{"id":13170,"date":"2025-04-10T07:00:34","date_gmt":"2025-04-10T06:00:34","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=13170"},"modified":"2025-05-26T15:13:48","modified_gmt":"2025-05-26T14:13:48","slug":"luis-manuel-pereira-da-silva-intelligo-quia-credo-v-creio-em-um-so-deus-pai-todo-poderoso-e-o-mal-oh-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-intelligo-quia-credo-v-creio-em-um-so-deus-pai-todo-poderoso-e-o-mal-oh-deus\/","title":{"rendered":"[Republica\u00e7\u00e3o: a pretexto dos 1700 anos do Conc\u00edlio de Niceia] Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | Intelligo quia credo V &#8211; Creio em um s\u00f3 Deus, Pai Todo-poderoso\u2026 E o mal, oh Deus?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Intelligo quia credo<\/em> | <\/strong>Varia\u00e7\u00f5es sobre a f\u00e9 crist\u00e3&#8230;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com <em>Ecos da Ria &#8211; <\/em>rubrica mensal<em>)<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prossigamos a nossa reflex\u00e3o sobre o Credo, olhando, ainda, para a sua primeira afirma\u00e7\u00e3o, propondo-nos enfrentar a \u2018espinhosa\u2019 quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre a omnipot\u00eancia de Deus e a exist\u00eancia do mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O car\u00e1cter espinhoso desta quest\u00e3o tem uma celeb\u00e9rrima formula\u00e7\u00e3o no conhecido dilema (ou paradoxo) de Epicuro que aqui resumimos: perante a exist\u00eancia do mal, deparamo-nos com um aparente paradoxo \u2013 ou Deus \u00e9 omnipotente e n\u00e3o \u00e9 bom (pois n\u00e3o parece querer fazer desaparecer o mal); ou, admitindo-se que \u00e9 bom, n\u00e3o \u00e9 omnipotente, pois, ainda que querendo extinguir, n\u00e3o o consegue, n\u00e3o sendo, por isso, Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na procura de uma via de resposta (pois n\u00e3o pretendemos encerrar o assunto \u2013 como poder\u00edamos pretend\u00ea-lo?!&#8230;), somos devedores de muitos que, antes de n\u00f3s, refletiram sobre esta mat\u00e9ria. Destacamos, por\u00e9m, a particular s\u00edntese de Andr\u00e9s Torres Queiruga, que, com frequ\u00eancia revisitamos. Tamb\u00e9m aqui estar\u00e1 repercutida&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comecemos, ent\u00e3o, por reconhecer que o desafio \u00e9 significativo. Tanto que, era ap\u00f3s era, o assunto regressa, como motivo e pretexto, na maioria das vezes, para sustentar a nega\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de Deus ou, ent\u00e3o, da sua indiferen\u00e7a perante o mundo, \u00e0 maneira do de\u00edsmo\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ordem do mundo e a emerg\u00eancia, nele, dos sinais de sentido, entre os quais se destaca o amor (como doa\u00e7\u00e3o gratuita), na linha do que afirma W. Pannenberg, servem-nos de marcas da Sua exist\u00eancia que bem sabemos n\u00e3o caber na ordem da demonstrabilidade (como, ali\u00e1s, com tudo o que \u00e9 mais importante para os humanos: como demonstrar o amor? Como demonstrar a amizade? Como demonstrar os motivos para a confian\u00e7a? Demonstrar seria matar a sua pr\u00f3pria natureza \u2018indemonstr\u00e1vel\u2019, mas sem que tal signifique n\u00e3o poder \u2018mostrar-se\u2019 e \u2018revelar-se\u2019, cabendo, de seguida, ao sujeito, fazer o caminho da aceita\u00e7\u00e3o e acolhimento\u2026 Esse \u00e9 o terreno pr\u00f3pria da f\u00e9 religiosa: n\u00e3o demonstr\u00e1vel, mas \u2018mostr\u00e1vel\u2019 e \u2018revel\u00e1vel\u2019\u2026 Neste caso, n\u00e3o apenas por limite do sujeito, mas tamb\u00e9m pela incomensurabilidade do \u2018objeto\u2019.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com este pressuposto, partamos em busca de uma via de concilia\u00e7\u00e3o que supere a \u2018apar\u00eancia\u2019 de paradoxo reunida no impropriamente designado \u2018dilema\u2019 de Epicuro, acima resumido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para tal percurso, comecemos por sublinhar uma convic\u00e7\u00e3o: se Deus n\u00e3o \u00e9 apenas Vontade pura, mas a fonte do Bem e da Verdade, o paradoxo tem de ter forma de ser superado. Seria contradit\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com este axioma assim descrito, ent\u00e3o, caber\u00e1 concluir que o paradoxo dever\u00e1 ter pressupostos err\u00f3neos que o criam. Dito de outro modo. A omnipot\u00eancia de Deus pressuposta no \u2018dilema\u2019 ter\u00e1 de ser vista de um modo distinto da que est\u00e1 na g\u00e9nese do paradoxo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 curioso que o credo nicenoconstantinopolitano coloque a ideia de omnipot\u00eancia associada ao Pai (em grego, \u00e9 dito que \u00abpisteu\u00f3men eis \u00e9na The\u00f3n, pat\u00e9ra pantokr\u00e1tora,\u2026\u00bb), como que afirmando que \u00e9 na paternidade de Deus que est\u00e1 a omnipot\u00eancia, o que nos permite, desde j\u00e1, vislumbrar o que tantas vezes \u00e9 repetido, mas sem que se lhe associe detida reflex\u00e3o: a omnipot\u00eancia de Deus, na vis\u00e3o crist\u00e3, \u00e9 a omnipot\u00eancia do amor. Mas, o que significa isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o poder\u00e1 significar uma omnipot\u00eancia de um poder que substitui, que tudo faz, pois seria contradit\u00f3rio com o registo de liberdade em que toda a revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3 assenta. Deus cria, mas f\u00e1-lo em e para a liberdade. Logo, n\u00e3o \u00e9 pens\u00e1vel a Sua a\u00e7\u00e3o sem ser com os dados que o pressuposto da liberdade implica. Falar de amor implica, necessariamente, e sem cair em qualquer contradi\u00e7\u00e3o, o reconhecimento da ades\u00e3o livre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas continuamos com uma dificuldade. Se Deus age permanentemente, cria constantemente, \u00e9 a causa primeira de tudo, como, ent\u00e3o, conciliar essa \u2018omnipresen\u00e7a\u2019 de Deus com a exist\u00eancia do mal?