{"id":14274,"date":"2022-07-12T09:42:06","date_gmt":"2022-07-12T08:42:06","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14274"},"modified":"2023-04-11T15:15:40","modified_gmt":"2023-04-11T14:15:40","slug":"regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-a-hora-de-antigona","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-a-hora-de-antigona\/","title":{"rendered":"\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 | 4 | A hora de Ant\u00edgona"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019<\/em> | Parceria com a revista <a href=\"http:\/\/www.movimento-acr.pt\/accao-catolica-portuguesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Continuemos o nosso \u2018regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00e9den\u2019\u2026.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 em texto anterior refletimos sobre como a vis\u00e3o grega, t\u00e3o carregada de tragicidade, precisa de ser condimentada (e superada) pela esperan\u00e7a crist\u00e3. De outro modo, sobrar\u00e1 o medo, o desespero, a desilus\u00e3o. E \u00e9 bom que tenhamos consci\u00eancia de que, nas nossas sociedades ocidentais, mesmo sem essa consci\u00eancia expl\u00edcita, estas duas vis\u00f5es est\u00e3o sempre em dinamismo de \u2018encontro\u2019 e \u2018desencontro\u2019. \u00c0 esperan\u00e7a crist\u00e3, que nos prop\u00f5e olharmos a vida como dom gratuito a respeitar e acolher, contrap\u00f5e-se, tantas vezes, a vis\u00e3o dominadora de que a vida \u00e9 uma posse absoluta de que dispomos at\u00e9 nos cansarmos dela. Uma vis\u00e3o que rapidamente se torna decadente\u2026 N\u00e3o a vemos j\u00e1, diante dos nossos olhos?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Condimentemos, ent\u00e3o, a hist\u00f3ria que se segue, para que n\u00e3o tome conta de n\u00f3s a vis\u00e3o tr\u00e1gica, mas n\u00e3o sem, antes, perceber a densidade de leitura que ela nos pode trazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ant\u00edgona\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ant\u00edgona \u00e9 a protagonista (muitos discutem se o protagonismo dever\u00e1 ser partilhado com o rei Creonte\u2026) de uma muito c\u00e9lebre trag\u00e9dia escrita por S\u00f3focles, em per\u00edodo compreendido entre 442 e 440 a.C.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta obra, S\u00f3focles retrata o ocorrido ap\u00f3s a decis\u00e3o do rei Creonte: impedir o sepultamento de Polinices. Ant\u00edgona, irm\u00e3 deste, op\u00f5e-se \u00e0 ordem do rei e sepulta-o, sendo alvo da ira r\u00e9gia que ordena o seu emparedamento. Emparedada, Ant\u00edgona lamenta a sua mis\u00e9ria, que, por for\u00e7a do destino (os gregos atribu\u00edam a este um poder superior ao dos pr\u00f3prios deuses), se abateu sobre a sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recordemos a densidade tr\u00e1gica desta fam\u00edlia, a dos Labd\u00e1cidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pai de Ant\u00edgona, \u00c9dipo, matara o seu pr\u00f3prio pai, casara com a m\u00e3e, de quem tivera quatro filhos, cegando-se quando descobriu que cometera incesto e parric\u00eddio, mas j\u00e1 sem nada poder fazer para alterar o rumo da hist\u00f3ria. Como se n\u00e3o bastasse, dois dos seus filhos \u2013 Et\u00e9ocles e Polinices \u2013 matam-se um ao outro no contexto do cerco \u00e0 cidade de Tebas, liderado por este \u00faltimo. A este, o rei Creonte, que assume o poder da cidade, pro\u00edbe que seja concedida a honra de ser sepultado, o que contrariava a lei religiosa e moral que obrigava a esse enterramento, como condi\u00e7\u00e3o para poder ter serenidade na vida depois da morte. \u00c9 neste passo que entronca a narrativa de \u2018Ant\u00edgona\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a densidade tr\u00e1gica n\u00e3o acaba aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s Creonte ser instado pelo seu pr\u00f3prio filho, H\u00e9mon, noivo de Ant\u00edgona, a alterar a sua ordem, persuadido pelo adivinho Tir\u00e9sias e pelo Coro dos anci\u00e3os de Tebas, o rei muda, por fim, a sua decis\u00e3o, mas n\u00e3o segue a ordem que lhe propusera o coro. Este dissera-lhe que, primeiro, comunicasse a Ant\u00edgona a sua decis\u00e3o e, por fim, enterrasse Polinices.