{"id":14362,"date":"2022-04-21T07:00:54","date_gmt":"2022-04-21T06:00:54","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14362"},"modified":"2022-04-20T10:56:04","modified_gmt":"2022-04-20T09:56:04","slug":"tiago-ramalho-ivan-illich-uma-apresentacao-cont","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-ivan-illich-uma-apresentacao-cont\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Ivan Illich: uma apresenta\u00e7\u00e3o (cont.)"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u2013 Marcos da vida de Ivan Illich \u2013 <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 3. <em><u>A vida e os seus marcos<\/u>. \u2013 <\/em>Antes de se avan\u00e7ar para o estudo dos principais eixos tem\u00e1ticos que estruturam a obra de Ivan Illich, \u00e9 conveniente situ\u00e1-los dentro das coordenadas centrais da respectiva biografia. A vida de Ivan Illich est\u00e1 na origem, com efeito, de muitas das caracter\u00edsticas que ser\u00e3o marcantes da sua obra, escrita sempre no complexo entrecruzamento de ideias, de lugares, de horizontes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Distinguir-se-\u00e3o quatro grandes fases na vida de Ivan Illichh: (i) a origem; (ii) o seu per\u00edodo de actividade pastoral enquanto sacerdote cat\u00f3lico; (iii) a sua fase de \u00abestrelato\u00bb intelectual; (iv) finalmente, o per\u00edodo conclusivo em que assumiu a condi\u00e7\u00e3o de universit\u00e1rio itinerante. S\u00e3o fases cuja transi\u00e7\u00e3o n\u00e3o implica propriamente uma ruptura, devendo ser antes entendidas como diferentes est\u00e1dios de um mesmo desenvolvimento vital, somente com acentos diferentes em cada um dos per\u00edodos. Para maior desenvolvimento, pode consultar-se <em>Conversation, <\/em>pp. 1-57, <em>Rivers, <\/em>pp. 1-44 e <em>Journey, <\/em>pp. 1-34.<\/p>\n<p><em><u>4. Primeira fase: a origem<\/u>. \u2013 <\/em>J\u00e1 a origem de Ivan Illich prenuncia essa precisa caracter\u00edstica que marcar\u00e1 toda a sua vida: o <em>entrecruzamento, <\/em>que nela se d\u00e1, de diferentes culturas e tradi\u00e7\u00f5es. Se nasce em Viena, a 4 de Setembro de 1926, em breve ser\u00e1 levado para a habita\u00e7\u00e3o familiar paterna na Dalm\u00e1cia (actual Cro\u00e1cia). A inf\u00e2ncia \u00e9 passada entre esses dois lugares \u2013 e ainda nalguns outros, como Fran\u00e7a, por onde ocasionalmente se encontrassem os respectivos pais. Ivan Illich nasce, portanto, no espa\u00e7o pol\u00edtico-cultural correspondente ao \u00abImp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro\u00bb (que terminara poucos anos antes), espa\u00e7o conhecido pela pluralidade lingu\u00edstica, cultural e \u00e9tica \u2013 mesmo se com a cultura austr\u00edaca de express\u00e3o alem\u00e3 a assumir-se como pr\u00f3pria da classe regente \u2013, que vir\u00e1 a marcar de modo muito acentuado o <em>centro <\/em>e o <em>leste <\/em>da Europa. \u00c9 este o <em>primeiro entrecruzamento<\/em> na vida de Ivan Illich.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o s\u00f3 desde o lugar, mas tamb\u00e9m desde o sangue se nota o entrecruzamento de tradi\u00e7\u00f5es. Se o pai era descendente de grandes propriet\u00e1rios da referida regi\u00e3o da Dalm\u00e1cia, a m\u00e3e era uma judia convertida ao cristianismo. Eis, pois, uma nova ambiguidade: a que vai desde o cristianismo como religi\u00e3o ao persistente juda\u00edsmo em sentido \u00e9tnico. No per\u00edodo nacional-socialista, Ivan Illich ser\u00e1 mesmo desqualificado primeiro como \u00abmeio ariano\u00bb e logo como \u00abmeio judeu\u00bb (<em>Conversation, <\/em>p. 80). Fruto de tais vicissitudes pol\u00edticas do espa\u00e7o de express\u00e3o alem\u00e3, por volta dos respectivos 15 anos desloca-se para Floren\u00e7a, em It\u00e1lia. Assistimos, portanto, a novos entrecruzamentos \u2013 entre os universos culturais dos seus ascendentes, por um lado, e o pr\u00f3prio percurso na adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vemo-los igualmente no respectivo percurso educativo. Alternando momentos de livre aprendizagem com outros de educa\u00e7\u00e3o formal, contactando, desde muito cedo, com os estratos mais selectos da cultura europeia (\u2026aos 16 anos aspirava a escrever como um Rilke\u2026), a sua frequ\u00eancia do mundo universit\u00e1rio inicia-se pela <em>Universidade de Floren\u00e7a. <\/em>Mais relevante, por\u00e9m, \u00e9 o que se seguir\u00e1: \u00e9 na <em>Universidade Gregoriana <\/em>(Roma), um dos mais renomados centros de forma\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, que estuda Filosofia e Teologia, estudos que empreende j\u00e1 em vista da posterior ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal. J\u00e1 ordenado sacerdote cat\u00f3lico (em 1951), obt\u00e9m o grau de Doutor em Hist\u00f3ria na <em>Universidade de Salzburgo <\/em>(\u00c1ustria).