{"id":14627,"date":"2022-06-08T15:54:43","date_gmt":"2022-06-08T14:54:43","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14627"},"modified":"2022-06-08T15:54:43","modified_gmt":"2022-06-08T14:54:43","slug":"bioetica-e-sociedade-o-cuidado-pela-vida-porque-devemos-dizer-nao-a-eutanasia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/bioetica-e-sociedade-o-cuidado-pela-vida-porque-devemos-dizer-nao-a-eutanasia\/","title":{"rendered":"Bio\u00e9tica e sociedade | O cuidado pela vida&#8230; Porqu\u00ea devemos dizer N\u00c3O \u00e0 Eutan\u00e1sia"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Bio\u00e9tica e sociedade<br \/>\n(Parceria com o Centro de Estudos de Bio\u00e9tica)<\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Carlos Costa Gomes*<\/h4>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-8127\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Carlos-Costa-Gomes.jpg\" alt=\"\" width=\"192\" height=\"250\" \/>\u00a0Porqu\u00ea devemos dizer N\u00c3O \u00e0 Eutan\u00e1sia<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">De acordo com Elio Sgreccia, a seculariza\u00e7\u00e3o do pensamento da vida n\u00e3o permite compreender o significado da morte e o valor da dor. O pensamento secularizado esconde a morte e de tudo o que a acompanha. Nasce, por isso, a exig\u00eancia de uma medicina que assegure \u201co pleno bem-estar f\u00edsico, ps\u00edquico e social\u201d e tamb\u00e9m a morte indolor. A morte tornou-se num acontecimento inomin\u00e1vel que n\u00e3o deve ser referida em p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">O s\u00e9culo XX destronou o sexo como assunto de que n\u00e3o era permitido abordar para colocar como interdi\u00e7\u00e3o principal falar da morte. Hoje n\u00e3o se fala de morte. O tema \u00e9 quase proibitivo para com as crian\u00e7as \u2013 ensina-se-lhes tudo desde terna idade: a anatomia e a fisiologia do amor e do nascimento \u2013 mas nada lhes dizem sobre a morte. E quando elas perguntam pelo av\u00f4, irm\u00e3o ou pai e m\u00e3e que deixaram de ver, normalmente diz-se que partiram para uma longa viagem ou foi para um lugar bonito, bem como passou ser uma estrela nesse lugar bonito e que est\u00e1 a olhar por n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Se no passado se dizia \u00e0s crian\u00e7as que \u201cnasciam debaixo de uma couve ou que vinham no bico de uma cegonha\u201d, mas essas mesmas crian\u00e7as assistiam a grande cena de amor do adeus, geralmente no quatro e \u00e0 cabeceira do familiar que morria; hoje, as crian\u00e7as sabem que n\u00e3o veem no bico da cegonha e que n\u00e3o nascem debaixo da coube, mas h\u00e1 mortos que desaparecem entre as flores do jardim (Ari\u00e8s, 1975).<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">A sociedade afastou a morte. Como resposta \u00e0 morte, de que tem medo de falar e de viver, apresenta como \u201csolu\u00e7\u00e3o civilizada\u201d a eutan\u00e1sia. Para os seus defensores, \u00e9 o ant\u00eddoto para a dor e para a agonia. Esta fuga acontece primeiro na consci\u00eancia da pessoa, depois generaliza-se como consci\u00eancia social para finalmente entrar o direito e decretar a morte, mas sempre longe do ambiente familiar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Podemos afirmar que os contextos culturais que exigem a eutan\u00e1sia s\u00e3o os das sociedades industrializadas e secularizadas. Nestas sociedades, como parece ser agora em Portugal, os defensores da eutan\u00e1sia, dita humanit\u00e1ria (The Humanist, 1974), apelam a uma morte provocada que seja r\u00e1pida e indolor, e que seja considerada como um benef\u00edcio por quem pede para morrer. Mais ainda, afirmam ser cruel e b\u00e1rbaro exigir que uma pessoa seja mantida viva contra a sua vontade e que se lhe recuse a desejada liberta\u00e7\u00e3o, quando viver \u201cperdeu dignidade\u201d e significado.