{"id":13227,"date":"2021-09-29T07:00:42","date_gmt":"2021-09-29T06:00:42","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=13227"},"modified":"2021-09-22T15:30:11","modified_gmt":"2021-09-22T14:30:11","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-28-a-idade-da-autenticidade-cont","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-28-a-idade-da-autenticidade-cont\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (28) \u2013 A Idade da Autenticidade (cont.)"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>, cujo objecto foi enunciado na <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">primeira<\/a> destas composi\u00e7\u00f5es. Ap\u00f3s a leitura das tr\u00eas primeiras partes da obra (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-22-trajectorias-novecentistas\/\">22<\/a>), inici\u00e1mos a Parte IV, de t\u00edtulo \u00abNarrativas de Seculariza\u00e7\u00e3o\u00bb. Visto o primeiro dos seus cap\u00edtulos, o cap\u00edtulo 12 (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/category\/olhares\/glosas\/\">23<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-25-a-idade-da-mobilizacao\/\">25<\/a>), conclui-se hoje (depois das glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-26-a-idade-da-autenticidade\/\">26<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-27-a-idade-da-autenticidade-cont\/\">27<\/a>) o cap\u00edtulo 13.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 97. <em><u>\u00a0O lugar da religi\u00e3o<\/u>. \u2013 <\/em>Ap\u00f3s se considerar a <em>Idade da Autenticidade <\/em>em termos gerais, avan\u00e7a-se o lugar que a <em>religi\u00e3o <\/em>nela ocupa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Distinguira Taylor diferentes formas de rela\u00e7\u00e3o entre a <em>Igrej<\/em>a e <em>Sociedade<\/em> no quadro moderno: em especial, foi dada aten\u00e7\u00e3o a um modo de rela\u00e7\u00e3o \u00ab<em>paleo-durkheimiano\u00bb, <\/em>com tendencial identifica\u00e7\u00e3o entre a Igreja e a sociedade; e \u00ab<em>neo-durkheimiano\u00bb<\/em>, em que a perten\u00e7a a uma concreta denomina\u00e7\u00e3o \u2013 o que inclui j\u00e1 a centralidade do momento da <em>escolha <\/em>de lhe aderir \u2013 permite participar de uma comunidade mais vasta. Em qualquer um dos casos, e da\u00ed a refer\u00eancia a <em>Durkheim, <\/em>h\u00e1 certa associa\u00e7\u00e3o entre a perten\u00e7a a uma <em>Igreja<\/em> e a uma <em>Sociedade<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 esta associa\u00e7\u00e3o que \u00e9 rompida na <em>Idade da Autenticidade. <\/em>Eis o seu esp\u00edrito: \u00abA vida religiosa ou a pr\u00e1tica de que tomo parte deve ser n\u00e3o s\u00f3 da minha escolha, mas tem de me dizer alguma coisa [<em>must speak to me<\/em>], tem de fazer sentido nos termos do meu desenvolvimento espiritual, tal qual o compreendo. Isto leva-nos mais longe. A escolha da denomina\u00e7\u00e3o era entendida como tendo lugar dentro de um quadro fixo, por ex., o do credo dos ap\u00f3stolos, a f\u00e9 de uma \u201cigreja\u201d mais ampla. Com este [novo] <em>framework<\/em>, eu escolho a igreja com a qual me sinto mais confort\u00e1vel. Mas se o foco passa agora a estar no meu caminho espiritual, e por isso nas perspectivas [<em>insights<\/em>] que me chegam nas delicadas linguagens que entendo ricas de sentido [<em>subtler languages that I find meaningful<\/em>], ent\u00e3o conservar este ou qualquer outro <em>framework <\/em>torna-se cada vez mais dif\u00edcil\u00bb (p. 486).