{"id":13500,"date":"2021-11-10T07:00:19","date_gmt":"2021-11-10T07:00:19","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=13500"},"modified":"2021-11-05T12:13:14","modified_gmt":"2021-11-05T12:13:14","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-31-reflexoes-finais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-31-reflexoes-finais\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (31) \u2013 Reflex\u00f5es finais"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de, ao longo de trinta glosas (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">1<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-30-condicoes-de-crenca\/\">30<\/a>), se ter acompanhado o retrato oferecido por Charles Taylor da forma\u00e7\u00e3o da <em>Idade Secular<\/em>, apresentam-se agora as primeiras reflex\u00f5es finais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 108. <em><u>\u00a0Limites da Idade Secular.<\/u> \u2013<\/em> Olhando o conjunto da obra de Taylor, vemos que o plano em que se afirmou primariamente a <em>Idade Secular <\/em>foi o da <em>ordem social<\/em>. N\u00e3o se trata, por conseguinte, de uma passagem em absoluto de um tempo em que os referentes religiosos s\u00e3o fortes e omnipresentes para um outro em que perdem toda a sua pretens\u00e3o de verdade, mas, em primeira linha, de uma reconfigura\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o de presen\u00e7a social da religi\u00e3o, colocando termo \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o \u00abdurkheimiana\u00bb (ou \u00abpaleo-durkheimiana\u00bb, ou \u00abneodurkheimiana\u00bb,\u2026: cf. os nn.\u00ba 84 e 88) entre religi\u00e3o e ordem social. Em lugar daquela identifica\u00e7\u00e3o, eis que, agora, se defrontam diferentes alternativas mundividenciais num mesmo espa\u00e7o p\u00fablico, que, precisamente por disputarem esse espa\u00e7o, se desafiam umas \u00e0s outras, sem a aparente autoridade de que gozariam acaso n\u00e3o houvesse alternativas dispon\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ingresso numa <em>Idade Secular, <\/em>longe de conduzir a uma supera\u00e7\u00e3o do fen\u00f3meno religioso, deve ser interpretado \u2013 o que j\u00e1 \u00e9 muito \u2013 como uma <em>reconfigura\u00e7\u00e3o <\/em>do quadro contextual em que a religi\u00e3o se manifesta. Tal reconfigura\u00e7\u00e3o pode por alguns ser confundida como um desaparecimento puro e simples da religi\u00e3o, apenas por deixar de aparecer nos termos que at\u00e9 h\u00e1 pouco eram usuais; mas uma leitura mais atenta permite divisar a sua perdura\u00e7\u00e3o em lugares que se supunham inabituais, bem como, sobretudo, a perviv\u00eancia do espec\u00edfico fen\u00f3meno com que Taylor sela a sua obra: o da <em>convers\u00e3o<\/em>. N\u00e3o agora de uma convers\u00e3o entre religi\u00f5es, mas de convers\u00e3o de leituras ou mundivid\u00eancias ate\u00edsticas ou indiferentistas para uma postura convictamente te\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo da <em>Idade Secular <\/em>est\u00e1 longe de ser linear. Desconhece a homogeneidade do fen\u00f3meno religioso em dada sociedade; mas tamb\u00e9m lhe \u00e9 estranha uma monocromia de sinal inverso, de hegemonia n\u00e3o crente, mesmo se esta se pode afirmar em dados c\u00edrculos sociais mais restritos (cf. por ex. o n.\u00ba 106). Perante isto, pode perguntar-se: de que modo poder\u00e3o os diferentes agentes religiosos agir num semelhante quadro, com vista a cumprirem a miss\u00e3o para que se entendem convocados? Tal \u00e9 o objecto destas reflex\u00f5es finais, tidas a partir de uma perspectiva cat\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 109. <em><u>A relev\u00e2ncia do contexto de viv\u00eancia da f\u00e9.<\/u> <\/em>\u2013 Se a mudan\u00e7a de contexto em que manifesta o fen\u00f3meno religioso n\u00e3o impede necessariamente, enquanto tal, que este perdure enquanto realidade social cultivada e feita viver pela e na comunidade de crentes \u2013 \u00e9 sempre de admitir um <em>resto<\/em> que sobrevive a estas turbul\u00eancias \u2013, tamb\u00e9m n\u00e3o se pode dizer totalmente indiferente na determina\u00e7\u00e3o de qual o <em>alcance <\/em>da presen\u00e7a <em>p\u00fablica, <\/em>mas tamb\u00e9m <em>privada, <\/em>da religi\u00e3o. De facto, e muito embora a confiss\u00e3o de f\u00e9 crist\u00e3 pressuponha actos pessoais de ades\u00e3o, \u00e9 grandemente influenciada por factores de \u00edndole cultural: h\u00e1-de ao menos haver a possibilidade de veicula\u00e7\u00e3o cultural desse m\u00ednimo de conte\u00fados (<em>fides quae<\/em>) que possam determinar a