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rei Creonte, em mais uma decis\u00e3o arbitr\u00e1ria, entende enterrar Polinices e, s\u00f3 depois, comunicar a Ant\u00edgona que a libertou da pena que ela j\u00e1 cumpria. Quando chega, por\u00e9m, a decis\u00e3o \u00e0 cela desta, ela jaz morta (pusera termo \u00e0 sua vida), assim como o pr\u00f3prio filho do rei, H\u00e9mon, que se suicidara perante a sua amada. A trag\u00e9dia n\u00e3o finda aqui e \u00e9, por fim, a pr\u00f3pria rainha, mulher de Creonte, Eur\u00eddice, que p\u00f5e termo \u00e0 sua pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dif\u00edcil reunir mais trag\u00e9dia numa s\u00f3 hist\u00f3ria\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou talvez n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria est\u00e1 a fazer-se de trag\u00e9dias reais. Esta \u00e9 uma trag\u00e9dia lend\u00e1ria!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivemos a Hora de Ant\u00edgona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m hoje emergem reis Creontes que nos pretendem impor, pela for\u00e7a do seu poder desp\u00f3tico, leis (n\u00f3moi, como lhes chamavam os gregos) que contrariam as normas de sempre, as normas que emergem da condi\u00e7\u00e3o humana, da condi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da nossa natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre eles caem as palavras duras do filho de Creonte, perante a pergunta deste<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abCreonte \u2013 <em>Acaso n\u00e3o se deve entender que o Estado \u00e9 de quem manda?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e9mon \u2013 <em>Mandarias muito bem sozinho numa terra que fosse deserta<\/em>.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E como com Ant\u00edgona, o risco de emparedamento \u00e9 real. O emparedamento da acusa\u00e7\u00e3o irada, do silenciamento medi\u00e1tico, do preconceito de se ser extremista ou obtuso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas como poderemos aceitar que se nos imponha como norma, como direito reconhecido como humano (as novas normas de Creonte), que matar um filho seja um bem quando jamais deixou de ser reconhecido como um mal? Recentemente, no parlamento europeu, Creonte lan\u00e7ou o seu manto tr\u00e1gico, sob a capa de um relat\u00f3rio designado com o nome do seu proponente, Matic. Ali, defendeu-se o reconhecimento do estatuto de direito humano (novo \u2018nomos\u2019) ao abortamento volunt\u00e1rio. J\u00e1 n\u00e3o se trata de formular o pedido de que n\u00e3o se punisse (a coberto do qual se cometeram, s\u00f3 neste ano, at\u00e9 20 de julho de 2021 &#8211; data da consulta ao site https:\/\/www.worldometers.info\/, 23 milh\u00f5es de abortos em todo o mundo), mas inverte-se a aprecia\u00e7\u00e3o do ato, conferindo-lhe uma bondade inusitada e inacredit\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem Creonte ousara ir t\u00e3o longe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E qu\u00e3o tr\u00e1gicos foram os tempos que se lhe seguiram!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 um olhar de esperan\u00e7a sobre cada v\u00edtima do bra\u00e7o estendido de Creonte pode superar tamanha trag\u00e9dia\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem ousa ouvir o grito de Ant\u00edgona entre as paredes em que a emparedam sucessivamente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Remetemos essa discuss\u00e3o para Maria Helena da Rocha Pereira in S\u00f3focles \u2013 <em>Ant\u00edgona<\/em>. Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, 2008<sup>8<\/sup>, introdu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Seguimos tradu\u00e7\u00e3o de Maria Helena da Rocha Pereira in <em>Obra citada<\/em>, vv. 738-739.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem: <i>Ant\u00edgona perante a morte de Polinice | <\/i>Nikiforos Lytras [1832-1904]<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura e autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado em <a href=\"http:\/\/teologicus.blogspot.com\/search?q=eutan%C3%A1sia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.teologicus.blogspot.com<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14276,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,177],"tags":[],"class_list":["post-14274","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14274","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14274"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14274\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15918,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14274\/revisions\/15918"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14276"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14274"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14274"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14274"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}