{"id":14693,"date":"2022-07-01T07:00:26","date_gmt":"2022-07-01T06:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14693"},"modified":"2022-06-27T11:22:24","modified_gmt":"2022-06-27T10:22:24","slug":"modos-de-interacao-entre-ciencia-e-religiao-ponte-xi-proprio-altrui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/modos-de-interacao-entre-ciencia-e-religiao-ponte-xi-proprio-altrui\/","title":{"rendered":"Modos de intera\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e religi\u00e3o | Ponte (XI) Pr\u00f3prio\u2014Altrui"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><strong><em>Modos de intera\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e religi\u00e3o<\/em><\/strong><\/h5>\n<h2 style=\"margin: 13pt 0cm 6.5pt; text-align: right;\"><em>Pontes<\/em><\/h2>\n<hr \/>\n<h2 style=\"margin: 13pt 0cm 6.5pt; text-align: center;\">Ponte (XI) Pr\u00f3prio\u2014Altrui<\/h2>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Miguel Oliveira Pan\u00e3o<\/h4>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><a href=\"http:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\">Blog<\/a> &amp; <a href=\"https:\/\/www.miguelpanao.com\/livros\/\">Autor<\/a> &amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Newsletter<\/a><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00abAmar\u00e1s o teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo.\u00bb (Mt 22, 39)<\/em><\/p>\n<p class=\"Paragraph\" style=\"margin-bottom: 6.5pt;\">Quem se volta para si mesmo, isola-se. Quem se volta para os outros, esquecendo-se de si mesmo, \u00e9 louvado, mas como pode algu\u00e9m dar o que n\u00e3o tem? O Eu compreende-se muitas vezes como um ego que pensa somente em si, mas outras vezes \u00e9 a palavra que naturalmente usamos para nos identificarmos e assumirmos as nossas responsabilidades. Ou seja, por vezes tem uma conota\u00e7\u00e3o negativa \u2014 \u201cego\u201d\u00edsta \u2014 e quando isso n\u00e3o acontece, em vez de Eu poder\u00edamos usar a palavra \u201cPr\u00f3prio\u201d. Por\u00e9m, n\u00e3o deixa de ser curioso quando algo justo relativo a uma situa\u00e7\u00e3o dizermos ser \u201capropriado\u201d. O prefixo \u201ca-\u201c serve para negar (an-) ou ir-ao-encontro-de (ad-), logo, neste caso, ser\u00e1 que nega ou vai ao encontro do Pr\u00f3prio? Isto \u00e9, ser\u00e1 algo considerado \u201capropriado\u201d quando se nega a si pr\u00f3prio e entrega-se ao outro \u2014 <em>altrui<\/em>? Ou considera-se \u201capropriado\u201d o que vai ao encontro do Pr\u00f3prio e, por isso, que est\u00e1 fora desse provindo, talvez, do outro? Em Latim, o verbo \u00e9 descrito como \u2018ad, proprius\u2019, pelo que a origem est\u00e1 no segundo sentido, o que \u00e9 interessante porque a palavra considera como bom o que vai ao encontro do pr\u00f3prio\u2014 <em>\u00abamar\u00e1s&#8230; como a ti mesmo.\u00bb<\/em> Mas na mente e cora\u00e7\u00e3o ressoa a pergunta: que ponte poder\u00e1 unir o Pr\u00f3prio ao <em>Altrui<\/em> para dar corpo ao amor pr\u00f3prio sem que se torne ego\u00edsta, mas altru\u00edsta?<\/p>\n<p class=\"Paragraph\" style=\"margin-bottom: 6.5pt;\">A teologia possui um conceito que expressa como pode ser imposs\u00edvel olhar o Pr\u00f3prio sem ver nele o <em>Altrui<\/em>: a <em>pericorese<\/em> na Trindade. O que \u00e9 \u201cpericor\u00e9tico\u201d significa que n\u00e3o posso olhar, por exemplo, para o esposo sem ver nele a esposa, nem para a esposa, sem ver nela o esposo. \u00c9 o modo trinit\u00e1rio de ser onde n\u00e3o posso contemplar o Pai, sem ver n\u2019Ele o Filho e o Esp\u00edrito Santo, ou qualquer uma das outras Pessoas, sem ver em cada uma as outras duas. Qualquer ponte que una o Pr\u00f3prio ao Altrui seria pericor\u00e9tica. Depois penso no mecanismo de transmiss\u00e3o de calor por radia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"Paragraph\" style=\"margin-bottom: 6.5pt;\">As trocas de calor por radia\u00e7\u00e3o acontecem somente entre duas superf\u00edcies, mas, para isso, \u00e9 importante que se \u201cvejam\u201d. Quando se \u201cv\u00eaem\u201d, interceptam-se os olhares e trocam calor por radia\u00e7\u00e3o entre si. Em ingl\u00eas, \u00e0 radia\u00e7\u00e3o que sai de uma superf\u00edcie (i) e \u00e9 interceptada por outra (j) designamos por <em>View Factor<\/em> que em portugu\u00eas expressamos como \u201cfactor de forma\u201d, Fij (Factor de forma de i para j). O curioso \u00e9 que se assumirmos a \u00e1rea daquele que d\u00e1 radia\u00e7\u00e3o (\u00e1rea de i = Ai) e a usarmos para \u201cespalhar\u201d (multiplicar) o Fij, resulta numa rela\u00e7\u00e3o geom\u00e9trica de vis\u00f5es chamada de <em>rela\u00e7\u00e3o da reciprocidade<\/em> em que Ai x Fij = Aj x Fji. Isto \u00e9, aquilo que (i) \u201cv\u00ea\u201d de (j) \u2014 e que \u00e9 Pr\u00f3prio a (i) por causa da sua \u00e1rea \u2014 \u00e9 igual ao que (j) \u201cv\u00ea\u201d de (i). Por isso, aqui, a <em>reciprocidade<\/em> faz com que o Pr\u00f3prio se descubra verdadeiramente no <em>Altrui<\/em> e vice-versa. Qualquer ponte que una o Pr\u00f3prio com o Altrui constitui-se na reciprocidade. E parece-me que a regra para atravessar essa ponte seja de ouro.<\/p>\n<p class=\"Blockquote\" style=\"margin: 12.0pt 0cm 12.0pt 0cm;\">\u00abFaz aos outros o que gostarias que fizessem a ti pr\u00f3prio. Ou n\u00e3o fa\u00e7as aos outros o que n\u00e3o gostarias que fizessem a ti pr\u00f3prio.\u00bb<\/p>\n<p class=\"Paragraph\" style=\"margin-bottom: 6.5pt;\">\u00c9 uma regra de ouro presente em diversas religi\u00f5es que expressa esta verdade universal da import\u00e2ncia de aprendemos a nos colocarmos na pele do outro (<em>Altrui<\/em>) para entendermos melhor o que est\u00e1 a viver. Por vezes esta regra, como a reciprocidade, s\u00e3o entendidas como sendo do interesse pr\u00f3prio relacionarmo-nos com o outro e fazer o que gostaria que lhe fiz\u00e9ssemos pensando que um dia poderemos cobrar-lhe esse favor. Esta vis\u00e3o deturpadora da regra de ouro e da reciprocidade assenta nos apegos do Eu, enquanto o Pr\u00f3prio vive no desapego at\u00e9 de si, de tal modo que nega-se \u2014 \u201capropriado\u201d \u2014 para oferecer algo de positivo seja em que contexto for. A regra de ouro ou o amor a si Pr\u00f3prio como medida do amor ao <em>Altrui<\/em>, s\u00e3o ac\u00e7\u00f5es que constroem a ponte que une o Pr\u00f3prio ao <em>Altrui<\/em>.<\/p>\n<p class=\"Paragraph\" style=\"margin-bottom: 6.5pt;\">Esta ponte aponta para uma m\u00fatua (rec\u00edproca) \u00edntima (pericor\u00e9tica) iman\u00eancia. E a palavra que melhor expressa esta realidade \u00e9 <em>comunh\u00e3o<\/em>. Qualquer paradoxo gerado pela busca do interesse pr\u00f3prio e o interesse do outro esbate-se quando atravessamos a ponte da comunh\u00e3o. Essa leva \u00e0 descoberta do interesse pr\u00f3prio atrav\u00e9s do interesse do outro. Essa transforma o interesse pr\u00f3prio com o interesse do outro na medida em o interesse do outro se transforma com o do pr\u00f3prio. Na comunh\u00e3o profunda de vida desvanecem-se os apegos, desentendimentos, ego\u00edsmos, tudo o que nos isola e divide pela descoberta da beleza e riqueza daquilo que nos distingue. Na comunh\u00e3o, as dores s\u00e3o o sinal de vivermos uma experi\u00eancia transformativa da qual nunca mais seremos os mesmos, mas muito mais, melhores e diferentes do que \u00e9ramos.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/freddelatcho-652756\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=811191\">FredDelatcho<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=811191\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Modos de intera\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14694,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[57,62],"tags":[],"class_list":["post-14693","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-miguel-oliveira-panao","category-modos-de-interacao-entre-ciencia-e-religiao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14693","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14693"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14693\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14696,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14693\/revisions\/14696"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14694"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14693"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14693"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14693"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}