{"id":14638,"date":"2022-12-12T07:00:17","date_gmt":"2022-12-12T07:00:17","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14638"},"modified":"2023-04-11T15:16:57","modified_gmt":"2023-04-11T14:16:57","slug":"regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-da-mulher-de-lot-a-maldicao-de-orfeu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-da-mulher-de-lot-a-maldicao-de-orfeu\/","title":{"rendered":"\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 | 9 | Da mulher de Lot \u00e0 maldi\u00e7\u00e3o de Orfeu"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019<\/em> | Parceria com a revista <a href=\"http:\/\/www.movimento-acr.pt\/accao-catolica-portuguesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A nossa viagem \u2013 \u2018regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 \u2013 \u00e9 marcada por um novo \u2018olhar cruzado\u2019 entre a cultura grega e a marca crist\u00e3. S\u00e3o os protagonistas deste novo entrecruzar de olhares a mulher de Lot e o mito de Orfeu e Eur\u00eddice.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em ambas as hist\u00f3rias, somos confrontados com uma maldi\u00e7\u00e3o: n\u00e3o podeis olhar (para tr\u00e1s). Algo de terr\u00edvel ocorrer\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mulher de Lot transformar-se-\u00e1 em est\u00e1tua de sal (Gn 19, 26); Orfeu perder\u00e1 para sempre a sua amada Eur\u00eddice.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ouvi estas duas hist\u00f3rias sempre muito intrigado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhuma das duas culturas \u2013 a grega ou a judaico-crist\u00e3 \u2013 parece ter uma vis\u00e3o amaldi\u00e7oada do passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porqu\u00ea, ent\u00e3o, este aparente rep\u00fadio do passado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E se, afinal, estivermos a ler de forma incompleta as duas cenas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o ser\u00e1 estranho que o mesmo livro de G\u00e9nesis<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> continue a cena dizendo-nos que \u2018Abra\u00e3o foi ao lugar onde estivera na presen\u00e7a de Iahweh e olhou para Sodoma, para Gomorra e para toda a Plan\u00edcie, e eis que viu a fuma\u00e7a subir da terra, como a fuma\u00e7a de uma fornalha!\u2019 (Gn 19, 27-28)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como ler esta duplicidade de leituras sobre o \u2018olhar\u2019? A mulher de Lot olha e \u00e9 transformada em est\u00e1tua de sal; Abra\u00e3o olha e permanece vivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00f3pria b\u00edblia d\u00e1-nos a grelha de interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veja-se que o detalhe que faz a diferen\u00e7a ser\u00e1 a afirma\u00e7\u00e3o de que Abra\u00e3o vai ao \u2018lugar onde estivera na presen\u00e7a de Iahweh\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O seu olhar j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 o daquele que possui, mas o daquele que contempla.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ah, parecemos encontrar aqui o ponto para ler ambas as cenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema n\u00e3o est\u00e1 no facto de o olhar ser voltado para o passado (tamb\u00e9m Abra\u00e3o parece olhar para o passado\u2026), mas antes o facto de ser um olhar marcado por uma tenta\u00e7\u00e3o, uma sedu\u00e7\u00e3o trai\u00e7oeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orfeu olha para tr\u00e1s como quem quer deter, possuir; a mulher de Lot olha para tr\u00e1s, n\u00e3o como quem contempla, mas como quem quer possuir aquele saber que j\u00e1 se anunciara, pela \u2018voz\u2019 da serpente, no momento da queda, face \u00e0 maldi\u00e7\u00e3o decorrente de comer da \u00e1rvore que est\u00e1 no meio do jardim: \u2018n\u00e3o, n\u00e3o morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrir\u00e3o e v\u00f3s sereis como deuses, versados no bem e no mal\u2019 (Gn 3,5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cultura grega e a cultura b\u00edblica parecem aproximar-se, neste ponto, ainda que, logo ap\u00f3s esta coincid\u00eancia, divirjam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de tomarmos consci\u00eancia dessa diverg\u00eancia, anotemos, ainda, como