{"id":13585,"date":"2021-11-24T07:00:47","date_gmt":"2021-11-24T07:00:47","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=13585"},"modified":"2021-11-17T11:14:57","modified_gmt":"2021-11-17T11:14:57","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-32-reflexoes-finais-conclusao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-32-reflexoes-finais-conclusao\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (32) \u2013 Reflex\u00f5es finais. Conclus\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de, ao longo de trinta glosas (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">1<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-30-condicoes-de-crenca\/\">30<\/a>), se ter acompanhado o retrato oferecido por Charles Taylor da forma\u00e7\u00e3o da <em>Idade Secular<\/em>, apresentam-se agora as \u00faltimas reflex\u00f5es finais (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-31-reflexoes-finais\/\">primeira parte<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 112. <em><u>Uma mudan\u00e7a de \u00e9poca. A liberdade religiosa<\/u>. \u2013<\/em> Mais do que uma \u00ab\u00e9poca de mudan\u00e7as, (\u2026) uma mudan\u00e7a de \u00e9poca\u00bb. Nestes termos se dirigiu o Papa Francisco \u00e0 C\u00faria Romana no discurso de apresenta\u00e7\u00e3o dos votos natal\u00edcios de 21 de Dezembro de 2019: \u00ab(\u2026) estamos a viver, n\u00e3o simplesmente uma \u00e9poca de mudan\u00e7as, mas uma mudan\u00e7a de \u00e9poca. Encontramo-nos, portanto, num daqueles momentos em que as mudan\u00e7as j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o lineares, mas epocais; constituem op\u00e7\u00f5es que transformam rapidamente o modo de viver, de se relacionar, de comunicar e elaborar o pensamento, de comunicar entre as gera\u00e7\u00f5es humanas e de compreender e viver a f\u00e9 e a ci\u00eancia\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal mudan\u00e7a de \u00e9poca, j\u00e1 o vimos, n\u00e3o tem por caracter\u00edstica necess\u00e1ria a \u00absupera\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o\u00bb; mas, ao modificar o quadro contextual em que a religi\u00e3o se manifesta, cria novas condicionantes \u2013 e possibilidades \u2013 \u00e0 respectiva afirma\u00e7\u00e3o. Se a \u00abcondi\u00e7\u00e3o humana\u00bb \u00e9 outra \u2013 isto \u00e9, as concretas condi\u00e7\u00f5es de espa\u00e7o, tempo e cultura em que o ser humano existe \u2013, outro poder\u00e1 ter de ser o modo de interagir com o mundo envolvente, com quem o ser humano existe em rela\u00e7\u00e3o ad\u00e2mica, pois \u00e9 dele que prov\u00e9m e dele \u00e9 parte f\u00edsica, mas tamb\u00e9m culturalmente (cf. ali\u00e1s o certeiro apontamento m\u00edtico de <em>Gn <\/em>2, 7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro plano em que se analisar\u00e1 o impacto de tais condicionantes sobre a possibilidade de afirma\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica e cren\u00e7a religiosas respeita ao enquadramento jur\u00eddico da <em>liberdade religiosa. <\/em>Tal liberdade tipicamente moderna, pr\u00f3pria de uma <em>Idade Secular <\/em>que emergiu tamb\u00e9m como forma de supera\u00e7\u00e3o de quadros de identifica\u00e7\u00e3o entre a <em>religi\u00e3o <\/em>e a <em>ordem social <\/em>no qual o fen\u00f3meno da pluralidade religiosa n\u00e3o era de relevo significativo \u2013 e que, por essa mesma supera\u00e7\u00e3o, passou a exigir um estatuto jur\u00eddico que permitisse enquadrar a diversidade de cren\u00e7a \u2013, conhece hoje a particularidade de ser uma liberdade garantida por uma comunidade pol\u00edtica (em parte) descomprometida com a promo\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica religiosa. Quer dizer: se a liberdade religiosa emergiu historicamente enquanto garantia de condi\u00e7\u00f5es de cren\u00e7a e de culto reconhecida por uma comunidade pol\u00edtica cujos dinamizadores do espa\u00e7o p\u00fablico, eles