{"id":13421,"date":"2021-10-27T07:00:42","date_gmt":"2021-10-27T06:00:42","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=13421"},"modified":"2021-10-20T15:29:02","modified_gmt":"2021-10-20T14:29:02","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-30-condicoes-de-crenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-30-condicoes-de-crenca\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (30) \u2013 Condi\u00e7\u00f5es de Cren\u00e7a"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>, cujo objecto foi enunciado na <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">primeira<\/a> destas composi\u00e7\u00f5es. A leitura feita da obra (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-29-a-religiao-hoje\/\">29<\/a>) \u00e9 hoje conclu\u00edda, com a considera\u00e7\u00e3o da Parte V.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 105. <em><u>\u00a0A Parte V<\/u>. \u2013 <\/em>Tem a \u00faltima parte da obra de Charles Taylor, a Parte V (pp. 537-772), uma \u00edndole significativamente diversa das anteriores. Nas quatro partes anteriores narrou-se o processo de forma\u00e7\u00e3o da <em>Idade Secular<\/em>, percorrendo todo arco da modernidade (Partes I a III, caps. 1 a 11), para identificar, no seu termo, o lugar da religi\u00e3o no mundo contempor\u00e2neo (Parte IV, caps. 12 a 14). A inten\u00e7\u00e3o central, por conseguinte, pode dizer-se <em>hist\u00f3rica <\/em>e <em>sociol\u00f3gica, <\/em>destinada a tornar compreens\u00edvel quais os factores, as motiva\u00e7\u00f5es e os contextos que permitam a forma\u00e7\u00e3o de um per\u00edodo hist\u00f3rico caracterizado pela secularidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a \u00faltima parte, dizia, tem uma \u00edndole significativamente diversa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos cap\u00edtulos 15 a 19, divisa-se uma inten\u00e7\u00e3o essencialmente <em>apolog\u00e9tica<\/em>, se \u00e9 l\u00edcito avocar esse ramo da teologia que, entre outras, tem por fun\u00e7\u00e3o demonstrar a <em>razoabilidade <\/em>da f\u00e9. E de uma verdadeira <em>apolog\u00e9tica <\/em>se trata<em>, <\/em>isto \u00e9, de uma <em>defesa <\/em>da razoabilidade f\u00e9, e n\u00e3o apenas da recolha de um arsenal de muni\u00e7\u00f5es para entrar em <em>pol\u00e9mica <\/em>com entendimentos conflituantes. Conforme se explicar\u00e1 j\u00e1 de seguida, \u00e9 mesmo uma parte da obra na qual h\u00e1 a sublinhar mais o <em>esp\u00edrito <\/em>e a <em>atitude <\/em>do seu Autor do que propriamente os respectivos conte\u00fados (n.\u00ba 106).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 no cap\u00edtulo 20, \u00faltimo da obra, apresenta-se uma reflex\u00e3o que fecha de modo integrado a <em>Idade Secular<\/em> (n.\u00ba 107).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 106. <em><u>Uma apolog\u00e9tica em sentido pr\u00f3prio<\/u>. \u2013 <\/em>Embora seccionados, os primeiros cinco cap\u00edtulos da Parte V (caps. 15 a 19) da<em> Idade Secular<\/em> s\u00e3o animados por um esp\u00edrito semelhante, como constituindo uma mesma longa reflex\u00e3o com ligeiras varia\u00e7\u00f5es entre as diferentes unidades. Recordemos que, ao cabo do percurso realizado nas Partes I a IV, Taylor conclu\u00edra pela exist\u00eancia, n\u00e3o de uma <em>Idade Secular <\/em>no sentido de desaparecimento da dimens\u00e3o religiosa do mundo humano, mas antes como uma <em>Idade <\/em>de tens\u00f5es entre uma pluralidade de alternativas, crentes e n\u00e3o crentes (sob diferentes modalidades, virtualmente inesgot\u00e1veis, de cren\u00e7a e de n\u00e3o