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Erode, portanto, o significado da perten\u00e7a a uma \u00abigreja\u00bb ou mesmo a um Estado: realmente, n\u00e3o se assiste apenas ao decl\u00ednio da perten\u00e7a a <em>igrejas<\/em>, mas, genericamente, a quaisquer institui\u00e7\u00f5es est\u00e1veis. Sem que, por\u00e9m, o novo quadro tenha necessariamente substitu\u00eddo o antigo. O facto relevante \u00e9 que se encontra <em>dispon\u00edvel<\/em>, e, nessa medida, desestabiliza suficientemente a ordem antes prevalecente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-98. <em><u>Pressuposi\u00e7\u00f5es antropol\u00f3gicas<\/u>. <\/em>\u2013 Por detr\u00e1s desde nova perspectiva est\u00e1 um saliente enfoque na dimens\u00e3o <em>emocional <\/em>da pessoa. Tal valora\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o <em>afectiva <\/em>e <em>emotiva, <\/em>que a princ\u00edpio \u2013 por ex., com o <em>Pietismo <\/em>ou o <em>Metodismo<\/em> \u2013 pudera estar devidamente enquadrada na ortodoxia religiosa, torna-se cada vez mais relevante, a ponto de tornar <em>irrelevante <\/em>os pr\u00f3prios conte\u00fados da f\u00e9 (cf., por ex., a obra <em>\u00c9mile <\/em>de Rousseau). No centro de tudo encontra-se a <em>intensidade emotiva <\/em>(p. 488).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que s\u00f3 vem a ser refor\u00e7ado pelo o <em>romantismo <\/em>e as suas linguagens, com o acento colocado na express\u00e3o emocional. Disseminado este tipo de perspectivas pelo conjunto da cultura, a m\u00e1xima fundamental \u2013 delet\u00e9ria, na verdade, de quaisquer conte\u00fados doutrinais \u2013 passa agora a ser: \u00abdeixar cada um seguir o seu pr\u00f3prio caminho de inspira\u00e7\u00e3o espiritual\u00bb. (p. 489) A via alternativa, de ades\u00e3o a uma concreta Igreja ou denomina\u00e7\u00e3o, chega a ser experimentada como de afastamento do pr\u00f3prio percurso espiritual: \u00abA [dimens\u00e3o] espiritual enquanto tal j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 intrinsecamente ligada \u00e0 sociedade.\u00bb (p. 490)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que d\u00e1 origem a um quadro eminentemente plural, cujas barreiras n\u00e3o s\u00e3o dadas por nenhum quadro doutrinal confessional, mas se afiguram de ordem pol\u00edtico-moral: a ordem moral de <em>liberdade <\/em>e de <em>benef\u00edcio rec\u00edproco <\/em>(p. 489), que constitui um imagin\u00e1rio moderno (ver nn.\u00ba 38 a 41).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista das suas causas hist\u00f3ricas, esta experi\u00eancia \u00abexpressivista\u00bb encontra-se estreitamente ligada \u00e0 cultura de consumo do p\u00f3s 2.\u00aa Guerra Mundial, e que \u2013 nos seus ritos, propostas e ofertas \u2013 <em>substitui <\/em>funcionalmente muitas das realidades vitais que antes se organizavam em torno do fen\u00f3meno de pr\u00e1ticas religiosa (p. 490).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[A refer\u00eancia ao consumo \u00e9 muito certeira: nas sociedades ocidentais contempor\u00e2neas, a religi\u00e3o est\u00e1 for\u00e7ada a ter de rivalizar com a omnipresente cultura de consumo que se serve de linguagens de \u00abperten\u00e7a\u00bb outrora pr\u00f3prias de op\u00e7\u00f5es \u00e9ticas e religiosas.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hip\u00f3tese sustentada por Taylor \u00e9 que o imagin\u00e1rio social do <em>p\u00f3s-guerra <\/em>caminhou em sentido <em>p\u00f3s-durkheimiano<\/em>, desestruturando formas anteriores de inser\u00e7\u00e3o das comunidades religiosas na sociedade. Nalguns casos, a presen\u00e7a religiosa refor\u00e7ou-se quando relevante como factor de coes\u00e3o <em>pol\u00edtica: <\/em>mas \u00e9 certo que logo declinou quando esta fun\u00e7\u00e3o deixou de ser necess\u00e1ria (Irlanda e Qu\u00e9bec; j\u00e1 a Pol\u00f3nia est\u00e1 sob observa\u00e7\u00e3o). Tal diminui\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a social das comunidades religiosas resulta, n\u00e3o s\u00f3 dos pr\u00f3prios atractivos da cultura <em>p\u00f3s-durkheimiana<\/em>, como tamb\u00e9m de factores que conduzem o <em>indiv\u00edduo <\/em>a ser for\u00e7ado a nela se inserir: \u00aba comunidade local desintegra-se, a f\u00e1brica local fecha, os empregos desaparecem em opera\u00e7\u00f5es de redu\u00e7\u00e3o de custos, o peso imenso da aprova\u00e7\u00e3o e da recusa social come\u00e7a a pender para o lado do novo individualismo.