pr\u00f3prios, conheciam genericamente o fen\u00f3meno religioso a partir de dentro \u2013 constitu\u00eda, pois, uma <em>liberdade reconhecida por crentes a crentes (diferentes) \u2013, <\/em>num contexto de uma <em>Idade Secular, <\/em>em que a posi\u00e7\u00e3o de \u00abdescren\u00e7a\u00bb assume n\u00edveis muito acentuados, e se torna mesmo a op\u00e7\u00e3o supletiva (\u00abdefault\u00bb) em diferentes sectores sociais, sobretudo nos que t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima e prolongada com os sistemas de educa\u00e7\u00e3o formal (aqueles que de forma mais programada, sistem\u00e1tica e eficaz veiculam o imagin\u00e1rio colectivo de cada momento), torna-se uma <em>liberdade concedida por descrentes a crentes.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que pode trazer consigo significativas modifica\u00e7\u00f5es quanto ao alcance da pr\u00f3pria liberdade religiosa. Por uma aut\u00eantica perda de tradu\u00e7\u00e3o do respectivo significado entre gera\u00e7\u00f5es \u2013 de uma gera\u00e7\u00e3o que conhecia o fen\u00f3meno religioso por dentro para uma outra que, numa parte significativa, o ignora \u2013, o \u00e2mbito de protec\u00e7\u00e3o da liberdade religiosa pode ver-se amplamente dilu\u00eddo. Onde antes se poderia ainda divisar alguma abertura para se proteger ao abrigo da liberdade religiosa alguns elementos pr\u00f3prios da respectiva mundivid\u00eancia espec\u00edfica, mesmo se conflituantes com o quadro valorativo comum da ordem p\u00fablica, eis que agora \u00e9 ela relida dentro do quadro da \u00abordem de benef\u00edcio rec\u00edproco\u00bb (nn.\u00ba 37 e ss.) pr\u00f3pria de uma \u00abIdade da Autenticidade\u00bb (nn.\u00ba 93 e ss.), em que \u00e0 ordem estadual se pede somente a promo\u00e7\u00e3o daqueles espec\u00edficos valores que permitem que cada um se afirme como indiv\u00edduo com as suas op\u00e7\u00f5es de <em>bricolage <\/em>de consumo; e em que \u00abreligi\u00e3o\u00bb se pode ent\u00e3o confundir, para essa ordem p\u00fablica, como um conjunto de cren\u00e7as an\u00f3dinas e do foro privado, que, sobretudo, n\u00e3o coloquem em causa valores veiculados pelo discurso p\u00fablico<em> default<\/em> predominante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o hoje incont\u00e1veis os diferentes aspectos que h\u00e1 n\u00e3o muito se entendiam pr\u00f3prios do exerc\u00edcio da liberdade religiosa e que, justamente por for\u00e7a da assinalada reconfigura\u00e7\u00e3o da ordem p\u00fablica, s\u00f3 com muita dificuldade ser\u00e3o admitidos de modo n\u00e3o controverso nos dias que correm. Continua a liberdade religiosa a ser invoca\u00e7\u00e3o suficiente para justificar a admissibilidade da veicula\u00e7\u00e3o, em termos p\u00fablicos, de dimens\u00f5es at\u00e9 h\u00e1 pouco entendidas como b\u00e1sicas de <em>moral pessoal, <\/em>de <em>moral matrimonial, <\/em>ou de <em>bio\u00e9tica? <\/em>Ou n\u00e3o ser\u00e3o j\u00e1 elas, assim que conflituantes com o quadro valorativo pr\u00f3prio do \u00abhumanismo exclusivo\u00bb, fulminadas, em dados casos, com a amea\u00e7a de constitu\u00edrem modalidades de \u00abdiscurso de \u00f3dio\u00bb?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dito de outro modo: se a <em>liberdade religiosa<\/em> surgiu para garantir espa\u00e7os pr\u00f3prios de afirma\u00e7\u00e3o de <em>mundivid\u00eancias <\/em>diferentes (com limites, certamente), no Estado secular contempor\u00e2neo corre o risco de se ver reduzida \u00e0 protec\u00e7\u00e3o daquilo que, para esse mesmo Estado, pode ser visto e interpretado como \u00abpr\u00f3prio\u00bb e \u00abadequado\u00bb do fen\u00f3meno religioso \u2013 sendo, pois, o alcance da religi\u00e3o definido pelos poderes p\u00fablicos. Divisa-se, por conseguinte, o risco de se ver amplamente restringido o espa\u00e7o para o an\u00fancio religioso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 113. <em><u>A \u00abLiberdade Religiosa para o Bem de Todos\u00bb<\/u>. \u2013 <\/em>Semelhante desafio n\u00e3o tem passado despercebido aos v\u00e9rtices cat\u00f3licos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 no Conc\u00edlio Vaticano II se reservou \u00e0 liberdade religiosa uma palavra particular. Consta ela da declara\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/archive\/hist_councils\/ii_vatican_council\/documents\/vat-ii_decl_19651207_dignitatis-humanae_po.html\"><em>Dignitatis Humanae<\/em><\/a> sobre a liberdade religiosa de 7 de Dezembro de 1965. Em lugar da posi\u00e7\u00e3o novecentista de recusa do reconhecimento da \u00abliberdade religiosa\u00bb no quadro de \u00abliberalismo\u00bb entendido como laicista, declara-se agora claramente o seu amplo reconhecimento enquanto \u00abimunidade de coac\u00e7\u00e3o na sociedade civil\u00bb (n.\u00ba 1), entendida como decorr\u00eancia do reconhecimento da dignidade da pessoa humana, \u00abcomo a palavra revelada de Deus e a pr\u00f3pria raz\u00e3o a d\u00e3o a conhecer\u00bb (n.\u00ba 2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em virtude das reconfigura\u00e7\u00f5es sociais das \u00faltimas d\u00e9cadas, prop\u00f4s-se a <em>Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional <\/em>a actualizar a perspectiva da declara\u00e7\u00e3o <em>Dignitatis Humanae <\/em>no confronto com a sociedade contempor\u00e2nea. Ap\u00f3s aprova\u00e7\u00e3o do Santo Padre de 21 de Mar\u00e7o de 2019, foi assim publicado o documento <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/roman_curia\/congregations\/cfaith\/cti_documents\/rc_cti_20190426_liberta-religiosa_po.html\"><em>Liberdade Religiosa para o Bem de Todos \u2013 Uma abordagem teol\u00f3gica dos desafios contempor\u00e2neos<\/em><\/a><em>. <\/em>Entre os desafios identificados est\u00e1, muito especialmente, o confronto da religi\u00e3o com o Estado \u00abmoralmente neutro\u00bb, nomeadamente quando essa \u00abmoralidade neutra\u00bb \u00e9 interpretada, n\u00e3o no sentido de oferecer <em>iguais chances<\/em> aos diferentes membros da comunidade de participarem na forma\u00e7\u00e3o da moralidade p\u00fablica, mas de <em>excluir <\/em>da possibilidade de participar da esfera p\u00fablica posi\u00e7\u00f5es fundadas em mundivid\u00eancias de \u00edndole religiosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seleccionam-se, e transcrevem-se de seguida, algumas das reflex\u00f5es constantes do referido documento relativas ao desafio lan\u00e7ado \u00e0 <em>liberdade religiosa <\/em>pelo Estado \u00abmoralmente neutral\u00bb:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abOnde quer que o problema da liberdade religiosa surja no mundo, hoje esse tema \u00e9 discutido em refer\u00eancia \u2013 positiva ou negativa \u2013 a uma concep\u00e7\u00e3o de direitos humanos e liberdades civis que est\u00e1 associado \u00e0 cultura pol\u00edtica liberal, democr\u00e1tica, pluralista e secular. A ret\u00f3rica humanista, que invoca os valores da conviv\u00eancia pac\u00edfica, da dignidade individual, do di\u00e1logo intercultural e inter-religioso, \u00e9 expressa na linguagem do Estado liberal moderno.\u00bb (n.\u00ba 3)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abA alegada neutralidade ideol\u00f3gica de uma cultura pol\u00edtica que declara querer ser constru\u00edda sobre a forma\u00e7\u00e3o de regras de justi\u00e7a meramente processuais, rejeitando qualquer justifica\u00e7\u00e3o \u00e9tica e inspira\u00e7\u00e3o religiosa, manifesta a tend\u00eancia de elaborar uma ideologia da neutralidade, que, de fato, imp\u00f5e a marginaliza\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o a exclus\u00e3o, da express\u00e3o religiosa da esfera p\u00fablica. E, portanto, da total liberdade de participa\u00e7\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o da cidadania democr\u00e1tica. Daqui fica clara a ambival\u00eancia de uma