cren\u00e7a), antag\u00f3nicas entre si (pense-se, de novo, no tri\u00e2ngulo constitu\u00eddo pelos v\u00e9rtices <em>op\u00e7\u00e3o te\u00edstica; humanismo exclusivo; contrailuminismo imanentista<\/em>). Idade na qual, portanto, nenhuma atitude existencial se pode pensar como <em>livre <\/em>do desafio resultante da simples presen\u00e7a de uma op\u00e7\u00e3o alternativa. E assim mesmo se, como n\u00e3o deixa de notar a espa\u00e7os, em ambiente universit\u00e1rio a op\u00e7\u00e3o <em>te\u00edstica<\/em> tende a estar arredada \u2013 com consequ\u00eancias para o estilo de grelhas de leitura da realidade que nele se adoptam. Com efeito, embora a \u00e9poca seja de grande alternativa de posi\u00e7\u00f5es, pode haver <em>meios <\/em>particulares onde prevalece a hegemonia. Assim, \u00ab[u]m ateu numa regi\u00e3o fortemente crist\u00e3 [literalmente: o <em>Bibel belt<\/em>] tem dificuldade em ser compreendido, tal como frequentemente (num sentido muito diferente) a tem um crist\u00e3o crente em certos dom\u00ednios da academia\u00bb (p. 556).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naqueles quatro primeiros cap\u00edtulos \u2013 15 a 19 \u2013, a tarefa de Taylor parece ser ent\u00e3o a de mostrar claramente como a <em>op\u00e7\u00e3o crente <\/em>n\u00e3o \u00e9 <em>menos razo\u00e1vel <\/em>do que a alternativa <em>descrente. <\/em>F\u00e1-lo, por\u00e9m, n\u00e3o com intuito pol\u00e9mico, mas com grande benignidade, percorrendo diferentes pontos cr\u00edticos nos quais se torna claro que a alternativa <em>descrente <\/em>enfrenta debilidades de \u00edndole semelhante \u00e0 op\u00e7\u00e3o <em>crente<\/em>, sem poder arrogar a si \u2013 sen\u00e3o com ignor\u00e2ncia das suas reais possibilidades \u2013 uma valia absoluta de que n\u00e3o disp\u00f5e. Servindo-me de termos correntes da linguagem teol\u00f3gica, Taylor faz uma abordagem mais \u00abapof\u00e1tica\u00bb do que \u00abcataf\u00e1tica\u00bb, colocando em evid\u00eancia, n\u00e3o poss\u00edveis erros, mas os m\u00faltiplos espa\u00e7os tem\u00e1ticos em rela\u00e7\u00e3o aos quais tamb\u00e9m a alternativa n\u00e3o crente deve reconhecer as suas dificuldades, conservando-se em sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o que a op\u00e7\u00e3o crente n\u00e3o tenha, tamb\u00e9m ela, dificuldades de afirma\u00e7\u00e3o (desde logo, acrescento eu, por a pr\u00f3pria ilumina\u00e7\u00e3o da f\u00e9 pressupor nalguma medida a ades\u00e3o crente). O que n\u00e3o se afigura necessariamente mau. Taylor, que n\u00e3o deixa de referir a espa\u00e7os a sua condi\u00e7\u00e3o de cat\u00f3lico, parece mesmo assumir uma grande simpatia com a <em>Idade Secular \u2013 <\/em>ao menos no confronto com per\u00edodos hist\u00f3ricos anteriores \u2013, e com a situa\u00e7\u00e3o que provoca de for\u00e7ar a via crente a abdicar de certa <em>presun\u00e7\u00e3o <\/em>de que poderia dispor em per\u00edodos hist\u00f3ricos anteriores nos quais gozava de hegemonia, nessa medida podendo cair na tenta\u00e7\u00e3o de pretender dispensar a dimens\u00e3o pessoal da f\u00e9 \u2013 e, assim, traindo e pervertendo a precisa f\u00e9 que se supunha estar a servir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A t\u00f3nica n\u00e3o est\u00e1, portanto, em afirmar que a op\u00e7\u00e3o crente pode chamar a si mais <em>objectividade <\/em>ou<em> cientificidade<\/em> do que a op\u00e7\u00e3o descrente, mas em sublinhar que, no que respeita a quest\u00f5es existencialmente centrais, tamb\u00e9m a op\u00e7\u00e3o descrente depara com algumas dessas <em>mesmas debilidades<\/em> que poderia supor