{"id":14760,"date":"2022-07-21T07:00:47","date_gmt":"2022-07-21T06:00:47","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14760"},"modified":"2022-07-19T10:46:04","modified_gmt":"2022-07-19T09:46:04","slug":"tiago-ramalho-xv-ivan-illich-e-a-escolarizacao-i-9","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-xv-ivan-illich-e-a-escolarizacao-i-9\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | XV | Ivan Illich e a Escolariza\u00e7\u00e3o (I-9)"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u2013<\/strong> <strong>Eixos fundamentais de cr\u00edtica (cont.) \u2013<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">[<em>Introdu\u00e7\u00e3o geral: <\/em>nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-ivan-illich-uma-apresentacao\/\">1<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-vi-ivan-illich-uma-apresentacao-conclusao\/\">8<\/a>\/ I. <em>Ivan Illich e a Escolariza\u00e7\u00e3o: <\/em>nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-vii-i-ivan-illich-e-a-escolarizacao\/\">9<\/a> e ss.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 20. <em><u>Um texto contempor\u00e2neo \u00e0 reflex\u00e3o de Ivan Illich<\/u>. \u2013 <\/em>Por coincid\u00eancia, enquanto j\u00e1 trabalhava nestas reflex\u00f5es sobre Ivan Illich, li a obra <em>Mataram a Cotovia <\/em>de Harper Lee, obra cl\u00e1ssica da literatura norte-americana do s\u00e9c. XX. Consistindo num relato de mem\u00f3rias da inf\u00e2ncia, cont\u00e9m certas passagens sobre o ritual de introdu\u00e7\u00e3o ao sistema educativo, num tempo \u2013 meados do s\u00e9c. XX \u2013 em que a escolariza\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria se estava a consolidar. Apesar do registo menos polem\u00edstico (no confronto com o de Ivan Illich), a cr\u00edtica que se depreende das linhas que se seguem nada perde em acerto ou acuidade \u2013 ganhando, ali\u00e1s, em fina ironia. Transcrevo um epis\u00f3dio sobre o primeiro dia da escola, passado numa cidade como qualquer outra de um Alabama rural (pp. 28 a 30 da trad. portuguesa de Fernando Ferreira-Alves, Cotovia, Lisboa, 2012, Reimp. 2021):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abMiss Caroline come\u00e7ou o dia lendo-nos uma hist\u00f3ria sobre gatos. Os gatos tinham longas conversas uns com os outros, usavam roupas pequenas e engra\u00e7adas e viviam numa casa quentinha por baixo de um fog\u00e3o de cozinha. Na altura em que a D. Gata telefonou para a mercearia para encomendar um rato coberto de chocolate, a turma escangalhou-se de riso. Miss Caroline parecia desconhecer por completo que aquele grupo de alunos maltrapilhos do primeiro ano, de camisas de ganga e saias feitas de sacos de farinha, muitos dos quais j\u00e1 ceifavam algod\u00e3o e alimentavam os porcos desde que aprenderam a andar, era imune \u00e0 leitura imaginativa. Ent\u00e3o ela chegou ao fim da hist\u00f3ria e disse: &#8211; <em>Minha nossa, <\/em>n\u00e3o foi bonito?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois foi ao quadro, escreveu o alfabeto em enormes letras mai\u00fasculas quadradas, virou-se para a turma e perguntou: &#8211; Algu\u00e9m sabe o que \u00e9 isto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 claro que toda a gente sabia; a maior parte dos alunos do primeiro ano era repetente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Suponho que ela me escolheu a mim porque sabia o meu nome; \u00e0 medida que eu lia o alfabeto ia-lhe aparecendo uma t\u00e9nue ruga entre as sobrancelhas e, depois de me obrigar a ler grande parte d\u2019<em>O Meu Primeiro Livro de Leitura <\/em>e as cota\u00e7\u00f5es da bolsa no <em>The Mobile Register <\/em>em voz alta, descobriu que eu sabia ler e olhou para mim com enorme desgosto. Miss Caroline disse-me para eu pedir ao meu pai para ele parar de me ensinar, porque isso interferia com a minha leitura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ensinar-me? \u2013 respondi eu, surpreendida. \u2013 Ele n\u00e3o me ensinou nada, Miss Caroline. O Atticus n\u00e3o tem tempo p\u2019a me ensinar nada. \u2013 Acrescentei, enquanto Miss Caroline sorria e abanava a cabe\u00e7a. \u2013 Porque ele \u00e0 noite \u2018t\u00e1 t\u00e3o cansado que s\u00f3 se senta a ler na sala de estar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Se ele n\u00e3o te ensinou ent\u00e3o quem foi? \u2013 perguntou afavelmente Miss Caroline. \u2013 Algu\u00e9m deve ter sido. Tu n\u00e3o nasceste a ler o <em>The Mobile Register.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O Jem diz que sim. Ele leu num livro qu\u2019eu era uma Bullfinch em vez duma Finch. E ele diz que o meu nome verdadeiro \u00e9 Jean Louise Bullfinch, que fui trocada \u00e0 nascen\u00e7a e que sou mesmo uma\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aparentemente Miss Caroline pensou que eu estava a mentir. \u2013 Ent\u00e3o, v\u00e1 l\u00e1, n\u00e3o nos vamos deixar levar pela nossa imagina\u00e7\u00e3o, querida \u2013 disse ela. \u2013 Agora vai dizer ao teu pai para ele n\u00e3o te ensinar mais. O melhor \u00e9 come\u00e7ar a ler com uma mente virgem. Diz-lhe que eu tomo conta da situa\u00e7\u00e3o a partir daqui e que vou tentar corrigir o erro\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Senhora professora?