{"id":13772,"date":"2021-12-28T18:55:54","date_gmt":"2021-12-28T18:55:54","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=13772"},"modified":"2021-12-27T19:14:26","modified_gmt":"2021-12-27T19:14:26","slug":"ano-de-s-jose-notas-para-uma-reflexao-sobre-s-jose","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/ano-de-s-jose-notas-para-uma-reflexao-sobre-s-jose\/","title":{"rendered":"&#8216;Ano de S. Jos\u00e9&#8217; | Notas para uma reflex\u00e3o sobre S. Jos\u00e9"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right; padding-left: 200px;\">(Entre 8 de dezembro de 2020 e 8 de dezembro de 2021, a Igreja viveu um ano dedicado a S. Jos\u00e9. A Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura divulga o conte\u00fado de confer\u00eancia proferida pelo Professor Daniel Silva, em sess\u00e3o ocorrida no dia 3 de dezembro de 2021, organizada pela Pastoral Familiar Diocesana)<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Daniel Paulo Rodrigues Silva<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nota pr\u00e9via*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quero come\u00e7ar esta minha apresenta\u00e7\u00e3o por manifestar um <strong>profundo agradecimento<\/strong> pelo convite \u2013 a m\u00e3o de Deus esteve com o <strong>Lu\u00eds Silva<\/strong>, dando-me a oportunidade para descobrir um pouco de S. Jos\u00e9. Devo confessar que do que fui descobrindo <strong>deixou-me seduzido, fascinado<\/strong>, como tentarei manifestar. Agrade\u00e7o, tamb\u00e9m, profundamente, sem que eles alguma vez sonhem deste meu insignificante reconhecimento: desde logo, ao extraordin\u00e1rio, <strong>Papa Francisco<\/strong>, pela sua capacidade de rasgar caminhos de encontro com o rosto amoroso de Deus, especialmente, com a proposta do Ano centrado em Jos\u00e9 de Nazar\u00e9; e a <strong>Leonardo Boff,<\/strong> pela sua profunda, clara e cativante reflex\u00e3o, sobre este tema, atrav\u00e9s do seu livro, <em>S. Jos\u00e9, a personifica\u00e7\u00e3o do Pai<\/em>. Foi o seu <strong>conte\u00fado surpreendente<\/strong> que me persuadiu a apresentar-vos. <strong>S\u00f3 damos aos amigos, aos queridos, o que mais gostamos<\/strong>.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li><strong> S. Jos\u00e9 desvalorizado na Hist\u00f3ria da Igreja<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como sabemos, no longo per\u00edodo do pensamento e da reflex\u00e3o teol\u00f3gica da Igreja, <strong>S. Jos\u00e9 foi quase que ignorado<\/strong> ou foi entendido como \u201cpersonagem\u201d de segunda categoria. A devo\u00e7\u00e3o a S. Jos\u00e9 <strong>pertence mais \u00e0 piedade popular<\/strong> <strong>do que \u00e0 medita\u00e7\u00e3o de papas e de te\u00f3logos<\/strong>, salvo raras exce\u00e7\u00f5es. Da\u00ed que milh\u00f5es de pessoas, institui\u00e7\u00f5es e lugares tenham o seu nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verdade \u00e9 que de S. Jos\u00e9 <strong>n\u00e3o nos chegou qualquer palavra<\/strong>. <strong>Pouco sabemos dele<\/strong>. Entregou-nos o <strong>seu sil\u00eancio<\/strong> e o <strong>seu exemplo<\/strong> de homem justo, trabalhador, esposo, pai e educador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"2\">\n<li><strong> Jos\u00e9 de Nazar\u00e9 \u2013 artes\u00e3o, esposo, pai e educador <\/strong>(*38-ss)<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tradicionalmente, atribu\u00edmos a Jos\u00e9 a <strong>profiss\u00e3o de carpinteiro<\/strong>, como \u00e9 referido nos Evangelhos, mas, efetivamente, <strong>seria um artes\u00e3o<\/strong> que dominava v\u00e1rias \u00e1reas ligadas <strong>\u00e0 constru\u00e7\u00e3o<\/strong> civil (provavelmente, ter\u00e1 trabalhado em S\u00e9foris, cidade pr\u00f3xima de Nazar\u00e9, mandada reconstruir por Herodes). Jos\u00e9 deveria, ainda, dedicar-se \u00e0 <strong>agricultura<\/strong> porque Nazar\u00e9 \u00e9 uma zona de terra f\u00e9rtil. <strong>\u00c9 neste contexto que Jesus vive e trabalha com seu pai<\/strong>, como refere a Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica de <strong>S. Jo\u00e3o Paulo II<\/strong>, <em>Redemptoris Custos<\/em>, (Guardi\u00e3o do Redentor) \u201cNo crescimento humano de Jesus \u2018em sabedoria, em estatura e em gra\u00e7a\u2019 teve uma parte not\u00e1vel da <em>virtude da laboriosidade<\/em>, dado que \u2018o trabalho \u00e9 um bem para o homem\u2019 que \u2018transforma a natureza\u2019 e torna o homem, \u2018em certo sentido, mais homem\u2019.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jos\u00e9 \u00e9 um homem de trabalho, mas tamb\u00e9m \u00e9 um zeloso instrutor, cuidador e educador de Jesus. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Das poucas <strong>ideias seguras<\/strong> que os evangelistas nos transmitem \u00e9 que Jos\u00e9 era o <strong>homem de Maria<\/strong> (Mt1,16; 1,18; Lc 1,27), <strong>o seu \u00fanico esposo<\/strong>. Na tradi\u00e7\u00e3o judaica, antes de ser marido, de coabitarem, existe um <strong>per\u00edodo de noivado<\/strong> que tem j\u00e1 valor jur\u00eddico de casamento, \u201cMaria estava prometida em casamento a Jos\u00e9\u201d (Mt 1,18). E <strong>foi neste per\u00edodo que Maria se encontrou gr\u00e1vida<\/strong>. Esta situa\u00e7\u00e3o causa <strong>perplexidade a Maria<\/strong> e <strong>grande ang\u00fastia a Jos\u00e9<\/strong>. (Caras m\u00e3es e caros pais, qual seria a nossa rea\u00e7\u00e3o?&#8230;).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perante este acontecimento, Jos\u00e9 poderia <strong>ter denunciado publicamente<\/strong> Maria como ad\u00faltera (e todos sabemos as consequ\u00eancias para Maria desta den\u00fancia) ou <strong>afastar-se dela discretamente<\/strong> e depois que ela e a fam\u00edlia resolvessem a situa\u00e7\u00e3o (com consequ\u00eancia para ela e para o menino).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, <strong>a atitude de Jos\u00e9 \u00e9<\/strong>, efetivamente, <strong>outra<\/strong>. O evangelista, <strong>Mateus<\/strong>, <strong>refere-se a Jos\u00e9 como, homem justo<\/strong> (Mt 1,19), por isso, <strong>ap\u00f3s o esclarecimento do anjo<\/strong>, os textos passam a falar-nos de <strong>Jos\u00e9 como marido<\/strong> (Mt 1,19) e de <strong>Maria como esposa<\/strong> (Mt 1,20). <strong>S\u00e3o uma fam\u00edlia<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos imaginar, ent\u00e3o, <strong>o ambiente de mist\u00e9rio desta fam\u00edlia<\/strong>, em que a esposa engravida sem interven\u00e7\u00e3o do marido, mas por a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo e as <strong>conversas longas e discretas<\/strong> entre os dois, em que <strong>Maria confidencia a \u201canuncia\u00e7\u00e3o\u201d <\/strong>do anjo e <strong>Jos\u00e9 revela o \u201csonho\u201d<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Encontramos aqui, um Jos\u00e9, homem de profunda confian\u00e7a, generosidade, amor e de sil\u00eancio.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9, assim, que <strong>Jesus nasce com um pai<\/strong>. A <strong>paternidade de Jos\u00e9<\/strong> foi claramente citada, v\u00e1rias vezes, nos evangelhos apresentando Jesus como o \u201c<strong>filho de Jos\u00e9<\/strong>\u201d (Lc 4,22b), ou \u201c<strong>Jesus de Nazar\u00e9, filho de Jos\u00e9<\/strong>\u201d (Jo 1,45).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabemos que Jos\u00e9 <strong>n\u00e3o \u00e9 um pai no sentido gen\u00e9tico<\/strong>, <strong>mas no sentido semita<\/strong>, o pai-social (aquele que d\u00e1 nome, que convive com Maria), \u00e9 pai no sentido matrimonial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, a <strong>tradi\u00e7\u00e3o qualifica<\/strong> a paternidade de Jos\u00e9 com v\u00e1rios atributos: espiritual, dav\u00eddico, putativo, legal, adotivo, matrimonial, funcional, messi\u00e2nico\u2026<\/p>\n<p><strong>L. Boff<\/strong> acrescenta o qualificativo, <strong>pai personificado<\/strong> que vem na linha de alguns, poucos, te\u00f3logos, como j\u00e1 referimos.