{"id":14381,"date":"2022-04-28T07:00:37","date_gmt":"2022-04-28T06:00:37","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14381"},"modified":"2022-04-27T17:31:41","modified_gmt":"2022-04-27T16:31:41","slug":"tiago-ramalho-ivan-illich-uma-apresentacao-cont-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-ivan-illich-uma-apresentacao-cont-2\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Ivan Illich: uma apresenta\u00e7\u00e3o (cont.)"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Marcos da vida de Ivan Illich (cont.) &#8211; <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 5. <em><u>Segunda fase: sacerdote cat\u00f3lico<\/u>. <\/em>\u2013 Fora Ivan Illich ordenado sacerdote em 1951. Em virtude das suas caracter\u00edsticas pessoais \u2013 a origem, o percurso, o perfil (n.\u00ba 4) \u2013, augurava-se um percurso eclesi\u00e1stico junto da c\u00faria romana. Ali\u00e1s, a n\u00e3o menos o ter\u00e1 instado algu\u00e9m como Giovanni Montini<em>, <\/em>o futuro Papa S\u00e3o Paulo VI. Demonstra-o igualmente o facto de, mesmo numa fase em que se encontrava distante do v\u00e9rtice eclesial de Roma, ter sido um dos te\u00f3logos que acompanhou o Cardeal Suenens no Conc\u00edlio Vaticano II, um dos quatro cardeais moderadores do Conc\u00edlio Vaticano II.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o foi esse o percurso que escolheu. Os entrecruzamentos que j\u00e1 o caracterizavam por condi\u00e7\u00e3o (ver n.\u00ba 4) continuam a ter lugar, agora por op\u00e7\u00e3o pessoal<em>. <\/em>Quando tudo apontaria para que permanecesse no cora\u00e7\u00e3o da Europa<em>, <\/em>eis que cruza mais uma fronteira, desta vez a do Atl\u00e2ntico, e se desloca para essa enorme periferia cat\u00f3lica que constitui o continente americano, onde passar\u00e1 a parte interm\u00e9dia (e mais destacada) da sua vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O prop\u00f3sito que motivou Ivan Illich a deslocar-se para os Estados Unidos foi, ent\u00e3o, o de continuar os seus estudos. Procurava realizar o equivalente ao grau acad\u00e9mico que no espa\u00e7o de l\u00edngua alem\u00e3 se designa <em>Habilitation, <\/em>que corresponde a um estudo de investiga\u00e7\u00e3o aprofundado p\u00f3s-doutoral, de maturidade, que habilita ao exerc\u00edcio est\u00e1vel <em>ex cathedra<\/em> da doc\u00eancia universit\u00e1ria. Tinha em vista fazer tais estudos em <em>Princeton, <\/em>dedicando-os a um dos expoentes da escol\u00e1stica, o dominicano S\u00e3o Alberto Magno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas logo surge nova inflex\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 nos Estados Unidos, \u00e9 surpreendido pela chegada maci\u00e7a de uma nova comunidade de imigrantes cat\u00f3lica, a de Porto Rico, imigrantes que, n\u00e3o sendo propriamente<em> estrangeiros <\/em>(Porto Rico goza de um peculiar estatuto de associa\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos), provinham de uma realidade <em>estranha <\/em>aos Estados Unidos (<em>Not Foreigners, yet Foreign <\/em>\u00e9, justamente, o t\u00edtulo de um texto de Ivan Illich). Semelhante estraneidade resultava, n\u00e3o s\u00f3 da sua religi\u00e3o <em>minorit\u00e1ria<\/em> no quadro norte-americano, a <em>cat\u00f3lica, <\/em>como sobretudo da l\u00edngua nativa (o espanhol e n\u00e3o o ingl\u00eas), e, sobretudo, de trazerem consigo uma cultura <em>latino-americana <\/em>resultante da s\u00edntese entre as pr\u00e1ticas trazidas pela expans\u00e3o colonizadora espanhola e as tradi\u00e7\u00f5es propriamente locais. Traziam consigo, portanto, n\u00e3o s\u00f3 um diferente modo de ser americano, como tamb\u00e9m um diferente modo de ser cat\u00f3lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 perante o fen\u00f3meno da chegada em massa da imigra\u00e7\u00e3o porto-riquenha e da sua imediata subalterniza\u00e7\u00e3o no confronto com outras comunidades de imigrantes \u2013 algumas das quais cat\u00f3licas \u2013 j\u00e1 claramente estabelecidas, como as comunidades irlandesa ou italiana, que Ivan Illich pede com sucesso ao Cardeal Spellman, Arcebispo de Nova-Iorque, que lhe seja confiado o cuidado pastoral desta nova comunidade. Era ent\u00e3o o Cardeal Spellman uma das figuras de proa do episcopado norte-americano, que, a fazer f\u00e9 nos retratos usuais que de si nos chegam, incorporava uma certa ideia dos Estados Unidos assente na estreita articula\u00e7\u00e3o entre dados valores patri\u00f3ticos e certos valores institucionais crist\u00e3os. Fica a imagem de um certo tipo de personalidade estreitamente associada ao <em>establishment <\/em>pol\u00edtico-eclesial, nos ant\u00edpodas, ali\u00e1s, daquela do iconoclasta Ivan Illich (<em>Journey, <\/em>p. 40). E, contudo, fica igualmente o testemunho, dado quer pelo pr\u00f3prio Ivan Illich (<em>Conversation, <\/em>p. 86), quer pelo Cardeal Spellman, que a Ivan Illich se referia como um padre \u00abobediente sob todos os pontos de vista\u00bb (<em>Rivers, <\/em>p. 234, n. 29), de uma rela\u00e7\u00e3o de enorme apre\u00e7o e de forte lealdade. N\u00e3o por acaso, as fortes dificuldades que Ivan Illich em breve vir\u00e1 a sentir em conservar a comunh\u00e3o