aquiesc\u00eancia existencial da pessoa ao respectivo conte\u00fado (<em>fides qua<\/em>). Se, em termos teol\u00f3gicos, se pode realmente admitir que todos, em todas as circunst\u00e2ncias, est\u00e3o por misteriosas formas em rela\u00e7\u00e3o imediata com o pr\u00f3prio Deus (\u00abunmittelbar zu Gott\u00bb, conforme ali\u00e1s passagem de Ranke citada por Taylor \u00e0 p. 745), ao n\u00edvel da compreens\u00e3o puramente humana a consci\u00eancia dessa rela\u00e7\u00e3o est\u00e1 sujeita a factores de \u00edndole ambiental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob este ponto de vista, \u00e9 de perguntar se a passagem de uma <em>Idade Pr\u00e9-Secular<\/em> para uma <em>Idade Secular <\/em>\u2013 passagem que, porque naquele primeiro momento a <em>Idade<\/em> de ent\u00e3o era entendida como \u00abcrist\u00e3\u00bb, pode ser treslida enquanto passagem de uma <em>Idade crist\u00e3 <\/em>para uma <em>Idade p\u00f3s-crist\u00e3 \u2013<\/em> n\u00e3o representa em si uma perda (a partir de uma leitura crist\u00e3), precisamente por conduzir ao desaparecimento de muitos elementos integrantes do espa\u00e7o p\u00fablico, de \u00edndole \u00abambiental\u00bb, que davam a efectiva possibilidade \u00e0 pessoa de, deles se apropriando e com eles se conformando, assumir pessoalmente a f\u00e9 crista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a resposta n\u00e3o \u00e9 clara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com efeito, n\u00e3o \u00e9 l\u00edquido, nem sequer desde este ponto de vista \u00abambiental\u00bb, que a <em>Idade Secular <\/em>constitua enquanto tal uma perda. Talvez seja ainda muito cedo para fazer um ju\u00edzo global. Algumas perdas existem certamente, mas nem todos os aspectos s\u00e3o negativos. Para o compreender, bastar\u00e1 colocar em evid\u00eancia a forma de abuso que constitui identificar de modo pleno a <em>Idade Pr\u00e9-Secular <\/em>com uma <em>Idade (plenamente) crist\u00e3, <\/em>que o n\u00e3o foi. E, se o n\u00e3o foi, as condi\u00e7\u00f5es que a <em>Idade Pr\u00e9-Secular <\/em>disponibilizou para a possibilidade de acesso \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3, se, em parte, podem ter sido mais favor\u00e1veis dos que a da <em>Idade Secular<\/em>, em parte podem igualmente ter constitu\u00eddo um obst\u00e1culo a essa mesma op\u00e7\u00e3o \u2013 e vice-versa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 110. <em><u>Cristianismo e sociedade. Primeiro reducionismo: o decl\u00ednio da f\u00e9 crist\u00e3.<\/u> \u2013 <\/em>N\u00e3o resta d\u00favida de que a sociedade pr\u00e9-secular, em contexto europeu, se legitimava a si pr\u00f3pria como crist\u00e3, o que constitu\u00eda um seu factor de <em>delimita\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria<\/em>. Importa, por\u00e9m, distinguir entre o <em>modo de legitima\u00e7\u00e3o <\/em>da sociedade e a sua efectiva <em>realidade<\/em>. Se n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas quanto \u00e0quela tentativa de identifica\u00e7\u00e3o, j\u00e1 parece altamente abusivo procurar identificar a <em>Idade pr\u00e9-secular <\/em>como um exemplo <em>perfeito <\/em>do que seria uma cultura crist\u00e3 no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Factores interiores e exteriores \u00e0 religi\u00e3o crist\u00e3 conduziam a que essa identifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o pudesse ser plena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por um lado, aquilo a que se chamava religi\u00e3o crist\u00e3 era o resultado de um certo equil\u00edbrio entre as exig\u00eancias que se podem dizer realmente espec\u00edficas da f\u00e9 crist\u00e3 e formas tradicionais (\u00abpag\u00e3s\u00bb) de viv\u00eancia religiosa, nalguns casos em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 <em>ortodoxia<\/em> ou \u00e0 <em>ortopraxis<\/em> da f\u00e9 supostamente professada. Tais formas sincr\u00e9ticas de religi\u00e3o, ainda que sob \u2013 por sin\u00e9doque \u2013 uma redu\u00e7\u00e3o \u00e0 f\u00f3rmula geral de \u00abcristianismo\u00bb, constitu\u00edram, n\u00e3o raro, factores de resist\u00eancia \u00e0 pr\u00f3pria f\u00e9 crist\u00e3, quando compreendida nos seus pr\u00f3prios termos \u00abortodoxos\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro, por raz\u00f5es exteriores \u00e0 pr\u00f3pria religi\u00e3o crist\u00e3. Ao menos em termos gerais, o cristianismo, e as respectivas institui\u00e7\u00f5es, nunca constitu\u00edram o motor \u00fanico da sociedade, e quase nunca o mais determinante: olhe-se o cesaropapismo; a doutrina das duas espadas; o