior o n\u00famero de interac\u00e7\u00f5es em que se pode interferir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No plano antropol\u00f3gico, \u00e9 agora outra a l\u00f3gica da confian\u00e7a humana:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abSubrepticiamente, a confian\u00e7a em processos institucionais substitui a pend\u00eancia na boa-vontade pessoal. O mundo perdeu a sua dimens\u00e3o humana e readquiriu a l\u00f3gica da necessidade dos factos e a fatalidade que eram caracter\u00edsticas de tempos primitivos. (\u2026) O ser humano tornou-se o brinquedo de cientistas, engenheiros e planeadores.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 111)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se n\u00e3o mais do que a aplica\u00e7\u00e3o, \u00e0s diferentes esferas da sociedade, do princ\u00edpio de que \u00aba educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo educacional gerido pelo educador\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 70), isto \u00e9, de que h\u00e1-de haver um intermedi\u00e1rio institucional que modela e orienta as diferentes rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Interessante apontamento, por fim, \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre esta antropologia e o drama contempor\u00e2neo do desemprego. \u00abO desemprego \u00e9 o resultado desta moderniza\u00e7\u00e3o: \u00e9 a ociosidade de uma pessoa para quem n\u00e3o h\u00e1 nada mais a \u201cproduzir\u201d e que n\u00e3o sabe mais que \u201cfazer\u201d \u2013 ou seja, como \u201cagir\u201d. O desemprego \u00e9 o triste \u00f3cio de algu\u00e9m que, ao contr\u00e1rio de Arist\u00f3teles, acredita que fazer coisas ou trabalhar \u00e9 virtuoso, e que a ociosidade \u00e9 m\u00e1.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p.63)<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/momentmal-5324081\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2455578\">Bernd<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2455578\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14976,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-14975","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14975","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14975"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14975\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14977,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14975\/revisions\/14977"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14976"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14975"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14975"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14975"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}