a quest\u00e3o do \u2018olhar\u2019, do \u2018ver\u2019 tem marcada centralidade na Sagrada Escritura<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>: como record\u00e1vamos, acima, a serpente fala de que ser como deuses \u00e9 poder \u2018ver\u2019 o bem e o mal, o salmo 135 afirma que \u2018os \u00eddolos t\u00eam olhos e n\u00e3o veem\u2019 (sl 135,16); O novo testamento recorda, diversas vezes, que a Deus \u2018ningu\u00e9m viu nem pode ver\u2019 (1Tm 6,16 ou 1Jo 4,12). S\u00e3o Jo\u00e3o antecipa, no pr\u00f3logo ao seu evangelho, a tens\u00e3o entre a luz e as trevas, tens\u00e3o omnipresente neste quarto evangelho. Os autores da entrada \u2018ver\u2019 do vocabul\u00e1rio de teologia b\u00edblica recordam que \u00abver a Deus olhos nos olhos (Is 52,8) \u00e9 o mais profundo desejo do Antigo Testamento [sendo que] a nostalgia do para\u00edso que domina toda a b\u00edblica \u00e9 antes de tudo a consci\u00eancia de haver perdido o contacto imediato e familiar com Deus\u00bb (VTB, 1054), sendo que todas as manifesta\u00e7\u00f5es de Deus s\u00e3o marcadas pela impossibilidade de ver a Deus, face a face (s\u00f3 se poder\u00e1 \u2018ver\u2019 Deus pelas costas, pois a face n\u00e3o pode ser vista (Ex 33,22s)).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u2018ver\u2019 \u00e9 o sentido mais singular de todos. Permite olhar sem ser visto, ver e imaginar, mant\u00e9m os seres distantes, permanentes na sua identidade. Todos os demais sentidos fundem o sujeito e os objetos (cheirar implica ser invadido pelo odor que entra dentro do sujeito; palpar implica a reciprocidade entre aquele que toca e o que \u00e9 tocado; degustar implica abrir-se a acolher e sentir nas papilas gustativas; ouvir pode ocorrer sem que o sujeito de tal se aperceba, numa indiferen\u00e7a descomprometida, mas gera no sujeito a impress\u00e3o de que uma voz lhe ocupa a cabe\u00e7a\u2026). S\u00f3 o ver ocorre na independ\u00eancia efetiva entre o sujeito e o objeto. Mas, talvez precisamente por isso o ver seja t\u00e3o vulner\u00e1vel \u00e0 possibilidade de se corromper quando \u00e9 carregado com o desejo da posse. Ver \u00e9 sempre permanecer em si (quer no prisma do objeto visto; quer no prisma do sujeito que v\u00ea). A tenta\u00e7\u00e3o est\u00e1, precisamente, no desvirtuamento desta natureza de alteridade, intr\u00ednseca ao ver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u2018ver\u2019 de Deus \u00e9 o da contempla\u00e7\u00e3o. O \u2018ver\u2019 do homem deca\u00eddo \u00e9 o da posse. \u2018Ent\u00e3o, abriram-se os olhos dos dois e perceberam que estavam nus [\u2026]\u2019 (Gn 3,7a).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, neste s\u00e9culo que tudo quer saber para tudo dominar, Orfeu parece querer voltar a virar o olhar, juntando-se \u00e0 mulher de Lot, sempre que quer saber mais e mais, n\u00e3o para compreender, mas para possuir, para instrumentalizar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os gregos constataram a for\u00e7a desta sedu\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o conseguiram sair dela, caindo na vis\u00e3o tr\u00e1gica que o cristianismo superou e continua a superar. Perante a trag\u00e9dia, os her\u00f3is gregos cegam-se (\u00c9dipo), bebem da \u00e1gua do rio Letes (um dos rios do Hades, de cujas \u00e1guas os que as bebiam recebiam apenas esquecimento. Ali\u00e1s, uma das palavras gregas para \u2018verdade\u2019, \u00e9 \u2018al\u00eatheia\u2019, o que, literalmente, quer dizer \u2018n\u00e3o esquecimento\u2019, numa alus\u00e3o ao reconhecimento de que ser verdadeiro \u00e9 guardar mem\u00f3ria do compromisso.), ou morrem de sede (como T\u00e2ntalo) perante a vis\u00e3o das \u00e1guas que se esquivam e afastam. Ver \u00e9 uma maldi\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica para os gregos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A supera\u00e7\u00e3o desta \u2018maldi\u00e7\u00e3o\u2019 est\u00e1 na afirma\u00e7\u00e3o de que \u2018quem me v\u00ea, v\u00ea o Pai\u2019; n\u00e3o \u00e9 um ver de quem se apropria, mas o de quem olha com amor e constr\u00f3i o amor e no amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o olhar de Sime\u00e3o que, na crian\u00e7a fr\u00e1gil, porque \u2018os seus olhos viram a salva\u00e7\u00e3o\u2019, reconhece que j\u00e1 pode partir (Lc 2,30). Ou o olhar do segundo Tom\u00e9 que, superando o primeiro, para quem se n\u00e3o vir, n\u00e3o acreditar\u00e1, perante a realidade para que se abriram os seus olhos, proclama \u2018Meu Senhor e Meu Deus\u2019, a que se somam as palavras de Jesus, aqui t\u00e3o loquazes para a nossa reflex\u00e3o: \u00abporque viste, creste. Felizes os que n\u00e3o viram e creram.