{"id":13167,"date":"2025-04-09T07:00:50","date_gmt":"2025-04-09T06:00:50","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=13167"},"modified":"2025-05-26T15:13:45","modified_gmt":"2025-05-26T14:13:45","slug":"luis-manuel-pereira-da-silva-intelligo-quia-credo-iv-creio-num-so-deus-pai-todo-poderoso-criador-do-ceu-e-da-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-intelligo-quia-credo-iv-creio-num-so-deus-pai-todo-poderoso-criador-do-ceu-e-da-terra\/","title":{"rendered":"[Republica\u00e7\u00e3o: a pretexto dos 1700 anos do Conc\u00edlio de Niceia] Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | Intelligo quia credo IV &#8211; Creio num s\u00f3 Deus, Pai todo-poderoso, criador do c\u00e9u e da terra."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Intelligo quia credo<\/em> | <\/strong>Varia\u00e7\u00f5es sobre a f\u00e9 crist\u00e3&#8230;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com <em>Ecos da Ria &#8211; <\/em>rubrica mensal<em>)<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00e9 em Deus criador \u00e9, nestes tempos t\u00e3o marcados pela consci\u00eancia cient\u00edfica, fonte de mal-entendidos e equ\u00edvocos, tantas vezes respons\u00e1veis por algum afastamento entre ci\u00eancia e f\u00e9 crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Proponho-me abordar esta mat\u00e9ria da f\u00e9 crist\u00e3 num registo de constru\u00e7\u00e3o de pontes. Ser crente n\u00e3o tem de significar recusa de ci\u00eancia, tal como a op\u00e7\u00e3o pelo estudo cient\u00edfico n\u00e3o dever\u00e1 comportar o abandono da f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9, ali\u00e1s, atribu\u00edda a Pasteur uma afirma\u00e7\u00e3o (que nunca consegui comprovar, mas que \u00e9 cred\u00edvel) que ilustra a convic\u00e7\u00e3o de que parto: \u2018um pouco de ci\u00eancia faz ateus; um pouco mais de ci\u00eancia faz m\u00edsticos\u2026\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou convencido disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Basta recordar que alguns dos maiores cientistas da hist\u00f3ria foram, simultaneamente, crentes, sem que tal comportasse qualquer esquizofrenia ou bipolaridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recorde-se, a t\u00edtulo ilustrativo, nomes como Cop\u00e9rnico, Clavius (que dirigiu a equipa que definiu o calend\u00e1rio gregoriano), Steno (ge\u00f3grafo), Lavoisier, Marconi, ou refira-se o papel singular do observat\u00f3rio astron\u00f3mico do Vaticano ou da sua academia pontif\u00edcia das ci\u00eancias (a que, ali\u00e1s, pertenceu Stephen Hawking e outros grandes cientistas, crentes e n\u00e3o crentes) ou, ainda, que o primeiro a formular a possibilidade de o universo ter come\u00e7ado numa grande explos\u00e3o foi Georges Lema\u00eetre, um padre de origem belga, para se perceber, com facilidade, como a presun\u00e7\u00e3o de um conflito entre ci\u00eancia e religi\u00e3o crist\u00e3 nasce de um equ\u00edvoco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 minha inten\u00e7\u00e3o alongar-me na enuncia\u00e7\u00e3o das raz\u00f5es que parecem consolidar essa ideia de conflitualidade. Irei, apenas, sublinhar como a f\u00e9 em Deus criador n\u00e3o conflitua com os dados da ci\u00eancia. Bem sabemos, por\u00e9m, como muito contribuiu para essa convic\u00e7\u00e3o da conflitualidade entre f\u00e9 crist\u00e3 e ci\u00eancia a mal explicada hist\u00f3ria do conflito entre Galileu e a Inquisi\u00e7\u00e3o (reforce-se que, contrariamente ao preconceito, Galileu n\u00e3o foi queimado pela inquisi\u00e7\u00e3o; foi processado, mas n\u00e3o executado, tendo-se mantido crist\u00e3o at\u00e9 ao final da vida\u2026 Bem certo que os pressupostos de um tal processo s\u00e3o, hoje, considerados como errados, do ponto de vista epistemol\u00f3gico, isto \u00e9, quanto \u00e0 natureza dos saberes cient\u00edfico e religioso, mas importa, tamb\u00e9m, ajustar ao que de facto aconteceu, sem exceder os limites da verdade hist\u00f3rica.) ou a dificuldade em acolher as conquistas de Darwin e do evolucionismo, ainda que, tamb\u00e9m aqui, seja necess\u00e1rio observar que Darwin era crente e conclui a sua obra \u2018a origem das esp\u00e9cies expressando a admira\u00e7\u00e3o a que o conduzira a constata\u00e7\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cies. No \u00faltimo par\u00e1grafo da sua obra de 1859, interroga-se, de