{"id":14197,"date":"2022-04-01T16:04:42","date_gmt":"2022-04-01T15:04:42","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14197"},"modified":"2022-04-01T16:05:34","modified_gmt":"2022-04-01T15:05:34","slug":"bioetica-e-sociedade-bioetica-como-chegamos-e-aplicamos-os-valores-eticos-na-relacao-clinica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/bioetica-e-sociedade-bioetica-como-chegamos-e-aplicamos-os-valores-eticos-na-relacao-clinica\/","title":{"rendered":"Bio\u00e9tica e sociedade | BIO\u00c9TICA: como chegamos e aplicamos os VALORES \u00c9TICOS na rela\u00e7\u00e3o cl\u00ednica"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Bio\u00e9tica e sociedade<br \/>\n(Parceria com o Centro de Estudos de Bio\u00e9tica)<\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Carlos Costa Gomes*<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-8127\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Carlos-Costa-Gomes.jpg\" alt=\"\" width=\"192\" height=\"250\" \/><\/p>\n<ol>\n<li style=\"font-weight: 400;\"><strong>Como chegamos aos valores?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Chegamos aos valores pela intui\u00e7\u00e3o sens\u00edvel &#8211; a partir dos sentidos e da experi\u00eancia de vida, mas neste estadio, ainda n\u00e3o \u00e9 realizada a estima\u00e7\u00e3o de valor; depois a partir da intui\u00e7\u00e3o intelectual ficamos a saber da ess\u00eancia ou significado da coisa ou de algo; e s\u00f3 finalmente, pela intui\u00e7\u00e3o valorativa\/estimativa (intelig\u00eancia emocional), atribu\u00edmos valor do que vimos e ou sentimos atrav\u00e9s da compreens\u00e3o do significado ou ess\u00eancia da realidade vivida ou experienciada.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Por exemplo: quando numa situa\u00e7\u00e3o particular no contexto cl\u00ednico, o profissional se depara com uma pessoa doente com uma cor p\u00e1lida e amarelada, em primeiro lugar vai usar a intui\u00e7\u00e3o sens\u00edvel (imediata) que lhe vai informar que a pessoa tem uma certa doen\u00e7a \u2013 faz de uma s\u00f3 vez um diagn\u00f3stico e a causa prov\u00e1vel da doen\u00e7a; pela intui\u00e7\u00e3o intelectual compara o estado daquela pessoa com outros estados e v\u00ea que a pessoa apresenta um estado diferente que pode concluir que tem uma certa doen\u00e7a e pelos sinais e sintomas que s\u00e3o vis\u00edveis \u2013 avalia as diferen\u00e7as as causas e os efeitos; pela intui\u00e7\u00e3o estimativa ou valorativa \u00a0vai valorar, isto \u00e9, pode concluir que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 boa ou m\u00e1; agrad\u00e1vel ou desagrad\u00e1vel.<\/p>\n<ol>\n<li style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">A intui\u00e7\u00e3o sens\u00edvel \u2013 informa da\u00a0<strong>perce\u00e7\u00e3o que se tem<\/strong>\u00a0da pessoa \u2013 \u00e9 imediata e singular &#8211; a vis\u00e3o\/sentido de que a pessoa est\u00e1 doente e que pode ser uma doen\u00e7a grave.<\/li>\n<li style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">A intui\u00e7\u00e3o intelectual \u2013 informa sobre a diferen\u00e7a\/contradi\u00e7\u00e3o entre outras pessoas e patologias e indica uma probabilidade\/ significado ou ess\u00eancia da doen\u00e7a de que a pessoa padece e qual a interven\u00e7\u00e3o mais adequada;<\/li>\n<li style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">A intui\u00e7\u00e3o estimativa\/valorativa \u2013 juntamente com o sentido e o significado da perce\u00e7\u00e3o \u00a0\u00a0capta o VALOR \u2013 intui se a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 boa ou m\u00e1. Isto \u00e9, captada pela intui\u00e7\u00e3o intelectual a ess\u00eancia e o significado (o que \u00e9 que a pessoa padece\/doen\u00e7a) e intui\u00e7\u00e3o valorativa\/estimativa transforma o sentido e o significado num VALOR &#8211; estima\u00e7\u00e3o \u2013 (valor: vital; est\u00e9tico; intelectual e \u00e9tico\/moral) \u2013 vital \u2013 doen\u00e7a; intelectual \u2013 doen\u00e7a grave; est\u00e9tico \u2013 n\u00e3o \u00e9 agrad\u00e1vel; \u00e9tico\/moral \u2013 n\u00e3o \u00e9 bom, algo est\u00e1 errado na pessoa.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"2\">\n<li style=\"font-weight: 400;\"><strong>O VALOR \u00e9, pois, a viv\u00eancia de uma realidade \u00e0 qual valorizamos ou estimamos.<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">O valor vale por si mesmo e n\u00e3o pelo que estimamos ou desestimamos. O valor tem um fim em si mesmo. Estimar ou desestimar um valor n\u00e3o significa que o mesmo deixe de ser um fim em si mesmo. Por isso, os valores s\u00e3o sempre objetivos porque n\u00e3o dependem na nossa estima\u00e7\u00e3o para valerem, porque eles valem por si mesmos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Quando falamos em subjetividade dos valores n\u00e3o nos referimos ao valor em si, que \u00e9 sempre objetivo, mas \u00e0s escolhas que cada pessoa realiza atrav\u00e9s da sua fun\u00e7\u00e3o intui\u00e7\u00e3o mental estimativa em atribuir mais valor a um valor do que o outro.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Por exemplo, quando se valoriza mais o respeito pela autonomia da pessoa doente, n\u00e3o significa que a benefic\u00eancia tenha menos valor do que a autonomia. Significa, sim, que numa situa\u00e7\u00e3o concreta a op\u00e7\u00e3o por um ou por outro \u00e9 determinada, eticamente, pelo valor do valor que engloba o valor-meio e valor-fim: isto \u00e9, o mais adequado face \u00e0 realidade vivida e \u00e0 situa\u00e7\u00e3o concreta.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li style=\"font-weight: 400;\"><strong>Hierarquiza\u00e7\u00e3o de valores<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Podemos falar em hierarquiza\u00e7\u00e3o de valores. Sim.