{"id":14428,"date":"2022-05-05T07:00:36","date_gmt":"2022-05-05T06:00:36","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14428"},"modified":"2022-05-02T12:13:30","modified_gmt":"2022-05-02T11:13:30","slug":"tiago-ramalho-iv-ivan-illich-uma-apresentacao-cont","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-iv-ivan-illich-uma-apresentacao-cont\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | IV | Ivan Illich: uma apresenta\u00e7\u00e3o (cont.)"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8211; Marcos da vida de Ivan Illich (cont.) &#8211; <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 6. <em><u>Terceira fase: <\/u><\/em><u>o \u00abestrelato\u00bb <em>intelectual.<\/em><\/u><em> \u2013 <\/em>\u00abExpulso\u00bb de Porto Rico na sequ\u00eancia de um conflito com o episcopado porto-riquenho, a quem publicamente criticara pelo modo como interviera no \u00e2mbito de uma campanha pol\u00edtica em que procurara evitar que o voto dos eleitores cat\u00f3licos se dirigisse a um poss\u00edvel candidato presidencial (Robert F. Kennedy) favor\u00e1vel \u00e0 comercializa\u00e7\u00e3o livre de anticonceptivos (o epis\u00f3dio \u00e9 narrado em <em>Conversation, <\/em>pp. 88-89), a vida de Ivan Illich inicia uma nova fase. Est\u00e1vamos no ano de 1960.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 do tempo em que fora Vice-Reitor da Universidade Cat\u00f3lica e em que tomara parte do Conselho Educativo Nacional de Porto Rico provinha a forte suspeita em rela\u00e7\u00e3o aos m\u00e9todos de \u00abescolariza\u00e7\u00e3o\u00bb modernos e ao quadro de valores que pressup\u00f5em e realizam (n.\u00ba 5). Mas \u00e9 desta nova fase de \u00abestrelato\u00bb intelectual que resultar\u00e3o as principais reflex\u00f5es sobre o tema, que depois se expandir\u00e3o de modo a abarcar outras institui\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas modernas que, na apar\u00eancia distintas, realizam o mesmo ide\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o s\u00f3 de reflex\u00e3o se faz esta fase da vida. Tamb\u00e9m de ac\u00e7\u00e3o \u2013 e de uma ac\u00e7\u00e3o que \u00e9 motor da reflex\u00e3o. Ivan Illich empenha-se agora na cria\u00e7\u00e3o de singulares centros de <em>aprendizagem <\/em>(de \u00abaprendizagem\u00bb e n\u00e3o de \u00abensino\u00bb, se \u00e9 l\u00edcita a distin\u00e7\u00e3o). Ap\u00f3s uma experi\u00eancia pr\u00e9via de cria\u00e7\u00e3o de um primeiro centro em Porto Rico e de um conhecimento mais aprofundado de uma Am\u00e9rica Latina por onde viajara por esses anos \u2013 mas tamb\u00e9m de um retiro de discernimento de 40 dias em Tamanrasset, Arg\u00e9lia, junto dos \u00abPequenos Irm\u00e3os de Jesus\u00bb de S\u00e3o Charles de Foucauld \u2013, cria em 1965, na cidade de Cuarnavaca, M\u00e9xico, o <em>Centro Intercultural de Documentaci\u00f3n <\/em>(CIDOC). Na apar\u00eancia tratava-se de um centro de forma\u00e7\u00e3o de l\u00ednguas (l\u00edngua espanhola) e de culturas locais, destinado a formar poss\u00edveis \u00abmission\u00e1rios\u00bb para o continente norte-americano, num tempo de grande entusiasmo pela ajuda ao desenvolvimento (no plano secular) ou pela miss\u00e3o (no plano religioso).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o CIDOC seguia, conforme o pr\u00f3prio Ivan Illich o confessa, uma (passe o paradoxo) <em>clara agenda oculta: <\/em>tinha em vista, n\u00e3o propriamente formar, mas <em>deformar <\/em>o voluntarismo (tantas vezes bem intencionado) de uma ajuda ao desenvolvimento ou de uma miss\u00e3o fortemente ignorante das culturas locais, que, apesar da benignidade dos seus prop\u00f3sitos declarados, pode constituir uma forma de viol\u00eancia exercida sobre as tradi\u00e7\u00f5es locais. O pr\u00f3prio revelava tratar-se, n\u00e3o sem a usual pitada de provoca\u00e7\u00e3o, de um \u00abcentro de desianquifica\u00e7\u00e3o\u00bb (<em>Journey, <\/em>p. 55).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A proposta do CIDOC era a de facultar uma forte imers\u00e3o na cultura local, a ponto de provocar nos respectivos estudantes, pela empatia com a realidade que lhes era dada a conhecer, a clara tomada de consci\u00eancia do sacrif\u00edcio implicado na indiferente imposi\u00e7\u00e3o do quadro institucional pr\u00f3prio das burocracias modernas sob a capa de ajuda ao desenvolvimento ou de miss\u00e3o evangelizadora. Era um centro de especial exig\u00eancia (<em>Journey, <\/em>pp. 56-57). Ao mesmo tempo, funcionava igualmente como um centro de confer\u00eancias, de realiza\u00e7\u00e3o de semin\u00e1rios especializados, promovia certa actividade editorial, gozava de uma biblioteca, etc. Muitos dos textos de Ivan Illich deste per\u00edodo passaram, ali\u00e1s, pelo crivo da discuss\u00e3o no CIDOC.