{"id":13161,"date":"2021-09-13T07:00:13","date_gmt":"2021-09-13T06:00:13","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=13161"},"modified":"2021-09-10T09:55:59","modified_gmt":"2021-09-10T08:55:59","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-27-a-idade-da-autenticidade-cont","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-27-a-idade-da-autenticidade-cont\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (27) \u2013 A Idade da Autenticidade (cont.)"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>, cujo objecto foi enunciado na <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">primeira<\/a> destas composi\u00e7\u00f5es. Ap\u00f3s a leitura das tr\u00eas primeiras partes da obra (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-22-trajectorias-novecentistas\/\">22<\/a>), inici\u00e1mos a Parte IV, de t\u00edtulo \u00abNarrativas de Seculariza\u00e7\u00e3o\u00bb. Visto o primeiro dos seus cap\u00edtulos (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/category\/olhares\/glosas\/\">23<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-25-a-idade-da-mobilizacao\/\">25<\/a>), e j\u00e1 iniciado o seguinte (glosa <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-26-a-idade-da-autenticidade\/\">26<\/a>), suspendemos hoje a exposi\u00e7\u00e3o, para um excurso sum\u00e1rio pela obra <em>1977<\/em> de Philip Sarrasin.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 96. <em>\u00a0<u>Um breve excurso<\/u>. \u2013 <\/em>Antes de prosseguirmos a leitura da obra de Taylor, transitando das caracter\u00edsticas <em>gerais <\/em>da <em>Idade da Autenticidade <\/em>para o lugar que a <em>religi\u00e3o <\/em>nela ocupa, justifica-se um breve excurso para considerar a obra <em>1977. Eine kurze Geschichte der Gegenwart (1977. Uma breve hist\u00f3ria do presente)<\/em>, de Philip Sarrasin, rec\u00e9m-editada (2021) pela editora alem\u00e3 Suhrkamp. \u00c9 um excurso que creio valioso, uma vez que os dados dela constantes ajudam a confortar o entendimento de que, por altura da segunda metade do s\u00e9c. XX, se consumou uma efectiva mudan\u00e7a cultural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O esquema adoptado pelo Autor \u00e9 de grande simplicidade, mas por isso n\u00e3o menos interessante \u2013 antes pelo contr\u00e1rio. O ano de 1977 \u00e9 escolhido por se lhe afigurar paradigm\u00e1tico de um acentuado conjunto de mudan\u00e7as que se foram produzindo ao longo da d\u00e9cada: \u00ab1977 foram lan\u00e7adas as sondas espaciais Voyager 1 e 2 para o espa\u00e7o (\u2026), foi inaugurado em Paris o Centro Pompidou e na Calif\u00f3rnia lan\u00e7ado o \u201ccomputador pessoal\u201d Apple II (\u2026) Por que \u00e9 que Jimmy Carter no seu discurso inaugural a 20 de Janeiro falou de direitos humanos, a ONU proclamou a 8 de Mar\u00e7o o \u201cdia internacional da mulher\u201d e em Paris os <em>nouveaux philosophes <\/em>se afirmaram? E porqu\u00ea a quase contempor\u00e2nea emerg\u00eancia do Hip-Hop, Disco e Punk, enquanto na Alemanha a organiza\u00e7\u00e3o terrorista de extrema esquerda Rote Armee Fraktion (RAF) iniciava a sua \u201cOfensiva\u201d 77?\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O interesse n\u00e3o est\u00e1 em considerar uma putativa especialidade do ano de 1977, mas em utiliz\u00e1-lo como um momento temporal particularmente apto a retirar uma amostra significativa de um conjunto de mudan\u00e7as ao tempo surgidas, e que, volvidas quatro d\u00e9cadas, se tornaram lugares comuns. Mudan\u00e7as que, naturalmente, foram emergindo nos anos anteriores: poder\u00e1 apontar-se como refer\u00eancia os finais dos anos 60 e a d\u00e9cada de 70 (sendo esta tida como per\u00edodo de grande incerteza, contrastando com o optimismo dos anos 60: entre outros aspectos, surgem cen\u00e1rios de <em>apocalipse ecol\u00f3gico<\/em>\u2026).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tratando-se de obra de alguma dimens\u00e3o \u2013 cerca de meio milhar de p\u00e1ginas \u2013, procurarei colocar em evid\u00eancia alguns desses dados que permitem colocar em evid\u00eancia a <em>nova forma <\/em>social surgida por esse per\u00edodo, em d\u00e9cada na qual se colocam em crise as \u00abcertezas\u00bb pr\u00f3prias da modernidade, que \u00aba muitos aparece como (\u2026) projecto falhado\u00bb (p. 21), num ambiente de apreens\u00e3o generalizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seleccionam-se os temas principais dos cap\u00edtulos da obra que assinalam as mudan\u00e7as surgidas neste per\u00edodo (salvo do cap\u00edtulo 2, de \u00edndole mais pol\u00edtica, relativa \u00e0 reconfigura\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o pol\u00edtico da \u00abextrema-esquerda\u00bb):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) <em>Direitos humanos, minorias e a pol\u00edtica da diferen\u00e7a <\/em>(cap. 3).