{"id":13348,"date":"2021-10-13T07:00:00","date_gmt":"2021-10-13T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=13348"},"modified":"2021-10-09T19:57:05","modified_gmt":"2021-10-09T18:57:05","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-29-a-religiao-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-29-a-religiao-hoje\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (29) \u2013 Religi\u00e3o, hoje"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>, cujo objecto foi enunciado na <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">primeira<\/a> destas composi\u00e7\u00f5es. Ap\u00f3s a leitura das tr\u00eas primeiras partes da obra (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-22-trajectorias-novecentistas\/\">22<\/a>), inici\u00e1mos a Parte IV, de t\u00edtulo \u00abNarrativas de Seculariza\u00e7\u00e3o\u00bb. Depois das glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/category\/olhares\/glosas\/\">23<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-28-a-idade-da-autenticidade-cont\/\">28<\/a>, vemos hoje o seu \u00faltimo cap\u00edtulo: \u00abReligi\u00e3o, hoje\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 101. <em>\u00a0<u>Tr\u00eas golpes<\/u>. \u2013 <\/em>Chegamos agora ao \u00faltimo cap\u00edtulo da Parte IV da <em>Idade Secular: <\/em>o cap\u00edtulo 14, de t\u00edtulo \u00abReligi\u00e3o, hoje\u00bb (<em>Religion Today<\/em>), e que se prolonga pelas pp. 505-535. Tendo por objecto apenas a realidade nossa contempor\u00e2nea, compreende-se a sua estrutura menos sistematizada no confronto com sec\u00e7\u00f5es anteriores da obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Identifica Taylor tr\u00eas \u00abgolpes\u00bb dados \u00e0 presen\u00e7a p\u00fablica da religi\u00e3o. Depois de se (i) deslassarem da identidade nacional ou de certas minorias, (ii) e de perderem grande parte da sua <em>pretens\u00e3o <\/em>de autoridade, (iii) desapareceram, finalmente, as liga\u00e7\u00f5es \u00e0s fam\u00edlias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Taylor explora-o a partir do exemplo norte-americano, exemplo de um quadro de interac\u00e7\u00e3o \u00abneo-durkheimiano\u00bb entre a religi\u00e3o e a sociedade (n.\u00ba 88). O autor coloca em contraste a situa\u00e7\u00e3o existente no p\u00f3s 2.\u00aa Guerra Mundial com a que surgiria algumas d\u00e9cadas depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No p\u00f3s 2.\u00aa-Guerra Mundial, com efeito, ter-se-\u00e1 obtido um perfeito alinhamento entre, por um lado, o patriotismo religioso e a religi\u00e3o, e, por outro, o sentido da relev\u00e2ncia dos valores familiares \u2013 simbolizado de modo especial no modelo de fam\u00edlia nuclear que conduz uma exist\u00eancia respeit\u00e1vel e tranquila nos <em>sub\u00farbios ajardinados<\/em> das grandes cidades (realidade que se nos tornou t\u00e3o pr\u00f3xima pelo cinema e pela literatura): \u00abOs tr\u00eas lados deste tri\u00e2ngulo davam apoio rec\u00edproco uns aos outros: a fam\u00edlia era a <em>matriz <\/em>na qual os jovens se tornavam bons cidad\u00e3os e crentes activos; a religi\u00e3o era a fonte dos valores que animavam, quer a fam\u00edlia, quer a sociedade; e o Estado era a realiza\u00e7\u00e3o e a garantia dos valores centrais para a fam\u00edlia e para as igrejas\u00bb (pp. 505-506). Em per\u00edodo de bipolaridade geopol\u00edtica, semelhantes \u00a0caracter\u00edsticas podiam servir ainda de elementos de diferencia\u00e7\u00e3o do \u00abcomunismo ateu\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certamente que haveria j\u00e1 muito de