neutralidade da esfera p\u00fablica, que \u00e9 apenas aparente, e uma liberdade civil objectivamente discriminat\u00f3ria. Uma cultura civil que define seu pr\u00f3prio humanismo atrav\u00e9s da remo\u00e7\u00e3o do componente religioso da realidade humana \u00e9 for\u00e7ada a deixar de lado tamb\u00e9m partes decisivas de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria: do pr\u00f3prio saber, da pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o e da sua pr\u00f3pria coes\u00e3o social. O resultado \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o de partes cada vez mais consistentes da humanidade e da cidadania das quais a pr\u00f3pria sociedade \u00e9 formada. A reac\u00e7\u00e3o \u00e0 fraqueza humanista do sistema faz frequentemente aparecer justificado a muitos (sobretudo aos jovens) o recurso a um fanatismo desesperado: ateu ou tamb\u00e9m teocr\u00e1tico. A atrac\u00e7\u00e3o incompreens\u00edvel exercida pelas formas violentas e totalit\u00e1rias da ideologia pol\u00edtica ou milit\u00e2ncia religiosa, que pareciam j\u00e1 consignadas ao julgamento da raz\u00e3o e da hist\u00f3ria, deve interrogar-nos de modo novo e com uma an\u00e1lise mais profunda.\u00bb (n.\u00ba 5)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Particularmente relevantes s\u00e3o os nn.\u00ba 62 e 63, sob o t\u00edtulo \u00abA redu\u00e7\u00e3o \u201cliberal\u201d da liberdade religiosa\u00bb (onde se cita justamente a obra <em>A Secular Age<\/em>, como texto de refer\u00eancia para a compreens\u00e3o do \u00abhumanismo exclusivo\u00bb), e os nn.\u00ba 64 e 65, sob o t\u00edtulo \u00abAmbiguidade do Estado moralmente neutro\u00bb:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abO conceito de igualdade dos cidad\u00e3os, que originalmente se limitava \u00e0 rela\u00e7\u00e3o legal entre o indiv\u00edduo e o Estado, de modo que cada membro de um determinado sistema de governo fosse considerado igual perante a lei desse sistema de governo, foi transposto para o mundo da \u00e9tica e da cultura. Por essa extens\u00e3o, a mera possibilidade de que uma avalia\u00e7\u00e3o moral diferente ou uma aprecia\u00e7\u00e3o diferente das pr\u00e1ticas culturais possam ser superiores a outras ou contribuir mais do que outras para o bem comum, tornou-se, agora, uma quest\u00e3o pol\u00edtica controversa. De acordo com essa ideia de neutralidade, todo o universo da moralidade humana e do conhecimento social deve ser democratizado. (\u2026) [N]\u00e3o se pode deixar de observar que, quando um tipo de Estado \u201cmoralmente neutro\u201d come\u00e7a a controlar o campo de todos os julgamentos humanos, come\u00e7a a assumir as caracter\u00edsticas de um Estado \u201ceticamente autorit\u00e1rio\u201d. (\u2026) Em nome dessa \u201c\u00e9tica do Estado\u201d, \u00e0s vezes, al\u00e9m do crit\u00e9rio da justa ordem p\u00fablica, a liberdade da comunidade religiosa de organizar-se segundo seus princ\u00edpios \u00e9 indevidamente posta em quest\u00e3o\u00bb (n.\u00ba 62)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abA neutralidade moral do Estado pode estar relacionada com alguns dos v\u00e1rios entendimentos do Estado liberal moderno. De facto, o liberalismo, como teoria pol\u00edtica, tem uma hist\u00f3ria longa e complexa, que n\u00e3o pode ser reduzida a uma concep\u00e7\u00e3o un\u00edvoca e compartilhada por todos. No campo de suas diversas elabora\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas \u2013 em alguns casos mais directamente relacionados a uma vis\u00e3o antropol\u00f3gica de inspira\u00e7\u00e3o radicalmente individualista, em outros mais pr\u00f3ximas de uma concep\u00e7\u00e3o negoci\u00e1vel da sua aplica\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-social \u2013 \u00e9 poss\u00edvel identificar ao menos quatro interpreta\u00e7\u00f5es principais da neutralidade do estado. [\u2026] (d) uma teoria que garante um exerc\u00edcio de liberdades