{"id":14562,"date":"2022-05-26T07:00:01","date_gmt":"2022-05-26T06:00:01","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14562"},"modified":"2022-05-31T10:16:50","modified_gmt":"2022-05-31T09:16:50","slug":"tiago-ramalho-vii-i-ivan-illich-e-a-escolarizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-vii-i-ivan-illich-e-a-escolarizacao\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | VII | Ivan Illich e a Escolariza\u00e7\u00e3o (I-1)"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u2013 Distinguir para compreender \u2013<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 9. <em><u>O tema da escolariza\u00e7\u00e3o<\/u><\/em>. \u2013 Embora o tema da educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha sido o objecto dos primeiros escritos de Ivan Illich, foram as reflex\u00f5es nessa \u00e2mbito que o lan\u00e7aram para certo \u00abestrelato\u00bb p\u00fablico (<em>Journey, <\/em>p. 94).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tais reflex\u00f5es s\u00e3o especialmente desenvolvidas na obra <em>Deschooling Society <\/em>(1970), que re\u00fane compostos na fase do CIDOC (cf. n.\u00ba 6). Mas o tema est\u00e1 tratado igualmente em textos avulsos, alguns anteriores ou contempor\u00e2neos aos reunidos em <em>Deschooling<\/em>, como <em>The Futility of Schooling <\/em>(1968) e <em>School: The Sacred Cow<\/em> (cf. <em>Awareness, <\/em>pp. 105-120), outros posteriores, como <em>The Education Sphere <\/em>(1979) e <em>The History of <\/em>Homo Educandus (1984) (cf. <em>Past, <\/em>pp. 105-118). O tema da <em>educa\u00e7\u00e3o <\/em>\u00e9, por fim, objecto de reflex\u00e3o retrospectiva nas duas primeiras entrevistas constantes de <em>Conversation, <\/em>pp. 59 a 104, e em parte da respectiva reflex\u00e3o constante de <em>Rivers, <\/em>pp. 139-145. David Cayley considera-o no cap\u00edtulo 4 de <em>Journey, <\/em>pp. 94-118.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrevi <em>educa\u00e7\u00e3o<\/em>, mas devo corrigir para <em>escolariza\u00e7\u00e3o<\/em>. De facto, s\u00f3 de um modo mediato incide a reflex\u00e3o de Ivan Illich sobre o tema da <em>educa\u00e7\u00e3o<\/em>. Directamente, a realidade sobre a qual se debru\u00e7a \u00e9 a da <em>escolariza\u00e7\u00e3o <\/em>(ou a do \u00absistema educativo\u00bb)<em>, <\/em>ou seja, o sistema organizado de pr\u00e1ticas destinadas a ministrar uma <em>educa\u00e7\u00e3o <\/em>mediante uma institui\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, a \u00abescola\u00bb. \u00c9 certo que a escolariza\u00e7\u00e3o tem lugar em nome da educa\u00e7\u00e3o. Mas, como veementemente repete Ivan Illich, as duas podem n\u00e3o coincidir: por um lado, porque a escolariza\u00e7\u00e3o, mesmo se feita em nome da educa\u00e7\u00e3o, pode ter resultados contraproducentes ou efeitos secund\u00e1rios indesejados; por outra, pelas muitas formas de educa\u00e7\u00e3o independentes do sistema escolar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De entre os muitos prop\u00f3sitos da vigorosa investida de Ivan Illich contra o sistema de escolariza\u00e7\u00e3o, o fim central parece ser o de cortar essa abusiva identifica\u00e7\u00e3o entre <em>escolariza\u00e7\u00e3o <\/em>e <em>educa\u00e7\u00e3o<\/em>, deste modo abrindo o espa\u00e7o para re-situar o debate acera dos melhores meios de educa\u00e7\u00e3o. Se, nos termos correntes, o debate sobre a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 usualmente identificado como tendo por objecto o sistema escolar, Ivan Illich \u00e9 muito claro na ruptura com uma semelhante identifica\u00e7\u00e3o, optando por lan\u00e7ar um conjunto de perguntas de grande relevo para ajuizar dos m\u00e9ritos e limita\u00e7\u00f5es do sistema escolar. Qual a sua real fisionomia? Como s\u00e3o as escolas? Quais os seus efeitos? O que vai implicado nas respectivas pretens\u00f5es? Qual a ideia de educa\u00e7\u00e3o, e de sociedade, que pressup\u00f5em, veiculam e realizam?