vis\u00edvel com a Igreja ser\u00e3o contempor\u00e2neas do per\u00edodo da morte deste prelado. O modo como estas duas personalidades reciprocamente se olham \u00e9 suficiente para mostrar como a realidade \u00e9 sempre mais complexa, mais rica, do que a sua f\u00e1cil caricatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Junto da comunidade porto-riquenha, tem Ivan Illich por objectivo resgat\u00e1-la da condi\u00e7\u00e3o de subalternidade, mesmo invisibilidade, em que se encontrava. Procurava que o seu <em>rosto <\/em>se pudesse afirmar por entre os muitos que compunham a cidade de Nova Iorque. N\u00e3o se tratava, assim, de um trabalho de <em>integra\u00e7\u00e3o, <\/em>se por ela se entender um esfor\u00e7o de assimila\u00e7\u00e3o nos termos do qual a comunidade imigrante se aproxima at\u00e9 \u00e0 perfeita indistin\u00e7\u00e3o daquela com que se defronta (ali\u00e1s, sempre caberia perguntar: numa cidade como Nova Iorque, <em>a quem ao certo <\/em>se haveria de assemelhar?). O esfor\u00e7o era mais o de <em>afirma\u00e7\u00e3o <\/em>no quadro de um tecido humano plural, garantindo uma presen\u00e7a p\u00fablica respeitadora da idiossincrasia do grupo imigrante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De modo perfeitamente concorde com estes prop\u00f3sitos, o fim do <em>munus <\/em>pastoral de Ivan Illich junto da comunidade porto-riquenha foi assinalado, em 1956, com uma <em>fiesta <\/em>na qual tomaram parte 30\u00a0000 pessoas. Ora, qualquer festa \u00e9 uma sonora, jubilosa, alegre sinaliza\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a p\u00fablica de um grupo, que j\u00e1 n\u00e3o teme dar-se a conhecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fim do trabalho com a comunidade imigrante de Porto Rico de Nova Iorque n\u00e3o representou, por\u00e9m, a ruptura da liga\u00e7\u00e3o com Porto Rico ou com a cultura latino-americana, em que mergulhar\u00e1 profundamente ao longo das d\u00e9cadas de 60 e 70, e que lhe ser\u00e1 sempre muito pr\u00f3xima. Se em Nova Iorque acompanhava a comunidade de Porto Rico desde uma periferia social, agora partir\u00e1 para Porto Rico para exercer um conjunto de fun\u00e7\u00f5es que lhe permitir\u00e3o ver a sociedade desde um \u00e2ngulo diferente, o do seu topo, a partir do qual a sociedade \u00e9 pensada como um objecto de planifica\u00e7\u00e3o administrativa. De facto, em Porto Rico passar\u00e1 a exercer fun\u00e7\u00f5es como Vice-Reitor da <em>Universidade Cat\u00f3lica<\/em>; mas igualmente tomar\u00e1 assento no <em>Conselho Educativo Nacional de Porto Rico, <\/em>respons\u00e1vel pela administra\u00e7\u00e3o do sistema escolar. Neste per\u00edodo come\u00e7ar\u00e1 a tomar forma o pensamento que explodir\u00e1 de forma vigorosa nos escritos de Ivan Illich sobre o tema da \u00abdesescolariza\u00e7\u00e3o\u00bb. A seu tempo ser\u00e1 considerado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por enquanto, fica a s\u00edntese desta fase da vida de Ivan Illich: nela se assume ainda como algu\u00e9m que exerce o seu <em>munus <\/em>de sacerdote cat\u00f3lico. Mas nela experimenta igualmente as primeiras tens\u00f5es, que em breve conduziriam a uma ruptura, entre o que sentia serem as exig\u00eancias decorrentes da sua condi\u00e7\u00e3o sacerdotal e as fun\u00e7\u00f5es que fora chamado a desempenhar. Sirva de exemplo o facto de, enquanto Vice-Reitor da Universidade Cat\u00f3lica, celebrar a eucaristia em lugares bem distantes do espa\u00e7o em que exercia a sua actividade, por ex. junto de comunidades pobres de pescadores, onde ningu\u00e9m o conhecesse desde o exerc\u00edcio daquelas fun\u00e7\u00f5es. Assim procurava conservar a integridade do sacerd\u00f3cio como meio e instrumento de <em>unidade, <\/em>evitando que fosse deslustrado por eventuais aprecia\u00e7\u00f5es negativas que sobre o seu exerc\u00edcio do poder pudessem ser formuladas. Ali\u00e1s, como de seguida se ver\u00e1, h\u00e1-de renunciar ao exerc\u00edcio de quaisquer of\u00edcios eclesi\u00e1sticos no preciso momento ao concluir j\u00e1 n\u00e3o estar em condi\u00e7\u00f5es de ser o <em>sacramento de unidade <\/em>que \u00e9 tamb\u00e9m caracter\u00edstico do sacerd\u00f3cio.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Foto: <a href=\"https:\/\/webpages.ciencias.ulisboa.pt\/~ommartins\/images\/hfe\/illich\/index.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/webpages.ciencias.ulisboa.pt\/~ommartins\/images\/hfe\/illich\/index.htm<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14383,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-14381","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14381","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14381"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14381\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14384,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14381\/revisions\/14384"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14383"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14381"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14381"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14381"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}