simplesmente social-identit\u00e1rio nesta refer\u00eancia \u00e0 religi\u00e3o. Mas mesmo esse sustent\u00e1culo, que ainda assim existia, viria a ser colocado em crise: \u00abA bondade imaculada da <em>vida \u00e0 americana <\/em>[<em>American Way of Life<\/em>] foi colocada em quest\u00e3o na luta contra Jim Crow [leis de segrega\u00e7\u00e3o racial], e na agonia gerada pela Guerra do Vietname; a imagem positiva da fam\u00edlia nuclear foi questionada pelo feminismo, e pela nova cultura expressivista e revolu\u00e7\u00e3o sexual dos anos 60; e a branda religi\u00e3o de conformidade americana foi largamente repudiada nessa d\u00e9cada turbulenta.\u00bb (p. 506) [Cf. o que se escreveu no excurso do n.\u00ba 97]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tem o ser humano horror ao vazio. Por isso se pergunta: que \u00abespiritualidade\u00bb emergiu em substitui\u00e7\u00e3o daquele quadro de cultura?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 102. <em><u>Tra\u00e7os de uma nova \u00abespiritualidade\u00bb. Sentido de fundo.<\/u> \u2013 <\/em>Manifestam-se percursos de \u00a0procura de experi\u00eancias profundas de sentido, cuja motiva\u00e7\u00e3o radica no combate \u00e0 disseminada sensa\u00e7\u00e3o de vazio e de aus\u00eancia de prop\u00f3sito de vida (p. 506). Simplesmente, tal procura \u00e9 feita nos termos da \u00ab\u00c9tica da Autenticidade\u00bb (nn.\u00ba 93 e ss.), com forte \u00eanfase na individualidade e no <em>Eu<\/em>, na intimidade, na valoriza\u00e7\u00e3o do corpo e das respectivas sensa\u00e7\u00f5es, etc.: \u00abo acento est\u00e1 na unidade, integridade, holismo, individualidade\u00bb <em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um outro ponto caracter\u00edstico est\u00e1 em que a procura de \u00abplenitude espiritual\u00bb (<em>spiritual wholeness<\/em>) surge associada ao cuidado com a <em>sa\u00fade. <\/em>N\u00e3o s\u00f3 nos termos da medicina tradicional, mas tamb\u00e9m\u00a0 com recurso a \u00abmedicinas alternativas\u00bb. Assim, \u00ablonge de ver o corpo apenas como um objecto de ci\u00eancia natural, v\u00eaem-no como o lugar de fluxos e correntes espirituais\u00bb (p. 507). Tal \u00abespiritualidade\u00bb (termo usado em sentido bastante diferente do que conhece no espa\u00e7o crist\u00e3o) \u00e9 apresentada como alternativa \u00e0 religi\u00e3o, auto-apresentando-se como mais <em>aut\u00eantica <\/em>e mais <em>interior<\/em> do que a pr\u00e1tica religiosa, que seria antes <em>ritualista <\/em>e <em>exterior<\/em>; e ainda como n\u00e3o enquadrada de forma institucional. O que n\u00e3o quer dizer que o referido percurso de <em>procura, <\/em>iniciado com as caracter\u00edsticas antes referidas, se baste com experi\u00eancias daquela natureza: <em>\u00a0<\/em>pode justamente conduzir ao encontro com formas de religi\u00e3o tradicionais (pp. 508-510).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A configura\u00e7\u00e3o religiosa crente pode, realmente, assentar mais no (i) elemento exterior, apelando a uma autoridade, ou (ii) interior, subjectivo, assentando na <em>busca interior <\/em>do sujeito. E essas duas atitudes de fundo \u2013 que adiante ser\u00e3o apelidadas de \u00abespiritualidades de busca\u00bb e \u00abautoridade imperativa\u00bb (p. 518) \u2013 est\u00e3o presentes <em>mesmo dentro<\/em> de um quadro religioso tradicional. Servem de exemplo a diferen\u00e7a entre o \u00abhumanismo devoto\u00bb (mencionando especificamente S. Francisco de Sales) e o Jansenismo (p. 510); ou a oposi\u00e7\u00e3o entre Bossuet e F\u00e9n\u00e9lon (p. 511). Nestes termos, este