{"id":14282,"date":"2022-09-12T09:51:49","date_gmt":"2022-09-12T08:51:49","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14282"},"modified":"2023-04-11T15:16:08","modified_gmt":"2023-04-11T14:16:08","slug":"regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-da-tragedia-de-edipo-a-esperanca-do-presepio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-da-tragedia-de-edipo-a-esperanca-do-presepio\/","title":{"rendered":"\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 | 6 | Da trag\u00e9dia de \u00c9dipo \u00e0 esperan\u00e7a do pres\u00e9pio"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019<\/em> | Parceria com a revista<a href=\"http:\/\/www.movimento-acr.pt\/accao-catolica-portuguesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> &#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis-nos no caminho de Troia para \u00cdtaca, no sonho do \u00c9den\u2026 Temo-lo feito, ora com uma m\u00e3o em Ulisses, ora com a outra em Ad\u00e3o. A m\u00e3o de Ulisses sua de trag\u00e9dia, goteja, mesmo! Nela, s\u00f3 parece haver sangue e desilus\u00e3o. Nada podemos fazer, no caminho grego, contra a voracidade e vertigem do destino. Preserva-se no ad\u00e1gio \u2018fatal como o destino\u2019 um resqu\u00edcio dessa rendi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas Ad\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o homem da trag\u00e9dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sucumbiu (e continua a sucumbir), bem certo, \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o e, com ela, veio a dramaticidade da vida. Mas ele j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 rendido ao poder de um destino inexor\u00e1vel. O horizonte do Novo Ad\u00e3o redime-o e reconfigura-o como imagem da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O percurso tem-nos mostrado, por isso, que \u00e0 densidade tr\u00e1gica n\u00e3o temos de somar trag\u00e9dia. Mas disso se convenceram os gregos e, com eles, tantos dos nossos contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria humana \u00e9 marcada pela trag\u00e9dia. Mas n\u00e3o h\u00e1 que render-se-lhe como se nada mais restasse do que aceitar que assim \u00e9 e n\u00e3o poder\u00e1 ser de outro modo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m os gregos vislumbraram, fugazmente, que pudesse n\u00e3o ser assim quando colocaram, num rec\u00f4ndito e escondido recanto da caixa de Pandora, a esperan\u00e7a. Mas a trag\u00e9dia grega parece mais forte do que a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ter\u00e1 de se esperar pelo Cristianismo para fazer germinar e tornar frondosa a \u00e1rvore bem robusta da esperan\u00e7a<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a m\u00e3o de Ulisses parece querer prender-nos e agarrar-nos, n\u00e3o nos deixando acolher os dedos de Ad\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em tantos momentos se expressa esta vis\u00e3o tr\u00e1gica!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Particularmente not\u00f3ria \u00e9 a sua presen\u00e7a quando a vida se dramatiza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dela s\u00e3o densas narrativas o mito de \u00c9dipo e a singeleza do pres\u00e9pio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9dipo (j\u00e1 aqui fal\u00e1mos dele, pois vir\u00e1 a ser o pai de Ant\u00edgona, Polinices, Et\u00e9ocles e Ism\u00e9nia) \u00e9 filho de Laio e Jocasta, reis de Tebas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem no-lo conta \u00e9 o eterno S\u00f3focles, nas suas trag\u00e9dias Rei \u00c9dipo e \u00c9dipo em Colono, seguindo-o, aqui, pela pena de Luc Ferry, no seu livro \u2018a sabedoria dos mitos\u2019 [edi\u00e7\u00e3o da Temas e debates, 2014].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um or\u00e1culo prenuncia que aquele filho, \u00c9dipo, matar\u00e1 o pai e tomar-se-\u00e1 de amores pela m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ontem, como hoje, o parric\u00eddio e o incesto incluem-se nos mais hediondos comportamentos humanos. Para n\u00e3o sucumbirem ao fat\u00eddico vatic\u00ednio, decidem entregar o pequeno pr\u00edncipe \u00e0 sorte, deixando que um dos seus servos, um pastor, o leve para um bosque onde possa ser devorado pelas feras. No caminho, encontra os servos de um rei vizinho que n\u00e3o conseguia ter filhos. Prop\u00f5em-lhe tomar a crian\u00e7a para a tornarem pr\u00edncipe de outro rei. S\u00f3 j\u00e1 adolescente conhece, numa disputa de crian\u00e7as, que n\u00e3o ser\u00e1, efetivamente, filho do pai, uma vez mais, no or\u00e1culo de Delfos, onde os seus verdadeiros pais j\u00e1 tinham conclu\u00eddo que sobre ele impendia aquela maldi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Decide fugir da cidade onde vivia, dirigindo-se para (pois est\u00e1 