{"id":14318,"date":"2022-04-14T07:00:02","date_gmt":"2022-04-14T06:00:02","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14318"},"modified":"2022-04-13T15:49:15","modified_gmt":"2022-04-13T14:49:15","slug":"tiago-ramalho-ivan-illich-uma-apresentacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-ivan-illich-uma-apresentacao\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Ivan Illich: uma apresenta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A prop\u00f3sito de Ivan Illich<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><u>&#8211; 1. Um autor marginal<\/u>. \u2013 <\/em>Recordo que ouvi falar pela primeira vez em Ivan Illich (1926-2002) no ano de 2020. Desse desconcertante Ivan Illich. O nome era-me estranhamente familiar, embora por raz\u00f5es que em breve se revelariam obviamente erradas: a forte proximidade fon\u00e9tica (em parte mesmo homon\u00edmia) \u00e0quela personagem cujo nome Tolst\u00f3i inscreve no t\u00edtulo de uma sua obra (\u00abA Morte de Ivan Ilitch\u00bb). Mas recordo tamb\u00e9m que desde ent\u00e3o fui deparando com o respectivo nome em diferentes contextos, o que \u00e9 especialmente de sublinhar atendendo a que tais refer\u00eancias foram surgindo desde fontes com filia\u00e7\u00f5es muito distintas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas ser\u00e1 de perdoar aquela minha ignor\u00e2ncia. Tendo eu nascido perto do fim da d\u00e9cada de 80 do s\u00e9culo passado, ainda para mais numa geografia distante daquela que est\u00e1 na origem de Ivan Illich e do espa\u00e7o em que exerceu a sua actividade, \u00e9 natural que s\u00f3 tardiamente o haja conhecido. De facto, fora nas d\u00e9cadas de 60 e 70 \u2013 d\u00e9cadas de particular relev\u00e2ncia para a forma\u00e7\u00e3o do mundo contempor\u00e2neo \u2013 que Ivan Illich estivera no centro de alguns debates da \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde ent\u00e3o, a presen\u00e7a de Ivan Illich como protagonista na \u00abcena cultural\u00bb como se foi eclipsando, mesmo se a respectiva actividade de estudo, reflex\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o tenha continuado a desenvolver-se, e chegado ent\u00e3o aos seus resultados mais acabados. Mas, como \u00e9 usual, o <em>mundo<\/em> recorda apenas os seus. \u00c9 disso exemplo o obitu\u00e1rio composto pelo <em>The New York Times <\/em>(de 4 Dez 2002) aquando da morte de Ivan Illich, que como ignorava as d\u00e9cadas finais da respectiva vida. Tudo como se passava como se apenas o medi\u00e1tico Ivan Illich houvesse existido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0quela fase de protagonismo seguiu-se, na verdade, uma outra de bem maior discri\u00e7\u00e3o. Nela cultivou a amizade, o di\u00e1logo, o cuidado das rela\u00e7\u00f5es humanas, a convivialidade. De resto, foram justamente aqueles que tomaram parte nessas rela\u00e7\u00f5es que ajudaram a trazer Ivan Illich para o nosso tempo, resgatando-o do sempre natural olvido da mem\u00f3ria, e permitindo que a respectiva obra pudesse ser redescoberta j\u00e1 para al\u00e9m do momento do estrelato, j\u00e1 para l\u00e1 da pr\u00f3pria morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E foi assim que cheguei ao conhecimento de <em>Ivan Illich <\/em>no ano 2020 \u2013 e que me propus, agora, a reflectir sobre a respectiva obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 2. <em><u>A obra de Ivan Illich: dos muitos temas \u00e0s grandes linhas de fundo<\/u>. \u2013 <\/em>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, por\u00e9m, sintetizar de forma breve o objecto da obra de Ivan Illich.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por um lado, porque a obra se cruza de modo muito estreito com a sua vida: o que faz, o que escreve, o que publica, \u00e9, em primeira linha, resposta a solicita\u00e7\u00f5es que lhe s\u00e3o dirigidas ou a problemas com os quais concretamente se debate.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, porque o alcance de mat\u00e9rias sobre os quais num ou noutro momento se debru\u00e7ou \u00e9 extremamente vasto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma sua colaboradora pr\u00f3xima numa fase avan\u00e7ada, a universit\u00e1ria alem\u00e3 Barbara Duden, elenca os seguintes temas: \u00abeduca\u00e7\u00e3o, medicina, pol\u00edtica de energia, conhecimento por especialistas, subsist\u00eancia, obsess\u00e3o com o crescimento, trabalho feminino, hist\u00f3ria do trabalho, interpreta\u00e7\u00e3o de c\u00e2nticos na antiguidade anterior \u00e0 escrita, oralidade no confronto com a cultura escrita, a rumina\u00e7\u00e3o da palavra oral mediante a piedosa murmura\u00e7\u00e3o no s\u00e9c. XI, a \u00e1gua e a deusa da mem\u00f3ria, a economia da morte, \u201chousing by people\u201d, amizade, cr\u00edtica da bio\u00e9tica, hist\u00f3ria da fronteira, velocidade, historicidade do olhar, decl\u00ednio da proporcionalidade nos s\u00e9cs. XVII e XIII, hist\u00f3ria dos sentidos, ascese, hospitais no cristianismo primitivo, tecnologia, ci\u00eancia da l\u00edngua, universidade e forma\u00e7\u00e3o asc\u00e9tica, hist\u00f3ria dos instrumentos e da instrumentalidade, hist\u00f3ria da causa, origem da necessidade de educar a pessoa, sistemas de transporte e paralisia da viagem, convivialidade, monolinguismo e inger\u00eancia estatal nos dialectos das pessoas, sa\u00fade\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O