novo quadro pode traduzir, por detr\u00e1s das suas manifesta\u00e7\u00f5es epid\u00e9rmicas mais superficiais, uma compreens\u00e3o da religi\u00e3o que, harmonizando-se com o quadro \u00abp\u00f3s-durkheimiano\u00bb, coloca o acento no elemento subjectivo da viv\u00eancia da f\u00e9: o que n\u00e3o constitui, per se, uma <em>recusa <\/em>do religioso, mas um outro ponto de partida para a sua abordagem (p. 513). E que n\u00e3o exclui necessariamente a possibilidade de afirma\u00e7\u00e3o de formas tradicionais de religi\u00e3o: precisamente porque dentro delas se encontram tamb\u00e9m modalidades de viv\u00eancia da espiritualidade que permitem respondem ao preciso tipo de aspira\u00e7\u00f5es que move a ac\u00e7\u00e3o de muitos na \u00abIdade da Autenticidade\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, e justamente porque o quadro anterior (paleo- ou p\u00f3s-durkheimiano) se encontra em supera\u00e7\u00e3o, pode agora divisar-se com a m\u00e1xima clareza \u00abos custos espirituais de uma conformidade for\u00e7ada: hipocrisia, estultifica\u00e7\u00e3o espiritual, revolta interior contra o Evangelho, confus\u00e3o entre f\u00e9 e poder, e mesmo pior. Mesmo que tiv\u00e9ssemos uma escolha, n\u00e3o estou seguro de que n\u00e3o seria mais inteligente ficar com a nova solu\u00e7\u00e3o.\u00bb (p. 513)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 103. <em><u>Consequ\u00eancias sociol\u00f3gicas<\/u><\/em>. \u2013 No mundo ocidental, resulta desta nova atmosfera espiritual uma dilui\u00e7\u00e3o das fronteiras entre grupos religiosos; o aumento significativo do n\u00famero de \u00a0ateus e agn\u00f3sticos; o crescimento das posi\u00e7\u00f5es interm\u00e9dias entre a <em>cren\u00e7a <\/em>e a <em>descren\u00e7a<\/em>, num panorama que integra a chegada das religi\u00f5es orientais, de pr\u00e1ticas <em>New Age, <\/em>de pontes entre a espiritualidade e \u00abterapias\u00bb; a pr\u00e1tica religiosa perde coer\u00eancia (identifica\u00e7\u00e3o crente, mas com recusa o dogma; ora\u00e7\u00e3o sem cren\u00e7a; combina\u00e7\u00e3o sincr\u00e9tica entre religi\u00f5es diferentes; \u2026); identifica\u00e7\u00e3o com Igreja nacional, apesar da descren\u00e7a pessoal (pa\u00edses escandinavos). Em suma: uma esp\u00e9cie de <em>bricolage <\/em>religioso (pp. 513-514, 518-520).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas com uma grande ressalva: a muito interessante particularidade de a posi\u00e7\u00e3o residual n\u00e3o ser a de \u00absecularismo\u00bb, mas de \u00abcren\u00e7a nominal\u00bb (Grace David: <em>Christian Nominalism<\/em>), em que a pessoa se continua a apresentar como crente, mesmo se o conte\u00fado da f\u00e9 se encontra largamente dilu\u00eddo (p. 520). Cren\u00e7a que, igualmente, pode ser <em>reactivada <\/em>em diferentes momentos, desde logo os de grande como\u00e7\u00e3o colectiva (p. 521), em que opera enquanto esp\u00e9cie de \u00abreligi\u00e3o vic\u00e1ria\u00bb (de novo Grace Davie), n\u00e3o perfeitamente assumida, n\u00e3o tamb\u00e9m integralmente rejeitada, mas sempre ao dispor para, em qualquer necessidade, voltar a assumir o seu papel (pp. 521-523).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Interessante, por fim, \u00e9 a tentativa \u2013 que n\u00e3o glosarei \u2013 de explica\u00e7\u00e3o das raz\u00f5es justificativas da diferente presen\u00e7a p\u00fablica da religi\u00e3o nos Estados Unidos, em que \u00e9 muito forte, e na Europa, em que \u00e9 discreta (pp. 522-530). Fa\u00e7a-se, por\u00e9m, a seguinte observa\u00e7\u00e3o do Autor: embora as elites universit\u00e1rias, de ambos os lados do Atl\u00e2ntico, partilhem do mesmo n\u00edvel de descren\u00e7a, s\u00f3 na Europa conseguiram definir (ao contr\u00e1rio do que ocorre nos EUA) o imagin\u00e1rio p\u00fablico de religi\u00e3o, e logo como realidade em r\u00e1pido decl\u00ednio (p. 525).