\u00bb (p. 492)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 99. <em><u>F\u00e9 crist\u00e3 e ordem civilizacional.<\/u> \u2013 <\/em>Mas corro\u00edda fica a tamb\u00e9m a associa\u00e7\u00e3o entre \u00abf\u00e9 crist\u00e3\u00bb e o ideal de \u00abordem civilizada\u00bb, ou \u00abcivilizacional\u00bb O quadro \u00e9tico-moral emergente da reforma, que tanto insistira no disciplinamento do quotidiano, e das correlatas virtudes de modera\u00e7\u00e3o e de temperan\u00e7a, come\u00e7a a ser objecto de vigorosas cr\u00edticas, dado que perspectivado como \u00abdessecante, repressor da liberdade e do auto-desenvolvimento, uniformizador, negador da beleza, etc.\u00bb\u00a0 (Shaw; Ibsen; Nietzsche). O que j\u00e1 em finais do s\u00e9c. XIX era formulado em termos muito assertivos, vir\u00e1 a ser amplificado pela revolu\u00e7\u00e3o cultural dos anos 60 do s\u00e9c. XX (p. 492).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coloca-se em crise uma associa\u00e7\u00e3o provinda de \u00e9pocas anteriores: onde antes se associava a f\u00e9 crist\u00e3 a uma certa \u00e9tica de disciplina e de autocontrolo, mesmo de \u00ababnega\u00e7\u00e3o\u00bb ou asc\u00e9tica, por um lado, e entre esta e a ideia de ordem civilizacional, por outro, agora tal liga\u00e7\u00e3o \u00e9 vista como n\u00e3o necess\u00e1ria. Assim, \u00aba procura da felicidade passou a ser vista n\u00e3o s\u00f3 como n\u00e3o necessitando de uma \u00e9tica sexual restritiva e da disciplina da gratifica\u00e7\u00e3o diferida, mas na verdade a exigir a respectiva transgress\u00e3o em nome da auto-realiza\u00e7\u00e3o. (\u2026) Para surpresa de muitos soci\u00f3logos da minha gera\u00e7\u00e3o influenciados por Weber, os filhos de 1960 e 1970 conseguiram aliviar muita da disciplina tradicional nas suas pr\u00f3prias vidas, enquanto as mantinham na sua vida de trabalho. O que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por si f\u00e1cil de conseguir; h\u00e1 quem n\u00e3o o conseguia fazer. E h\u00e1 al\u00e9m disso <em>milieux <\/em>inteiros em que tais disciplinas s\u00e3o ainda muito recentes e distantes do seu modo de vida, para que este tipo de escolha selectiva ser poss\u00edvel.\u00bb (p. 493). [Um not\u00e1vel exemplo parece ser dado pela sociedade neerlandesa.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao manter-se (i) a associa\u00e7\u00e3o entre <em>f\u00e9 crist\u00e3 <\/em>e \u2013 chamemos-lhe \u2013 certa <em>asc\u00e9tica individual, <\/em>mas quebrada (ii) a associa\u00e7\u00e3o entre a <em>asc\u00e9tica individual <\/em>e (iii) a <em>ordem social<\/em>, a associa\u00e7\u00e3o entre <em>f\u00e9 crist\u00e3 <\/em>e <em>asc\u00e9tica individual <\/em>pode conduzir ao afastamento eclesial: primeiro, por as vicissitudes sociais entrarem em conflito com a \u00abmoral pessoal\u00bb proposta, sobretudo ao n\u00edvel da viv\u00eancia da sexualidade; depois, por a simples pretens\u00e3o das igrejas de <em>proporem <\/em>crit\u00e9rios morais nestes dom\u00ednios ser interpretada como \u00abautorit\u00e1ria\u00bb (p. 493). O que n\u00e3o quer dizer \u2013 anota agora Taylor pessoalmente \u2013 que tais crit\u00e9rios devam deixar de ser propostos: \u00abmas aqueles que t\u00eam a pretens\u00e3o de