{"id":14839,"date":"2023-01-12T07:00:06","date_gmt":"2023-01-12T07:00:06","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14839"},"modified":"2023-04-11T15:17:13","modified_gmt":"2023-04-11T14:17:13","slug":"regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-do-embotamento-grego-a-luminosidade-crista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-do-embotamento-grego-a-luminosidade-crista\/","title":{"rendered":"\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 | 10 | Do embotamento grego \u00e0 \u2018luminosidade\u2019 crist\u00e3\u2026"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019<\/em> | Parceria com a revista <a href=\"http:\/\/www.movimento-acr.pt\/accao-catolica-portuguesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prossigamos o nosso \u2018regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019. Mas um leitor rec\u00e9m-chegado poder\u00e1 n\u00e3o conseguir acompanhar-nos, considerando nem sequer partir connosco. Precisamos, por isso, de recordar que esta rubrica se prop\u00f5e refletir sobre a especificidade da vis\u00e3o crist\u00e3, colocando-a em contraponto com a vis\u00e3o cl\u00e1ssica grega. N\u00e3o se escolheu essa compara\u00e7\u00e3o por motivo f\u00fatil ou, at\u00e9, aleat\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se recordarmos, com o grande pensador e erudito judeu, George Steiner<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, que, para se definir a Europa \u00e9 preciso considerar \u2018a nossa descend\u00eancia dupla de Atenas e Jerusal\u00e9m\u2019 (George Steiner, <em>A ideia de Europa<\/em>, p. 44), e n\u00e3o esquecermos que, na linha do que referia o fil\u00f3sofo e matem\u00e1tico, Alfred Whitehead, \u2018a filosofia ocidental \u00e9 uma nota de rodap\u00e9 a Plat\u00e3o e, poder-se-ia acrescentar, a Arist\u00f3teles e Plotino, a Parm\u00e9nides e Heraclito\u2019 (segundo G. Steiner, op. Cit, p. 39), ent\u00e3o, compreenderemos que Atenas simbolizar\u00e1 a influ\u00eancia grega e Jerusal\u00e9m a judaico-crist\u00e3, sendo, por isso, leg\u00edtimo evidenciar, em contraste, as especificidades de uma e outra \u2018ascend\u00eancia\u2019. \u00c9 isso que nos temos proposto, neste \u2018regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta etapa da nossa \u2018viagem\u2019, somos convidados a \u2018ver\u2019, a dar \u2018ouvidos\u2019 aos sentidos para nos apercebermos de como a leitura destes \u00e9 diversa, numa e noutra ascend\u00eancia. Digamo-lo de outro modo: que reconhecimento da corporeidade se constata numa e outra influ\u00eancia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os gregos parecem temer o que lhes trazem os sentidos\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem certo que uma an\u00e1lise fina n\u00e3o poder\u00e1 descurar o papel de reabilita\u00e7\u00e3o que se operou atrav\u00e9s de Arist\u00f3teles, mas n\u00e3o \u00e9 ileg\u00edtimo considerar que a influ\u00eancia do platonismo \u00e9 mais profunda, repercutindo, ali\u00e1s, o sentir genu\u00edno dos gregos, mesmo antes do pr\u00f3prio Plat\u00e3o. A Gr\u00e9cia \u00e9 plat\u00f3nica antes do pr\u00f3prio platonismo. Plat\u00e3o d\u00e1 voz \u00e0 ess\u00eancia grega\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0N\u00e3o \u00e9, por isso, de estranhar que os grandes her\u00f3is gregos sejam retratados como cegando-se (\u00c9dipo), tapando os ouvidos (os companheiros de Ulisses, ao passarem pelo mar das sereias, as mulheres-p\u00e1ssaros), sendo castrados (como no mito do nascimento do mundo, contado na Teogonia de Hes\u00edodo) ou, no limite, matando o corpo que \u00e9 v\u00edtima da maldi\u00e7\u00e3o de uns deuses que aparecem sempre em oposi\u00e7\u00e3o aos homens (como recorda o coro, na trag\u00e9dia \u2018Ant\u00edgona\u2019, de S\u00f3focles: \u201cFeliz quem passa a vida sempre provar a desgra\u00e7a. Aqueles a quem os deuses as casas abalaram, n\u00e3o h\u00e1 