{"id":14278,"date":"2022-08-12T09:45:41","date_gmt":"2022-08-12T08:45:41","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14278"},"modified":"2023-04-11T15:15:55","modified_gmt":"2023-04-11T14:15:55","slug":"regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-de-tantalo-a-adao-da-tragedia-a-redencao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-de-tantalo-a-adao-da-tragedia-a-redencao\/","title":{"rendered":"\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 | 5 | De T\u00e2ntalo a Ad\u00e3o: da trag\u00e9dia \u00e0 reden\u00e7\u00e3o\u2026"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019<\/em> | Parceria com a revista<a href=\"http:\/\/www.movimento-acr.pt\/accao-catolica-portuguesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> &#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O nosso \u2018regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 leva-nos, hoje, ao encontro de uma outra ponte entre a cultura cl\u00e1ssica e a cultura judaico-crist\u00e3. Percorremo-la pela m\u00e3o de \u2018T\u00e2ntalo\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A nossa cultura guarda mem\u00f3ria desta figura da cultura grega na alus\u00e3o ao \u2018supl\u00edcio de T\u00e2ntalo\u2019 com que se pretende expressar uma dram\u00e1tica e nunca bem-sucedida miss\u00e3o que se esfuma no medo e na ang\u00fastia. \u00c0 maneira do original \u2018T\u00e2ntalo\u2019 que nos servir\u00e1 de guia, nesta reflex\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Sigamos, na nossa descri\u00e7\u00e3o, a sum\u00e1ria apresenta\u00e7\u00e3o que desta personagem nos faz Luc Ferry no seu livro \u2018a sabedoria dos mitos\u2019 (Edi\u00e7\u00e3o da Temas e Debates).]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">T\u00e2ntalo deseja testar a omnisci\u00eancia dos deuses. Convida-os para com ele partilharem de uma refei\u00e7\u00e3o, submetendo-os a um teste que, quando desmascarado (tentara lev\u00e1-los \u00e0 pr\u00e1tica da antropofagia\u2026), lhe vale um castigo perp\u00e9tuo: o de sofrer fome e sede eternas e o medo permanente de que lhe caia em cima uma pedra suspensa sobre si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta hist\u00f3ria, re\u00fanem-se a vis\u00e3o tr\u00e1gica da exist\u00eancia (o destino de que o Homem, na vis\u00e3o grega, n\u00e3o consegue libertar-se\u2026), mas tamb\u00e9m um elemento que parece associar T\u00e2ntalo e Ad\u00e3o: ambos cometem a ousadia da presun\u00e7\u00e3o de serem divinos pela via do conhecimento. (Tamb\u00e9m a Ad\u00e3o \u00e9 proibido que coma da \u00e1rvore do conhecimento do bem e do mal!).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, por\u00e9m, que ter em conta que, no mesmo momento em que T\u00e2ntalo e Ad\u00e3o parecem unir-se, divergem: de T\u00e2ntalo n\u00e3o consta que se vislumbre qualquer sinal de reden\u00e7\u00e3o poss\u00edvel; de Ad\u00e3o o que se conta \u00e9 toda uma posterior hist\u00f3ria que, ainda que marcada pela presen\u00e7a da trag\u00e9dia da vida, se abre \u00e0 reden\u00e7\u00e3o definitiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, como ontem, hoje, como no tempo do primeiro encontro entre a cultura grega (tr\u00e1gica) e a crist\u00e3 (redencionista), o desafio \u00e9 o de, no ponto em que ambas se encontram, se abrir o elemento distintivo que o cristianismo \u00e9 convidado a continuar a trazer \u00e0 Hist\u00f3ria: a cr\u00edtica \u00e0 presun\u00e7\u00e3o da pretens\u00e3o de se ser divino \u00e9, no mesmo momento em que ocorre, convite a que o Homem se transcenda, n\u00e3o contra Deus (assim f\u00f4ra com T\u00e2ntalo, submetendo os deuses a um teste hediondo), mas com Deus que o eleva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A figura do Novo Ad\u00e3o, configurado na encarna\u00e7\u00e3o do Verbo, Jesus Cristo, retrata, n\u00e3o a recusa do humano substitu\u00eddo pelo divino, nem a recusa do divino, suplantado por um Super-Homem, mas a enuncia\u00e7\u00e3o de que a diviniza\u00e7\u00e3o humana se d\u00e1 na plena humaniza\u00e7\u00e3o do Homem. Jesus Cristo n\u00e3o \u00e9 Deus na recusa do Humano, mas antes \u00e9 a plenifica\u00e7\u00e3o da \u2018humanitude\u2019 de cada Homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">T\u00e2ntalo \u00e9 redimido pelo Novo Ad\u00e3o. Tudo saber\u00e1, nos limites pr\u00f3prios da condi\u00e7\u00e3o humana, enquanto estiver na hist\u00f3ria, para que, um dia, no olhar frontal e fontal com Deus, poder participar da sabedoria plena de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal perspetiva confere uma humildade projetiva que supera os limites de T\u00e2ntalo e do primeiro Ad\u00e3o. Uma humildade projetiva \u00e9 a que reconhece que a verdade existe como horizonte (contra todo o relativismo), mas que nunca, na hist\u00f3ria, \u00e9 definitiva (contra todos os absolutismos). A esta luz, perante as presun\u00e7\u00f5es tant\u00e1licas de se poder possuir um s\u00f3 e definitivo tipo de saber verdadeiro, h\u00e1 que saber-se a caminho, com humildade, mas tamb\u00e9m com um