forma admirada: \u2018n\u00e3o h\u00e1 uma verdadeira grandeza nesta forma de considerar a vida, com os seus poderes diversos atribu\u00eddos primitivamente pelo Criador a um pequeno n\u00famero de formas, ou mesmo a uma s\u00f3? [\u2026]\u2019 (Edi\u00e7\u00e3o Ad astra et ultra, 2010, p. 617)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Observe-se um pressuposto evidente: se a afirma\u00e7\u00e3o de que Deus \u00e9 criador partir de uma leitura literalista (ao p\u00e9 da letra e convicta da historicidade das narra\u00e7\u00f5es) do texto de G\u00e9nesis, dificilmente n\u00e3o teremos um conflito. Se toda a narrativa b\u00edblica for interpretada num registo de convic\u00e7\u00e3o historicista, e os dados da sequ\u00eancia presente na narrativa de Gn 1,1-2,4a forem tomados como a enuncia\u00e7\u00e3o de uma factualidade verific\u00e1vel, ent\u00e3o o conflito \u00e9 real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse foi o erro epistemol\u00f3gico que pareceu presidir a muitos dos conflitos que a hist\u00f3ria recorda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recolha-se, por\u00e9m, da longa hist\u00f3ria da tradi\u00e7\u00e3o, aquilo que deve ser entendido como afirmando que Deus \u00e9 Criador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00e9 em Deus Criador n\u00e3o pretende colocar \u2013 como bem recorda S. Tom\u00e1s de Aquino \u2013 Deus entre as outras causas que ele designa como \u2018causas segundas\u2019. Na ordem da natureza, h\u00e1 nexos causais em que umas causas originam novas condi\u00e7\u00f5es que, por sua vez, s\u00e3o causam de novas condi\u00e7\u00f5es e assim sucessivamente. Mas, aqui, estamos na ordem das referidas causas segundas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A afirma\u00e7\u00e3o sobre o facto de o que \u00e9 ter um Criador \u00e9 de outra natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a pergunta sobre se o que existe pode ser e ter origem em si mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dada a condi\u00e7\u00e3o finita de tudo o que \u00e9, carece de explica\u00e7\u00e3o a origem do que existe por n\u00e3o se conseguir entender que o finito pudesse come\u00e7ar sem se extinguir no imediato momento em que se iniciava, a n\u00e3o ser que se suponha uma origem que n\u00e3o tenha origem em outrem e que seja fonte incessante de ser, concedendo ao que \u00e9 um dinamismo que se encaminha de menos para mais. Mas isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel supondo a referida origem permanente que mant\u00e9m no ser o que, de outro modo, nada seria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dizendo de modo mais simples:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afirmar um criador n\u00e3o \u00e9 referir-se ao modo como as coisas se geram umas \u00e0s outras, n\u00e3o pergunta sobre \u2018como\u2019 cheg\u00e1mos ao que somos, hoje. A pergunta sobre \u2018como\u2019 \u00e9 respondida pelas ci\u00eancias que nos explicam os fen\u00f3menos, que nos explicam como \u00e9 que cheg\u00e1mos at\u00e9 aqui, mas que n\u00e3o se interrogam sobre a causa \u00faltima (porque \u00e9 que existe o que existe?) nem sobre se tudo tende para algum fim (a causa final).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">John Haught, um dos grandes te\u00f3logos da atualidade que t\u00eam estudado estas mat\u00e9rias (muitos poder\u00edamos referir: Arthur Peacocke, John Polkinghorne, Guy Consolmagno, etc.), refere que, entre ci\u00eancia e religi\u00e3o n\u00e3o tem de haver conflito, na medida em que ambas se situam no que ele designa como \u2018estratos de explica\u00e7\u00e3o diferentes\u2019. Refere isto na teoria que ele define como sendo a da \u2018explica\u00e7\u00e3o estratificada\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E ilustra com uma hist\u00f3ria concreta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se eu vir uma chaleira ao lume, poderei perguntar-me a que se deve que ela ferva. Posso explicar que tal se deve \u00e0 colis\u00e3o dos eletr\u00f5es por motivo da energia calor\u00edfica produzida pelo fog\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas eu posso continuar com a quest\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem, mas, por que raz\u00e3o est\u00e1 a ferver, afinal?