apenas atingirem a op\u00e7\u00e3o crente. A tomada de consci\u00eancia destes limites \u2013 por mais que o <em>framework <\/em>da ci\u00eancia moderna (quando n\u00e3o nalguns seus mais elevados expoentes, ao menos nos seus operadores comuns) assente na errada convic\u00e7\u00e3o da aus\u00eancia de radicais limita\u00e7\u00f5es epist\u00e9micas que <em>tamb\u00e9m para a ci\u00eancia moderna <\/em>se colocam \u2013 permite colocar lado a lado, e j\u00e1 n\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o de ordena\u00e7\u00e3o da primeira \u00e0 segunda, a rela\u00e7\u00e3o entre cren\u00e7a e descren\u00e7a. Em suma: \u00abTalvez exista apenas a escolha entre boa e m\u00e1 religi\u00e3o\u00bb (p. 708). Nunca \u00e9 poss\u00edvel escapar inteiramente \u00e0 incerteza, \u00e0 d\u00favida, \u00e0 fragilidade \u2013 e \u00e0 necessidade de uma <em>aquiesc\u00eancia crente <\/em>como momento de supera\u00e7\u00e3o dessa mesma incerteza, ao menos como <em>cren\u00e7a pr\u00e1tica <\/em>que permita a actua\u00e7\u00e3o no quotidiano. E t\u00eam-na mesmo os que, somente por a depositarem num conte\u00fado diferente do das religi\u00f5es tradicionais, sup\u00f5em dispensar a op\u00e7\u00e3o crente. Por isso se repete: \u00abTalvez exista apenas a escolha entre boa e m\u00e1 religi\u00e3o\u00bb. Mesmo que a \u00abreligi\u00e3o\u00bb n\u00e3o d\u00ea por esse nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00ed onde se julga haver escapado ao fen\u00f3meno religioso, logo se cai, mas agora inadvertidamente, em asser\u00e7\u00f5es ou pr\u00e1ticas que n\u00e3o podem ser qualificadas sen\u00e3o como de \u00edndole religiosa \u2013 mesmo se essa sua natureza \u00e9 ignorada por quem as afirma ou leva a cabo. Serve de exemplo o recurso ao mecanismo do \u00abbode expiat\u00f3rio\u00bb, amplamente estudado por Ren\u00e9 Girard, que, sendo t\u00edpico do discurso religioso como forma de canaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, se v\u00ea a espa\u00e7os \u00absecularizado\u00bb (luta de classes; anti-semitismo germ\u00e2nico; etc.) sem consci\u00eancia da respectiva filia\u00e7\u00e3o \u2013 e sem as espec\u00edficas cautelas que o pr\u00f3prio discurso religioso descobriu para travar e dirigir de forma n\u00e3o destrutiva esse caudal de viol\u00eancia que habita na pessoa humana. De novo: n\u00e3o \u00e9 dada ao homem a escolha entre ter ou n\u00e3o religi\u00e3o, mas apenas da religi\u00e3o que professa \u2013 mesmo que seja chamada, por ex., ideologia.\u00a0 \u00abTalvez exista apenas a escolha entre boa e m\u00e1 religi\u00e3o. Agora, a quest\u00e3o \u00e9 que existe boa religi\u00e3o\u00bb (p. 708).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 a exposi\u00e7\u00e3o de qual a <em>boa religi\u00e3o<\/em> ultrapassa o prop\u00f3sito da <em>Idade Secular<\/em>. A t\u00f3nica da Parte V \u00e9 apolog\u00e9tica, mas n\u00e3o pol\u00e9mica. Embora escrita de modo desassombrado, a atitude de fundo \u2013 coerente, ali\u00e1s, com a viv\u00eancia da profiss\u00e3o de f\u00e9 do Autor \u2013 \u00e9 de significativa mansid\u00e3o: n\u00e3o tem em vista inculcar uma suposta \u00abobviedade\u00bb da f\u00e9 crist\u00e3 \u2013 obviedade que a f\u00e9 crist\u00e3 ali\u00e1s n\u00e3o tem \u2013, postando-a em combate com as alternativas crentes e n\u00e3o crentes suas contempor\u00e2neas, mas apenas limpar o terreno para que possa ressoar. Mas o que tem de ressoar \u00e9 o vento, <em>ruah, pne\u00fbma, <\/em>Esp\u00edrito (<em>1 Rs <\/em>19, 12).