{"id":14261,"date":"2022-04-12T09:33:27","date_gmt":"2022-04-12T08:33:27","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14261"},"modified":"2023-04-11T15:14:47","modified_gmt":"2023-04-11T14:14:47","slug":"regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-nova-rubrica-dedicada-a-descoberta-do-que-permanece-em-tempos-de-vertigem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden-nova-rubrica-dedicada-a-descoberta-do-que-permanece-em-tempos-de-vertigem\/","title":{"rendered":"\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 | 1 | Nova rubrica dedicada \u00e0 descoberta do que permanece em tempos de vertigem"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019<\/em> | Parceria com a revista <a href=\"http:\/\/www.movimento-acr.pt\/accao-catolica-portuguesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">(Artigo originalmente publicado em janeiro de 2021)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estamos a iniciar\u2026 N\u00e3o s\u00f3 um novo ano, que se espera mais luminoso do que o que deix\u00e1mos para tr\u00e1s (2020 n\u00e3o se livrar\u00e1 de ser recordado como o ano da pandemia\u2026), mas tamb\u00e9m um novo projeto de revista.<\/p>\n<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 nasce como um novo espa\u00e7o num mais global e renovado projeto de revista \u2018Mundo Rural\u2019, disposto a acolher os desafios destes tempos.<\/p>\n<p>A escolha deste t\u00edtulo exige uma explica\u00e7\u00e3o, para que se torne transparente e simb\u00f3lico e escapar, assim, ao ainda opaco significado de uma leitura r\u00e1pida.<\/p>\n<p>\u00cdtaca \u00e9 uma ilha do Mar J\u00f3nico, situada ao largo da Gr\u00e9cia. Mas pouco nos interessar\u00e1 essa informa\u00e7\u00e3o de ordem geogr\u00e1fica. Importa, antes, a simbologia a ela associada.<\/p>\n<p>\u00cdtaca \u00e9 a ilha onde, segundo a mitologia grega recolhida por Homero na sua \u2018Odisseia\u2019, vivia Ulisses, com a sua mulher, Pen\u00e9lope, e o filho, Tel\u00e9maco, e da qual aquele se ausenta, durante cerca de vinte anos, para participar na c\u00e9lebre Guerra de Troia, travada entre gregos e troianos e ganha gra\u00e7as \u00e0 destreza dos primeiros que introduziram, dentro das muralhas da cidade, o n\u00e3o menos c\u00e9lebre \u2018cavalo de Troia\u2019, no qual se escondiam os soldados.<\/p>\n<p>Tantas figuras se entrela\u00e7am nesta hist\u00f3ria\u2026 Cassandra, a mulher que tinha o poder de antecipar o futuro, mas que sofria os efeitos de uma maldi\u00e7\u00e3o que impedia os outros de nela acreditarem; ou a c\u00e9lebre Helena, mulher de Menelau, que foi raptada por P\u00e1ris, e que esteve na origem da referida guerra. Ou, ainda, Aquiles, aparentemente invulner\u00e1vel, mas que no seu calcanhar se manifestava fr\u00e1gil, e tantas, tantas outras figuras que preenchem o imagin\u00e1rio coletivo ocidental\u2026<\/p>\n<p>Se tal era, j\u00e1 por si, suficiente para justificar a sua recupera\u00e7\u00e3o para encimar uma rubrica de reflex\u00e3o, n\u00e3o \u00e9, ainda, por isto que decidimos atribuir a designa\u00e7\u00e3o de \u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 a esta sec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para melhor compreendermos o que nos propomos fazer, importa reparar, antes de mais, na escolha das palavras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Porqu\u00ea \u2018regresso\u2019?<\/strong><\/p>\n<p>\u2018Regresso\u2019 \u00e9 uma palavra que reserva uma ambiguidade: pode ser um substantivo \u2013 \u2018o regresso\u2019 \u2013 e estaremos a falar de um evento concreto: o retorno a um ponto deixado para tr\u00e1s. Sim, tamb\u00e9m teremos esse objetivo, nesta rubrica: regressar aos fundamentos, aos princ\u00edpios que nunca dever\u00edamos ter abandonado ou que importa consciencializar.