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O teu pai n\u00e3o sabe ensinar. Agora podes sentar-te. (\u2026)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Entretanto encontra-se com o irm\u00e3o, chamado Jem, poucos anos mais velho.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabia que tinha aborrecido Miss Caroline, por isso fiquei sozinha a olhar para a janela at\u00e9 ao intervalo, altura em que o Jem me resgatou do bando dos alunos do primeiro ano que estavam no recreio. Perguntou-me como \u00e9 que eu me estava a dar. E eu contei-lhe:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Se n\u00e3o fosse obrigada a ficar, j\u00e1 tinha ido embora h\u00e1 muito! Sabes, Jem, o raio daquela professora diz que o Atticus me tem ensinado a ler e quer que ele pare\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o te preocupes, Scout \u2013 tranquilizou-me o Jem. \u2013 A nossa professora disse que Miss Caroline est\u00e1 a introduzir um novo m\u00e9todo de ensino. Que aprendeu na faculdade. Daqui a pouco tempo vai ser assim em todos os anos. Acho que dessa maneira n\u00e3o precisamos de estudar muito pelos livros\u2026 \u00e9\u2019ssim, se tu quiseres estudar as vacas, vais ordenhar uma e pronto percebes?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Tudo bem, Jem. Mas eu n\u00e3o quero estudar vacas, eu\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 claro que queres. Tens de saber de vacas, porque elas fazem parte da vida de Maycomb County.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contentei-me em perguntar ao Jem se ele tinha perdido o ju\u00edzo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00d3 minha cabe\u00e7a dura, s\u00f3 te \u2018tou a tentar explicar a nova maneira de ensinar a primeira classe. Chama-se Sistema Decimal Dewey.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[A designa\u00e7\u00e3o \u00e9 jocosa, conforme esclarece o tradutor na n. 3: \u00abO Sistema de Classifica\u00e7\u00e3o Decimal de Dewey (<em>Dewey Decimal System<\/em>) \u00e9 um m\u00e9todo desenvolvido por Melvil Dewey para a cataloga\u00e7\u00e3o de livros em bibliotecas. Jem est\u00e1 a confundir este sistema com as novas teorias progressistas no dom\u00ednio da pedagogia dita pragm\u00e1tica ou educa\u00e7\u00e3o experiencial preconizadas por John Dewey.\u00bb]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se antes nunca tinha questionado as afirma\u00e7\u00f5es do Jem, tamb\u00e9m n\u00e3o era agora que ia come\u00e7ar. O Sistema Decimal Dewey consistia, em parte, em Miss Caroline a acenar-nos com cart\u00f5es onde estava escrito \u00abo\u00bb, \u00abgato\u00bb, \u00abratazana\u00bb, \u00abhomem\u00bb e \u00abtu\u00bb. N\u00e3o era suposto fazermos qualquer coment\u00e1rio e a turma recebia estas revela\u00e7\u00f5es impressionistas em absoluto sil\u00eancio. Estava aborrecida, por isso comecei a escrever uma carta ao Dill. Miss Caroline apanhou-me a escrever e disse-me para eu pedir ao meu pai para parar de me ensinar. \u2013 Al\u00e9m do mais \u2013 disse ela \u2013, n\u00f3s no primeiro ano n\u00e3o escrevemos, desenhamos as letras. S\u00f3 se aprende a escrever no terceiro ano.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 aqui, sob a forma de relato, o que Ivan Illich procura expor sob a forma de ensaio: a confus\u00e3o entre <em>processo <\/em>e <em>subst\u00e2ncia<\/em>; o cientismo; o artificial ritual de progresso; a presun\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica; a recusa de deixar-se confrontar pela realidade; a desqualifica\u00e7\u00e3o de toda realidade extra-escolar.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/sasint-3639875\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1782430\">Sasin Tipchai<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1782430\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14762,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-14760","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14760","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14760"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14760\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14763,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14760\/revisions\/14763"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14762"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14760"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14760"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14760"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}