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A abordagem \u00abapolog\u00e9tica\u00bb de Taylor distende-se pelos cap\u00edtulos intitulados: \u00abO quadro imanentista\u00bb (<em>The Immanent Frame), <\/em>pp. 539-593 (cap. 15), \u00abPress\u00f5es cruzadas\u00bb (<em>Cross pressures), <\/em>pp. 594-617 (cap. 16, \u00abDilemas I\u00bb e \u00abDilemas II\u00bb (<em>Dillemas I <\/em>e <em>II), <\/em>pp. 618-675 e 676-710 (caps. 17 e 18), e \u00abFronteiras inquietas da modernidade\u00bb (<em>Unquiet Frontiers of Modernity<\/em>), pp. 711-727 (cap. 19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns dos temas considerados s\u00e3o: as limita\u00e7\u00f5es epist\u00e9micas de um quadro de compreens\u00e3o da realidade puramente imanentista (cap. 15); a exist\u00eancia de press\u00f5es cruzadas sobre cada posi\u00e7\u00e3o crente ou descrente (cap. 16); o confronto entre a experi\u00eancia de vida espiritual e as limita\u00e7\u00f5es de uma cultura que reduz o corpo a objecto terap\u00eautico (cap. 17); o sentido do sofrimento, do sacrif\u00edcio e da salva\u00e7\u00e3o (cap. 17); o significado da viol\u00eancia (cap. 17 e 18); as limita\u00e7\u00f5es das \u00e9ticas contempor\u00e2neas (utilitarismo; Kant) de \u00edndole normativa (cap. 18); a no\u00e7\u00e3o de tempo, e a morte como um corte no tempo que interpela o ser humano (cap. 19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 107. <em><u>Convers\u00f5es.<\/u> \u2013 <\/em>J\u00e1 o \u00faltimo cap\u00edtulo, o cap. 20, tem por t\u00edtulo \u00abConvers\u00f5es\u00bb (<em>Conversions<\/em>), integrando as pp. 728-772 (seguir-se-\u00e1 ainda um breve ep\u00edlogo, j\u00e1 mencionado no n.\u00ba 80).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 assinal\u00e1vel que o longo e denso percurso de Taylor relativo a uma <em>Idade Secular <\/em>termine com um cap\u00edtulo em tema de <em>convers\u00f5es. <\/em>Op\u00e7\u00e3o importante do ponto de vista simb\u00f3lico: depois de uma obra dedicada, em boa parte, a explicar o processo de forma\u00e7\u00e3o de um quadro existencial no qual a op\u00e7\u00e3o de <em>d\u00favida, <\/em>para quase todos, e de <em>descren\u00e7a, <\/em>para muitos, se p\u00f4de afirmar como \u00f3bvia, a obra termina voltado para aqueles que romperam com o <em>framework <\/em>pr\u00f3prio da <em>Idade Secular \u2013 <\/em>ou, mais precisamente, que exploraram todas as suas virtualidades \u2013 para tomarem assumidas op\u00e7\u00f5es crentes (p. 731). Especial aten\u00e7\u00e3o \u00e9 reservada, no cap\u00edtulo, ao percurso de convers\u00e3o de Charles P\u00e9guy (pp. 745-755) e de Gerard M. Hopkins (pp. 755-765). S\u00e3o itiner\u00e1rios pessoais que testemunham, em vidas concretas, a <em>fragilidade <\/em>da op\u00e7\u00e3o <em>descrente, <\/em>que, por isso precisamente, \u00e9 superada muitas vezes pela convers\u00e3o crente<em>. <\/em>Ali\u00e1s, segundo Taylor, as duas seguintes raz\u00f5es contribuir\u00e3o para o fim das modernas teorias da seculariza\u00e7\u00e3o, que tendem a \u00abcensurar o passado religioso por muitas das desgra\u00e7as do nosso mundo\u00bb: (i) a circunst\u00e2ncia de sociedades n\u00e3o ocidentais n\u00e3o seguirem o padr\u00e3o que nelas se pretende explicar; e (ii) o n\u00e3o desaparecimento, nelas, dos \u00abmales\u00bb que historicamente se atribu\u00edam \u00e0 religi\u00e3o (p. 770). A constante presen\u00e7a de fen\u00f3menos de <em>convers\u00e3o<\/em> exemplifica um e outro aspecto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquilo a que porventura se assiste, afinal, \u00e9 somente ao fim da identifica\u00e7\u00e3o \u00abdurkheimiana\u00bb entre <em>religi\u00e3o <\/em>e <em>ordem