<\/p>\n<p>Mas \u2018regresso\u2019 pode ser, tamb\u00e9m, a primeira pessoa do singular do verbo \u2018regressar\u2019. Sendo assim, estaremos a incluir-nos na pr\u00f3pria rubrica, fazendo desta uma reflex\u00e3o em que nos envolvemos de forma ativa: \u2018estou a regressar a \u00cdtaca\u2019.<\/p>\n<p>Diante destas duas possibilidades abertas com \u2018regresso\u2019, h\u00e1 que saber o que reserva, ent\u00e3o, \u2018\u00cdtaca\u2019 que mere\u00e7a o nosso caminho de regresso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Porqu\u00ea \u2018\u00ectaca\u2019?<\/strong><\/p>\n<p>Como dizia acima, \u00cdtaca \u00e9 a ilha de Ulisses. Dela partiu para participar e vencer a guerra de Troia. Uma guerra movida por um \u2018aparentemente\u2019 f\u00fatil motivo: a ef\u00e9mera, ainda que singular, beleza de algu\u00e9m. Mas, mais do que isso, h\u00e1 que recuperar o significado da pr\u00f3pria viagem de regresso a \u00cdtaca feita por Ulisses. Num dos seus momentos, este depara-se com a sedu\u00e7\u00e3o das sereias (n\u00e3o \u2018mulheres-peixe\u2019, como \u00e9 costume ser recordado, mas sim \u2018mulheres-p\u00e1ssaro\u2019). A sua melodia \u00e9 t\u00e3o sedutora que, para sobreviver \u00e0 passagem por aqueles mares de encanto, Ulisses tapa com cera os ouvidos dos seus companheiros, para que estes n\u00e3o ou\u00e7am as melodiosas sereias, e prende-se ao mastro do seu barco, a fim de que, mesmo ouvindo as suas \u2018vozes\u2019, possa ultrapassar este obst\u00e1culo sem a ele ceder. A tenta\u00e7\u00e3o de se desamarrar \u00e9 enorme, mas os seus companheiros, devidamente instru\u00eddos, n\u00e3o o deixam concretizar o desiderato e ainda apertam mais os la\u00e7os que o amarram ao mastro. E Ulisses sobrevive \u00e0 passagem pelas mulheres-p\u00e1ssaro. Simbologia das vozes que, hoje, t\u00e3o encantadoras como outrora, nos prop\u00f5em abandonarmos o caminho certo em nome de ef\u00e9meros benef\u00edcios.<\/p>\n<p>A viagem de Ulisses depara-se, ainda, com a dificuldade de transpor \u2018Cila e Car\u00edbdis\u2019, no estreito de Messina, um rochedo e um remoinho, que ficaram na hist\u00f3ria como express\u00e3o de uma estreita passagem em que n\u00e3o h\u00e1 que vacilar, pois, de um e outro lado, est\u00e3o perigos intranspon\u00edveis\u2026<\/p>\n<p>Enquanto a viagem de Ulisses se concretizava, estava a acontecer na meta do seu regresso o outro evento para o qual devemos voltar o nosso olhar.<\/p>\n<p>Pen\u00e9lope permanecera em \u00cdtaca. O avan\u00e7ar do tempo e a demora no regresso do seu marido fez avolumar-se o n\u00famero dos pretendentes que a assediavam e seduziam para que se desvinculasse dos la\u00e7os que a uniam a Ulisses. Face \u00e0s investidas dos pretendentes e \u00e0 pr\u00f3pria insist\u00eancia do seu pai para tal, Pen\u00e9lope prometia que cederia aos intentos dos pretendentes quando conclu\u00edsse um sud\u00e1rio que, no seu tear, estava a preparar para Laertes, pai de Ulisses. Pen\u00e9lope, por\u00e9m, fiel ao seu compromisso de amor, desfazia, durante a noite, o que fizera, durante o dia, jamais chegando o dia em que se concluiria a sua tarefa de confe\u00e7\u00e3o t\u00eaxtil.