<\/p>\n<p><strong>L. Boff<\/strong> afirma, ent\u00e3o, que Jos\u00e9 \u201c<strong>por ser pai,<\/strong> <strong>possibilitou ao Pai celeste personificar-se nele<\/strong>, <strong>assumindo a sua realidade concreta, com todas as fun\u00e7\u00f5es que a paternidade envolve<\/strong>\u201d. (*49) Desta dimens\u00e3o da paternidade personificada, falaremos adiante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"3\">\n<li><strong> Jos\u00e9, homem justo (Mt 1,19a)<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do pouco que sabemos de Jos\u00e9 de Nazar\u00e9, diz-nos o evangelista Mateus, \u00e9 que ele era um <strong>homem justo<\/strong> que age com <strong>retid\u00e3o<\/strong>. Jos\u00e9 \u00e9 um <strong>homem piedoso<\/strong>, <strong>ligado intensamente \u00e0 vontade de Deus<\/strong>, com grande intimidade com Ele, sens\u00edvel aos Seus des\u00edgnios e que <strong>segue os preceitos das tradi\u00e7\u00f5es espirituais do povo<\/strong>. \u00c9 este homem piedoso e justo que <strong>ensina pelo exemplo<\/strong>; homem <strong>mais da a\u00e7\u00e3o do que da palavra<\/strong>, cultivando a observ\u00e2ncia das tradi\u00e7\u00f5es e da lei, com amor a Deus e ao pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Este ambiente familiar marca, radicalmente, o crescimento e as atitudes de Jesus que, de tanta intimidade com o Pai, chama-O: <em>Abb\u00e1<\/em> (Paizinho).<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"4\">\n<li><strong> O(s) sonho(s) de Jos\u00e9 <\/strong>(*65-66)<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis que cheg\u00e1mos, ent\u00e3o, ao tema de nosso encontro, <strong>\u201co sonho\u201d (ou os sonhos) de Jos\u00e9 de Nazar\u00e9<\/strong>. Sem d\u00favida que este aspeto \u00e9 relev\u00e2ncia fundamental, n\u00e3o s\u00f3 porque \u00e9 <strong>das poucas informa\u00e7\u00f5es que dele chegam<\/strong> <strong>at\u00e9 n\u00f3s<\/strong>, mas, sobre tudo, pela <strong>import\u00e2ncia teol\u00f3gica para o conhecimento de S. Jos\u00e9<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 <strong>n\u00e3o recebe nenhuma revela\u00e7\u00e3o verbal direta<\/strong>, como Maria. <strong>Deus manifesta-se<\/strong> a Jos\u00e9 <strong>atrav\u00e9s dos sonhos<\/strong>: ficar com Maria, apesar de gr\u00e1vida; dar nome a Jesus; a fuga para o Egito; a ordem de voltar para Israel e de ir viver para Nazar\u00e9 (cf. Mt 1,20-21; 1,24; 2,13; 2,19-20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<strong>Deus entrou em contacto com Jos\u00e9 pela linguagem do profundo<\/strong>. Talvez seja essa <strong>a forma mais adequada para ele<\/strong> que, como pai, representa ao arqu\u00e9tipo da origem, o mist\u00e9rio abissal do qual tudo promana. <strong>O importante \u00e9 que Jos\u00e9 atendeu aos sonhos<\/strong>, como <strong>chamamento para uma miss\u00e3o junto de Maria e do Menino<\/strong>. Assim, ele <strong>encaixa-se no plano divino da autocomunica\u00e7\u00e3o de Deus<\/strong>, <strong>assim como Ele \u00e9<\/strong>, enquanto <strong>Pai (Jos\u00e9), Filho (Jesus) e Esp\u00edrito (Maria)<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Amigos, esta \u00e9 a grande novidade; \u00e9 a Boa Not\u00edcia, para mim, em tempo de Advento.