\u00a0 O sofrimento \u00e9 in\u00fatil e \u00e9 um mal que dever\u00e1 ser evitado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">A moral subjacente sobre o que atr\u00e1s se disse, acusa a moralidade vigente de moral insens\u00edvel bem como as restri\u00e7\u00f5es legais que impendem o exame \u00e9tico sobre a legitimidade da eutan\u00e1sia. Apela \u00e0 consci\u00eancia social que tenha compaix\u00e3o pelos sofrimentos in\u00fateis e respeite o direito de cada pessoa morrer com dignidade. Contradi\u00e7\u00f5es: primeiro acusa-se a moral e a lei para depois invocar a exig\u00eancia \u00e9tica e da lei para ser poss\u00edvel, atrav\u00e9s da eutan\u00e1sia suprir, antecipadamente, a vida de uma pessoa.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Parece-nos, como nota conclusiva \u00e9 de que, nas sociedades secularizadas, a morte passou a ser uma coisa e n\u00e3o um acontecimento; \u00e9 vista como uma fatalidade (inevitabilidade) e n\u00e3o como uma finalidade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Tem sido assim desde os anos 70 do s\u00e9culo XX nos pa\u00edses mais desenvolvidos: a) \u00e9 difundida uma insistente cultura eutan\u00e1sica, como a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o, que pelas suas naturezas e inten\u00e7\u00f5es, provoca a morte antecipada da vida da pessoa, cujo motivo \u00e9 poupar a pessoa doente a sofrimentos definidos como in\u00fateis; b) a justifica\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 junto da sociedade baseia-se no princ\u00edpio do respeito pela autonomia e liberdade da pessoa que tem o direito absoluto \u00a0a dispor da pr\u00f3pria vida; c) pela persuas\u00e3o mais ou menos expl\u00edcita da insuportabilidade e da inutilidade da dor que pode, por vezes, acompanhar o processo de morrer.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Recordemos, apenas, que o direito que se quer reconhecer \u00e0 pessoa doente quanto ao que deseja no final da vida, n\u00e3o \u00e9 um direito \u00e0 morte provocada por meio eutan\u00e1sico, nem \u00e9 sequer um direito subjetivo, mas sim o direito de pedir e exigir aos m\u00e9dicos a suspens\u00e3o ou a n\u00e3o-ativa\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas terap\u00eauticas quando o benef\u00edcio que se espera n\u00e3o supera a incurabilidade da doen\u00e7a de que a pessoa padece. O que se pede, a partir de uma \u00e9tica personalista, humanista e, sobretudo de proximidade, n\u00e3o \u00e9 uma vis\u00e3o utilitarista da vida e da medicina; o que se pede \u00e9 uma atitude cuidativa.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Porque a pessoa com uma doen\u00e7a incur\u00e1vel nunca \u00e9 uma pessoa incuid\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\">(In. <em>Revista Portuguesa de Bio\u00e9tica<\/em>, n.\u00ba 27, 2022)<\/p>\n<hr \/>\n<h6 class=\"p1\" style=\"text-align: right; padding-left: 240px;\"><span class=\"s1\">*Presidente do Centro de Estudos de Bio\u00e9tica | <\/span><span class=\"s1\">Professor na ESSNORTECVP | Membro da Academia &#8216;Fides et Ratio&#8217;<\/span><\/h6>\n<hr \/>\n<h6 class=\"p1\" style=\"text-align: right; padding-left: 240px;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/geralt-9301\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=66885\">Gerd Altmann<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=66885\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bio\u00e9tica e sociedade<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14628,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[72,136],"tags":[],"class_list":["post-14627","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bioetica-e-sociedade","category-carlos-costa-gomes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14627","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14627"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14627\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14629,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14627\/revisions\/14629"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14628"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14627"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14627"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14627"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}