elenco \u00e9 imenso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para dificultar um pouco mais a pronta enuncia\u00e7\u00e3o do <em>teor <\/em>espec\u00edfico da obra de Ivan Illich, acresce a circunst\u00e2ncia de renunciar a uma utiliza\u00e7\u00e3o da linguagem neutra, imparcial, an\u00f3dina, como \u00e9 pr\u00f3prio do discurso universit\u00e1rio ou cient\u00edfico modernos, n\u00e3o hesitando em escrever com colora\u00e7\u00f5es prof\u00e9ticas, com exagero, provoca\u00e7\u00e3o, interpela\u00e7\u00e3o. Chegando mesmo, a espa\u00e7os, ser <em>insuport\u00e1vel, <\/em>como um Jeremias a quem os seus, por j\u00e1 n\u00e3o o poderem ouvir, lan\u00e7am no fundo de um po\u00e7o (<em>Jr <\/em>30, 1-13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 de evitar, portanto, uma leitura linear da obra de Ivan Illich. N\u00e3o o \u00abesp\u00edrito de geometria\u00bb, mas o \u00abespirito de sageza\u00bb (Pascal) h\u00e1-de guiar a respectiva interpreta\u00e7\u00e3o. De facto, parece poss\u00edvel individuar-se algumas <em>linhas directrizes <\/em>que justificam a investida sobre tantas mat\u00e9rias que, sem elas, seriam totalmente indiferentes: denunciar algumas das caracter\u00edsticas de uma modernidade que se rendeu de modo quase total ao pensamento t\u00e9cnico e instrumental, com consequ\u00eancias <em>desumanizantes <\/em>sobre a pessoa, e, tanto quanto poss\u00edvel, restaurar em termos conviviais o tecido das rela\u00e7\u00f5es humanas colocado fortemente em causa por uma sobreinstitucionaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 \u00e0 an\u00e1lise de diferentes dimens\u00f5es da obra de Ivan Illich, com o pano de fundo enunciado, que se dedicar\u00e1 o presente ciclo semanal de textos. Ter\u00e1 por base as principais obras publicadas em vida por Ivan Illich, uma reflex\u00e3o conjunta sobre a vida e a obra de Ivan Illich da autoria do radialista (e amigo) David Cayley e dois ciclos de entrevistas dadas a este \u00faltimo autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e3o usadas as seguintes abreviaturas (nem sempre se trata da primeira edi\u00e7\u00e3o):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>ABC: <\/em>Ivan Illich\/ Barry Sanders, <em>ABC. The Alphabetization of the Popular Mind <\/em>(Marion Boyars, 1988)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Awareness: Celebration of Awareness. A Call for Institutional Reform <\/em>(Marion Boyars, 1971)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Conversation: <\/em>David Cayley, <em>Ivan Illich in Conversation, <\/em>Anansi: Toronto, 1992<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Deschooling: Deschooling Society <\/em>(Marion Boyars, 1970)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Disabling: Disabling Professions \u2013 <\/em>em co-autoria (Marion Boyars, 1977)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Energy: Energy and Equity <\/em>(<em>in: <\/em>Toward)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Gender: Gender <\/em>(Marion Boyars,1982)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>H2O: H2O &amp; the Waters of Forgetfulness <\/em>(Marion Boyars, 1986)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Journey: <\/em>David Cayley, <em>Ivan Illich \u2013 An Intellectual Journey, <\/em>The Pennsylvania State University Press: Pennsylvania, 2021<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Limits: Limits to Medicine. Medical Nemesis: The Expropriation of Health <\/em>(Marion Boyars, 1995)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Past: In the Mirror of the Past: Lectures and Addresses 1978-1990 <\/em>(Marion Boyars, 1992)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Rivers: <\/em>David Cayley, <em>The Rivers North of the Future. The Testament of Ivan Illich as told to David Cayley, <\/em>pref. de Charles Taylor, Anansi: Toronto, 2005<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Shadow: Shadow Work <\/em>(Marion Boyars, 1981)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Tools: Tools for Conviviality <\/em>(Marion Boyars, 2009)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Toward: Toward a History of Needs <\/em>(Bantam Edition, 1980)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Unemployment: The Right to Useful Unemployment <\/em>(Marion Boyars, 2009)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Vineyard: In the Vineyard of the Text, <\/em>(The University of Chicago Press, 1993)<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Foto: <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ivan_Illich#\/media\/Ficheiro:I.I.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ivan_Illich#\/media\/Ficheiro:I.I.jpg<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14319,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-14318","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14318","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14318"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14318\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14321,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14318\/revisions\/14321"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14319"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14318"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14318"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14318"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}