{"id":14265,"date":"2022-05-12T09:33:40","date_gmt":"2022-05-12T08:33:40","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14265"},"modified":"2023-04-11T15:15:21","modified_gmt":"2023-04-11T14:15:21","slug":"regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-nao-estamos-no-fim-da-historia-nem-no-seu-principio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-nao-estamos-no-fim-da-historia-nem-no-seu-principio\/","title":{"rendered":"\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 | 2 | N\u00e3o estamos no fim da Hist\u00f3ria\u2026 nem no seu princ\u00edpio!"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019<\/em> | Parceria com a revista <a href=\"http:\/\/www.movimento-acr.pt\/accao-catolica-portuguesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As diversas \u00e9pocas da hist\u00f3ria t\u00eam os seus mitos. E cultivam-nos, deles retirando dividendos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos nossos mais frequentes e badalados mitos \u00e9 o de que estamos no final da hist\u00f3ria, isto \u00e9, o de que, finalmente, gra\u00e7as aos nossos m\u00e9ritos, foi concretizado o modelo de organiza\u00e7\u00e3o das sociedades que, de acordo com os seus preconizadores, resta difundir pelo mundo (a bem ou a mal, como est\u00e1 f\u00e1cil de ver).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grande defensor desta tese \u2013 que revisitava ideias que germinaram no pensamento de Hegel, sustentando que estamos no fim da hist\u00f3ria, mas, agora, com o modelo das democracias e economias liberais \u2013 foi Francis Fukuyama que pretendia dizer, em 1989, que o derrube dos regimes coletivistas deixava a descoberto que o respetivo modelo tinha caducado, nada mais restando do que o seu advers\u00e1rio vencedor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor da teoria considera que n\u00e3o pretendeu dizer o que se lhe atribui, mat\u00e9ria que n\u00e3o \u00e9 o conte\u00fado da nossa an\u00e1lise, agora, sendo certo, por\u00e9m, que escritos posteriores vieram rever a leitura otimista que defendera em 1989. (Basta ler, com aten\u00e7\u00e3o, o seu mais recente \u2018As origens da ordem pol\u00edtica\u2019 para se perceber como h\u00e1 uma matiza\u00e7\u00e3o do otimismo da vis\u00e3o liberal, reconhecendo a condi\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria da pessoa humana.) Interessa-nos, por\u00e9m, n\u00e3o tanto a discuss\u00e3o sobre o conte\u00fado da tese, mas sim o seu elemento formal: a convic\u00e7\u00e3o de se ter chegado a um modelo definitivo e perfeito que, a partir de ent\u00e3o, h\u00e1 que difundir como o absoluto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta vis\u00e3o, o futuro \u00e9 desnecess\u00e1rio. O que havia a percorrer est\u00e1 percorrido e o resto \u00e9 repeti\u00e7\u00e3o. Como se o Homem n\u00e3o fosse um ser imperfeito e a fazer-se (vale a pena relembrar a fecunda ideia de Gabriel Marcel de que somos \u2018homo viator\u2019, homem que caminha).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos se insurgiram e continuam a insurgir contra a perspetiva de Fukuyama. E com raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, por\u00e9m, que estar consciente de que a resposta alternativa n\u00e3o tem sido melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, a tese denunciada parecia negar o papel do futuro. Tudo estava j\u00e1 conseguido!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Substituiu-a uma nova vis\u00e3o. Aquela que, hoje, parece pulular nas nossas sociedades e na cultura vigente: \u2018afinal, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o atingimos o modelo perfeito com o que fomos forjando ao longo da hist\u00f3ria como, por oposi\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 verdadeiro \u00e9 o que est\u00e1 a vir e por vir. Nada do que fizemos era bom. H\u00e1 que rejeitar o passado porque a hist\u00f3ria come\u00e7ou agora, come\u00e7ou connosco.