{"id":14270,"date":"2022-06-12T09:37:52","date_gmt":"2022-06-12T08:37:52","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14270"},"modified":"2023-04-11T15:15:26","modified_gmt":"2023-04-11T14:15:26","slug":"regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-uma-viagem-pela-historia-para-regressar-ao-ponto-de-que-partimos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-uma-viagem-pela-historia-para-regressar-ao-ponto-de-que-partimos\/","title":{"rendered":"\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 | 3 | Uma viagem pela hist\u00f3ria para regressar ao ponto de que partimos\u2026"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019<\/em> | Parceria com a revista <a href=\"http:\/\/www.movimento-acr.pt\/accao-catolica-portuguesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prosseguimos a nossa viagem de \u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como em fases anteriores da nossa viagem, cruzaremos a cultura cl\u00e1ssica com a b\u00edblica, procurando que, com o contributo rec\u00edproco, possamos iluminar o nosso caminhar contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A nossa etapa de hoje pretende perceber as caracter\u00edsticas do paradigma que define as decis\u00f5es e o modo de pensar deste tempo. Para tal, precisamos de olhar, em contraste, para a hist\u00f3ria. Para a hist\u00f3ria dos \u00faltimos s\u00e9culos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Socorro-me, para isso, do contributo de dois livros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Revisito o livro \u2018ideias e cren\u00e7as do homem atual\u2019, da autoria de Lu\u00eds Gonzalez Carvajal (regresso a este livro muitas vezes\u2026 Foi um marco no meu modo de olhar para o mundo!) e aproprio-me de uma ideia que encontrei numa leitura recente: \u2018O infinito num junco\u2019, da autoria de Irene Vallejo Moreu, um livro extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas encetemos, ent\u00e3o, a nossa viagem de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia de olhar para a hist\u00f3ria em ciclos, como se esta fosse o desembrulhar de um novelo em espiral, \u00e9 j\u00e1 long\u00ednqua. H\u00e1 autores que a pensaram em ciclos sucessivos de melhoria, em etapas tripartidas, sendo, de entre eles, o mais c\u00e9lebre, provavelmente, Joaquin de Fiore (1135-1202), que alguns consideram ter inspirado a vers\u00e3o secularizada de Auguste Comte (1798-1857).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o me proponho fazer essa leitura, mas antes, olhar para a hist\u00f3ria e ver como, nas etapas seguintes, se exagerou um determinado aspeto da anterior ou, ent\u00e3o, se exagerou um aspeto que se considerou estar omitido na precedente, como forma de compensar as insufici\u00eancias pr\u00e9vias. De qualquer modo, a leitura que irei propor ajudar-nos-\u00e1 a olhar para os limites da atualidade, lan\u00e7ando o desafio de recuperarmos o que nas anteriores havia de mais interessante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Partamos, ent\u00e3o\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O paradigma da Idade M\u00e9dia: Abra\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comecemos por assentar ideias no seguinte: para percebermos o nosso tempo, teremos de alongar o nosso olhar para o passado, indo, eventualmente, at\u00e9 \u00e0 Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao fazer esse esfor\u00e7o, perceberemos que a poderemos pensar como o tempo em que o centro da a\u00e7\u00e3o era a f\u00e9. Poder\u00edamos tomar como paradigma dessa fase a figura de Abra\u00e3o: nele concentra-se a atitude crente, de algu\u00e9m que n\u00e3o teme decidir se tal se lhe afigura como desejo de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sucede-se \u00e0 Idade M\u00e9dia a Idade Moderna, cuja origem podemos fazer coincidir com o s\u00e9culo XVI.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00edsifo e Prometeu: uma autonomia revoltada com a teonomia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a era de um otimismo antropol\u00f3gico, da emerg\u00eancia da autonomia (se necess\u00e1rio, contra o pr\u00f3prio Deus), sustentada na convic\u00e7\u00e3o cada vez mais consolidada de um impar\u00e1vel progresso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O paradigma desta fase \u00e9, como bem retrata Carvajal, configurado nas personagens da mitologia cl\u00e1ssica S\u00edsifo e Prometeu. Une ambas estas personagens a condi\u00e7\u00e3o de se terem oposto aos deuses e, como castigo, terem sido amaldi\u00e7oados com uma condi\u00e7\u00e3o de eterna repeti\u00e7\u00e3o de um mal: no caso de S\u00edsifo, ter\u00e1 de arrastar, sem nunca conseguir o seu objetivo, uma pedra pelo monte acima, sendo que, quando pr\u00f3ximo do cimo, ela volta a rolar pelo monte abaixo; por seu turno, Prometeu ver\u00e1 as suas entranhas serem devoradas, repetidamente\u2026 Em ambos os casos, h\u00e1 a atitude de revolta contra o divino e a ideia de um castigo. (Como crist\u00e3o, n\u00e3o reconhe\u00e7o nesta a vis\u00e3o genu\u00edna que quer propor-nos a f\u00e9 em Jesus Cristo \u2013 o que salva \u00e9 a gra\u00e7a e a miseric\u00f3rdia divina \u2013 mas este retrato repercute a vis\u00e3o que o Homem Moderno foi vincando em si mesmo de que \u2018ou Deus, ou o Homem\u2019, vis\u00e3o que, em Jesus Cristo \u00e9 ultrapassada pelo \u2018Deus com o Homem\u2019\u2026).