{"id":14642,"date":"2022-06-16T07:00:32","date_gmt":"2022-06-16T06:00:32","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14642"},"modified":"2022-06-13T12:18:57","modified_gmt":"2022-06-13T11:18:57","slug":"tiago-ramalho-x-ivan-illich-e-a-escolarizacao-i-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-x-ivan-illich-e-a-escolarizacao-i-4\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | X | Ivan Illich e a Escolariza\u00e7\u00e3o (I-4)"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u2013<\/strong> <strong>Eixos fundamentais de cr\u00edtica \u2013<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[<em>Introdu\u00e7\u00e3o geral: <\/em>nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-ivan-illich-uma-apresentacao\/\">1<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-vi-ivan-illich-uma-apresentacao-conclusao\/\">8<\/a>\/ I. <em>Ivan Illich e a Escolariza\u00e7\u00e3o: <\/em>nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-vii-i-ivan-illich-e-a-escolarizacao\/\">9<\/a> e ss.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 14. <em><u>O ponto de mira: a escolaridade obrigat\u00f3ria<\/u>. \u2013 <\/em>A realidade educativa tem uma grande amplitude e diversidade. Veja-se que parte das rela\u00e7\u00f5es em ambiente familiar ou noutros contextos de proximidade t\u00eam significado \u00abeducativo\u00bb; t\u00eam-no igualmente as actividades de an\u00fancio das diferentes comunidades religiosas; procuram-no as grandes realiza\u00e7\u00f5es da cultura, a\u00ed onde fa\u00e7am sua a aspira\u00e7\u00e3o de educar pela est\u00e9tica; tamb\u00e9m o autodidactismo, t\u00e3o diferente das modalidades anteriores, tem um prop\u00f3sito, se n\u00e3o educativo, ao menos de aprendizagem; e, finalmente, relaciona-se com a educa\u00e7\u00e3o o sistema organizado de ensino escolarizado nos seus v\u00e1rios n\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro desta realidade muito vasta, Ivan Illich adopta um ponto de mira: aquilo sobre que versar\u00e1 a respectiva reflex\u00e3o \u00e9 o processo de escolariza\u00e7\u00e3o realizado por forma institucionalizada<em>, <\/em>obrigat\u00f3ria, mediante o empenho de meios p\u00fablicos programados para esse efeito, decorrendo num tipo de institui\u00e7\u00e3o social designado <em>escola, <\/em>e todo o aparato institucional reclamado para a respectiva manuten\u00e7\u00e3o (<em>Deschooling, <\/em>p. 68). Em sentido rigoroso, a investida de Ivan Illich n\u00e3o \u00e9 contra a educa\u00e7\u00e3o (pelo contr\u00e1rio: \u00e9 at\u00e9 <em>em nome <\/em>da educa\u00e7\u00e3o que investe), mas sim contra a escolariza\u00e7\u00e3o (cf. o n.\u00ba 9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 15. <em><u>Uma causa justificativa da abordagem: os seus <\/u><\/em><u>danos<\/u><em>. \u2013 <\/em>Como raz\u00e3o justificativa para uma tal an\u00e1lise est\u00e1 o conjunto de mitos em que a escola assenta e os danos que produz. Como se inverte o modo usual de an\u00e1lise do sistema escolar: em lugar da enuncia\u00e7\u00e3o dos respectivos m\u00e9ritos, vis\u00edveis nas biografias de muitos que o frequentaram com sucesso, \u00e9 analisado desde a perspectiva das suas falhas. O m\u00e9todo de Ivan Illich assenta em <em>abstrair <\/em>do fim a que a escola se prop\u00f5e (o discurso de justifica\u00e7\u00e3o) e em descrever o que ela faz (a pr\u00e1tica em ac\u00e7\u00e3o); em abstrair da <em>idealidade <\/em>e atentar na <em>realidade factual. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O resultado \u00e9 uma descri\u00e7\u00e3o muit\u00edssimo dura. Eis as primeiras palavras do <em>Deschooling Society, <\/em>(p. 1):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abMuitos estudantes, especialmente os que s\u00e3o pobres, sabem intuitivamente o que a escola lhes faz. Escolariza-os de forma confundirem processo e subst\u00e2ncia. Quando se confundem, \u00e9 assumida uma nova l\u00f3gica: qu\u00e3o maior for o tratamento, melhores ser\u00e3o os resultados; ou ent\u00e3o, a escalada conduz ao sucesso. O pupilo \u00e9 assim \u201cescolarizado\u201d para confundir ensino com aprendizagem, obten\u00e7\u00e3o de ovos graus com educa\u00e7\u00e3o, diploma com compet\u00eancia, e