{"id":14729,"date":"2022-06-30T18:56:48","date_gmt":"2022-06-30T17:56:48","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14729"},"modified":"2022-06-30T18:56:48","modified_gmt":"2022-06-30T17:56:48","slug":"8-1-2-rubrica-de-cinema-a-metamorfose-dos-passaros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/8-1-2-rubrica-de-cinema-a-metamorfose-dos-passaros\/","title":{"rendered":"&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0| A metamorfose dos p\u00e1ssaros"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right;\"><em>8 1\/2&#8242; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0<\/em><\/h4>\n<h1 style=\"text-align: center;\">A metamorfose dos p\u00e1ssaros<\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">Pe. Teodoro Medeiros<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As recorda\u00e7\u00f5es de inf\u00e2ncia pairam dentro de n\u00f3s, traves mestras do nosso adn, inelud\u00edveis como o ch\u00e3o onde caminhamos. No entanto, tentar precis\u00e1-las, descrev\u00ea-las ao detalhe, \u00e9 quase equivalente a destru\u00ed-las. Se as compararmos com quem estava l\u00e1, as coisas n\u00e3o encaixam, eu garanto que me lembro bem, foi como digo, mas outros insistem que aconteceu de outra maneira, por outras raz\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Todas as mem\u00f3rias s\u00e3o constru\u00eddas, filtradas em tempo real pela lente da emo\u00e7\u00e3o, editadas pela tesoura do significado que lhes damos: foram antes marcadas pelos sonhos que t\u00ednhamos e agora pelos sonhos que mantemos. E se n\u00e3o te recordas, ent\u00e3o inventa, continua a sonhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 neste esp\u00edrito que \u00e9 composto &#8220;A metamorfose dos p\u00e1ssaros&#8221;, o filme brilhante em que Catarina Vasconcelos nos apresenta tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es da sua fam\u00edlia. Os diferentes personagens falam em <em>voz off<\/em>, o que d\u00e1 uma certa dist\u00e2ncia cognoscitiva \u00e0s imagens a que assistimos. Estas s\u00e3o compostas como se de pinturas se tratassem, aut\u00eanticas pe\u00e7as de observa\u00e7\u00e3o do humano, testemunhas da beleza de tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A rela\u00e7\u00e3o entre texto e imagens n\u00e3o \u00e9 meramente ilustrativa, n\u00e3o \u00e9 sempre direta, h\u00e1 espa\u00e7o para a cria\u00e7\u00e3o de uma aura de assombro, afirma\u00e7\u00e3o tel\u00farica de uma unidade: flores, a habita\u00e7\u00e3o, o mar, tudo est\u00e1 envolvido numa mesma dimens\u00e3o maternal, uma apresenta\u00e7\u00e3o saudosamente infantil da totalidade do que existe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Poucas vezes se fala de Deus, mas o pr\u00f3prio mar \u00e9 descrito como um infinito que entra dentro de n\u00f3s, e Zulmira, a empregada n\u00e3o crente, gostava de ouvir as ora\u00e7\u00f5es da av\u00f3 Beatriz. O nome de Jesus surge no mais doce de todos os momentos: a humanidade \u00e9 naturalmente religiosa, como se sabe (as crian\u00e7as sabem).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O filme \u00e9 uma verdadeira obra liter\u00e1ria, mas o texto \u00e9 sempre curioso e muitas vezes pungente: como quando se diz que a perda da m\u00e3e n\u00e3o chega a ser mem\u00f3ria, o c\u00e9rebro recusa-se a processar esse dia, ou que a fam\u00edlia se tornou como uma natureza morta nesse momento, alheia a tudo o que vivia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E muitas frases possuem o cond\u00e3o de nos atingir, axiomas da vida, fazendo-nos parar e refletir que essas pessoas vivem a um n\u00edvel mais profundo do que n\u00f3s, o que t\u00ednhamos antes. H\u00e1 at\u00e9 uma varia\u00e7\u00e3o do Pai Nosso, dedicado aqui aos p\u00e1ssaros: &#8220;p\u00e1ssaro nosso que est\u00e1s nos c\u00e9us, santificadas sejam as vossas asas, venha a n\u00f3s o vosso voo, olha pelos telhados das nossas casas.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Este ato solene de homenagem, apesar do formalismo, n\u00e3o sabe a meramente intelectual. Para esta aur\u00e9ola de simplicidade, contribui muito a exposi\u00e7\u00e3o dos segredos do que \u00e9 pertencer a uma fam\u00edlia: o desejo que os pais t\u00eam de que os filhos nunca cres\u00e7am, ou as perguntas inocentes que estes fazem ao mundo. Este \u00e9 um filme elevado porque humano e acess\u00edvel, um caso raro de obra rebuscada que todos podem acompanhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Aqui, os p\u00e1ssaros s\u00e3o mestres da vida; as \u00e1rvores, o suporte da fam\u00edlia e de cada um; a morte, criadora de fantasmas; as plantas, semeadas pelo amor \u00e0 vida; a verdade, um denunciado conceito el\u00e1stico; a mem\u00f3ria, um segredo encenado, reservado at\u00e9 ao cl\u00edmax.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 &#8220;A Metamorfose dos P\u00e1ssaros&#8221; n\u00e3o \u00e9 apenas um grande filme portugu\u00eas: \u00e9 cinema superlativo e obrigat\u00f3rio, ponto final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Assim como que uma m\u00e3o de Deus, onde repousa o nosso cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem: <a href=\"https:\/\/cinecartaz.publico.pt\/Filme\/406735_a-metamorfose-dos-passaros\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/cinecartaz.publico.pt\/Filme\/406735_a-metamorfose-dos-passaros<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>8 1\/2&#8242; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14730,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[87,86],"tags":[],"class_list":["post-14729","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-8-1-2-rubrica-de-cinema","category-pe-teodoro-medeiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14729","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14729"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14729\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14732,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14729\/revisions\/14732"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14730"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14729"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14729"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14729"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}