<\/p>\n<p>\u00cdtaca \u00e9, assim, n\u00e3o s\u00f3 s\u00edmbolo da persist\u00eancia e resist\u00eancia de Ulisses que n\u00e3o sucumbe \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o das vozes que inebriam e distraem, mas, tamb\u00e9m, da fidelidade de Pen\u00e9lope que, inteligentemente, sobrevive \u00e0s investidas dos que a querem desvincular dos valores que a sua consci\u00eancia desvela como fundamentais. \u00c9 sinal da solidez da \u00e9tica e dos valores mais seguros perante a \u2018liquidez\u2019 das exist\u00eancias que se submetem ao que \u00e9 mais ef\u00e9mero. \u00c9 express\u00e3o de um horizonte que sobrevive \u00e0 vertigem do imediato, esgueirando-se, com destreza, entre a \u2018Cila\u2019 da amn\u00e9sia de quem n\u00e3o sabe donde vem e a \u2018Car\u00edbdis\u2019 de quem n\u00e3o tem olhar de futuro, n\u00e3o sabe para onde vai.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Porqu\u00ea \u2018no sonho do \u00c9den\u2019?<\/strong><\/p>\n<p>Se esta rubrica se ficasse por ser \u00abregresso a \u00cdtaca\u00bb, correria um risco: n\u00e3o ser mais do que um retorno ao passado, sem esperan\u00e7a. Mas \u2018regresso a \u00cdtaca\u2019 \u00e9 feito \u2018no sonho do \u00c9den\u2019: pretende ser um lugar de esperan\u00e7a. A esperan\u00e7a que se expressa, em G\u00e9nesis, na simbologia do \u00c9den: express\u00e3o do sonho de Deus para a Sua Cria\u00e7\u00e3o. Sonho que a mesma Cria\u00e7\u00e3o tantas vezes traiu e continua a trair. \u00c9den \u00e9, aqui, muito mais do que um desejo tardio de um lugar abandonado, mas o lugar que se aponta no horizonte como o alvorecer no amanh\u00e3 de Deus. Como referem tantos te\u00f3logos, o \u00c9den \u00e9 muito mais do que a saudade do para\u00edso perdido: \u00e9 express\u00e3o do desejo eterno de Deus jamais suficientemente concretizado, na Hist\u00f3ria, mas entretanto antecipado em Jesus Cristo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca no sonho do \u00c9den\u2019 prop\u00f5e-se, assim, \u00e0 luz desta densa simbologia, ser um espa\u00e7o de encontro entre cultura e teologia, um lugar de reflex\u00e3o sobre o que permanece, perante a fugacidade da vida; uma an\u00e1lise sem receios, corajosa, vislumbrando o que \u2018\u00e9\u2019 perante o que \u2018parece\u2019; um olhar de tempo diante do ef\u00e9mero, sem temer a maldi\u00e7\u00e3o de Cassandra: mesmo que n\u00e3o nos escutem, hoje, saber\u00e3o que, um dia, algu\u00e9m alertou para os perigos de um rumo incerto, porque nada h\u00e1 de mais progressista do que a \u00e9tica que se disp\u00f5e a antecipar o amanh\u00e3. Nunca numa perspetiva passadista e saudosista, mas vinculada \u00e0 esperan\u00e7a.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem: <em>Ulisses e as sereias<\/em> | John William Waterhouse &#8211; 1891<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura e autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado em <a href=\"http:\/\/teologicus.blogspot.com\/search?q=eutan%C3%A1sia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.teologicus.blogspot.com<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Regresso a \u00cdtaca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14262,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,177],"tags":[],"class_list":["post-14261","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-regresso-a-itaca-no-sonho-do-eden"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14261","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14261"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14261\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15914,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14261\/revisions\/15914"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14262"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14261"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14261"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14261"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}