mal que lhes falte;\u201d \u2013 S\u00f3focles, <em>Ant\u00edgona<\/em>, n. 585<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os fil\u00f3sofos modernos t\u00eam-se proposto combater esta vis\u00e3o, pensando ter como alvo o cristianismo. Ouso pensar \u2013 e partilho essa reflex\u00e3o aqui \u2013 que o seu alvo tem sido o pensamento teol\u00f3gico grego e n\u00e3o o crist\u00e3o, erradamente considerado. Talvez ao cristianismo tenha faltado a mestria \u2018medi\u00e1tica\u2019 para evidenciar que a vis\u00e3o denunciada pelos que olham para o divino como opondo-se ao humano n\u00e3o \u00e9 a crist\u00e3, mas, sim, a grega que o cristianismo transcendeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sen\u00e3o, vejamos\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consideremos, antes de mais, que a vis\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 devedora de uma antropologia (modo de entender e pensar o ser humano) de matriz judaica, que sublinha o profundo enraizamento terreno do Homem. Muitos s\u00e3o, ali\u00e1s, os defensores de uma etimologia que faz derivar \u2018Humano\u2019 de \u2018H\u00famus\u2019, aludindo a esta radicalidade \u2018terrena\u2019 do ser humano. \u00c9, ainda mais, esse o significado da palavra \u2018Ad\u00e3o\u2019 \u2013 \u2018aquele que \u00e9 feito de terra fecunda, f\u00e9rtil, vermelha\u2019 -.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9, por isso, pens\u00e1vel o Homem sem ser como realidade corp\u00f3rea. O \u2018corpo\u2019 n\u00e3o \u00e9 um ap\u00eandice do Homem (que, \u00e0 maneira plat\u00f3nica, seria apenas a \u2018alma\u2019), \u00e9 uma das duas condi\u00e7\u00f5es de possibilidade do humano que \u00e9 espiritual e corporal\u2026 \u00c9, no dizer de Gevaert<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, \u2018esp\u00edrito encarnado\u2019. \u00c9 a esta luz que se deve entender a f\u00e9 crist\u00e3 quando afirma a ressurrei\u00e7\u00e3o <em>da<\/em> carne. O homem todo, o homem enquanto \u2018esp\u00edrito encarnado\u2019, ressuscitar\u00e1, n\u00e3o a sua alma, apenas, que ainda n\u00e3o \u00e9 o homem todo. N\u00e3o \u00e9, sequer, na vis\u00e3o integral crist\u00e3, o homem. A alma, pensada em si mesma, uma abstra\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9, ainda, o homem concreto, o homem todo. O homem todo \u00e9-o alma-corpo|corpo-alma, de forma indissoci\u00e1vel. Na vis\u00e3o crist\u00e3, o homem n\u00e3o se fundir\u00e1 num abstrato; antes, ressuscitar\u00e1 como identidade relacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a esta luz que dever\u00e1 ler-se a insist\u00eancia evang\u00e9lica, evocando, mesmo, a leitura veterotestament\u00e1ria, de que \u201c\u00abO Esp\u00edrito do Senhor est\u00e1 sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a liberta\u00e7\u00e3o aos cativos e, aos cegos, a recupera\u00e7\u00e3o da vista [\u2026]\u00bb\u201d (Lc 4,18) ou de que \u201cNessa altura, Jesus curava a muitos das suas doen\u00e7as, padecimentos e esp\u00edritos malignos e concedia vista a muitos cegos.\u201d (Lc7,21), ou, ainda, \u201cTomando a palavra, disse aos enviados: \u00abIde contar a Jo\u00e3o o que vistes e ouvistes: Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, a Boa-Nova \u00e9 anunciada aos pobres;\u201d (Lc 7,22), entre tantas outras refer\u00eancias que qualquer crist\u00e3o (ou mesmo n\u00e3o crist\u00e3o) facilmente recordar\u00e1. A omnipresen\u00e7a do reconhecimento e valoriza\u00e7\u00e3o dos sentidos evidencia este radical enraizamento na dimens\u00e3o corp\u00f3rea. Bem certo que uma certa hist\u00f3ria da catequese e da pastoral pareceu esquecer este reconhecimento bondoso da condi\u00e7\u00e3o corp\u00f3rea, mas \u00e9 justo que se reconhe\u00e7a que sempre houve diversos fil\u00f5es que se foram revezando. Mas o mais genu\u00edno \u00e9 o que sempre se op\u00f4s a uma ideia de que o cristianismo era para puros (Santo Ant\u00f3nio lutou, no s\u00e9culo XIII contra os c\u00e1taros, que afirmavam a fuga do mundo como condi\u00e7\u00e3o para se ser crist\u00e3o. Essa vis\u00e3o n\u00e3o venceu; venceu a de Santo Ant\u00f3nio\u2026). Mesmo a vis\u00e3o contemplativa crist\u00e3, que encontra em S. Bento um dos seus grandes promotores, estava consciente de que a f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o se fecha numa ora\u00e7\u00e3o que foge do mundo. O lema \u2018ora et labora\u2019 entronca a a\u00e7\u00e3o humana laboriosa na a\u00e7\u00e3o criadora de Deus, porque o mundo, o corpo, n\u00e3o s\u00e3o maus\u2026 N\u00e3o afirma o livro de G\u00e9nesis que, ao ver a Sua obra, Deus viu que era \u2018boa\u2019 e, ap\u00f3s encontrar na humanidade o seu interlocutor, a reconheceu como \u2018muito boa\u2019?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vis\u00e3o crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9, por isso, tr\u00e1gica, como a grega. A esperan\u00e7a crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9, apenas, o que ficar\u00e1, como no mito de Pandora, no fim de tudo. Ela est\u00e1, antes, no princ\u00edpio de tudo e s\u00f3 terminar\u00e1 quando tudo estiver consumado\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9, preciso, por isso, cegarmo-nos, embotarmos os ouvidos ou renegarmos a condi\u00e7\u00e3o corp\u00f3rea. Antes, devemos apreciar nesta a a\u00e7\u00e3o bondosa de Deus e ver nos limites um caminho de supera\u00e7\u00e3o. O destino, a fatalidade, constantes na vis\u00e3o grega, j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam a \u00faltima palavra. E Deus n\u00e3o \u00e9 um opositor ao Homem: \u00e9 a sua condi\u00e7\u00e3o de possibilidade de realiza\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio\u2026 O Homem negar-se-\u00e1 se recusar o verdadeiro Humano que em Deus encontra sentido!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando os gregos se cegam, o cristianismo aponta a luz, diante da qual todos os cegos veem abrirem-se-lhes os olhos, pois \u201cO Verbo era a Luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina.\u201d (Jo 1,9)<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Steiner, George, <em>A Ideia de Europa<\/em>, Lisboa, Gradiva, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Aqui, seguimos a seguinte edi\u00e7\u00e3o: S\u00f3focles, <em>Ant\u00edgona<\/em>, Lisboa, Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, 2008<sup>8<\/sup>,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Gevaert, Joseph, <em>El problema del hombre: introducci\u00f3n a la antropolog\u00eda filos\u00f3fica<\/em>, Salamanca, Ediciones S\u00edgueme, 1991<sup>8<\/sup>.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/falco-81448\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=722386\">falco<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=722386\">Pixabay<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura e autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado em <a href=\"http:\/\/teologicus.blogspot.com\/search?q=eutan%C3%A1sia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.teologicus.blogspot.com<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14840,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,177],"tags":[],"class_list":["post-14839","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14839","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14839"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14839\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15925,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14839\/revisions\/15925"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14840"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14839"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14839"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14839"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}