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste percurso educativo de Ivan Illich, vemos de modo muito n\u00edtido o entrecruzamento de v\u00e1rios mundos: quer pelas diferentes paragens onde desenvolveu os seus estudos, quer pelos diferentes m\u00e9todos de aprendizagem experimentados, quer pelos dom\u00ednios sobre que se debru\u00e7ou. N\u00e3o \u00e9 corrente encontrar quem re\u00fana em si uma forma\u00e7\u00e3o t\u00e3o qualificada nestas tr\u00eas disciplinas fundamentais \u2013 a disciplina do <em>universal <\/em>(Filosofia), do <em>concreto <\/em>(Hist\u00f3ria), e, desde uma perspectiva crist\u00e3, do <em>universal-concreto <\/em>(Teologia). Se a isto acrescentarmos o poliglotismo resultante de um contacto desde idade muito precoce com l\u00ednguas de origem latina (franc\u00eas e italiano) e germ\u00e2nica (alem\u00e3o), e sem que as l\u00ednguas eslavas lhe fossem totalmente desconhecidas (especialmente o servo-croata: o nome de Ivan Illich testemunha tal origem eslava), torna-se patente at\u00e9 que ponto na sua pessoa convergem v\u00e1rios fluxos culturais. Tend\u00eancia que s\u00f3 aumentar\u00e1 ao longo da respectiva vida, em resultado das op\u00e7\u00f5es tomadas em idade adulta que o levaram para novas paragens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas d\u00e1-se ainda mais um <em>entrecruzamento, <\/em>talvez o mais relevante de todos:\u00a0 o resultante de ter vivido num per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o epocal entre diferentes concep\u00e7\u00f5es do mundo, a cuja consciencializa\u00e7\u00e3o (e tentativa de direccionamento no sentido que cuidava ser mais adequado) dedicou grande parte dos seus esfor\u00e7os intelectuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ivan Illich est\u00e1 a\u00ed, portanto, como o perfeito oposto de um <em>cosmopolita<\/em>, esse cidad\u00e3o indiferenciado de um universo homog\u00e9neo e neutro, a quem, por n\u00e3o conhecer nenhum lugar ao certo, sobra apenas dizer-se parte de um <em>cosmos.<\/em> \u00c9, antes \u2013 se se permite o neologismo \u2013, um <em>polipolita, <\/em>algu\u00e9m que se situa no mundo desde muitos lugares concretos, cada um com o seu rosto \u00fanico e particular. Se o <em>cosmopolitismo <\/em>tem a sua m\u00e1xima express\u00e3o no <em>monolinguismo <\/em>\u2013 \u00fanico e redutor \u2013, este seu <em>polipolitismo <\/em>manifesta-se no <em>poliglotismo <\/em>que lhe \u00e9 pr\u00f3prio, e que, nota-o, constitui a condi\u00e7\u00e3o mais natural do ser humano (<em>Conversation, <\/em>pp. 89-91). Pr\u00f3prio do ser humano, insiste, n\u00e3o \u00e9 <em>dominar uma l\u00edngua<\/em>, mas simplesmente <em>falar <\/em>com tudo aquilo que lhe permita fazer entender-se, na continuidade sem ruptura entre diferentes l\u00ednguas e dialectos. Ainda hoje assim \u00e9 nas muitas paragens em que n\u00e3o haja formas institucionalizadas de educa\u00e7\u00e3o formal especialmente desenvolvidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas se \u00e9 um <em>polipolita<\/em> no sentido antes exposto, viver\u00e1, ao longo de toda a sua vida, a condi\u00e7\u00e3o peregrinante de quem n\u00e3o tem nenhum lugar a que designe como <em>o seu<\/em>: \u00abdesde que deixei a minha velha casa insular na Dalm\u00e1cia, nunca mais tive um lugar a que chamasse casa. Vivi sempre numa tenda (\u2026)\u00bb (<em>Conversation, <\/em>p. 80). Toda a vida como um longo \u00eaxodo. Talvez seja resultado desta sua n\u00e3o perten\u00e7a exclusiva a nenhum lugar em concreto a especial capacidade de se deixar receber por aqueles com quem se foi cruzando ao longo do respectivo percurso. N\u00e3o s\u00f3 a vida de Ivan Illich \u00e9 o resultado de m\u00faltiplos entrecruzamentos \u2013 ela pr\u00f3pria se entrecruza com a daqueles a quem se d\u00e1, a quem escuta, por quem se deixa acolher.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Foto: https:\/\/www.manhattan-institute.org\/the-genius-of-ivan-illich<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14363,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-14362","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14362","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14362"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14362\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14382,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14362\/revisions\/14382"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14363"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14362"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14362"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14362"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}