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Data desta altura o afastamento da Igreja Cat\u00f3lica. Pouco ap\u00f3s a morte do Cardeal Spellmann (1967), Ivan Illich \u00e9 chamado a responder perante a Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9. Embora compare\u00e7a, recusar\u00e1 responder \u00e0s quest\u00f5es colocadas. Mesmo n\u00e3o sendo objecto de nenhuma condena\u00e7\u00e3o formal (de resto, o Anu\u00e1rio Pontif\u00edcio continuar\u00e1 por longos anos a referir-se a Ivan Illich como \u00abMonsenhor\u00bb, t\u00edtulo eclesi\u00e1stico que recebera enquanto sacerdote incardinado em Nova Iorque), ser\u00e1 lan\u00e7ada uma interdi\u00e7\u00e3o \u2013 revogada em 1969 \u2013 de que sacerdotes e religiosos frequentem o CIDOC. \u00a0\u00c9 pouco ap\u00f3s estes acontecimentos que Ivan Illich renuncia ao exerc\u00edcio de of\u00edcios sacerdotais, ao entender que o protagonismo adquirido e a animosidade em rela\u00e7\u00e3o em si eram incompat\u00edveis com o adequado exerc\u00edcio do sacerd\u00f3cio. At\u00e9 ao fim de vida conservou, por\u00e9m, a grande frugalidade de vida. Conforme o pr\u00f3prio declara, se n\u00e3o manteve a obedi\u00eancia (institucional), conduziu a sua pr\u00f3pria vida em celibato e em pobreza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram estes os anos de maior presen\u00e7a p\u00fablica de Ivan Illich, mesmo de <em>estrelato: <\/em>\u00abguru de toda uma gera\u00e7\u00e3o, figura de proa de toda uma gera\u00e7\u00e3o\u00bb (Cl\u00e9mence Boulouque, <em>Le Figaro, <\/em>4\/12\/2002). O CIDOC constitu\u00eda um dos p\u00f3los efervescentes do pensamento nessas d\u00e9cadas de 60 e 70. Por a\u00ed passaram nomes como John Rawls ou Peter L. Berger. Ou ainda Gustavo Gutierrez. Ou mesmo o \u00abnosso\u00bb Boaventura de Sousa Santos&#8230; Tal lugar era ent\u00e3o um \u00abmagneto para pensadores independentes\u00bb, conforme escreve Harvey Cox no seu belo obitu\u00e1rio para o <em>National Catholic Reporter <\/em>(20\/12\/2002). De resto, ao longo do per\u00edodo est\u00e1 Ivan Illich em contacto com algumas das mais destacas figuras do tempo, no plano eclesi\u00e1stica (por ex., Dom H\u00e9lder C\u00e2mara), cultural (por ex., Paulo Freire) ou de ambos (por ex., Jacques Maritain). O CIDOC funcionou at\u00e9 1976.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram esses anos especialmente cr\u00edticos no plano pessoal e de grande apreens\u00e3o no plano pol\u00edticas (\u00e9 a d\u00e9cada em que sai a apocal\u00edptica m\u00fasica <em>This is the end <\/em>dos The Doors\u2026). Mas foi tamb\u00e9m um tempo de <em>grandes esperan\u00e7as, <\/em>em que as fortes tens\u00f5es permitiam antever a possibilidade de diferentes equil\u00edbrios sociais. \u00c9 por isso que neste per\u00edodo Ivan Illich se empenha com todas as for\u00e7as em dirigir o debate p\u00fablico num sentido diferente daquele que via a desenvolver-se, por isso multiplicando os seus escritos pol\u00e9micos (a que chama \u00abpanfletos\u00bb) e, durante e depois, as confer\u00eancias de interven\u00e7\u00e3o nas mais diferentes paragens.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Foto: <a href=\"http:\/\/humana.social\/as-redes-de-aprendizagem-de-ivan-illich\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/humana.social\/as-redes-de-aprendizagem-de-ivan-illich\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14429,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-14428","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14428","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14428"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14428\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14430,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14428\/revisions\/14430"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14429"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14428"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14428"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14428"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}