{"id":13595,"date":"2025-04-11T07:00:44","date_gmt":"2025-04-11T06:00:44","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=13595"},"modified":"2025-05-26T15:13:55","modified_gmt":"2025-05-26T14:13:55","slug":"luis-manuel-pereira-da-silva-intelligo-quia-credo-compreendo-porque-creio-vi-creio-num-so-senhor-jesus-cristo-filho-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-intelligo-quia-credo-compreendo-porque-creio-vi-creio-num-so-senhor-jesus-cristo-filho-de-deus\/","title":{"rendered":"[Republica\u00e7\u00e3o: a pretexto dos 1700 anos do Conc\u00edlio de Niceia] Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | Intelligo quia credo (Compreendo porque creio) VI Creio\u2026 num s\u00f3 Senhor, Jesus Cristo, Filho de Deus"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Intelligo quia credo<\/em> | <\/strong>Varia\u00e7\u00f5es sobre a f\u00e9 crist\u00e3&#8230;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com <em>Ecos da Ria &#8211; <\/em>rubrica mensal<em>)<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Quem dizem os homens que eu sou?\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pergunta, repercutida em Mc 8,27 (e paralelos) continua, aguda, a ressoar aos nossos ouvidos, sendo t\u00e3o relevante, no evangelho de Marcos que, segundo os exegetas, determina um antes e um depois em toda a din\u00e2mica deste livro b\u00edblico. Neste contexto, Jesus, ao ouvir da boca de Pedro, que \u2018Tu \u00e9s o Cristo\u2019 (uma afirma\u00e7\u00e3o que \u00e9 muito mais do que a enuncia\u00e7\u00e3o de um nome, mas a afirma\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de \u2018escolhido\u2019, ungido, Aquele por quem se estava \u00e0 espera enquanto ungido para ser rei), ordena que guardem sil\u00eancio, um sil\u00eancio a manter at\u00e9 que, definitivamente, se opere a \u2018un\u00e7\u00e3o\u2019 com a morte e ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, volvidos cerca de dois mil anos sobre este acontecimento, a pergunta continua a ser \u2018a pergunta\u2019, pois nela se repercute a interroga\u00e7\u00e3o definitiva sobre o sentido de toda a cria\u00e7\u00e3o. Ou Cristo \u00e9 o Cristo, Aquele em quem se manifesta o que, definitivamente, espera o mundo, ou resta a solid\u00e3o fria de uma cria\u00e7\u00e3o sem rumo\u2026 Ele revela! N\u2019Ele se revela tudo! E isto muda, de facto, tudo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Charles P\u00e9guy, um escritor franc\u00eas de finais do s\u00e9culo XIX e in\u00edcios de XX, um convertido tardio ao cristianismo, repercute este reconhecimento de que o mundo anda todo em busca desta definitividade que traz Jesus Cristo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">\u2018Os passos das legi\u00f5es tinham marchado por ELE.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">As velas dos barcos por ele se tinham inchado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">Por Ele os s\u00f3is de Outono tinham luzido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">As velas dos barcos por Ele se tinham dobrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">[\u2026]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">Os passos de Dario tinham marchado por Ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">Era Ele que se esperava no fim do fundo da P\u00e9rsia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">Era Ele que se esperava numa alma dispersa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">Ele era o Senhor de ontem e de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">[\u2026]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">As regras de Arist\u00f3teles tinham andado por ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">Do cavalo de Alexandre \u00e0s regras escol\u00e1sticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">E por Ele os ascetismo e a regra tinham luzido,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">Das regras de Epicuro \u00e0s regras mon\u00e1sticas.\u2019<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Reproduzo, aqui, com pequena altera\u00e7\u00e3o, tradu\u00e7\u00e3o recolhida de J. C. Neves, <em>Deixem-me falar-vos do imposs\u00edvel.