padroado; o regalismo; o josefismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ante tais dados, h\u00e1 certo abuso de linguagem onde se pretenda fazer uma identifica\u00e7\u00e3o entre uma tal sociedade e um exemplo acabado de cristianismo. A sociedade era, como sempre ocorre, profundamente complexa, em que o factor crist\u00e3o era um de entre muitos fermentos sociais, determinante nuns aspectos, n\u00e3o determinante noutros, e muitas vezes transigindo, a n\u00edvel institucional, em colocar a seu coberto o que afinal o contraria, na expectativa de vantagens ulteriores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas se \u00e9 um abuso hist\u00f3rico identificar uma sociedade pr\u00e9-secular como um exemplo acabado de sociedade crist\u00e3, semelhante identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 igualmente \u2013 o que \u00e9 bem mais grave \u2013 um abuso teol\u00f3gico. Porque confunde um determinado tempo hist\u00f3rico com a \u00abplenitude dos tempos\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mesmo se pode dizer, com as necess\u00e1rias adapta\u00e7\u00f5es de outras realidades nossas contempor\u00e2neas: seria correcto identificar a forma\u00e7\u00e3o escolar <em>geral <\/em>(e n\u00e3o especificamente religiosa) ministrada em institui\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas, ou as organiza\u00e7\u00f5es caritativas e assistenciais cat\u00f3licas, como um espelho <em>pleno <\/em>do que \u00e9 a proposta crist\u00e3 para o ser humano e para o mundo? S\u00f3 com certo, e n\u00e3o pequeno, abuso de linguagem, que n\u00e3o deixa, por\u00e9m, de ser cometido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o pass\u00e1mos, por conseguinte, de uma sociedade com perfeita presen\u00e7a crist\u00e3 para uma outra em que o elemento crist\u00e3o se esvazia. Mas de uma sociedade <em>com condi\u00e7\u00f5es imperfeitas <\/em>para a afirma\u00e7\u00e3o do cristianismo para uma outra com <em>condi\u00e7\u00f5es igualmente imperfeitas <\/em>para a afirma\u00e7\u00e3o do cristianismo. A diferen\u00e7a na \u00abimperfei\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es\u00bb est\u00e1 em que ontem a sociedade se pensava como crist\u00e3, apesar de o n\u00e3o ser perfeitamente, e, assim, se enganar a respeito da sua identidade; e hoje se pensar supletivamente como secular, mesmo se tal n\u00e3o tem de implicar, enquanto tal, qualquer hostilidade necess\u00e1ria aos elementos centrais do cristianismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Precisamente a tomada de consci\u00eancia de que o contexto de experi\u00eancia da f\u00e9 crist\u00e3 \u00e9 sempre <em>imperfeito <\/em>para a respectiva afirma\u00e7\u00e3o permite matizar as apreens\u00f5es possivelmente resultantes de uma passagem para a Idade Secular \u2013 e superar uma redutora interpreta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de \u00abperda\u00bb do espa\u00e7o do cristianismo. Que de perda de presen\u00e7a social se fale, \u00e9 certo; que de perda de \u00abpoder institucional\u00bb exercido em nome da f\u00e9 crist\u00e3, igualmente; que tal seja necessariamente uma real perda para o cristianismo, merece decerto uma diferente resposta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perdeu-se presen\u00e7a p\u00fablica, e com ela a facilidade de apresentar aos contempor\u00e2neos os elementos fundamentais da f\u00e9 crist\u00e3. Mas ganhou-se, com o fim dessa identifica\u00e7\u00e3o, a enorme vantagem de n\u00e3o mais se apresentar como crist\u00e3o o que, vindo sob esse nome, \u00e9 somente uma sua plena nega\u00e7\u00e3o, e que ali\u00e1s contribuiu para criar aut\u00eanticas legi\u00f5es de advers\u00e1rios \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3 por raz\u00f5es que, em verdade, a ultrapassam. Pois \u00e9 certo, como n\u00e3o se pode deixar de reconhecer, que a identifica\u00e7\u00e3o institucional entre religi\u00e3o e ordem social propicia tal tipo de \u00absolidariedade\u00bb entre os males de uma e de outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Justamente o fim dessa identifica\u00e7\u00e3o institucional, com a simult\u00e2nea perdura\u00e7\u00e3o, na esfera p\u00fablica, dos males que se assacavam \u00e0 religi\u00e3o, sem que a esta \u00faltima possam continuar a ser imputados, ser\u00e1 \u2013 como observa Taylor (n.