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\"><strong>1\u00ba An\u00fancio do nascimento de Jesus <\/strong>\u00a0<sup>19<\/sup><sup>*<\/sup>Jos\u00e9, seu esposo, que era um homem justo e n\u00e3o queria difam\u00e1-la, resolveu deix\u00e1-la secretamente. <sup>20<\/sup><sup>*<\/sup>Andando ele a pensar nisto, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: \u00abJos\u00e9, filho de David, n\u00e3o temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu \u00e9 obra do Esp\u00edrito Santo. <sup>21<\/sup><sup>*<\/sup>Ela dar\u00e1 \u00e0 luz um filho, ao qual dar\u00e1s o nome de Jesus, porque Ele salvar\u00e1 o povo dos seus pecados.\u00bb<br \/>\n<sup>22<\/sup>Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: <em><sup>23<\/sup><\/em><em><sup>*<\/sup><\/em><em>Eis que a virgem conceber\u00e1 e dar\u00e1 \u00e0 luz um filho; e h\u00e3o de cham\u00e1-lo Emanuel<\/em>, que quer dizer: Deus connosco. <sup>24<\/sup>Despertando do sono, Jos\u00e9 fez como lhe ordenou o anjo do Senhor, e recebeu sua esposa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\"><strong>2\u00ba Fuga para o Egipto<\/strong> &#8211; <sup>13<\/sup><sup>*<\/sup>Depois de partirem, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a Jos\u00e9 e disse-lhe: \u00abLevanta-te, toma o menino e sua m\u00e3e, foge para o Egipto e fica l\u00e1 at\u00e9 que eu te avise, pois Herodes procurar\u00e1 o menino para o matar.\u00bb<br \/>\n<sup>14<\/sup><sup>*<\/sup>E ele levantou-se de noite, tomou o menino e sua m\u00e3e e partiu para o Egipto,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\"><strong>3\u00ba <\/strong><strong>Jesus em Nazar\u00e9<\/strong> &#8211; <sup>19<\/sup><sup>*<\/sup>Morto Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a Jos\u00e9, no Egipto, <sup>20<\/sup><sup>*<\/sup>e disse-lhe: \u00abLevanta-te, toma o menino e sua m\u00e3e e vai para a terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino.\u00bb <sup>21<\/sup>Levantando-se, ele tomou o menino e sua m\u00e3e e voltou para a terra de Israel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"5\">\n<li><strong> S. Jos\u00e9 de Deus \u2013 na ordem da uni\u00e3o hipost\u00e1tica<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos n\u00f3s, entendemos <strong>Jesus de Nazar\u00e9 (Homem), como o Cristo da F\u00e9 (Deus-Filho)<\/strong>. H\u00e1, pois uma <strong>uni\u00e3o total entre o Homem e Deus<\/strong>. \u00c9 a esta <strong>uni\u00e3o entre<\/strong> a <strong>pessoa humana<\/strong> e a <strong>pessoa divina<\/strong> que chamamos <strong>uni\u00e3o hipost\u00e1tica<\/strong> (pessoa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, no nosso entendimento, o <strong>Papa Francisco<\/strong>, na Carta Apost\u00f3lica, <em>Patris Corde<\/em> (com cora\u00e7\u00e3o de pai), 8 de dezembro de 2020, na abertura e dedica\u00e7\u00e3o deste ano a S. Jos\u00e9, <strong>permite-nos vislumbrar esta dimens\u00e3o da uni\u00e3o hipost\u00e1tica<\/strong>, uni\u00e3o de pessoas, quando refere que: \u201cTodos os fi\u00e9is ter\u00e3o assim a oportunidade de se comprometer, com ora\u00e7\u00f5es e boas obras, para obter, com a ajuda de S\u00e3o Jos\u00e9, chefe da <strong>Fam\u00edlia celestial de Nazar\u00e9<\/strong>, conforto e al\u00edvio das graves tribula\u00e7\u00f5es humanas e sociais que hoje dominam o mundo contempor\u00e2neo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L. Boff<\/strong> \u00e9 mais assertivo, \u201c<strong>H\u00e1 uma trindade em Nazar\u00e9<\/strong>, constitu\u00edda pela fam\u00edlia Jesus-Maria-Jos\u00e9. Nesta fam\u00edlia, entra o <strong>Esp\u00edrito Santo que armou a sua tenda em Maria<\/strong> (cf. Lc 1,35) e o <strong>Filho eterno que tamb\u00e9m armou a sua tenda em Jesus<\/strong> (cf. Jo 1,14). <strong>Tal facto afeta S\u00e3o Jos\u00e9<\/strong>, <strong>porque Maria \u00e9 sua esposa e Jesus \u00e9 seu filho<\/strong>\u201d (*112)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refor\u00e7o a ideia: segundo a sua <strong><em>theologoumenon<\/em><\/strong> (tese teol\u00f3gica n\u00e3o oficial do