pol\u00edticas que n\u00e3o envolva a refer\u00eancia vinculante a uma no\u00e7\u00e3o transcendente de bem. Neste \u00faltimo sentido, o liberalismo pol\u00edtico aparece intimamente associado a limita\u00e7\u00f5es da liberdade, que dizem respeito \u00e0 palavra, ao pensamento, \u00e0 consci\u00eancia e \u00e0 religi\u00e3o. A neutralidade da esfera p\u00fablica, de facto, n\u00e3o se limita neste caso a garantir a igualdade das pessoas perante a lei, mas imp\u00f5e a exclus\u00e3o de uma determinada ordem de prefer\u00eancias, que associam a responsabilidade moral e a argumenta\u00e7\u00e3o \u00e9tica com uma vis\u00e3o antropol\u00f3gica e social do bem comum. Nesse caso, o Estado tende a assumir a forma de uma \u201cimita\u00e7\u00e3o laicista\u201d da concep\u00e7\u00e3o teocr\u00e1tica de religi\u00e3o, que decide a ortodoxia e a heresia da liberdade em nome de uma vis\u00e3o pol\u00edtico-salv\u00edfica da sociedade ideal: determinando <em>a priori<\/em> a sua identidade perfeitamente racional, perfeitamente civil, perfeitamente humana.\u00bb (n.\u00ba 63)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abA suposta neutralidade ideol\u00f3gica do Estado liberal, que exclui selectivamente a liberdade de um testemunho transparente da comunidade religiosa na esfera p\u00fablica, abre caminho \u00e0 dissimulada transcend\u00eancia de uma ideologia oculta do poder.\u00bb (n.\u00ba 64)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso se escreveu j\u00e1: se, desde uma perspectiva te\u00edstica, h\u00e1 certamente elementos muito valiosos nesta passagem para a <em>Idade Secular<\/em> (n.\u00ba 110), outros dever\u00e3o ser recebidos com apreens\u00e3o (n.\u00ba 111). \u00c9 tamb\u00e9m esse o caso das consequ\u00eancias, sobre a liberdade religiosa, da emerg\u00eancia de um quadro cultural em que muitos dos seus principais agentes dinamizadores ignoram o sentido da \u00abreligi\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"114\">\n<li><em><u>Uma mudan\u00e7a de \u00e9poca. Consequ\u00eancias para o an\u00fancio crist\u00e3o.<\/u> \u2013 <\/em>Mas n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os termos de organiza\u00e7\u00e3o institucional da sociedade civil que se encontram em mudan\u00e7a. Antes e para al\u00e9m deles, \u00e9 o <em>\u00e9thos<\/em> cultural que se v\u00ea transformado, em raz\u00e3o da emerg\u00eancia de novos \u00abimagin\u00e1rios pol\u00edticos\u00bb ou \u00absociais\u00bb que condicionam de forma decisiva o modo de representa\u00e7\u00e3o da pessoa e da comunidade.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tais \u00abimagin\u00e1rios\u00bb condicionam de uma forma muito not\u00f3ria a possibilidade do an\u00fancio crist\u00e3o. Uma vez que esses \u00abimagin\u00e1rios\u00bb moldam o espa\u00e7o no qual \u00e9 recebido semelhante an\u00fancio, este \u00faltimo s\u00f3 ter\u00e1 qualquer possibilidade de ressoar na medida em que consiga cobrar sentido dentro ou no confronto com esses mesmos imagin\u00e1rios. De facto, toda a comunica\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e ao menos <em>texto <\/em>e <em>contexto<\/em>, e o sentido do <em>texto <\/em>h\u00e1-de ser compreendido em fun\u00e7\u00e3o do <em>contexto <\/em>em que tem lugar. Ora, um texto escolhido com desconhecimento do <em>contexto<\/em> de escuta do destinat\u00e1rio pode conduzir a que seja recebido com um sentido diametralmente oposto \u00e0quele que quem comunica procurara transmitir, e o desconhecimento do referido contexto conduz, n\u00e3o raro, a actos de comunica\u00e7\u00e3o falhados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olhemos o seguinte exemplo. Uma media\u00e7\u00e3o tradicional para veicular a moralidade crist\u00e3 (individual, familiar, social) \u00e9 a da <em>lei natural. <\/em>Ainda h\u00e1 n\u00e3o muito foi ela reproposta como meio v\u00e1lido de di\u00e1logo com o mundo contempor\u00e2neo (Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional, <em>Em busca de uma \u00e9tica universal: novo olhar sobre a lei natural, <\/em>2008). Certamente que nada haver\u00e1 a apontar ao uso do termo \u00ablei natural\u00bb onde se compreenda que a <em>physis <\/em>que pressup\u00f5e \u00e9 uma realidade de \u00edndole <em>criatural<\/em> que n\u00e3o se reduz ao dado meramente material\u00edstico, e que, portanto, segue as suas pr\u00f3prias \u00ableis\u00bb de sentido que podem ser identificadas pela raz\u00e3o humana. Se, por\u00e9m, o uso do termo \u00ablei natural\u00bb for usado num contexto tal de forte separa\u00e7\u00e3o entre o <em>Eu <\/em>e o mundo em redor, compreendido enquanto pura <em>natureza muda <\/em>a dominar pelas ci\u00eancias naturais (n.\u00ba 72), a sua invoca\u00e7\u00e3o perde a sua capacidade de veicular o que pretende comunicar. O problema n\u00e3o est\u00e1 na \u00ablei natural\u00bb; est\u00e1, sim, na mudan\u00e7a de <em>contexto <\/em>que impede que a sua invoca\u00e7\u00e3o ressoe como rica de significado para quem se inscreva no imagin\u00e1rio moderno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da mesma forma, algumas tentativas de encontrar \u00abpontos de contacto\u00bb entre o cristianismo e iniciativas \u00abseculares\u00bb podem, em lugar de conduzir a uma converg\u00eancia entre ambos, apenas cimentar a dist\u00e2ncia entre os dois. Quando a proposta crist\u00e3 se reduza ou identifique com um conjunto de iniciativas promovidas por outros actores sociais \u2013 \u00abvoluntariado\u00bb, \u00abactivismo c\u00edvico\u00bb, \u00abparticipa\u00e7\u00e3o social\u00bb, ou, noutro plano, \u00abdescoberta de si pr\u00f3prio\u00bb, \u00abdesenvolvimento da personalidade\u00bb \u2013, a percep\u00e7\u00e3o, da parte de um destinat\u00e1rio a quem a proposta crist\u00e3 seja estranha, ser\u00e1 simplesmente a de <em>reduzir <\/em>o que \u00e9 o an\u00fancio crist\u00e3o ao que essas outras actividades prop\u00f5em. Em lugar, portanto, de dar a oportunidade a um <em>an\u00fancio,<\/em> fecha-a, porque d\u00e1 por comunicado o que n\u00e3o se chegou a comunicar. \u00c9 justamente neste sentido que, nas p\u00e1ginas finais de Taylor, se evoca a interpreta\u00e7\u00e3o de Ivan Illich, para quem toda a modernidade podia ser olhada como uma forma de corrup\u00e7\u00e3o do cristianismo, isto \u00e9, de realiza\u00e7\u00f5es institucionais em nome de valores crist\u00e3os, mas que no seu termo impedem que eles se realizassem plenamente (n.\u00ba 107).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto \u00e9, os imagin\u00e1rios do mundo contempor\u00e2neo h\u00e3o-de ser conhecidos, n\u00e3o para serem mimetizados, nem, pior, legitimados com uma sobrecapa de \u00edndole religiosa, mas para poderem ser <em>contrastados. <\/em>A linguagem de cada tempo n\u00e3o deve ser aprendida para ser repetida; mas para, aproveitando os seus pr\u00f3prios termos, permitir que a mundivid\u00eancia que ela veicula seja contrastada com um an\u00fancio diferente. Porque \u00e9 apenas esse contraste entre a linguagem da f\u00e9 e a linguagem do mundo \u2013 contraste que sup\u00f5e que o \u00abdi\u00e1logo\u00bb recuse ser apenas \u00abcompreens\u00e3o\u00bb, e arrisque ser igualmente \u00abinterpela\u00e7\u00e3o\u00bb e \u00abconfronta\u00e7\u00e3o\u00bb \u2013 que permite comunicar o que h\u00e1 de radicalmente singular a transmitir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"115\">\n<li><em><u>O fim da hist\u00f3ria e o princ\u00edpio da vida de cada um<\/u>. \u2013 <\/em>S\u00e3o precisamente tais contrastes que permitem avivar o fen\u00f3meno da \u00abf\u00e9 religiosa\u00bb em tempos de uma <em>Idade Secular. <\/em>Pois s\u00e3o eles que permitem, primeiro, suspeitar da insufici\u00eancia de outras mundivid\u00eancias de pretens\u00e3o exclusivista; s\u00e3o eles que suscitam o interesse, e o desejo, em descobrir o que os originou; e, finalmente, s\u00e3o eles que motivam essa \u00abmudan\u00e7a de pensamento\u00bb, <em>metan\u00f3ia\u00b8 <\/em>que h\u00e1-de facultar, num segundo momento, que se aquies\u00e7a na reconfigura\u00e7\u00e3o da atitude ante o mundo, assumindo uma vis\u00e3o te\u00edstica da exist\u00eancia. T\u00e3o certeiro \u00e9, por isso, o fim da obra <em>A Idade Secular, <\/em>ao apontar para o fen\u00f3meno da <em>convers\u00e3o <\/em>(n.