{"id":14578,"date":"2022-06-02T07:00:53","date_gmt":"2022-06-02T06:00:53","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14578"},"modified":"2022-05-31T10:19:22","modified_gmt":"2022-05-31T09:19:22","slug":"tiago-ramalho-viii-ivan-illich-e-a-escolarizacao-i-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-viii-ivan-illich-e-a-escolarizacao-i-2\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | VIII | Ivan Illich e a Escolariza\u00e7\u00e3o (I-2)"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u2013 Distinguir para compreender (cont.) \u2013<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[<em>Introdu\u00e7\u00e3o geral: <\/em>nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-ivan-illich-uma-apresentacao\/\">1<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-vi-ivan-illich-uma-apresentacao-conclusao\/\">8<\/a>\/ I. <em>Ivan Illich e a Escolariza\u00e7\u00e3o: <\/em>nn.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-vii-i-ivan-illich-e-a-escolarizacao\/\">9<\/a> e ss.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 11. <em><u>Reflex\u00e3o desde a vida<\/u>. \u2013 <\/em>A reflex\u00e3o de Ivan Illich sobre o sistema escolar, conforme o pr\u00f3prio revela, foi espoletada pela respectiva experi\u00eancia pessoal. Enquanto Vice-Reitor da Universidade Cat\u00f3lica de Porto Rico ocupou um lugar no <em>Consejo Superior de Ensenanza,<\/em> um dos centros de \u00abprograma\u00e7\u00e3o\u00bb do sistema escolar (<em>Conversation, <\/em>p. 60; <em>Deschooling, <\/em>p. vii). Foi o embate com o que, a seus olhos, constitu\u00eda um insucesso do sistema escolar junto de uma parte significativa dos que o frequentavam, quando n\u00e3o promovendo mesmo a respectiva estultifica\u00e7\u00e3o (<em>Deschooling, <\/em>p. 66), que levou Ivan Illich a interrogar-se sobre a real \u00edndole do processo de escolariza\u00e7\u00e3o, revendo a simpatia que a princ\u00edpio reservava para pol\u00edticas de \u00abapoio ao desenvolvimento\u00bb. \u00c9 a experi\u00eancia a motivar a reflex\u00e3o (cf. o n.\u00ba 8): especialmente a experi\u00eancia de descobrir no sistema escolar um conjunto de pr\u00e1ticas que, pese embora o voraz consumo de recursos que reclama, criam (de modo certificado) aut\u00eanticas castas sociais de exclus\u00e3o. Conforme escreve, \u00abos pobres precisam de financiamento para aprenderem, n\u00e3o para verem certificado das suas alegadas desproporcionadas defici\u00eancias.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 6)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 12. <em><u>O significado da escola por entre as institui\u00e7\u00f5es sociais modernas<\/u><\/em><u>.<\/u> \u2013 Mas se Ivan Illich reservar\u00e1 especial aten\u00e7\u00e3o ao sistema escolar, f\u00e1-lo, n\u00e3o s\u00f3 pela sua realidade espec\u00edfica, mas por duas raz\u00f5es que o ultrapassam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em primeiro lugar, porque nele v\u00ea uma particular manifesta\u00e7\u00e3o de um conjunto de <em>outras <\/em>institui\u00e7\u00f5es modernas que seguem a mesma \u00edndole. O sistema escolar n\u00e3o \u00e9 uma realidade isolada por entre as m\u00faltiplas burocracias modernas, mas uma express\u00e3o particularmente clara de um conjunto de pr\u00e1ticas institucionais que t\u00eam um alcance mais vasto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em segundo lugar, porque pensa as institui\u00e7\u00f5es sociais como um p\u00f3lo com o qual a pessoa humana se encontra sempre em rela\u00e7\u00e3o. Por conseguinte, o estudo das institui\u00e7\u00f5es sociais modernas \u00e9 de especial relev\u00e2ncia, n\u00e3o apenas pelo que o seu estudo permitir\u00e1 revelar acerca <em>delas, <\/em>mas pelo que elas dizem acerca de <em>n\u00f3s, <\/em>pelo que conformam do <em>nosso <\/em>espa\u00e7o existencial e, por consequ\u00eancia, pelo que condicionam da <em>nossa <\/em>experi\u00eancia do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comecemos por ver a primeira vertente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em momentos diferentes da respectiva reflex\u00e3o, Ivan Illich serve-se de paralelos entre a l\u00f3gica que identifica subjazer ao sistema escolar e aquela que motiva outras institui\u00e7\u00f5es modernas. \u00c9 nesse sentido que afirma que \u00ab[n]\u00e3o s\u00f3 a educa\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m a realidade social foram escolarizadas.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 2) Semelhante l\u00f3gica passa pelo esfor\u00e7o programado e dirigido de expropriar a pessoa e as comunidades humanas mais origin\u00e1rias (fam\u00edlia, vizinhos, povoa\u00e7\u00e3o) da pretens\u00e3o de conseguir satisfazer com compet\u00eancia as respectivas necessidades mais b\u00e1sicas \u2013 e de confiaram nas suas pr\u00f3prias capacidades (<em>Deschooling, <\/em>pp. 3, 4). Estas deveriam ser antes supridas \u2013 eis a l\u00f3gica das \u00abburocracias do bem-estar\u00bb \u2013 mediante procedimentos programados, racionalizados, mais eficientes, que determinam <em>se<\/em>, <em>como<\/em> e <em>em que termos<\/em> tais necessidades devem ser supridas. Da\u00ed a sensa\u00e7\u00e3o de perda de referentes, de expropria\u00e7\u00e3o, de depend\u00eancia, de