flu\u00eancia com a habilidade de dizer qualquer coisa nova. A sua imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cescolarizada\u201d para aceitar a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os em lugar do valor. O tratamento m\u00e9dico \u00e9 confundido com servi\u00e7os de sa\u00fade, o trabalho social com a melhoria da vida comunit\u00e1ria, a protec\u00e7\u00e3o policial com a seguran\u00e7a, a for\u00e7a militar com a seguran\u00e7a nacional, trabalhar incessantemente como ratos por trabalho produtivo. Sa\u00fade, aprendizagem, dignidade, independ\u00eancia e actividade criativa como pouco mais do que o desempenho das institui\u00e7\u00f5es que t\u00eam a pretens\u00e3o de servir estes fins, e o seu desenvolvimento \u00e9 feito de modo a depender da aloca\u00e7\u00e3o de cada vez mais recursos para a gest\u00e3o de hospitais, escolas e outras institui\u00e7\u00f5es.\/ Nestes ensaios, pretendo mostrar que a institucionaliza\u00e7\u00e3o de valores conduz inevitavelmente \u00e0 polui\u00e7\u00e3o f\u00edsica, polariza\u00e7\u00e3o social, e impot\u00eancia psicol\u00f3gica: tr\u00eas dimens\u00f5es no processo de degrada\u00e7\u00e3o global e moderniza\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria. Vou explicar como este processo de degrada\u00e7\u00e3o \u00e9 acelerado quando necessidades imateriais s\u00e3o transformadas em pretens\u00f5es a novos bens; quando a sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, mobilidade pessoal, bem-estar, ou tratamento psicol\u00f3gico s\u00e3o definidos como o resultado de servi\u00e7os ou \u201ctratamentos\u201d.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O excerto traduzido patenteia dois aspectos centrais do pensamento de Ivan Illich, j\u00e1 antes antecipados: que \u2013 como j\u00e1 se referiu v\u00e1rias vezes \u2013 a cr\u00edtica n\u00e3o se dirige <em>contra <\/em>a educa\u00e7\u00e3o, mas sim contra um <em>modelo de escolariza\u00e7\u00e3o <\/em>que, entende, perverte a aprendizagem, ao realizar um conjunto de pr\u00e1ticas que contrariam o seu fim declarado (n.\u00ba 9). Interpela-o muito especialmente a percep\u00e7\u00e3o de que, pela frequ\u00eancia do sistema de escolariza\u00e7\u00e3o, muitos se passem a desinteressar de modo duradouro pela sua pr\u00f3pria aprendizagem: \u00abao fazerem com que as pessoas abdiquem do seu pr\u00f3prio crescimento, as escolas conduzem a muitos para uma esp\u00e9cie de suic\u00eddio espiritual.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 60). Ou ainda: \u00abas escolas graduam e, por conseguinte, desgraduam. Levam a que os desgraduados aceitem a sua pr\u00f3pria submiss\u00e3o.\u00bb (<em>Futility, <\/em>p. 114). O segundo aspecto central que o excerto patenteia \u00e9 que a cr\u00edtica ao sistema de escolariza\u00e7\u00e3o se dirige igualmente a um conjunto de institui\u00e7\u00f5es que, em \u00e2mbitos diferentes, agem em termos pr\u00f3ximos do sistema educativo (cf. o n.\u00ba 12).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dir-se-\u00e1: \u00e9 a miseric\u00f3rdia diante dos desacoro\u00e7oados pelo sistema de escolariza\u00e7\u00e3o que motiva a cr\u00edtica robusta de Ivan Illich.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Foto: <a href=\"https:\/\/parisinstitute.org\/corruptio-optimi-pessima-dialogue-with-david-cayley-on-ivan-illich\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/parisinstitute.org\/corruptio-optimi-pessima-dialogue-with-david-cayley-on-ivan-illich\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14643,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-14642","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14642","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14642"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14642\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14685,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14642\/revisions\/14685"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14643"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14642"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14642"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14642"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}