{"id":1452,"date":"2017-07-05T12:05:59","date_gmt":"2017-07-05T11:05:59","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=1452"},"modified":"2017-07-17T11:08:21","modified_gmt":"2017-07-17T10:08:21","slug":"muito-mais-do-que-um-rumor-de-anjos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/muito-mais-do-que-um-rumor-de-anjos\/","title":{"rendered":"Muito mais do que um rumor de anjos"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\">Muito mais do que um rumor de anjos<\/h3>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>A modernidade significa o fim da religi\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(A pretexto da morte de Peter Berger, em 27 de junho de 2017)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Silva (Texto)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou\u00e7o, em fundo, Arvo P\u00e4rt. N\u00e3o \u00e9 por acaso. A vida e obra deste compositor estoniano ilustram, na perfei\u00e7\u00e3o, o que me proponho analisar, ao longo deste artigo: a morte da ideia de que a modernidade conduziria ao fim da religi\u00e3o. Ouvir Arvo P\u00e4rt, ouvi-lo em \u00abOrient-Occident\u00bb, em \u00abArbos\u00bb, \u00abPassio\u00bb, \u00abFratres\u00bb, confirma a omnipresen\u00e7a do religioso na vida de algu\u00e9m que assistiu \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica do seu pa\u00eds por um longo inverno de 50 anos, ocupa\u00e7\u00e3o que fez da tentativa de silenciar a \u00abobscurantista\u00bb religi\u00e3o um dos seus grandes fins.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assistimos, durante d\u00e9cadas, \u00e0 defesa da ideia de que a religi\u00e3o perderia a sua relev\u00e2ncia social com o avan\u00e7ar da modernidade. Esta tese, designada como teoria da seculariza\u00e7\u00e3o, encontra a sua paternidade em M. Weber, mas encontra em Peter Berger um dos seus maiores mentores dos finais do s\u00e9culo XX. De tal modo que as suas obras s\u00e3o traduzidas para chin\u00eas, nas d\u00e9cadas de 90, e \u00e9 mesmo convidado pelo governo da China para ali apresentar as suas ideias, j\u00e1 depois de 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tese era simples e podemos encontrar a sua formula\u00e7\u00e3o, recorrendo, por exemplo, \u00e0 defini\u00e7\u00e3o que nos apresenta a wikipedia:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abA seculariza\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo atrav\u00e9s do qual a religi\u00e3o perde a sua influ\u00eancia sobre as variadas esferas da vida social. Essa perda de influ\u00eancia repercute-se na diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de membros das religi\u00f5es e de suas pr\u00e1ticas, na perda do prest\u00edgio das igrejas e organiza\u00e7\u00f5es religiosas, na influ\u00eancia na sociedade, na cultura, na diminui\u00e7\u00e3o das riquezas das institui\u00e7\u00f5es religiosas, e, por fim, na desvaloriza\u00e7\u00e3o das cren\u00e7as e dos valores a elas associados. A partir do s\u00e9culo XIX, houve um progressivo decl\u00ednio da influ\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es religiosas tradicionais. Este decl\u00ednio verificou-se tanto na pr\u00e1tica dos fi\u00e9is, como na dificuldade crescente em recrutar clero para o desenvolvimento e manuten\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o. A maior parte dos estudos versou a tentativa de compreens\u00e3o deste fen\u00f3meno.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enunciada deste modo, a seculariza\u00e7\u00e3o, entendida num registo de secularismo, parece ser uma certeza insofism\u00e1vel do fim da relev\u00e2ncia da religi\u00e3o, a que n\u00e3o resta sen\u00e3o dar o cr\u00e9dito de quem aguarda pela senten\u00e7a de morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada mais errado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem o reconhece \u00e9 o pr\u00f3prio guru da teoria da seculariza\u00e7\u00e3o, Peter Berger.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num livro recentemente publicado, em cuja primeira edi\u00e7\u00e3o espanhola de agosto de 2016 me baseio, Berger afirma: \u00ablevei 25 anos a chegar \u00e0 conclus\u00e3o de que a teoria da seculariza\u00e7\u00e3o se tornou empiricamente <strong>insustent\u00e1vel<\/strong>. Anunciei a minha mudan\u00e7a de parecer com muito estrondo na introdu\u00e7\u00e3o a um livro que editei em 1999, a \u00abdes-seculariza\u00e7\u00e3o do mundo\u00bb. Acreditei ser importante sublinhar que esta transforma\u00e7\u00e3o na minha forma de pensar n\u00e3o respondia a uma convers\u00e3o filos\u00f3fica ou teol\u00f3gica. [\u2026] O que sucedeu foi muito menos dr\u00e1stico: tornou-se cada vez mais evidente que os dados emp\u00edricos contradiziam a teoria. Com algumas exce\u00e7\u00f5es \u2013 sobretudo na Europa e na intelectualidade internacional \u2013 o nosso mundo \u00e9 tudo menos secular; \u00e9 t\u00e3o religioso como sempre, e em alguns lugares, ainda mais\u00bb. Peter Berger dixit!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este reconhecimento \u00e9 duplamente relevante. Em primeiro lugar por provir de quem o assume. Peter Berger \u00e9, provavelmente, o mais influente soci\u00f3logo da religi\u00e3o do \u00faltimo meio s\u00e9culo. Em segundo lugar, porque, como ele mesmo reconhece neste livro, uma teoria sociol\u00f3gica n\u00e3o tem, apenas, uma dimens\u00e3o abstrata e descritiva. Uma teoria sociol\u00f3gica tem, tamb\u00e9m, uma dimens\u00e3o normativa e constitui-se como um paradigma. Dito de outro modo: a teoria serve a pr\u00e1tica e condiciona-a, tremendamente. