{"id":13918,"date":"2022-01-22T07:00:21","date_gmt":"2022-01-22T07:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=13918"},"modified":"2022-01-19T15:18:24","modified_gmt":"2022-01-19T15:18:24","slug":"8-1-2-rubrica-de-cinema-ladroes-de-skates","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/8-1-2-rubrica-de-cinema-ladroes-de-skates\/","title":{"rendered":"&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0| Ladr\u00f5es de skates"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right;\"><em>8 1\/2&#8242; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0<\/em><\/h4>\n<h1 style=\"text-align: center;\">Ladr\u00f5es de skates<\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">Pe. Teodoro Medeiros<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O maior defeito de um filme \u00e9 o de ser demasiado direto, de \u201cpregar\u201d a sua mensagem a plenos pulm\u00f5es. Essas obras existem e at\u00e9 ganham \u00f3scar para melhor filme, o pr\u00e9mio dado \u00e0s obras que n\u00e3o requerem concentra\u00e7\u00e3o. Veja-se o caso de <em>Nomadland<\/em>: a presen\u00e7a de Frances McDormand removeu quase todo o tra\u00e7o de emo\u00e7\u00e3o, porque quem n\u00e3o tem casa perdeu os sentimentos. Como o final do filme refor\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Na grande obra de subjetividade que \u00e9 apreciar de cinema, s\u00f3 se consideram as boas inten\u00e7\u00f5es da obra\u2026 isso e o responder \u00e0s quest\u00f5es mais badaladas na comunica\u00e7\u00e3o social: se se fala de racismo, temos \u00f3scar para <em>Green Book<\/em>; se se fala de economia, temos <em>Nomadland<\/em>. Essas obras imediatas s\u00e3o uma redu\u00e7\u00e3o do cinema ao crit\u00e9rio da sua utilidade: bom \u00e0 partida porque fala de quest\u00f5es relevantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cParasitas\u201d foi a exce\u00e7\u00e3o que confirmou a regra: \u201c-Acham que s\u00f3 premiamos filmes americanos? Tomem l\u00e1 um da Coreia do Sul!\u201d Desta maneira, perpetua-se o <em>status quo<\/em> precisamente quando se o sacode: afinal, at\u00e9 o american\u00edssimo <em>Nomadland<\/em> tinha uma realizadora nascida na China. Hollywood detesta Trump, j\u00e1 se sabia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Contra isto, h\u00e1 que afirmar que a arte n\u00e3o se pode basear no cinismo: deem-nos antes a \u201cverdade extasiada\u201d de que costuma falar Herzog, uma apresenta\u00e7\u00e3o de sentido, de verdade \u00e0 qual se chega com esfor\u00e7o, a experi\u00eancia de sublime que rejeita dogmas e tenta chegar ao que est\u00e1 escondido na vida. \u00c9 uma perce\u00e7\u00e3o alta da realidade, e op\u00f5e-se \u00e0 virtualidade da realidade aumentada t\u00edpica de Hollywood (e que, c\u00e1 est\u00e1, se tenta redimir com as boas inten\u00e7\u00f5es).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para esta linha de pensamento n\u00e3o se tornar circular, h\u00e1 que lembrar que a arte n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o produto acabado, \u00e9 tamb\u00e9m o como, o meio, a linguagem, os pressupostos, os instrumentos, o que se evita, o que n\u00e3o se repete, o que se abrevia, o n\u00e3o seguir trilhos conhecidos, o rejeitar do sentimentalismo e da l\u00e1grima f\u00e1cil. O que nos traz a \u201cCafarnaum\u201d de Nadine Labaki, de 2018.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 um filme de fam\u00edlia mais contundente, coment\u00e1rio de den\u00fancia, quase document\u00e1rio, filme de tribunal, melodrama social, est\u00f3ria de her\u00f3i improv\u00e1vel ou mesmo anti-her\u00f3i, drama dos vencidos dos direitos humanos, <em>road movie <\/em>dom\u00e9stico e um daqueles filmes em que as crian\u00e7as s\u00e3o os protagonistas (e os adultos quase figurantes). Zain \u00e9 tamb\u00e9m uma figura de Cristo em muitas dimens\u00f5es: o condenado cujo processo exp\u00f5e a injusti\u00e7a; o defensor dos oprimidos que \u00e9 sacrificado; a morte metaf\u00f3rica que traz aten\u00e7\u00e3o para a sua causa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Zain, filho numa fam\u00edlia numerosa, 12 ou 13 anos, muito apegado \u00e0 irm\u00e3 de onze anos que ter\u00e1 de se casar brevemente. Os pais pobres, m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es, as crian\u00e7as t\u00eam de trabalhar e roubar para comer. O filme come\u00e7a numa prolepse: ele leva os seus pais a tribunal, processa-os por o terem trazido ao mundo. De seguida ser-nos-\u00e1 mostrado o que o levou \u00e0 pris\u00e3o, que crime tentou cometer e porque est\u00e1 t\u00e3o decidido contra os seus pais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Onde o filme se distingue, e f\u00e1-lo variadamente, \u00e9 na capacidade gig\u00e2ntica de filmar o mundo infantil. A p\u00e1ginas tantas, Zain ter\u00e1 de tomar conta de um beb\u00e9, Jonas, os dois sozinhos, sem nada, contra o mundo inteiro. Ajudado pela edi\u00e7\u00e3o, que nunca deixa arrastar as cenas, nem permite m\u00fasicas sacarinas de encomenda, o que \u00e9 dado a ver entra devagar, mas entra na alma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As cenas da saga de Zain e Jonas, a parte central do filme, s\u00e3o dos fotogramas mais belos da Hist\u00f3ria da Humanidade. A mis\u00e9ria n\u00e3o tem de tornar as pessoas miser\u00e1veis, nem de anular a vontade de viver: os problemas n\u00e3o destroem o humano e a capacidade de reinventar a realidade; filmar a inoc\u00eancia que perdura enquanto \u00e9 quebrada n\u00e3o \u00e9 arte para todos. Fora do comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nadine Labaki, a realizadora, vive em Beirute, conhece bem a realidade circunstante e pegou em atores cujas vidas se assemelham \u00e0 est\u00f3ria contada. Alinhou em <em>Cafarnaum<\/em> t\u00e9cnica e cora\u00e7\u00e3o para uma cria\u00e7\u00e3o que \u00e9 um manifesto sobre a dignidade, satisfazendo, em simult\u00e2neo, o purista, o intelectual, o amante de cinema do mundo e at\u00e9 o sentimental. Para chegar l\u00e1, teria bastado apenas a mestria de ocultar a face mais crua de alguns dos problemas a que alude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Cafarnaum significa caos em \u00e1rabe, uma coincid\u00eancia lingu\u00edstica a que poder\u00e1 n\u00e3o estar alheia a riqueza da simbologia do filme. Jonas, por exemplo, sobrevive a mais de uma noite no maldito ventre dos peixes que o devoraram. \u00c9 cinema de alto n\u00edvel, original, incisivo e fresco, pungente e apaixonante; carrega os seus personagens com a essencial, inescap\u00e1vel ambiguidade moral dos sobreviventes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O filme perdeu para \u201cRoma\u201d de Cuar\u00f3n, na corrida para melhor filme estrangeiro: um facto que de <em>per se<\/em> trai as tend\u00eancias burguesas dos seus votantes.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>8 1\/2&#8242; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13919,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[87,86],"tags":[],"class_list":["post-13918","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-8-1-2-rubrica-de-cinema","category-pe-teodoro-medeiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13918","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13918"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13918\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13920,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13918\/revisions\/13920"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13919"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13918"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13918"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13918"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}