\u00ba 107) \u2013 um dos factores que facilitar\u00e3o o recobro da presen\u00e7a da religi\u00e3o na sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 111. <em><u>Cont. Segundo reducionismo: a ascens\u00e3o da f\u00e9 crist\u00e3<\/u>. \u2013 <\/em>De onde n\u00e3o se deve cair no reducionismo inverso \u2013 o de saudar a <em>Idade Secular <\/em>como uma <em>Era<\/em> \u00abexcelente\u00bb para a afirma\u00e7\u00e3o da f\u00e9 crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cai-se agora no reducionismo rigorosamente inverso. Onde ontem \u2013 com quanto abuso\u2026\u00a0 \u2013 se legitimava por ex. o \u00abdireito divino dos monarcas\u00bb, hoje \u2013 com n\u00e3o menor abuso\u2026 \u2013 \u00e9 a \u00abordem liberal democr\u00e1tica\u00bb, ou \u00abplural e diversificada\u00bb, a ser justificada como uma tradu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da f\u00e9 crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tend\u00eancia de identifica\u00e7\u00e3o anterior entre religi\u00e3o e ordem social repete-se, somente as cores s\u00e3o diversas. De facto, a absolutiza\u00e7\u00e3o do tempo de <em>ontem<\/em> ou do tempo de <em>hoje<\/em>, o <em>tradicionalismo <\/em>ou o <em>modernismo, <\/em>constituem apenas duas varia\u00e7\u00f5es sobre um mesmo erro: o de exaltar <em>um certo momento hist\u00f3rico <\/em>meramente humano a servir de par\u00e2metro de leitura de toda a hist\u00f3ria. Por isso, ali\u00e1s, conseguem essas duas varia\u00e7\u00f5es defrontar-se de modo t\u00e3o confort\u00e1vel uma \u00e0 outra, por arrancaram de uma leitura da hist\u00f3ria muito semelhante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 certo que a <em>Idade Secular <\/em>traz consigo ineg\u00e1veis vantagens: como n\u00e3o saborear uma viv\u00eancia pr\u00e1tica da f\u00e9 que doravante ser\u00e1 alimentada por efectivas decis\u00f5es pessoais, e n\u00e3o enquanto meio de acesso a outras esferas da realidade social? E como n\u00e3o ver com alegria a perda de \u00abpoder mundano\u00bb por parte das inst\u00e2ncias eclesiais, podendo enfim concentrar-se na sua fundamental miss\u00e3o: a do o an\u00fancio do Evangelho, a do sustento \u00e0 viv\u00eancia da f\u00e9 por parte da comunidade de baptizados, a do servi\u00e7o da caridade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o se podem igualmente calar os in\u00fameros inconvenientes a que j\u00e1 se assiste. N\u00e3o se pode olhar sen\u00e3o com enorme apreens\u00e3o para as reconfigura\u00e7\u00f5es de uma sociedade que, na sua cultura comum, deixa de ser salgada por valores fortemente promovidos pela cultura crist\u00e3. Veja-se o conjunto de modifica\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito do \u00abbiodireito\u00bb, em que se redefine o estatuto do ser humano em termos que ainda h\u00e1 pouco se supunham impens\u00e1veis, e que se recuperam solu\u00e7\u00f5es de uma antiguidade cl\u00e1ssica pr\u00e9-crist\u00e3. Quem n\u00e3o se conforme com a sorte a que v\u00ea remetidos os seus contempor\u00e2neos n\u00e3o poder\u00e1 encontrar, diante destes fen\u00f3menos, ocasi\u00e3o de satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo ponderado, parece que n\u00e3o se poder\u00e1 celebrar esta passagem para a <em>Idade Secular <\/em>com efusividade (embora n\u00e3o entusi\u00e1stico, diferente parece ser o sentir de Taylor, que, por\u00e9m, n\u00e3o chega a tratar dos efeitos sobre a \u00abmoralidade comum\u00bb do apagamento da presen\u00e7a social do cristianismo). Mas, como antes igualmente vimos (n.\u00ba 110), tamb\u00e9m n\u00e3o seria necessariamente uma ocasi\u00e3o de felicidade a perman\u00eancia no quadro anterior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda \u00e9 muito cedo, conforme se escreveu h\u00e1 pouco, para fazer um ju\u00edzo global.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Continuamos as presentes reflex\u00f5es no pr\u00f3ximo texto.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/congerdesign-509903\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3080144\">congerdesign<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3080144\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13501,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-13500","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13500","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13500"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13500\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13502,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13500\/revisions\/13502"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13501"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13500"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13500"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13500"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}