magist\u00e9rio da Igreja, nem pertence \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica) <strong>h\u00e1 uma uni\u00e3o hipost\u00e1tica entre as pessoas divinas e as pessoas humanas<\/strong>, assim: o <strong>Filho est\u00e1 presente em Jesus<\/strong>, o <strong>Esp\u00edrito Santo est\u00e1 presente em Maria<\/strong> e o <strong>Pai est\u00e1 presente em Jos\u00e9<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta mesma ideia \u00e9, de alguma forma, proposta no documento, j\u00e1 citado, de <strong>S. Jo\u00e3o Paulo II<\/strong>, Exort. Apost., <em>Redemptoris Custos<\/em>, n\u00ba 21, \u201c<strong>Juntamente com a assun\u00e7\u00e3o da humanidade, em Cristo foi tamb\u00e9m \u00abassumido\u00bb tudo aquilo que \u00e9 humano e, em particular, a fam\u00edlia, primeira dimens\u00e3o da sua exist\u00eancia na terra. Neste contexto foi \u00abassumida\u00bb tamb\u00e9m a paternidade humana de Jos\u00e9.<\/strong>\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"6\">\n<li><strong> S\u00e3o Jos\u00e9, a personifica\u00e7\u00e3o do Pai<\/strong> (*121-123)<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi frei <strong>Adauto Schumaker<\/strong> quem <strong>usou pela primeira vez esta express\u00e3o<\/strong>, \u201cJos\u00e9, a personifica\u00e7\u00e3o do Pai\u201d, num manuscrito com data da festa de S. Jos\u00e9 (19mar\u00e7o1987). Defendia que havia \u201c<strong>tr\u00eas humaniza\u00e7\u00f5es divinas<\/strong> (hip\u00f3stasis): a primeira por <strong><em>encarna\u00e7\u00e3o<\/em>, Jesus, Deus Filho<\/strong>; a segunda por <strong><em>corporifica\u00e7\u00e3o<\/em>, Maria, Deus M\u00e3e (Esp\u00edrito Santo)<\/strong>; e a terceira por <strong><em>incorpora\u00e7\u00e3o<\/em>, Jos\u00e9, Deus Pai<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dizia, ent\u00e3o, frei Adauto, \u201c<strong>Jos\u00e9 \u00e9 Deus Pai humanizado, incorporado<\/strong>. \u00c9 a sua Sabedoria e Discri\u00e7\u00e3o eternas, incorporadas no seu substituto na terra, no encargo da Sagrada Fam\u00edlia. \u00c9 a paternidade divina compartilhada do Pai Supremo (\u2026) Os tr\u00eas (Jesus, Maria e Jos\u00e9 <strong>viviam na doce paz do amor divino<\/strong>, <strong>mas tamb\u00e9m numa<\/strong> <strong>persistente hipertens\u00e3o espiritual<\/strong> (\u2026) <strong>Submetiam-se ao cumprimento da lei<\/strong> \u2013 circuncis\u00e3o, apresenta\u00e7\u00e3o, purifica\u00e7\u00e3o, romaria pascal anual \u00a0\u2013, mas <strong>interpretavam o seu procedimento de maneira distinta dos demais<\/strong>, <strong>em dolorosa busca de identidade<\/strong>\u201d. <strong>Que foram percebendo de forma progressiva e gradativa<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Transcrevo, ainda, o seu <strong>Credo<\/strong> que resumia o seu pensamento:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCreio em <strong>Deus Pai<\/strong> <strong>omnisciente<\/strong>, Criador e Glorificador do c\u00e9u e da terra, <strong>incorporado em Jos\u00e9<\/strong>, Pai da Igreja. Creio em <strong>Deus Filho omnipotente<\/strong>, <strong>encarnado em Jesus Cristo<\/strong>, Redentor e Salvador do mundo, Cabe\u00e7a e Cora\u00e7\u00e3o da Igreja que \u00e9 o seu corpo. Creio no <strong>Esp\u00edrito Santo omnipresente<\/strong>, Santificador e M\u00e3e da Cria\u00e7\u00e3o universal, <strong>corporificado em Maria<\/strong>, M\u00e3e da Igreja. \u00c1men.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aqui est\u00e1 uma formula\u00e7\u00e3o expl\u00edcita da rela\u00e7\u00e3o hipost\u00e1tica do pai de Jesus, Jos\u00e9, com o Pai celeste.