ter alguma sabedoria [a este respeito] t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o de o explicar de forma persuasiva, come\u00e7ando a partir do ponto em que o seu interlocutor se encontra\u00bb (p. 494). Interessantes, mas que n\u00e3o ser\u00e3o aqui expressamente glosadas, s\u00e3o as reflex\u00f5es acerca da <em>feminiza\u00e7\u00e3o <\/em>do Cristianismo na Idade contempor\u00e2nea, e suas dificuldades em ser proposto e comunicado em culturas <em>varonis <\/em>(cf. a p. 496)<em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em resultado do exposto, a nova gera\u00e7\u00e3o da <em>Idade da Autenticidade <\/em>experimenta-se como <em>desvinculada <\/em>da tradi\u00e7\u00e3o de f\u00e9 crist\u00e3 no Ocidente (p. 495). Um ponto que o mostra muito claramente \u00e9 a <em>moral <\/em>conjugal ou paraconjugal: a rela\u00e7\u00e3o de <em>comunh\u00e3o de vida <\/em>que ontem, mesmo em termos <em>civis,<\/em> era apenas enquadr\u00e1vel atrav\u00e9s do casamento \u2013 tido ali\u00e1s como <em>pilar <\/em>da ordem social \u2013, tem hoje por suced\u00e2neos uma pluralidade de formas relacionais. Tal choque foi t\u00e3o maior quanto, nos s\u00e9culos anteriores, muita da actividade pastoral assumiu uma fei\u00e7\u00e3o <em>moralista <\/em>e <em>repressiva <\/em>(pp. 496-499), e, por isso, aquela mudan\u00e7a p\u00f4de ser interpretada como de <em>ruptura <\/em>com a ordem estabelecida anterior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o deixa de ser ir\u00f3nico, em todo o caso, que onde \u00aba lideran\u00e7a clerical realmente conseguiu transformar uma comunidade foi atrav\u00e9s da santidade pessoal do incumbente, e n\u00e3o atrav\u00e9s do desfile dos horrores do inferno\u00bb, retomando o exemplo do Cura d\u2019Ars. Mas dispor em todas as par\u00f3quias de um S\u00e3o Jo\u00e3o Maria Vianney \u00e9 uma possibilidade que, conforme tamb\u00e9m nota o autor, n\u00e3o se encontra facilmente ao dispor\u2026 (p. 497)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 100. <em><u>A objectiva\u00e7\u00e3o da \u00e9tica. Moral sexual<\/u>. \u2013 <\/em>Finalmente, deve fazer-se um apontamento sobre a \u00abrevolu\u00e7\u00e3o sexual\u00bb, fen\u00f3meno pr\u00f3prio da segunda metade do s\u00e9c. XX.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa como que breve \u00abhist\u00f3ria da sexualidade moderna\u00bb, nota Taylor a tend\u00eancia de, na modernidade, se come\u00e7ar a olhar a sexualidade, n\u00e3o apenas em termos de <em>moral social, <\/em>mas \u2013 com o desenvolvimento das ci\u00eancias \u2013 a partir de uma perspectiva \u00abnatural\u00edstica\u00bb ou \u00abmedicalizada\u00bb. O que muda de modo muito significativo a <em>atitude <\/em>da pessoa perante este dom\u00ednio (ou qualquer outro que seja sujeito a semelhante <em>medicaliza\u00e7\u00e3o<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa vis\u00e3o <em>moralizada <\/em>sup\u00f5e-se a aquisi\u00e7\u00e3o de dadas virtudes \u2013 ou, do ponto de vista religioso, o crescimento espiritual \u2013 que permitam uma adequada viv\u00eancia dessa dimens\u00e3o da pessoa (pp. 499-500). Mas observa Taylor: \u00abO recurso a formas objectivadas de conhecimento [<em>objectified knowledge<\/em>] come\u00e7a a prevalecer na cultura moderna sobre a \u00e9tica.