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Claro que o valor da justi\u00e7a vale mais do valor que atribu\u00edmos \u00e0 beleza; mas o mesmo n\u00e3o se pode dizer sobre o valor da igualdade porque se n\u00e3o promovermos a igualdade n\u00e3o praticamos a justi\u00e7a como coes\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Podemos hierarquizar os valores em situa\u00e7\u00f5es concretas? Sim.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Mas a hierarquiza\u00e7\u00e3o, neste sentido, n\u00e3o significa que o valor escolhido tenha mais valor do que o valor secundarizado. Os valores valem porque valem e no que valem para a situa\u00e7\u00e3o vivida.<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li style=\"font-weight: 400;\"><strong>Os valores s\u00e3o relativos?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Segundo este axioma, parece inferir que os valores s\u00e3o relativos. N\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O que \u00e9 relativo s\u00e3o as situa\u00e7\u00f5es que vivemos e face a elas atribu\u00edmos valores diferentes. Os valores, como j\u00e1 referido, permanecem por si mesmos.<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li style=\"font-weight: 400;\"><strong>Como decidir sobre os valores na rela\u00e7\u00e3o cl\u00ednica-Pessoa doente.<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Devemos come\u00e7ar por considerar o primeiro valor como o da liberdade da pessoa; e do valor da liberdade, deduzir o princ\u00edpio do respeito pela sua autonomia; e do princ\u00edpio do respeito pela sua autonomia, deduz-se a norma do consentimento informado. Porque s\u00e3o os valores que nos obrigam; os princ\u00edpios o que nos orientam e as normas o dever de as aplicar.<\/p>\n<ol start=\"6\">\n<li style=\"font-weight: 400;\"><strong>Um princ\u00edpio pode ser tamb\u00e9m um valor<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Um princ\u00edpio pode ser tamb\u00e9m um valor? Sim.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Quando a partir do valor que nos obriga escolhemos o princ\u00edpio que nos orienta para um dever, ent\u00e3o o princ\u00edpio deixa de ser apenas principio, mas passa tamb\u00e9m a ser um valor porque \u00e9 a partir da sua orienta\u00e7\u00e3o que concretizamos a nossa obriga\u00e7\u00e3o fundada no valor que serviu de base para argumentar e fundamentar a nossa tomada de decis\u00e3o. O valor \u00e9 a base da argumenta\u00e7\u00e3o e o princ\u00edpio o meio da fundamenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Creio, que deste modo, o valor e o princ\u00edpio se fundem em valor-meio (princ\u00edpio) e em valor-fim (valor) compenetrados sem confus\u00e3o e, por antonom\u00e1sia, o princ\u00edpio e valor s\u00e3o o axioma. Porque quando, pelo valor que me obriga (liberdade) decido respeitar a autonomia, esta j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas um princ\u00edpio (respeito pela autonomia), mas transforma-se no valor que me obriga a fundamentar a minha argumenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<ol start=\"7\">\n<li style=\"font-weight: 400;\"><strong>Deste modo podemos ainda equacionar se o consentimento informado, como norma que me obriga, pode ou n\u00e3o ser considerado como um valor.<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A resposta \u00e9 sim.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Sim, porque se considero, no plano \u00e9tico, que o consentimento informado \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o \u00e9tica na rela\u00e7\u00e3o cl\u00ednica com a pessoa doente; se s\u00e3o os valores que me obrigam, ent\u00e3o, a aceita\u00e7\u00e3o do consentimento informado j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas uma norma que se deve cumprir, mas um valor que orienta toda rela\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. Torna-se por isso num valor fundamental.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Daqui podemos afirmar que do valor do consentimento informado (no qual est\u00e1 inscrito o valor da liberdade, o principio do respeito pela autonomia e a norma de o cumprir) , deduzimos o princ\u00edpio do respeito pela vontade da pessoa (autoriza\u00e7\u00e3o e concord\u00e2ncia); e, deste, deduzimos o dever \u00e9tico da alian\u00e7a terap\u00eautica, que imp\u00f5e n\u00e3o fazer o que deve ser evit\u00e1vel e realizar o que \u00e9 inevit\u00e1vel.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 class=\"p1\" style=\"text-align: right; padding-left: 240px;\"><span class=\"s1\">*Presidente do Centro de Estudos de Bio\u00e9tica | <\/span><span class=\"s1\">Professor na ESSNORTECVP | Membro da Academia &#8216;Fides et Ratio&#8217;<\/span><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\"><a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/photos\/decis%c3%a3o-caminho-placa-de-sinaliza%c3%a7%c3%a3o-5291766\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/pixabay.com\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bio\u00e9tica e sociedade<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14199,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[72,136],"tags":[],"class_list":["post-14197","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bioetica-e-sociedade","category-carlos-costa-gomes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14197","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14197"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14197\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14202,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14197\/revisions\/14202"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14199"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14197"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14197"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14197"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}