{"id":14103,"date":"2022-03-01T11:11:29","date_gmt":"2022-03-01T11:11:29","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=14103"},"modified":"2022-03-01T11:11:29","modified_gmt":"2022-03-01T11:11:29","slug":"tiago-azevedo-ramalho-em-dias-de-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-azevedo-ramalho-em-dias-de-guerra\/","title":{"rendered":"Tiago Azevedo Ramalho | Em dias de guerra"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right; padding-left: 440px;\"><em><strong>Directo ao contradit\u00f3rio<\/strong><\/em> | Uma rubrica dedicada \u00e0 reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre as certezas de sociedade tidas como insofism\u00e1veis<\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestes dias, voltou \u00e0 Europa ocidental o que porventura desde finais da segunda grande guerra dela se encontrava ausente. N\u00e3o foi a guerra enquanto tal. Essa, fosse na Europa, fosse fora da Europa com a activa participa\u00e7\u00e3o de Estados europeus, n\u00e3o esteve de todo ausente nas \u00faltimas d\u00e9cadas, nem sequer nos \u00faltimos anos. Tamb\u00e9m n\u00e3o foi a invas\u00e3o de Estados soberanos. <em>Idem, idem, aspas, aspas. <\/em>Nem mesmo de Estados soberanos que n\u00e3o praticaram nenhum acto de agress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que voltou foi o <em>entusiasmo<\/em> pela guerra. Por detr\u00e1s de muitos lamentos \u2013 na sua maioria certamente sinceros \u2013, escuta-se, de modo cada vez mais aud\u00edvel, o apelo a que se d\u00ea uma resposta tonitruante, poderosa, esmagadora, que desfira fortes perdas ao inimigo e o consiga repelir. A opini\u00e3o p\u00fablica \u2013 essa massa que a tudo julga e que por ningu\u00e9m \u00e9 julgada, que n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m mas representa a todos, em que poucos participam, mas a ningu\u00e9m exclui \u2013 pede-o com insist\u00eancia; e o poder pol\u00edtico satisfaz o anseio. E assim a guerra voltou a <em>mobilizar <\/em>contra um inimigo comum: mobiliza a aten\u00e7\u00e3o, mobiliza os afectos, mobiliza os desejos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma Europa simultaneamente descristianizada, e por isso sem mem\u00f3ria da sua hist\u00f3ria crist\u00e3, e desmemoriada, e por isso sem mem\u00f3ria nenhuma, n\u00e3o se apercebe de que est\u00e1 de regresso o \u00abesp\u00edrito de cruzada\u00bb. Caracteriza a \u00abcruzada\u00bb a mobiliza\u00e7\u00e3o contra um inimigo comum que, em esp\u00edrito de conquista, agride os nossos irm\u00e3os indefesos. Mobiliza\u00e7\u00e3o que nos faz esquecer dos nossos conflitos actuais, e que canaliza a viol\u00eancia que antes nos dividia interiormente para um advers\u00e1rio comum. Assim se sacraliza o <em>outro, <\/em>o nosso inimigo, tornado ent\u00e3o objecto a destruir, pois se passou a crer que s\u00f3 mediante a sua elimina\u00e7\u00e3o poder\u00e1 a paz ser restaurada. Que esta forma de mobiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 especialmente cativante \u00e9 vis\u00edvel no modo como, naquele tempo como hoje, atrai alguns dos melhores esp\u00edritos de cada \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas escuta-se a perturbante advert\u00eancia evang\u00e9lica: \u00abporque reparas no argueiro que est\u00e1 na vista do teu irm\u00e3o, e n\u00e3o v\u00eas a trave que est\u00e1 na tua vista?\u00bb (<em>Mt <\/em>7, 3)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Houve um tempo, que j\u00e1 parece t\u00e3o distante, em que a guerra a ningu\u00e9m enganou. Era simplesmente vista como um jogo de for\u00e7a bruta, de viol\u00eancia meramente animal, de vazio a gerar mais vazio. \u00c9 certo que os Estados constitu\u00edam as suas for\u00e7as armadas. Mas faziam-no como quem pedia desculpa pela sua fragilidade de n\u00e3o saber ainda viver de uma outra forma em que delas pudesse prescindir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto o clima mudou. A guerra voltou a ter uma est\u00e9tica. O combate militar, que se pensava meramente animal, readquiriu hero\u00edsmo e gl\u00f3ria \u2013 desde que pela causa certa, evidentemente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o tenho qualquer d\u00favida de que desde uma perspectiva crist\u00e3 s\u00f3 se pode estar ao lado das v\u00edtimas de um qualquer conflito, e que essas v\u00edtimas est\u00e3o sempre dos v\u00e1rios lados de uma batalha. Mas um olhar crist\u00e3o implicar\u00e1 tamb\u00e9m que se continue a alimentar a for\u00e7a das ideias quando estas, vorazes, pedem como alimento cada vez mais por\u00e7\u00f5es de realidade? Mas a solidariedade na dor, que nunca \u00e9 de negar, deve ser acompanhada pela solidariedade na guerra? Em nome de qu\u00ea se combate aquele a quem, num mimetismo diab\u00f3lico (isto \u00e9, divisivo e dilacerante), pelo mesmo combate nos estamos a assemelhar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os potentados e as autoridades far\u00e3o sempre as suas contas de somar e de subtrair, na expectativa de expandirem o seu espa\u00e7o de dom\u00ednio. \u00abTudo isto te darei, se, prostrado, me adorares\u00bb (<em>Mt <\/em>4, 9). Mas o Filho do Homem, que \u00ab<em>n\u00e3o tem<\/em> onde repousar a <em>cabe\u00e7a\u00bb (<\/em><em>Mt <\/em><em>8, 20), segue por outro caminho.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\"><a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/photos\/bandeira-ucr%c3%a2nia-guerra-paz-7036018\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/pixabay.com\/pt\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Directo ao contradit\u00f3rio<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14104,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[157,144],"tags":[],"class_list":["post-14103","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-direto-ao-contraditorio","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14103","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14103"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14103\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14105,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14103\/revisions\/14105"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14104"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14103"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14103"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14103"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}