{"id":14623,"date":"2022-06-09T07:00:15","date_gmt":"2022-06-09T06:00:15","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14623"},"modified":"2022-06-08T15:09:49","modified_gmt":"2022-06-08T14:09:49","slug":"tiago-ramalho-ix-ivan-illich-e-a-escolarizacao-i-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-ix-ivan-illich-e-a-escolarizacao-i-3\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | IX | Ivan Illich e a Escolariza\u00e7\u00e3o (I-3)"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u2013 Distinguir para compreender (cont.) \u2013<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[<em>Introdu\u00e7\u00e3o geral: <\/em>nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-ivan-illich-uma-apresentacao\/\">1<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-vi-ivan-illich-uma-apresentacao-conclusao\/\">8<\/a>\/ I. <em>Ivan Illich e a Escolariza\u00e7\u00e3o: <\/em>nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-vii-i-ivan-illich-e-a-escolarizacao\/\">9<\/a> e ss.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 13. <em><u>Institui\u00e7\u00f5es e pessoa: pol\u00edtica e antropologia<\/u><\/em><u>.<\/u> \u2013 Uma vez que o ser humano vive em contextos sociais plurais, entre a <em>pol\u00edtica <\/em>(assim se entendendo o espa\u00e7o convivial de interac\u00e7\u00e3o humana) e a <em>antropologia <\/em>n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o de continuidade. Sob certo ponto de vista, a <em>pol\u00edtica <\/em>\u00e9 uma <em>antropologia <\/em>no plural, e a <em>antropologia <\/em>a <em>pol\u00edtica<\/em> no singular. Semelhante correla\u00e7\u00e3o \u00e9 expressamente assumida por Ivan Illich: \u00abPretendo levantar a quest\u00e3o de \u00edndole geral da defini\u00e7\u00e3o rec\u00edproca da natureza humana e da natureza das institui\u00e7\u00f5es modernas que caracterizam a nossa vis\u00e3o do mundo e linguagem. Para o fazer, escolhi a escola como o meu paradigma, e por conseguinte lido apenas indirectamente com outras institui\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas do Estado: a fam\u00edlia como unidade de consumo, o partido, o ex\u00e9rcito, a igreja, os media.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 2)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 sempre desde essa correla\u00e7\u00e3o que escreve Ivan Illich. A cr\u00edtica dirigida \u00e0s institui\u00e7\u00f5es tem por par\u00e2metro o que podem ou n\u00e3o representar para o ser humano, de bom, quando devidamente modeladas, mas igualmente constituindo um potencial de amea\u00e7a para as rela\u00e7\u00f5es interpessoais. Onde a realidade institucional cres\u00e7a de modo significativo, logo, por correla\u00e7\u00e3o, o espa\u00e7o de conforma\u00e7\u00e3o individual pode minguar ou ser mesmo eliminado, fazendo-se o ser humano apenas um objecto de manipula\u00e7\u00e3o: assim ocorre quando aquele crescimento institucional deixe pouco espa\u00e7o para a liberdade de (inter)ac\u00e7\u00e3o. Onde o espa\u00e7o pol\u00edtico seja pensado, portanto, como apenas um aparato de fornecimento de servi\u00e7os, a pessoa reduz-se \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de voraz e dependente, e voraz porque radicalmente dependente, consumidora: \u00abO ser humano desenvolveu o poder frustrante de exigir qualquer coisa, porque n\u00e3o consegue representar nada que uma institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o possa fazer para ele. Rodeado por superpoderosos instrumentos, o ser humano \u00e9 reduzido a um instrumento dos seus instrumentos.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 109) Num tal quadro institucional, qualquer <em>necessidade <\/em>tende a ser interpretada como um <em>apelo, <\/em>n\u00e3o ao esfor\u00e7o de autonomamente, a partir de baixo, se procurarem solu\u00e7\u00f5es para que seja satisfeita, mas para uma nova expans\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos, a partir de cima, pensados e programados com esse prop\u00f3sito. Tudo se torna, ent\u00e3o, objecto de planeamento: \u00abUma vez que n\u00e3o h\u00e1 nada de desej\u00e1vel que n\u00e3o tenha sido planeado, a crian\u00e7a da cidade conclui em breve que ser\u00e1 sempre capaz de criar uma institui\u00e7\u00e3o para qualquer desejo. Toma por garantido o poder do processo para gerar valor. Seja o fim conhecer um colega, integrar um vizinho, ou adquirir compet\u00eancias de leitura, ser\u00e1 definido de uma tal maneira que a sua obten\u00e7\u00e3o pode ser programada.