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber que a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a forma de legislar, tem sido altamente condicionada por esta teoria. Quantos conflitos se t\u00eam gerado em nome do silenciamento do religioso, em nome da certeza de que o que se est\u00e1 a fazer \u00e9, afinal, acelerar algo inevit\u00e1vel? Ora, o que Peter Berger vem afirmar, nesta obra, \u00e9 que a teoria da seculariza\u00e7\u00e3o deve ser substitu\u00edda pela do pluralismo. (Melhor seria, como afirma Fenggang Yang, chamar-lhe \u00abpluralidade\u00bb). O que temos, hoje, \u00e9 a pluralidade: seja de experi\u00eancias religiosas, seja de discursos: temos o discurso secular a conviver com o discurso religioso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal constata\u00e7\u00e3o bergeriana constitui um enorme desafio, seja para as rela\u00e7\u00f5es entre as Igrejas\/religi\u00f5es e os Estados, seja no \u00e2mbito mais restrito da a\u00e7\u00e3o evangelizadora da Igreja, no contexto eclesial crist\u00e3o. O centro n\u00e3o deveria, j\u00e1, estar na preocupa\u00e7\u00e3o com a efic\u00e1cia do discurso secularizante, mas antes na realidade da pluralidade, o que recentra na busca da especificidade da cosmovis\u00e3o crist\u00e3 diante de outros discursos religiosos e j\u00e1 n\u00e3o tanto na d\u00favida sobre a relev\u00e2ncia do discurso religioso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verifica\u00e7\u00e3o de que esta mudan\u00e7a de vis\u00e3o, da parte de Peter Berger, j\u00e1 come\u00e7a a gerar frutos \u00e9 vis\u00edvel no pr\u00f3prio mundo chin\u00eas, ainda devedor da vis\u00e3o marxista\/mao\u00edsta de que a religi\u00e3o \u00e9 \u00f3pio. Tamb\u00e9m ali come\u00e7am a notar-se a brechas na barragem do discurso secularista: em maio de 2014, na universidade de Purdue (EUA), realizou-se um simp\u00f3sio com juristas, ministros e estudantes chineses, subordinado ao tema \u00abliberdade religiosa e sociedade chinesa\u00bb, tendo-se celebrado o \u00abconsenso de Purdue sobre liberdade religiosa\u00bb, assinado por 52 pessoas e publicado em 14 de maio de 2014. Disto nos d\u00e1 conta Fenggang Yang, um dos autores convidados para participar no livro de Peter Berger, \u00abos numerosos altares da modernidade\u00bb, agosto de 2016 (Ediciones S\u00edgueme), que serve de base \u00e0 reflex\u00e3o que aqui apresento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conclus\u00e3o a tirar do que aqui apresentamos \u00e9 clara e podemos enunci\u00e1-la com palavras de Detlef Pollack, um outro autor convidado a participar nesta obra: \u00abno que respeita \u00e0 teoria da seculariza\u00e7\u00e3o, era correta a intui\u00e7\u00e3o de que se desenvolveu um discurso secular influente, que se uniu ao discurso religioso e inclusive gozou de uma posi\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio tanto na sociedade como na mente do indiv\u00edduo. Mas estava equivocada ao assumir que o discurso secular expulsara a cosmovis\u00e3o religiosa e que, agora, poderia dominar por completo as defini\u00e7\u00f5es da realidade e das escalas de valores. Diante dos pressupostos da teoria da seculariza\u00e7\u00e3o, a moderniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o conduziu inevitavelmente \u00e0 total seculariza\u00e7\u00e3o da sociedade. Antes, a consequ\u00eancia inelud\u00edvel da modernidade foi a diversifica\u00e7\u00e3o das cosmovis\u00f5es e dos sistemas de valores.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E regresso a Arvo P\u00e4rt\u2026 E ou\u00e7o, em contempla\u00e7\u00e3o religiosa, a m\u00fasica que, feita de notas que s\u00e3o sinais que permitem a manipula\u00e7\u00e3o das vibra\u00e7\u00f5es sonoras, me elevam para al\u00e9m do lugar f\u00edsico em que me encontro. O discurso que explica a m\u00fasica n\u00e3o esgota a densidade da m\u00fasica que ou\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00e2mbito religioso \u00e9 muito mais do que um verniz que banha a madeira. \u00c9 a seiva que irriga o interior da \u00e1rvore. Pretender sec\u00e1-la e substitu\u00ed-la n\u00e3o altera, apenas, uma certa forma de a madeira de apresentar: modifica a sua natureza. O homem \u00e9 intrinsecamente religioso, mesmo quando age \u00abcomo se Deus n\u00e3o existisse\u00bb. Porque ser humano \u00e9 transcender-se e corresponder ao desejo de transcend\u00eancia. Em boa-hora veio o reconhecimento da sociologia. Assim a saibam ouvir os que t\u00eam nas m\u00e3os os destinos do mundo! Porque este \u00e9 muito mais do que um rumor de anjos (t\u00edtulo de uma das obras de Berger): \u00e9 o fragor da \u00e1gua que brota da nascente definitiva!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito mais do<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1462,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,55,13,70,14],"tags":[],"class_list":["post-1452","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-olhares","category-para-memoria","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1452","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1452"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1452\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1455,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1452\/revisions\/1455"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1462"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1452"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1452"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1452"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}