<\/em> Cascais, Lucerna.)<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda a hist\u00f3ria do cristianismo \u00e9 um esfor\u00e7o de resposta consequente a esta decisiva interroga\u00e7\u00e3o. N\u00e3o apenas como uma resposta devida, mas como resposta de vida\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na defini\u00e7\u00e3o perante este aparente jogo de palavras se determinou, ao longo da hist\u00f3ria, o teor da resposta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas foram as tentativas que redundaram no que veio a considerar-se como heresia. Importa, hoje, compreender o que se decidia quando o cristianismo considerou determinadas linhas como sendo her\u00e9ticas. (Sublinhe-se, por\u00e9m, a ilegitimidade de toda a viol\u00eancia em nome do cristianismo\u2026 A salvaguarda da verdade n\u00e3o pode ser pretexto para o fim da caridade, assim como a salvaguarda da caridade n\u00e3o pode fazer-se ao arrepio da verdade. Assim com S. Paulo (dizei a verdade na caridade\u2026 Ef 4,15), assim com Bento XVI (\u00e9 preciso realizar a <em>caridade na verdade<\/em>!).)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os primeiros s\u00e9culos crist\u00e3os foram, com efeito, marcados pela busca incessante da verdade sobre a natureza daquele Jesus a quem Pedro chamou \u2018O Cristo\u2019, redundando dessa busca uma outra compreens\u00e3o sobre o pr\u00f3prio Deus que n\u2019Ele se revelava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para se compreender o crit\u00e9rio com que se foi estabelecendo o que n\u00e3o correspondia \u00e0 ortodoxia, n\u00e3o estava qualquer tipo de opacidade ou verdade oculta, contrariamente ao que pretendem afirmar, ainda hoje, os que, decididos a n\u00e3o tentar perceber o cristianismo, se sossegam sob a capa de um preconceito tranquilizador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os primeiros crist\u00e3os entenderam, desde a primeira hora, que Aquele com quem eles conviveram, de quem eles conheciam a fam\u00edlia, cuja origem era bem sabida de todos, Aquele era um como eles, mas um em quem n\u00e3o havia incoer\u00eancia e em quem se constatava uma unidade com Deus, que foram percebendo ser Seu Pai, que n\u00e3o se encontrava em qualquer outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, uma tal constata\u00e7\u00e3o que ganha particular pertin\u00eancia e evid\u00eancia na sua morte e na sua ressurrei\u00e7\u00e3o, confere aos crist\u00e3os o crit\u00e9rio fundamental: Ele \u00e9 um de n\u00f3s, um como n\u00f3s, mas \u00e9 muito mais do que um de n\u00f3s e um como n\u00f3s; Ele \u00e9, no meio de n\u00f3s, a realiza\u00e7\u00e3o definitiva da ponte com o eterno. Ele \u00e9 a presen\u00e7a singular, irrepet\u00edvel, do eterno, na m\u00e1xima manifesta\u00e7\u00e3o, \u00e0 luz da qual todas as demais devem ser interpretadas. Ele \u00e9, no dizer da carta aos Hebreus, o \u00fanico sacerdote, a verdadeira ponte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este \u00e9 o crit\u00e9rio! Ele \u00e9 a ponte!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, uma ponte sem liga\u00e7\u00e3o de uma margem a outra pode ser uma bela obra de arte, mas n\u00e3o realiza o que deve realizar uma ponte: unir as duas margens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis o crit\u00e9rio definitivo \u00e0 luz da qual se estabelece o que \u00e9 resposta adequada \u00e0 pergunta e o que n\u00e3o o \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A esta luz, compreende-se porque \u00e9 que falham o docetismo (que afirmava que a dor e o sofrimento de Jesus Cristo fora aparente), o arianismo (que dizia que Jesus Cristo era, efetivamente, humano, mas n\u00e3o era da mesma natureza de Deus, sendo apenas adotado por este, na morte), o pelagianismo (que reduzira Cristo a um belo exemplo moral, mas em que n\u00e3o se operara, efetivamente, uma salva\u00e7\u00e3o universal) ou, j\u00e1 mais recentemente, todas as abordagens que olham, fascinadas, para o Jesus hist\u00f3rico, vendo nele um her\u00f3i singular, mas n\u00e3o o reconhecem como presen\u00e7a definitiva de Deus na Hist\u00f3ria\u2026 Em todas estas abordagens falha a dimens\u00e3o \u2018pontifical\u2019 de Jesus Cristo. Uma das margens fica suspensa!