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pensamento de Andr\u00e9s Torres Queiruga \u00e9, aqui, uma ajuda preciosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Queiruga afirma que h\u00e1 que compreender que o pr\u00f3prio ato de criar (que \u00e9 permanente) \u00e9, em si mesmo, j\u00e1 ato de salvar. E porqu\u00ea? Porque, no ato de criar, Deus, que sabe que cria para o limite (toda a criatura \u00e9 \u2018n\u00e3o Deus\u2019, logo, est\u00e1 marcada pelo limite ou, como afirma Paul Ricoeur, pela \u2018falha\u2019, pela possibilidade do mal), decide salvar do nada, mesmo consciente dessa condi\u00e7\u00e3o sine qua non de toda a criatura (ser limitada). Ent\u00e3o, toda a cria\u00e7\u00e3o nasce da perfei\u00e7\u00e3o de Deus que a deseja perfeita, mas que ousa cri\u00e1-la, mesmo sabendo que ela n\u00e3o ser\u00e1, enquanto criatura, correspondente ao que Ele mesmo deseja, dada a sua natureza criatural. O limite define-a, mas tamb\u00e9m a tens\u00e3o para o ilimitado. Porqu\u00ea esta tens\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a resposta para o dilema come\u00e7a a vislumbrar-se, aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 que a omnipot\u00eancia de Deus, que s\u00f3 \u00e9 pens\u00e1vel no registo da cria\u00e7\u00e3o no e para o amor, e, logo, na e para a liberdade, n\u00e3o \u00e9, primeiramente, a de uma causa eficiente que arrasta e for\u00e7a, mas sim a de uma causa \u00faltima (que \u00e9, como pensa Arist\u00f3teles e Tom\u00e1s, ao mesmo tempo a causa primeira) que atrai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como chegar a este entendimento?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se virmos com um olhar fino toda a hist\u00f3ria da revela\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3, perceberemos que toda ela est\u00e1 assente num dinamismo estruturante: Deus chama. O conceito de voca\u00e7\u00e3o \u00e9 dos mais frequentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, o que nos evidencia isso para esta reflex\u00e3o que aqui estamos a fazer?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 que Deus \u00e9 omnipotente na for\u00e7a de atrair. Mas responder-lhe \u00e9 \u2018tarefa\u2019 dos sujeitos criados. Quando a resposta coincide com o chamamento, o ser realiza-se e acontece \u2013 eis-nos perante o Bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, quando a resposta \u00e9 de recusa, de afastamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 atra\u00e7\u00e3o, emerge o mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 por isto que o relato de g\u00e9nesis coloca na liberdade a origem do mal, pois a \u2018falha\u2019, o limite \u00e9 apenas condi\u00e7\u00e3o de possibilidade. \u00c9 na resposta efetiva e real que o mal acontece. At\u00e9 a\u00ed, n\u00e3o era mais do que possibilidade em aberto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A abordagem \u00e9 abstrata e te\u00f3rica, bem certo, faltando-lhe um condimento. Vamos busc\u00e1-lo a uma imagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Igreja de Santa Madalena, em Vezelay (uma igreja dedicada em 21 de abril de 1104), h\u00e1 um capitel particularmente ilustrativo do que nos falta aqui acrescentar. Nesse capitel, s\u00e3o retratadas duas cenas: na primeira, vemos um enforcado; na segunda, percebemos que esse enforcado \u00e9 levado aos ombros por Jesus Cristo. A densidade da cena s\u00f3 se compreende quando reconhecemos na figura do enforcado o pr\u00f3prio Judas Iscariotes. O mal fora vencido pela miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9 a pedra angular de toda a teodiceia (reflex\u00e3o sobre a exist\u00eancia do mal e a sua \u2018concilia\u00e7\u00e3o\u2019 com a bondade de Deus) crist\u00e3: o mal n\u00e3o \u00e9 o definitivo; o mal n\u00e3o det\u00e9m a \u00faltima palavra, a voz das v\u00edtimas do mal \u00e9 acolhida pelo e no Amor. No palco da hist\u00f3ria, n\u00e3o se encena um drama em que mal e bem se combatem, mas antes, narra-se a hist\u00f3ria da supera\u00e7\u00e3o do limite, condi\u00e7\u00e3o criatural que a todos atinge, supera\u00e7\u00e3o que ocorre quando a cria\u00e7\u00e3o \u2018ouve\u2019 e \u2018segue\u2019 a voz que chama e atrai\u2026<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/cocoparisienne-127419\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2870745\">cocoparisienne<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2870745\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Intelligo quia credo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13171,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[173,55,224],"tags":[],"class_list":["post-13170","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-intelligo-quia-credo","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-nos-1700-anos-de-niceia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13170","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13170"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13170\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19360,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13170\/revisions\/19360"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13171"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13170"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13170"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13170"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}