olhar que projeta para diante. T\u00e2ntalo j\u00e1 n\u00e3o tem de desejar testar a omnisci\u00eancia \u2018dos deuses\u2019, pois sabe que a Verdade existe, mas nunca \u00e9, aqui, definitiva. Mas existe e caminha para ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pecado moderno est\u00e1 entre as duas tenta\u00e7\u00f5es: a da definitiva posse da verdade e a da sua total recusa como possibilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, pode vislumbrar-se a sua presen\u00e7a em dois sinais a denunciar: o da recusa de qualquer horizonte de verdade moral (tudo \u00e9 permitido) e a da presun\u00e7\u00e3o de que s\u00f3 a verdade de tipo cient\u00edfico possa ser portadora de verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contra a primeira tenta\u00e7\u00e3o, caber\u00e1 recordar que, quando o homem recusa a possibilidade da busca da verdade \u00e9 ele mesmo, enquanto ser racional, que fica em crise (como t\u00e3o bem constataram alguns estruturalistas): quando a verdade definitiva morre (Deus morreu, dizia Nietzsche) o pr\u00f3prio homem morre (assim o reconheceu Michel Foucault).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contra a segunda tenta\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso reafirmar, com John Haught, que a densidade da realidade obriga \u00e0 humildade de reconhecer que h\u00e1 muita verdade para al\u00e9m da cient\u00edfica (n\u00e3o defendemos qualquer tipo de obscurantismo, mas, pelo contr\u00e1rio, a supera\u00e7\u00e3o de uma presun\u00e7\u00e3o positivista que se densificou, no s\u00e9culo XIX, e que ainda hoje tem muitos seguidores. Valer\u00e1 a pena, sempre, recuperar a verdade das afirma\u00e7\u00f5es de um dos maiores g\u00e9nios da hist\u00f3ria, Albert Einstein que, em textos do per\u00edodo entre 1939 e 1941, reconhece que \u00abo m\u00e9todo cient\u00edfico n\u00e3o nos pode ensinar sen\u00e3o o modo como os factos se relacionam e condicionam entre si.\u00bb e complementa com a ideia t\u00e3o fecunda de que \u00aba ci\u00eancia pode apenas indagar aquilo que \u00e9, mas n\u00e3o o que devia ser, e fora do seu dom\u00ednio permanece toda a esfera dos ju\u00edzos de valor, cuja necessidade ningu\u00e9m discute.\u00bb (cita\u00e7\u00f5es recolhidas de A. Einstein, Como vejo a ci\u00eancia, a religi\u00e3o e o mundo, Rel\u00f3gio d\u2019\u00e1gua, 272 e 275)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez Einstein se surpreendesse com a quantidade de gente que, hoje, discute a necessidade dos ju\u00edzos de valor\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tenta\u00e7\u00e3o de T\u00e2ntalo permanece, como a de Ad\u00e3o, mas a trag\u00e9dia do primeiro n\u00e3o tem de sair vencedora em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 reden\u00e7\u00e3o que come\u00e7ou na pr\u00f3pria narrativa ad\u00e2mica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, como outrora, T\u00e2ntalo e Ad\u00e3o continuam a ousar, pela via do conhecimento, deixar de ser humanos como se Deus fosse um seu opositor e n\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, a sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de possibilidade de existir. Sem o horizonte do Definitivo, o humano sucumbe\u2026 Ad\u00e3o parece t\u00ea-lo descoberto: mas a sombra da pedra que impende sobre a cabe\u00e7a de T\u00e2ntalo quer, muitas vezes, atorment\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u201cN\u00e3o passa de uma sombra, Ad\u00e3o! Ergue os olhos e ver\u00e1s que o horizonte \u00e9 largo e a sombra que te parece atormentar n\u00e3o passa de uma proje\u00e7\u00e3o sem suporte numa realidade tr\u00e1gica. Ergue os olhos, alonga o teu olhar, sem medo nem ang\u00fastias: no aqui da hist\u00f3ria n\u00e3o est\u00e1, ainda, o definitivo. \u00c9 para ele que caminhas. Mas caminha\u2026 N\u00e3o absolutizes o relativo; n\u00e3o relativizes o Absoluto!\u201d<\/p>\n<hr \/>\n<p>Imagem: <em>A festa de T\u00e2ntalo | <\/em>Hugues Taraval [1766] in https:\/\/wsimag.com\/culture\/66259-villains-punished<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura e autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado em <a href=\"http:\/\/teologicus.blogspot.com\/search?q=eutan%C3%A1sia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.teologicus.blogspot.com<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14279,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,177],"tags":[],"class_list":["post-14278","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14278","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14278"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14278\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15920,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14278\/revisions\/15920"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14279"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14278"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14278"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14278"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}