\u00bb Onde antes \u2013 como por ex. na \u00e9tica aristot\u00e9lica \u2013 a <em>sabedoria pr\u00e1tica <\/em>(<em>phr\u00f3nesis<\/em>) enla\u00e7ava a dimens\u00e3o <em>cognitiva <\/em>com a <em>pr\u00e1tica <\/em>do exerc\u00edcio da virtude, o <em>saber <\/em>\u00e9 agora visto em termos estritamente objectivados, abstraindo das concretas motiva\u00e7\u00f5es e inten\u00e7\u00f5es da pessoa. \u00c9 disso preciso exemplo o utilitarismo, corrente para a qual a aferi\u00e7\u00e3o da bondade de um concreto comportamento se afere a partir das suas consequ\u00eancias, com independ\u00eancia das motiva\u00e7\u00f5es do sujeito. \u00abEscusado ser\u00e1 dizer que esta \u00eanfase num conhecimento objectivado em preju\u00edzo da reflex\u00e3o moral \u00e9 o ponto de partida para novas e mais poderosas formas de paternalismo no nosso mundo. Quem se atreve a arguir com a \u201cci\u00eancia\u201d, que importa se comunicada por m\u00e9dicos, psiquiatras, ou economistas do FMI em visita que te dizem para cortar nos servi\u00e7os de sa\u00fado com vista a obter um \u201cequil\u00edbrio\u201d or\u00e7amental?\u00bb (p. 501) Mas tamb\u00e9m \u00e9 certo que onde a \u00abci\u00eancia\u00bb decide \u00abatestar\u00bb que se est\u00e1 num dom\u00ednio de <em>liberdade, <\/em>tal campo \u00e9 visto como livre de valora\u00e7\u00f5es morais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com este substrato, a <em>revolu\u00e7\u00e3o sexual <\/em>dos anos 60 do s\u00e9c. XX vem a conhecer as seguintes caracter\u00edsticas: \u00ab(1) uma continua\u00e7\u00e3o e radica\u00e7\u00e3o do que se disse acima, a reabilita\u00e7\u00e3o da sensualidade como um bem em si mesmo; (2) a radicaliza\u00e7\u00e3o da afirma\u00e7\u00e3o da igualdade dos sexos, e em particular de um novo ideal no qual o homem e a mulher surgem em conjunto como <em>partners<\/em>, libertados dos seus pap\u00e9is sociais [<em>gender roles<\/em>]; (3) uma no\u00e7\u00e3o divulgada de que a sexualidade em sentido dionis\u00edaco, mesmo transgressivo, \u00e9 libertadora; e (4) uma nova concep\u00e7\u00e3o da sexualidade individual como uma parte essencial da identidade individual, o que n\u00e3o s\u00f3 deu um sentido adicional \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o sexual, como tamb\u00e9m se tornou a base para a liberta\u00e7\u00e3o gay, e a emancipa\u00e7\u00e3o de um amplo conjunto de formas de vida sexual antes condenadas.\u00bb O que n\u00e3o quer dizer que o novo quadro se tenha conseguido estabilizar. Entre outras, v\u00eaem-se as seguintes dificuldades: \u00aba impossibilidade de integrar a dimens\u00e3o dionis\u00edaca num modo de vida continuado, a dificuldade de articular o <em>sensual<\/em> com uma rela\u00e7\u00e3o verdadeiramente \u00edntima, a impossibilidade de escapar totalmente a pap\u00e9is sociais (\u2026)\u00bb (p. 502).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro est\u00e1 que neste quadro apenas aumentam as dificuldades de propor a f\u00e9 crist\u00e3 \u2013 sobretudo quando seja (indevidamente) apresentada como tendo o seu <em>centro de gravidade <\/em>numa simples proposta de moral pessoal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Continuaremos, no pr\u00f3ximo cap\u00edtulo, a considerar o lugar da \u00abReligi\u00e3o Hoje\u00bb.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem: Dion\u00edsio (sentado num trono) com H\u00e9lio,\u00a0Afrodite e outros deuses. Fresco de Pompeia.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13228,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-13227","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13227","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13227"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13227\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13230,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13227\/revisions\/13230"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13228"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13227"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13227"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13227"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}