claro!) Tebas. (Tudo \u00e9 tr\u00e1gico, nesta descri\u00e7\u00e3o, e nada h\u00e1 a fazer\u2026) No seu caminho vem o rei de Tebas, dirigindo-se ao mesmo or\u00e1culo de Delfos, para saber o que fazer, pois a sua cidade era assolada por uma epidemia. Os destinos de ambos cruzam-se sem que nenhum deles possa fazer nada sen\u00e3o dar os passos certeiros para que ele se cumpra\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do mito para a realidade\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio da nossa era, tamb\u00e9m uma outra crian\u00e7a parece ver recair sobre ela or\u00e1culos tr\u00e1gicos (como parecem ecoar os gregos as palavras do velho Sime\u00e3o!). Mas na hist\u00f3ria desta crian\u00e7a o fado, o terr\u00edvel fado n\u00e3o tem a \u00faltima palavra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pai foge da persegui\u00e7\u00e3o cruel de um Herodes a quem a hist\u00f3ria chamou \u2018grande\u2019. E sobrevive. N\u00e3o sucumbe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E mesmo a predi\u00e7\u00e3o da morte cruel que atravessar\u00e1 o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o da sua m\u00e3e \u00e9 pren\u00fancio de uma esperan\u00e7a que superar\u00e1 a trag\u00e9dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dos or\u00e1culos de Delfos \u2018refulge\u2019 a sombra da trag\u00e9dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da humildade do pres\u00e9pio dimana a refulg\u00eancia de uma luz infinita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 por isso que, enquanto os gregos expunham os seus filhos \u2018malditos\u2019, jamais os crist\u00e3os expuseram os seus filhos, como disso \u00e9 retrato intemporal o dizer do an\u00f3nimo autor da carta a Diogneto, em finais do s\u00e9culo II. Diz ele dos crist\u00e3os (segundo edi\u00e7\u00e3o da Alcal\u00e1, de 2001) que <strong>\u00ab<\/strong>habitam p\u00e1trias pr\u00f3prias, mas como peregrinos: participam de tudo, como cidad\u00e3os, e tudo sofrem como estrangeiros. Toda a terra estrangeira \u00e9 para eles uma p\u00e1tria e toda a p\u00e1tria uma terra estrangeira.\u00bb Mas (nota que mostra a novidade que o cristianismo trouxe ao mundo e permanece, hoje, como esc\u00e2ndalo, quando tantos continuam a expor os seus rec\u00e9m-nascidos ou ainda n\u00e3o nascido\u2026) \u00abcasam como todos e geram filhos, mas n\u00e3o abandonam \u00e0 viol\u00eancia os neonatos.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9dipo continua a fascinar, mas a sua sombra denuncia uma luz de que ele n\u00e3o \u00e9 origem: a esperan\u00e7a crist\u00e3! Hoje, como nos primeiros s\u00e9culos, o brilho crist\u00e3o incomoda porque alguns continuam a habitar num reino de sombras. E as sombras falam de uma luz que ofusca e n\u00e3o se quer olhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O brilho que inunda o mundo \u00e9 humilde e suave, mas inabal\u00e1vel. Ad\u00e3o fez-se Novo Ad\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o estilha\u00e7ado pela tenta\u00e7\u00e3o, mas ainda exposto pelo mundo que o abandona e n\u00e3o quer ver. Mas Deus j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m rendido ao tr\u00e1gico, ao inexor\u00e1vel: liberta e liberta para sempre. N\u00e3o h\u00e1, por isso, que temer a fragilidade. Ela j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma maldi\u00e7\u00e3o: \u00e9 um caminho de supera\u00e7\u00e3o, em que o pr\u00f3prio Deus encarna, para dela se compadecer e, assim, a elevar. O sonho do \u00c9den est\u00e1 totalmente presente na singeleza luminosa do est\u00e1bulo fr\u00e1gil e s\u00f3 aparentemente abandonado.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem: <em>\u00c9dipo, cego, dedicando os seus filhos aos deuses<\/em> | B\u00e9nigne Gagneraux [1756-1795]<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura e autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado em <a href=\"http:\/\/teologicus.blogspot.com\/search?q=eutan%C3%A1sia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.teologicus.blogspot.com<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14283,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,177],"tags":[],"class_list":["post-14282","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14282","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14282"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14282\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15921,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14282\/revisions\/15921"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14283"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14282"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14282"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14282"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}