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta poderia ser a de que est\u00e1 ali porque algu\u00e9m a colocou l\u00e1, criando-se as condi\u00e7\u00f5es para que fervesse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas eu poderei insistir: mas para qu\u00ea?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que algu\u00e9m possa ter \u00e1gua para o ch\u00e1 que pretende beber\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E poder\u00edamos avan\u00e7ar, mas j\u00e1 nos apercebemos de que estamos em estratos diferentes, em ordens diferentes de interroga\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se anulam, antes se complementam no sujeito humano que quer saber mais do que o que observa nos fen\u00f3menos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perguntar-se sobre se o universo tem um Criador \u00e9 muito mais do que perguntar sobre \u2018como\u2019 cheg\u00e1mos ao que somos: \u00e9 perguntar sobre se o universo (tudo o que \u00e9\u2026) nasce de uma Vontade e se encaminha para um horizonte ou se, afinal, \u00e9 fruto de acaso. \u00c9 perguntar-se sobre o sentido do que existe\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falar de Deus Criador \u00e9, tamb\u00e9m, sublinhar que Um \u00e9 a Origem transcendente e outra a cria\u00e7\u00e3o que, por ser aut\u00f3noma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Sua origem, tem regras e leis pr\u00f3prias, inerentes \u00e0 sua autonomia. Diz, por fim, tamb\u00e9m, que esta realidade n\u00e3o \u00e9 autossuficiente, o que, ali\u00e1s, parece poder concluir-se da leitura do relato da queda de Ad\u00e3o, met\u00e1fora (ep\u00f3nimo) de toda a Humanidade: o pecado de Ad\u00e3o \u00e9 a presun\u00e7\u00e3o da autossufici\u00eancia, imposs\u00edvel \u00e0 condi\u00e7\u00e3o criatural. Somos seres contingentes, (somos mas pod\u00edamos n\u00e3o ser), dependentes, fr\u00e1geis e, por isso, abertos (aos outros, ao mundo, a Deus\u2026).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este brev\u00edssimo excurso permite-nos verificar que o registo em que a leitura crist\u00e3 se situa n\u00e3o tem pretens\u00f5es de cientificidade, mas antes existenciais e de interpreta\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o daquilo que existe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num tal registo, entre ci\u00eancia e f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o pode existir conflitualidade como, pelo contr\u00e1rio, deve haver uma complementaridade que acontece no sujeito humano e que nasce da diversidade de interroga\u00e7\u00f5es que se coloca esse mesmo sujeito humano, o qual, para umas, encontra respaldo na natureza pr\u00f3pria das respostas cient\u00edficas, e, para outras, precisa da f\u00e9 para vislumbrar o horizonte de resposta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se assim for, um pouco mais de ci\u00eancia despertar\u00e1 o m\u00edstico que se oculta no interior de cada um sempre que se deixa embevecer pela beleza de uma paisagem, pelo mist\u00e9rio de uma vida que nasce, pelo equil\u00edbrio est\u00e9tico de um rosto, pela pr\u00f3pria fragilidade que resiste\u2026 Porque neles vislumbrar\u00e1 a transpar\u00eancia do Criador que se manifesta, como causa \u00faltima, nas causas segundas.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/yuri_b-2216431\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1721695\">Yuri_B<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1721695\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Intelligo quia credo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13168,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[173,55,224],"tags":[],"class_list":["post-13167","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-intelligo-quia-credo","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-nos-1700-anos-de-niceia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13167","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13167"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13167\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19359,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13167\/revisions\/19359"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13168"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13167"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13167"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13167"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}