aliena\u00e7\u00e3o. Satisfazer necessidades \u00e9 agora sin\u00f3nimo de adquirir servi\u00e7os, tornando-se uma opera\u00e7\u00e3o de consumo; por consequ\u00eancia, os diferentes factores da vida social passam a ser mensur\u00e1veis (a \u00abpobreza\u00bb \u00e9 como insufici\u00eancia quantitativa de bens; a \u00abfalta de educa\u00e7\u00e3o\u00bb como insuficiente consumo de anos de ensino; etc.). Em discurso directo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abAs burocracias do bem-estar t\u00eam uma pretens\u00e3o do monop\u00f3lio profissional, pol\u00edtico e financeiro sobre a imagina\u00e7\u00e3o social, definindo par\u00e2metros a respeito do que \u00e9 valioso e do que \u00e9 realiz\u00e1vel. Este monop\u00f3lio est\u00e1 na raiz da moderniza\u00e7\u00e3o da pobreza. Cada simples necessidade para a qual uma resposta institucional \u00e9 encontrada permite a inven\u00e7\u00e3o de uma nova classe de pobres e de uma nova defini\u00e7\u00e3o de pobreza. H\u00e1 dez anos, era algo normal, no M\u00e9xico, nascer e morrer na sua pr\u00f3pria casa e ser inumado pelos amigos. Apenas as necessidades espirituais eram tomadas ao cuidado da Igreja institucional. Neste momento, come\u00e7ar e terminar a vida em casa tornou-se, ora sinal de pobreza, ora de privil\u00e9gio especial. O processo que conduz \u00e0 morte e a pr\u00f3pria morte caiu sob a gest\u00e3o institucional de m\u00e9dicos e agentes funer\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim que as necessidades b\u00e1sicas foram traduzidas pelas sociedades como procura de bens produzidos cientificamente, a pobreza \u00e9 definida por standards que os tecnocratas podem mudar de acordo com a sua vontade. A pobreza refere-se ent\u00e3o \u00e0queles que ficaram aqu\u00e9m de um ideal publicitado de consumo num qualquer assunto relevante. No M\u00e9xico, os pobres s\u00e3o aqueles a quem faltam tr\u00eas anos de escola, e em Nova Iorque aqueles a quem faltam doze.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os pobres foram sempre privados de poder social. A crescente confian\u00e7a no cuidado institucional introduz uma nova dimens\u00e3o ao seu desamparo: a impot\u00eancia psicol\u00f3gica, de se proverem \u00e0 pr\u00f3pria vida. (\u2026) Esta moderniza\u00e7\u00e3o da pobreza \u00e9 um fen\u00f3meno global, e est\u00e1 na origem do subdesenvolvimento contempor\u00e2neo.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 3)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal l\u00f3gica permeia diferentes institucionais sociais, independentemente das paragens em que se encontram, constituindo um marco caracterizante da \u00edndole espec\u00edfica de uma \u00e9poca hist\u00f3rica \u2013 do seu <em>ethos, <\/em>conforme express\u00e3o de Valentina Borremans, uma colaboradora pr\u00f3xima de Ivan Illich (<em>Deschooling, <\/em>p. vii):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abDurante os anos sessenta [d\u00e9cada imediatamente anterior \u00e0 da escrita desta linhas], institui\u00e7\u00f5es nascidas nas diferentes d\u00e9cadas posteriores \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Francesa atingiram em simult\u00e2neo uma avan\u00e7ada idade; o sistema p\u00fablico de escolas fundado no tempo de Jefferson ou de Atat\u00fcrk, assim como outros que come\u00e7aram apenas ap\u00f3s a 2.\u00aa Guerra Mundial, todos eles se tornam burocr\u00e1ticos, autojustificantes, e manipulativos. A mesma coisa ocorreu com os sistemas de seguran\u00e7a social, os sindicatos, as grandes igrejas e as diplomacias, o tratamento de idosos, e o tratamento dos defuntos. (\u2026) Hoje, todas as escolas s\u00e3o obrigat\u00f3rias, abertas, e competitivas. A mesma converg\u00eancia no estilo institucional afecta os cuidados de sa\u00fade, o merchandising, a administra\u00e7\u00e3o, e a vida pol\u00edtica. Uma fus\u00e3o de burocracias mundiais resulta desta converg\u00eancia de institui\u00e7\u00f5es.\u00bb (<em>Deschooling, <\/em>p. 61)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na medida em que esta l\u00f3gica se torna \u00abglobal\u00bb, passa a caracterizar todo o ambiente em que a pessoa respira. Torna-se, portanto, uma forma <em>pol\u00edtica, <\/em>que, determinando o espa\u00e7o de rela\u00e7\u00e3o entre <em>pessoas <\/em>na sua pluralidade, por consequ\u00eancia determina a concreta condi\u00e7\u00e3o em que cada uma se encontra. Em suma: a pol\u00edtica determina a antropologia.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem: https:\/\/br.atsit.in\/archives\/165081<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14581,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-14578","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14578","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14578"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14578\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14582,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14578\/revisions\/14582"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14581"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14578"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14578"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14578"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}