\u00bb (Jo20, 27-29).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o estamos, aqui, perante o elogio da cegueira. Antes, perante a apologia do olhar que respeita o que \u00e9 \u2018ver\u2019: contemplar, assegurando a alteridade do sujeito e daquele que \u00e9 \u2018visto\u2019. Lot e Orfeu (curiosamente, como recorda Kurt Pahlen, na sua hist\u00f3ria da m\u00fasica, a obra de Cl\u00e1udio Monteverdi dedicada a \u2018Orfeo\u2019 \u00e9 a primeira \u00f3pera da hist\u00f3ria. A arte musical sob a \u00e9gide do desafio da busca do verdadeiro olhar: o que contempla!) s\u00e3o, aqui, ep\u00f3nimos do Homem que pretende ver para possuir. O homem da Raz\u00e3o instrumental, que a modernidade arvorou em modelo de toda a humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a palavra crist\u00e3 expressa-se, como Palavra tornada vis\u00edvel, o \u2018Verbo Incarnado\u2019, que se manifesta na Palavra dita nas pr\u00f3prias Escrituras e que, de forma simb\u00f3lica, se fecha naquele livro que significa \u2018revela\u00e7\u00e3o\u2019 (\u2018Apocalipse\u2019, o que evidencia n\u00e3o um possuir, mas um acolher; algo que se revela n\u00e3o \u00e9 exigido; nasce da iniciativa daquele que quer revelar\u2026) e que, com eloqu\u00eancia, conclui dizendo que \u2018nunca mais haver\u00e1 maldi\u00e7\u00f5es. Nele estar\u00e1 o trono de Deus e do Cordeiro, e seus servos lhe prestar\u00e3o culto, ver\u00e3o Sua face, e seu nome estar\u00e1 sobre suas frontes. J\u00e1 n\u00e3o haver\u00e1 noite; ningu\u00e9m mais precisar\u00e1 da luz da l\u00e2mpada, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhar\u00e1 sobre eles e eles reinar\u00e3o pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos.\u2019 (Ap 22, 3-5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ver j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 maldi\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 a natureza do Homem feliz: porque ver j\u00e1 n\u00e3o estar\u00e1 sob a tenta\u00e7\u00e3o de possuir, mas liberto de toda a sedu\u00e7\u00e3o de aprisionar. Ser\u00e1 um eterno adorar a Deus: v\u00ea-l\u2019O como \u00e9 porque s\u00f3 o ver faz permanecer em si (e em Si) todas as coisas.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Citarei as passagens b\u00edblicas a partir da edi\u00e7\u00e3o da B\u00edblia de Jerusal\u00e9m, segundo edi\u00e7\u00e3o da Paulus, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Seguirei, aqui, de perto, as ideias recolhidas no vocabul\u00e1rio de teologia b\u00edblica (VTB), dirigido por X. L\u00e9on-Dufour, editado pela Vozes, em 2002<sup>7<\/sup>, 1054-1057.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem: <em><a href=\"https:\/\/www.wikidata.org\/wiki\/Q20539950\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Orpheus and Eurydice<\/a> <\/em>| Carl Goos [1797-1855] &#8211; Statens Museum for Kunst<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura e autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado em <a href=\"http:\/\/teologicus.blogspot.com\/search?q=eutan%C3%A1sia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.teologicus.blogspot.com<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14639,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,177],"tags":[],"class_list":["post-14638","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14638","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14638"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14638\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15924,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14638\/revisions\/15924"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14639"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14638"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14638"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14638"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}