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Continuar\u00edamos, assim, sem resposta \u00e0 pergunta e continuariam a ser v\u00e3os \u2018os passos da legi\u00f5es\u2019, \u2018os passos de Dario\u2019 ou o insuflar das velas dos barcos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E n\u00e3o \u00e9 apenas porque o queremos ou porque o quer a Igreja que tal deve ser assim. A ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo operou, naqueles que eram t\u00edmidos, acobardados e temerosos, uma transforma\u00e7\u00e3o tal que fez deles desabridas testemunhas que foram at\u00e9 ao ponto de dar a vida muito tempo depois dos eventos que tinham testemunhado. Nenhuma ilus\u00e3o se sustentaria tanto tempo e para mais separados uns dos outros e sem os meios de refor\u00e7o de \u2018motiva\u00e7\u00e3o\u2019 de que hoje dispomos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A realidade de Jesus Cristo, ponte definitiva entre o ef\u00e9mero e o eterno, entre a criatura e o Criador, estava desde o primeiro momento, presente na condi\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil do menino nascido pequeno e com condi\u00e7\u00e3o humana. Mas a ilumina\u00e7\u00e3o, no cora\u00e7\u00e3o dos que o seguiam foi-se fazendo paulatinamente. Assim tamb\u00e9m na hist\u00f3ria do cristianismo. Tudo est\u00e1 desde o primeiro momento. Mas \u00e9 necess\u00e1rio fazer o caminho de desvelar o que ali transparece, mas que \u00e9, tantas vezes, opaco ao olhar desatento. A consequ\u00eancia mais not\u00f3ria desta condi\u00e7\u00e3o de ponte \u00e9 que a nossa resposta \u00e0 pergunta inicial ter\u00e1 de redundar na transforma\u00e7\u00e3o dupla da nossa pr\u00f3pria compreens\u00e3o (a nossa vida faz sentido, tem sentido, o mundo \u00e9 ser criado e n\u00e3o produto de acaso), mas tamb\u00e9m da compreens\u00e3o de quem \u00e9 o pr\u00f3prio Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como bem recorda Albert Nolan, no seu livro \u2018Jesus antes do Cristianismo\u2019 (2010, Paulinas), \u2018\u00e9 este o significado da afirma\u00e7\u00e3o tradicional de que Jesus \u00e9 a Palavra de Deus. Jesus revela-nos Deus, mas Deus n\u00e3o nos revela Jesus. Deus n\u00e3o \u00e9 a palavra de Jesus, ou seja, as nossas ideias acerca de Deus n\u00e3o podem fazer incidir qualquer luz sobre a vida de Jesus. Argumentar, partindo de Deus, para chegar a Jesus \u2013 em vez de argumentar partindo de Jesus, para chegar a Deus \u2013 \u00e9 p\u00f4r o carro \u00e0 frente dos bois. Foi isto, como \u00e9 \u00f3bvio, o que muitos crist\u00e3os tentaram fazer, conduzindo-os geralmente a uma s\u00e9rie de especula\u00e7\u00f5es sem sentido, que s\u00f3 servem para obscurecer a quest\u00e3o e que impedem Jesus de nos revelar Deus.\u2019 (p. 226)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tu \u00e9s Jesus, o Cristo!&#8230;<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/photos\/homem-artista-rua-pintor-pintura-343674\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/pixabay.com\/pt\/photos\/homem-artista-rua-pintor-pintura-343674\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Intelligo quia credo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13596,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[173,55,224],"tags":[],"class_list":["post-13595","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-intelligo-quia-credo","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-nos-1700-anos-de-niceia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13595","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13595"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13595\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19361,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13595\/revisions\/19361"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13596"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13595"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13595"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13595"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}