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ante o que se viu at\u00e9 ao momento, a ambi\u00e7\u00e3o tradicional e recorrente de uma religi\u00e3o que englobe o conjunto da sociedade, ao jeito de um modelo de \u00abcristandade\u00bb, torna-se cada dia mais irrealiz\u00e1vel (p. 514). Deslassada da identidade <em>pol\u00edtica<\/em> colectiva (p. 516), ser\u00e1 na <em>vida espiritual <\/em>individual que, no mundo ocidental, perdurar\u00e1 a religi\u00e3o: \u00abo que pode incluir medita\u00e7\u00e3o, ou qualquer servi\u00e7o de caridade, ou um grupo de estudo, ou uma peregrina\u00e7\u00e3o, ou qualquer forma especial de ora\u00e7\u00e3o, ou um conjunto dessas coisas\u00bb (p. 515). Tais experi\u00eancias, que ontem tinham lugar <em>dentro <\/em>de um quadro de confiss\u00e3o de f\u00e9, tornam-se agora uma <em>porta de acesso<\/em> \u00e0 experi\u00eancia religiosa (e n\u00e3o de <em>express\u00e3o <\/em>ou <em>manifesta\u00e7\u00e3o <\/em>de uma profiss\u00e3o de f\u00e9 j\u00e1 assumida): \u00abEm primeiro lugar as pessoas s\u00e3o levadas a uma peregrina\u00e7\u00e3o, ou \u00e0s Jornadas Mundiais da Juventude, ou a um grupo de medita\u00e7\u00e3o, ou a um c\u00edrculo de ora\u00e7\u00e3o; e s\u00f3 depois, se evolu\u00edrem no caminho apropriado, v\u00e3o envolver-se elas pr\u00f3prias na pr\u00e1tica religiosa corrente\u00bb (p. 516). O que n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o haja <em>v\u00ednculos comunit\u00e1rios<\/em>, nomeadamente de \u00edndole religiosa: mas a elas se adere apenas mediante um percurso individual (p. 516).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo se a transmiss\u00e3o inter-geracional da f\u00e9 se venha a quebrar, outras formas de v\u00ednculos de perten\u00e7a comunit\u00e1rios parecem n\u00e3o ter perdido vigor: exemplifica-o com grandes acontecimentos <em>festivos <\/em>(de novo: peregrina\u00e7\u00f5es, Jornadas Mundiais da Juventude, Taiz\u00e9, etc.), que continuam a assumir muit\u00edssimo relevo (pp. 516-518).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 104. <em><u>Em suma.<\/u> <\/em>\u2013 Divisando-se com seguran\u00e7a o amplo aumento do n\u00famero daqueles que se afirmam descrentes (decr\u00e9scimo quantitativo da <em>pr\u00e1tica <\/em>e da <em>cren\u00e7a<\/em>), o factor religioso, tudo considerado \u2013 e apesar da <em>distopia <\/em>pr\u00f3pria do mundo universit\u00e1rio europeu, em que a imagem do religioso, tal como formada pelas elites culturais, \u00e9 vista como em decl\u00ednio (p. 525) \u2013, <em>continua a ser determinante<\/em> na modernidade (p. 530).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Simplesmente, num novo contexto. Um contexto no qual diferentes formas de cren\u00e7a e de descren\u00e7a (sempre no plural) convivem e se desafiam reciprocamente, ainda que uma e outra constituam a op\u00e7\u00e3o supletiva tipicamente adoptada em certos meios sociais. A religi\u00e3o perde, por conseguinte, certas \u00e2ncoras p\u00fablicas: \u00abPodemos dizer que este \u00e9 um mundo em que o sucesso da cren\u00e7a depende muito mais do que antes de fortes intui\u00e7\u00f5es pessoais, que irradiem para outros. E estas intui\u00e7\u00f5es est\u00e3o longe de ser evidentes para outros\u00bb (p. 531). Da mesma forma, tender\u00e1 a recuar do espa\u00e7o p\u00fablico (\u00abA justi\u00e7a requer que uma democracia moderna mantenha uma igual dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s diferentes posi\u00e7\u00f5es de f\u00e9\u00bb), que ter\u00e1 de ser constru\u00eddo em termos tais que permita o assentimento <em>nas mesmas regras, <\/em>por <em>diferentes <\/em>grupos, com base em <em>diferentes <\/em>fundamentos (\u00abconsenso sobreposto\u00bb de John Rawls). Ao mesmo tempo, haver\u00e1 liberdade para que o discurso religioso se afirme publicamente, mesmo que com espec\u00edficas raz\u00f5es religiosas. Em resultado deste percurso, emergem formas de vida \u00abespiritual\u00bb assentes na busca e na procura, que Taylor chega a ver como express\u00e3o de um movimento milenar da cristandade latina em busca de formas de devo\u00e7\u00e3o pessoal (pp. 532-333).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos, crentes ou n\u00e3o, t\u00eam ante si um enorme desafio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As posturas crentes t\u00eam de se afirmar num quadro em que s\u00e3o encaradas como em decl\u00ednio, sem gozar da supremacia de que antes dispunham, bem como de enfrentar a circunst\u00e2ncia de a pr\u00f3pria linguagem religiosa se haver tornado inintelig\u00edvel para todos aqueles que nunca tiveram qualquer pr\u00e1tica dessa natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 a descren\u00e7a continua a enfrentar \u00aba cont\u00ednua sensa\u00e7\u00e3o de que existe algo mais\u00bb (p. 533). Talvez um desafio bem maior, acrescentaria eu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Onde estamos, afinal?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de glosar a obra de Epstein, que, para enquadrar a situa\u00e7\u00e3o religiosa na R\u00fassia p\u00f3s-sovi\u00e9tica, forjou o conceito de \u00abreligi\u00e3o m\u00ednima\u00bb (<em>minimal religion<\/em>) (pp. 533-534), Taylor sugere que a Europa j\u00e1 estar\u00e1 numa Idade P\u00f3s-Secular. Entenda-se: uma idade em que a narrativa comum da seculariza\u00e7\u00e3o, de puro e simples decl\u00ednio da religi\u00e3o, vai ser cada vez mais desafiada por n\u00e3o espelhar a realidade. Com efeito, parece que a Idade Secular, acaso seja compreendida como de supera\u00e7\u00e3o do fen\u00f3meno religioso (segunda acep\u00e7\u00e3o de secularidade: n.\u00ba 2), terminou no preciso momento em que se parecia ter consumado. N\u00e3o estamos no fim da hist\u00f3ria: \u00abestamos apenas no princ\u00edpio de uma nova idade de busca religiosa, cujo desfecho ningu\u00e9m pode prever.\u00bb (p. 535)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00faltima parte da obra ser\u00e1 vista na pr\u00f3xima glosa.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/photos\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1209205\">Free-Photos<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1209205\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13349,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-13348","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13348","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13348"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13348\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13352,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13348\/revisions\/13352"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13349"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13348"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13348"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13348"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}