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, <strong>personifica\u00e7\u00e3o expressa a \u201cautocomunica\u00e7\u00e3o sem reservas do Pai celeste ao pai terrestre<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"7\">\n<li><strong> A fam\u00edlia divina na fam\u00edlia humana <\/strong>(*135- 138)<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entendemos a <strong>Sant\u00edssima Trindade<\/strong> como a <strong>eterna comunh\u00e3o<\/strong> do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo. \u201c<strong>Eles irrompem simultaneamente juntos e relacionados<\/strong>. Eles <strong>coexistem eternamente um dentro do outro, para o outro, com o outro e jamais sem o outro<\/strong>. (\u2026) <strong>Trindade<\/strong> quer significar esta <strong>circula\u00e7\u00e3o de vida, de inclus\u00e3o e de amor<\/strong>\u201d. O que constitui a <strong>fam\u00edlia divina<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta <strong>fam\u00edlia divina quis sair de si mesma<\/strong>, <strong>deixar a sua transcend\u00eancia para convidar outra fam\u00edlia, a comungar e a participar da sua vida \u00edntima<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta fam\u00edlia \u00e9 a <strong>fam\u00edlia de Nazar\u00e9<\/strong>, com Jos\u00e9, Maria e Jesus. Esta <strong>fam\u00edlia humana foi assumida pela fam\u00edlia divina e passou a pertencer-lhe<\/strong>. Esta fam\u00edlia escolhida num recanto escondido do mundo, <strong>representa todas as fam\u00edlias humanas<\/strong> de todos os tempos e de todas as culturas. <strong>Deus \u201carma a sua tenda\u201d sobre uma fam\u00edlia humana <\/strong>para que <strong>todas participem da sua comunh\u00e3o e da sua vida eterna<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"8\">\n<li><strong> Sant\u00edssima Trindade inteira est\u00e1 entre n\u00f3s <\/strong>(*174- ss)<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Todas as fam\u00edlias humanas <\/strong>e <strong>cada ser humano<\/strong> est\u00e1 <strong>inserido neste processo de personifica\u00e7\u00e3o<\/strong> porque todos somos, quer tenhamos consci\u00eancia ou n\u00e3o, irm\u00e3os e irm\u00e3s de Jesus, Maria e Jos\u00e9. A <strong>mesma humanidade que est\u00e1 neles<\/strong> e que <strong>foi assumida pela Sant\u00edssima Trindade<\/strong>, <strong>est\u00e1 tamb\u00e9m em n\u00f3s<\/strong>. <strong>H\u00e1 algo da nossa humanidade que pertence ao Deus trino<\/strong>. Veja-se<strong> o desejo infinito <\/strong>que h\u00e1 em n\u00f3s\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como crist\u00e3os, esta \u00e9 a nossa grande responsabilidade: a de assumirmos na nossa humanidade este \u201cpedacinho de Deus\u201d que nos projeta para a transcend\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right; padding-left: 200px;\">*Assinalam-se as p\u00e1ginas a que se refere cada etapa da reflex\u00e3o. O livro de refer\u00eancia \u00e9 Leonardo BOFF, <em>S\u00e3o Jos\u00e9: a personifica\u00e7\u00e3o do Pai,<\/em> Cascais, Editora Pergaminho, 2006, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=13768&amp;preview_id=13768&amp;preview_nonce=56158e6f47&amp;_thumbnail_id=13769&amp;preview=true\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">j\u00e1 aqui analisado<\/a><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Entre 8 de<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13773,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[],"class_list":["post-13772","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13772","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13772"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13772\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13775,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13772\/revisions\/13775"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13773"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13772"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13772"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13772"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}