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 108)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No confronto com o mito hel\u00e9nico de Prometeu, assim elenca Ivan Illich a cosmovis\u00e3o moderna: \u00abPara o homem primitivo, o mundo era governado pelo destino, pelos factos, e pela necessidade. Ao roubar o fogo dos deuses, Prometeu transformou os factos em problemas, colocou em quest\u00e3o a l\u00f3gica da necessidade, e desafiou o destino. O homem cl\u00e1ssico deu origem a um contexto civilizado desde uma perspectiva humana. Estava consciente de que poderia desafiar o ambiente natural e o destino, mas apenas pelo seu pr\u00f3prio risco. O homem contempor\u00e2neo vai mais al\u00e9m; ele tenta criar um mundo \u00e0 sua imagem, construir um ambiente totalmente criado pelo homem, e depois descobre que apenas o pode fazer na condi\u00e7\u00e3o de se estar totalmente a refazer a imagem dele pr\u00f3prio para se lhe adequar. Devemos agora enfrentar o facto de que \u00e9 a pr\u00f3pria pessoa que est\u00e1 em jogo.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 107)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Simbolizando um ambiente vital inteiramente programado, em que evanesce, ou n\u00e3o tem sequer lugar, a sensa\u00e7\u00e3o de contactar com aspectos da realidade que n\u00e3o foram objecto de manipula\u00e7\u00e3o intencional pelo ser humano, est\u00e1 a vida de uma grande metr\u00f3pole: \u00abUma crian\u00e7a nas ruas de Nova Iorque nunca toca nada que n\u00e3o tenha sido cientificamente desenvolvido, configurado, planeado e vendido a algu\u00e9m. (\u2026) A pr\u00f3pria aprendizagem \u00e9 definida como uma quest\u00e3o de consumo de algo, que \u00e9 o resultado de programas que foram objecto de investiga\u00e7\u00e3o, planeamento e promo\u00e7\u00e3o. O que quer que haja de bom, \u00e9 resultado de alguma educa\u00e7\u00e3o especializada. Seria insensato exigir alguma coisa que uma qualquer institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o pudesse produzir. A crian\u00e7a de uma cidade n\u00e3o pode esperar o que quer que seja que resida de fora do poss\u00edvel desenvolvimento de um processo institucional.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 108)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estudo do sistema escolar ter\u00e1, portanto, uma dupla inten\u00e7\u00e3o. Procura n\u00e3o s\u00f3 descobrir o que ele \u00e9 em si pr\u00f3prio e significa para a pessoa humana, como, igualmente, revelar o que nele se manifesta de um quadro institucional que, na verdade, em muito o ultrapassa, mas que desde o ponto de vista identificado por Ivan Illich realiza o mesmo ide\u00e1rio. \u00c9, portanto, na qualidade de <em>paradigma <\/em>das institui\u00e7\u00f5es modernas que a escola ser\u00e1 estudada (<em>Deschooling, <\/em>p. 2).<\/p>\n<hr \/>\n<p>Imagem: <a href=\"https:\/\/parallax-media.eu\/andrew-sweeny\/ivan-illichs-hour-of-legibility\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/parallax-media.eu\/andrew-sweeny\/ivan-illichs-hour-of-legibility<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14624,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-14623","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14623","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14623"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14623\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14625,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14623\/revisions\/14625"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14624"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14623"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14623"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14623"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}