\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, segundo esta tese, que abandonar o que percorremos, apagar a hist\u00f3ria, resultando disto que nada aprendemos com o que fizemos porque nada h\u00e1 a aprender, mas simplesmente a silenciar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal vis\u00e3o constata-se de uma forma particularmente expressiva na designada \u2018cancel culture\u2019, que, por\u00e9m, n\u00e3o tem o exclusivo de tal perspetiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Percebamos o que pretendemos denunciar, recorrendo a uma met\u00e1fora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imagine-se o tempo como dois el\u00e1sticos em tens\u00e3o, presos a um ponto est\u00e1vel que se desloca, equidistante. Esse ponto est\u00e1vel que se desloca, equidistante, \u00e9 o presente. Ele \u2018prende\u2019 os dois elementos da tens\u00e3o: o el\u00e1stico do passado e o el\u00e1stico do futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, o que ocorre quando se \u2018corta\u2019 um dos el\u00e1sticos \u00e9 que o ponto est\u00e1vel se instabiliza, puxado pela for\u00e7a tensional da parte que continuou presa. Fica, n\u00e3o s\u00f3 em risco a dimens\u00e3o do el\u00e1stico cortada, mas o pr\u00f3prio presente que parece sumir-se na vertigem da tens\u00e3o que se absolutiza para uma das dimens\u00f5es que garantiam a estabilidade da tens\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma tal met\u00e1fora deixa uma interpela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 que perceber o ser humano como intrinsecamente feito de mem\u00f3ria e projeto, sendo imposs\u00edvel perceb\u00ea-lo \u00e0 luz de uma s\u00f3 das duas dimens\u00f5es. Esquecer uma das duas dimens\u00f5es \u00e9 tornar imposs\u00edvel o reconhecimento da densidade do presente. Ali\u00e1s, este reconhecimento \u00e9 verific\u00e1vel na pr\u00f3pria etimologia dos termos \u2018passado\u2019 (\u2018o que foi caminhado, o que se caminhou\u2019) e \u2018futuro\u2019 (partic\u00edpio futuro do verbo ser \u2013 \u2018essere\u2019 em latim \u2013 \u2018as coisas que h\u00e3o de ser\u2019). Uma e outra etimologia expressam a ideia de uma continuidade que as duas vis\u00f5es aqui denunciadas omitem e cilindram: quem caminha dirige-se para algures (passado); as coisas que h\u00e3o-de ser n\u00e3o nascem do nada mas estavam em pot\u00eancia no presente que \u00e9 o passado do futuro (futuro).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se tomarmos em conta o que aqui se refletiu, perceberemos que muito do que, hoje, \u00e9 apresentado como novo mais n\u00e3o \u00e9 do que revisita\u00e7\u00e3o de tantas coisas j\u00e1 vividas. Como temos referido em outros momentos, muitas das decis\u00f5es defendidas como sinais de modernidade (a dilui\u00e7\u00e3o dos conceitos de fam\u00edlia, a pr\u00e1tica do infantic\u00eddio, do aborto, da eutan\u00e1sia, o abandono dos idosos, o regresso da pena de morte e tantas outras \u2018novidades\u2019) mais n\u00e3o s\u00e3o do que a recupera\u00e7\u00e3o do j\u00e1 \u2018caminhado\u2019. Retomado por quem acha que, agora, \u00e9 que come\u00e7a a hist\u00f3ria!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Grandes ilus\u00f5es s\u00e3o fonte de n\u00e3o menores desilus\u00f5es.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\"><a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/photos\/interior-tempo-espera-cl%c3%a1ssico-5235953\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/pixabay.com\/pt\/<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura e autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado em <a href=\"http:\/\/teologicus.blogspot.com\/search?q=eutan%C3%A1sia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.teologicus.blogspot.com<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14267,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,177],"tags":[],"class_list":["post-14265","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14265","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14265"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14265\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15915,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14265\/revisions\/15915"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14267"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14265"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14265"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14265"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}