social. <\/em>Mas n\u00e3o \u00e9 o fim da religi\u00e3o<em>, <\/em>nem \u00e9 necessariamente um mal, mesmo de uma perspectiva crist\u00e3 crente \u2013 \u00e9 apenas o fim de um certo modo de presen\u00e7a da religi\u00e3o na sociedade, que n\u00e3o impede que outros, at\u00e9 melhores, possam surgir. Evoca Taylor neste momento a singular figura de Ivan Illich, para quem a modernidade deveria ser pensada <em>em bloco<\/em> como uma forma extrema de corrup\u00e7\u00e3o do cristianismo, caracterizando-a a tentativa de substitui\u00e7\u00e3o do centro da vida crist\u00e3 \u2013 a viv\u00eancia incarnada de redes de rela\u00e7\u00e3o comunional, alimentadas pela <em>ag\u00e1pe<\/em> \u2013 por desincarnadas formas de transforma\u00e7\u00e3o institucional da sociedade mediante \u00abac\u00e7\u00f5es de reforma\u00bb que, no seu termo, conduziram ao \u00abevanescimento\u00bb da presen\u00e7a do religioso em diferentes sectores sociais (pp. 737-743). A troca, apetece acrescentar, do bin\u00f3mio <em>pessoa<\/em>&#8211;<em>rela\u00e7\u00e3o <\/em>pelo <em>indiv\u00edduo-institui\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Precisamente o fim daquela identifica\u00e7\u00e3o pode configurar uma oportunidade de primeira grandeza. Pois permite colocar termo a uma forma de associa\u00e7\u00e3o entre o fen\u00f3meno religioso e \u00abac\u00e7\u00f5es institucionais de reforma\u00bb que traz consigo o risco de enclausurar e, no limite, de conduzir ao definhamento da pr\u00f3pria pr\u00e1tica religiosa, porque privada do contacto com as suas fontes vitais. Porque corrompida, mesmo que na suposi\u00e7\u00e3o de que se estava a cumprir o seu prop\u00f3sito. O termo da identifica\u00e7\u00e3o \u00abdurkheimiana\u00bb entre <em>religi\u00e3o <\/em>e <em>ordem social <\/em>pode, portanto, permitir recuperar a experi\u00eancia da <em>tens\u00e3o escatol\u00f3gica <\/em>entre a realidade do <em>Mundo <\/em>e a realidade do <em>Reino. <\/em>Agora que o <em>Reino <\/em>n\u00e3o est\u00e1 j\u00e1 identificado com a <em>ordem institucional <\/em>deste <em>Mundo, <\/em>tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 rejeitado apenas por simplesmente se estar a recusar este <em>Mundo <\/em>e esta <em>ordem. <\/em>Pode ent\u00e3o voltar a ser procurado, e recebido, com todo o seu brilho e toda a sua for\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria, com as suas sombras e possibilidades, encontra-se em aberto. Mas, bem vistas as coisas, \u00e9 tamb\u00e9m um horizonte cheio de esperan\u00e7a que se est\u00e1 a abrir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguiremos com breves reflex\u00f5es a respeito do conjunto da obra <em>A Idade Secular.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/photos\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=768759\">Free-Photos<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=768759\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13423,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-13421","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13421","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13421"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13421\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13424,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13421\/revisions\/13424"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13423"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13421"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13421"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13421"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}