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo avan\u00e7ou e, com as duas grandes Guerras Mundiais, o Homem deparou-se com a constata\u00e7\u00e3o de que, afinal, o progresso humano poderia n\u00e3o ser infinito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gerou-se uma desilus\u00e3o que levou \u00e0 dece\u00e7\u00e3o (como refere Lipovetsky) e, com ela, \u00e0 recusa das fases anteriores: a modernidade j\u00e1 tinha rejeitado a f\u00e9; restava, agora, com a p\u00f3s-modernidade, rejeitar a pr\u00f3pria \u2018Raz\u00e3o\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O homem p\u00f3s-moderno: Narciso descobre o seu umbigo\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem p\u00f3s-moderno, o que emergiu ap\u00f3s as duas Guerras e, segundo o mesmo Lipovetsky, depois do Maio de 68, j\u00e1 n\u00e3o se baseia na for\u00e7a dos argumentos, na for\u00e7a da raz\u00e3o, pois est\u00e1 desiludido em rela\u00e7\u00e3o a isso. O que lhe resta, ent\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os afetos, a emotividade. O homem p\u00f3s-moderno \u00e9 um hipersens\u00edvel\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Narciso \u00e9, segundo Gonzalez Carvajal, o seu paradigma. Narciso \u00e9, na mitologia grega, uma personagem que se inebria com o seu reflexo nas \u00e1guas calmas de um lago. Como se nada mais houvesse sen\u00e3o o pr\u00f3prio umbigo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse algu\u00e9m p\u00f3s-contempor\u00e2neo a que deram outrora o nome de \u2018Homem\u2019: a s\u00edndrome de Her\u00f3strato<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a hist\u00f3ria n\u00e3o parou e, se olharmos com deten\u00e7\u00e3o, perceberemos que Narciso foi, entretanto, superado. Hoje, j\u00e1 n\u00e3o nos basta a autocontempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, precisamos de constatar qu\u00e3o belo acham os outros que \u00e9 o rosto (o nosso) que vemos nas \u00e1guas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem (ou esse algu\u00e9m a quem deram, em tempos, o nome de Homem\u2026 alguns pretendem que estejamos na era do p\u00f3s-humanismo) p\u00f3s-contempor\u00e2neo (utilizamos este paradoxo para retratar esta atitude alienada em que vivemos: somos mas n\u00e3o somos j\u00e1 deste tempo; n\u00e3o nos sentimos de tempo nenhum\u2026) vive a s\u00edndrome de Her\u00f3strato, figura que conheci ao ler o livro de Irene Vallejo, \u2018O infinito num junco\u2019. Her\u00f3strato \u00e9 uma personagem hist\u00f3rica que, em 21 de julho de 365 a.C., decide incendiar o templo de Artemisa com o mero objetivo de ficar conhecido. Quantos Her\u00f3stratos temos em nosso redor, nestes tempos p\u00f3s-contempor\u00e2neos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria mostra-nos que o esquecimento das virtualidades das etapas anteriores gerou uma humanidade progressivamente mais vazia. N\u00e3o somos s\u00f3 a f\u00e9; n\u00e3o somos s\u00f3 a raz\u00e3o; n\u00e3o somos s\u00f3 a emo\u00e7\u00e3o; n\u00e3o somos s\u00f3 a apar\u00eancia. S\u00f3 seremos se regressarmos \u00e0 confian\u00e7a em que caminhamos no sonho do \u00c9den. \u00cdtaca est\u00e1 no nosso horizonte terrestre, mas esse horizonte ainda n\u00e3o \u00e9 o definitivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobreviver\u00e1 Her\u00f3strato a si mesmo? Uma vis\u00e3o crist\u00e3 da hist\u00f3ria n\u00e3o poder\u00e1 bastar-se em formular a pergunta, pois, no Cristo da cruz (em que o transcendente da trave vertical se une ao imanente da trave horizontal) fica estabelecido que a realiza\u00e7\u00e3o humana se faz na tens\u00e3o que nunca poder\u00e1 perder-se entre ser e ainda n\u00e3o ser, entre o \u2018j\u00e1\u2019 de uma salva\u00e7\u00e3o de que se participa e o \u2018ainda n\u00e3o\u2019 de uma realiza\u00e7\u00e3o total. As etapas da hist\u00f3ria aqui retratadas perderam esta tens\u00e3o e pretenderam sossegar o Homem e aquiet\u00e1-lo. Urge recuperar essa tens\u00e3o para que o Homem sobreviva, pois, como diz S. Ireneu, \u2018a gl\u00f3ria de Deus \u00e9 o Homem vivo\u2019.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\"><a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/vectors\/prometeu-grego-linha-arte-mitologia-5291150\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/pixabay.com\/pt\/<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura e autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado em <a href=\"http:\/\/teologicus.blogspot.com\/search?q=eutan%C3%A1sia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.teologicus.blogspot.com<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14272,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,177],"tags":[],"class_list":["post-14270","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14270","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14270"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14270\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15916,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14270\/revisions\/15916"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14272"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14270"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14270"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14270"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}