\u00ba 107)<em>. <\/em><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi esta, afinal, a descoberta de Israel na sua peregrina\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dos s\u00e9culos: que, olhando o tempo e a hist\u00f3ria, a\u00ed se podem descobrir contrastes que criam inquieta\u00e7\u00f5es; que alguns desses contrastes apenas podem ser devidamente interpretados enquanto \u00absinais\u00bb; e que tais sinais, devidamente acolhidos, n\u00e3o podem conduzir sen\u00e3o a uma <em>convers\u00e3o<\/em>, de que resulta uma transforma\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria exist\u00eancia. Em diferentes est\u00e1dios da economia salv\u00edfica, a este processo se designou de \u00ab\u00caxodo\u00bb para, mediante uma \u00abLei\u00bb, se chegar \u00e0 \u00abTerra da Promessa\u00bb; se chamou \u00abLiberta\u00e7\u00e3o\u00bb; se chamou \u00abSalva\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde uma tal perspectiva, e a partir de uma interpreta\u00e7\u00e3o crente da hist\u00f3ria, nenhum modelo de sociedade pode ser temido como aquele determina o fim da f\u00e9. N\u00e3o seria poss\u00edvel. Mas, de id\u00eantica forma, n\u00e3o se deve apostar o futuro da f\u00e9, qualquer que ele seja, numa simples renova\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es sociais. Seria igualmente imposs\u00edvel, al\u00e9m de que uma pobre ilus\u00e3o. O passado, o presente e o futuro da religi\u00e3o dependem antes, em \u00faltima linha, do conjunto dos percursos pessoais de aquiesc\u00eancia crente, que nunca se podem predizer antes de efectivamente ocorridos, pois sempre implicam decis\u00f5es pessoais e livres que ocorrem algures no itiner\u00e1rio de cada um.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A forma\u00e7\u00e3o e genealogia da <em>Idade Secular <\/em>n\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria que tenha por objecto o fim da religi\u00e3o, mas apenas um novo contexto em que ela passou a ter lugar. Pois quanto \u00e0 religi\u00e3o, insiste-se por uma terceira e \u00faltima vez (nn.\u00ba 104 e 107), est\u00e1 tudo sempre em aberto. Pois bastar\u00e1 haver vida, tempo e exist\u00eancia para que tudo se possa renovar desde quaisquer circunst\u00e2ncias, como sempre ocorre quando algu\u00e9m, no seu percurso pessoal, experimenta esse preciso tipo de transforma\u00e7\u00e3o que, \u00e0 falta de melhores palavras, n\u00e3o sabe j\u00e1 dizer de outro modo do que uma esp\u00e9cie de passagem da morte \u00e0 vida.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\"><a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/photos\/xadrez-jogo-de-tabuleiro-ampulheta-6592318\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/pixabay.com\/pt\/photos\/xadrez-jogo-de-tabuleiro-ampulheta-6592318\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13586,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-13585","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13585","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13585"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13585\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13588,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13585\/revisions\/13588"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13586"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13585"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13585"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13585"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}