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deste modo, pode abrir o espa\u00e7o para o lan\u00e7amento de novas quest\u00f5es: ante as caracter\u00edsticas das escolas, s\u00e3o poss\u00edveis outros modos de educa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o passem por elas? S\u00e3o poss\u00edveis modos de participa\u00e7\u00e3o social que n\u00e3o passem pelo sistema de escolariza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta que dar\u00e1 \u00e9 positiva. Da\u00ed o t\u00edtulo do seu escrito pol\u00e9mico: <em>Desescolarizar a sociedade <\/em>(<em>Deschooling society), <\/em>precedido de um outro curto texto, de t\u00edtulo bem demonstrativo das inten\u00e7\u00f5es com que se dedica ao tema, chamado<em> A futilidade da escola <\/em>(<em>The futility of schooling<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 10. <em><u>Duas distin\u00e7\u00f5es<\/u>. \u2013 <\/em>Imp\u00f5em-se algumas distin\u00e7\u00f5es que balizem o pensamento de Ivan Illich, evitando que se lhe tribute aquilo que o pr\u00f3prio n\u00e3o sustenta ou que lhe \u00e9 mesmo frontalmente contr\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sustenta, primeiro, qualquer relativiza\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia da <em>educa\u00e7\u00e3o <\/em>ou do <em>saber <\/em>\u2013 sempre ser\u00e1 claro para os seus pr\u00f3ximos, ali\u00e1s, estare m na presen\u00e7a de um \u00abaristocrata\u00bb do saber (cf. o que se escreveu no n.\u00ba 4)<em>. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 certo que um dos poss\u00edveis eixos de cr\u00edtica \u00e0 \u00abescolariza\u00e7\u00e3o\u00bb poderia assentar no confronto entre <em>natureza <\/em>e <em>cultura<\/em>, tida aquela como de \u00edndole boa e esta \u00faltima como corrosiva da inata bondade humana. A \u00abdesescolariza\u00e7\u00e3o\u00bb teria assim em vista retirar essas camadas superficiais de cultura que sempre impediriam o espont\u00e2neo desenvolvimento da pessoa humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, uma tal perspectiva est\u00e1 nos ant\u00edpodas da reflex\u00e3o de Ivan Illich. O bin\u00f3mio com o qual trabalha n\u00e3o \u00e9 o da oposi\u00e7\u00e3o entre <em>natureza <\/em>e <em>cultura, <\/em>mas o do confronto de <em>diferentes formas de cultura<\/em>. N\u00e3o op\u00f5e o <em>sistema educativo<\/em> \u00e0 <em>realidade natural, <\/em>mas sim diferentes formas de educar, a escolar e as outras \u2013 todas elas s\u00e3o, por\u00e9m, de \u00edndole cultural. Para Ivan Illich \u00e9 claro que a pessoa humana, fruto da sua debilidade, carece de formas de coopera\u00e7\u00e3o que lhe permitam desenvolver o que, sem elas, ficar\u00e1 sempre por manifestar-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em segundo lugar, a perspectiva de Ivan Illich est\u00e1 nos ant\u00edpodas de uma qualquer perspectiva <em>an\u00e1rquica <\/em>das rela\u00e7\u00f5es sociais. A violenta cr\u00edtica que dirige \u00e0s institui\u00e7\u00f5es modernas n\u00e3o \u00e9 feita <em>contra <\/em>a necessidade de institui\u00e7\u00f5es, mas em nome de <em>melhores <\/em>institui\u00e7\u00f5es. A respeito do poder, assim dir\u00e1 numa fase mais avan\u00e7ada da vida: \u00abO poder foi sempre algo que me causou preocupa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o porque o rejeitasse, mas por causa do seu sabor amb\u00edguo.\u00bb (<em>Rivers, <\/em>p. 139)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3prio, ali\u00e1s, declarar\u00e1 expressamente nada ter contra a realidade das escolas, mas apenas contra o lugar que ocupam na sociedade, nomeadamente mediante a prescri\u00e7\u00e3o da escolaridade m\u00ednima obrigat\u00f3ria (<em>Deschooling, <\/em>p. 68).<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem: <a href=\"https:\/\/www.sampol.be\/2003\/01\/denken-aan-ivan-illich\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.sampol.be\/2003\/01\/denken-aan-ivan-illich<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14563,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-14562","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14562","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14562"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14562\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14580,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14562\/revisions\/14580"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14563"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14562"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14562"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14562"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}