<em> \u2013 <\/em>Assiste-se em 1977 \u00e0 emerg\u00eancia da categoria dos \u00abdireitos humanos\u00bb \u2013 de que o j\u00e1 referido discurso de Jimmy Carter \u00e9 sinal \u2013, que, at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o eram arma pol\u00edtica de primeira grandeza: \u00abOs \u201cHuman Rights\u201d (\u2026) eram a palavra de ordem do momento: em vez de esperan\u00e7a da Revolu\u00e7\u00e3o prometiam a protec\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo ante o arb\u00edtrio estatal e a viol\u00eancia. Uma nova utopia, porventura a \u201c\u00faltima\u201d, como o historiador do Direito Samuel Moyn diz? O presente cap\u00edtulo colocar\u00e1 em evid\u00eancia como, no palco da pol\u00edtica, a partir de agora os perseguidos aparecem menos como cidad\u00e3os do Estado nacional, mas antes como indiv\u00edduos, que com os seus nomes e caracter\u00edsticas das ofensas sofridas comprovam o mal geral de um Estado repressivo. Os indiv\u00edduos e a sua \u201cdiferen\u00e7a\u201d manifestam-se tamb\u00e9m noutros quadrantes. Fil\u00f3sofos franceses contrap\u00f5em os indiv\u00edduos agredidos \u00e0s forma\u00e7\u00f5es de poder da modernidade, os punks modificam a cultura pop com a sua encena\u00e7\u00e3o como exclu\u00eddos da sociedade, e as feministas politizam a \u201cexperi\u00eancia feminina\u201d\u00bb (p. 116).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caso dos direitos humanos, exercidos agora como arma pol\u00edtica de primeira grandeza, \u00e9 muito significativo. Para ilustrar at\u00e9 que ponto surgia ins\u00f3lita a invoca\u00e7\u00e3o da categoria \u00abdireitos humanos\u00bb como arma pol\u00edtica na d\u00e9cada de 70, podem dar-se dois exemplos. Em Abril de 1977, a (sempre \u00e0 medida do <em>Zeitgeit<\/em>) revista alem\u00e3 <em>Der Spiegel <\/em>escrevia, a respeito dos direitos humanos, que Jimmy Carter \u00abse dotou de uma arma do arsenal te\u00f3rico [<em>geistig<\/em>] de finais do s\u00e9c. XVIII, que ningu\u00e9m acredita que \u00e9 para levar a s\u00e9rio numa \u00e9poca hist\u00f3rica de prioridades t\u00e9cnico-econ\u00f3micas\u00bb (pp. 122-123). E Roberta Cohen, conselheira do Presidente Carter, era citada nos seguintes termos nas p\u00e1ginas do <em>New York Times: <\/em>\u00abOs direitos humanos s\u00e3o subitamente <em>chique<\/em>\u00bb (p. 123).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00abnova\u00bb categoria ser\u00e1 cavalgada por diferentes grupos de base, assumindo uma forma \u00abactivista\u00bb: exemplo \u00e9 a <em>Amnistia Internacional,<\/em> com a pretens\u00e3o de vigiar qualquer viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos em qualquer paragem do mundo, e que, com a concess\u00e3o do pr\u00e9mio Nobel da paz em 1977, recebe chancela p\u00fablica (pp. 126-127). O que determina a pol\u00edtica j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a \u00abvontade de mudan\u00e7a pol\u00edtica (\u2026), mas o sofrimento individual e \u201cdireitos\u201d individuais, exigidos por actores individuais ou grupos de <em>advocacy<\/em>.\u00bb (p. 127)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Iluminadoras s\u00e3o as seguintes linhas: \u00abA nova pol\u00edtica de direitos humanos pretendia acima de tudo ser p\u00f3s-ideol\u00f3gica ou politicamente \u201cneutral\u201d, como o Comit\u00e9 do Nobel sublinhou. Pretendia, conforme a express\u00e3o talvez excessivamente ampla de Samuel Moyn, substituir as \u201cUtopias\u201d tornadas caducas das esquerdas pela nova \u201cUtopia\u201d dos direitos humanos. Acima de tudo, o discurso dos direitos humanos podia de facto funcionar como p\u00f3s-ideol\u00f3gico e \u201cut\u00f3pico\u201d porque nunca estava determinado o que \u00e9 que o conceito deveria significar ao certo: era o \u00faltimo \u201csignificante vazio\u201d da pol\u00edtica, que<br \/>\n\u00e0 volta do globo se apresentava subitamente como a solu\u00e7\u00e3o para trazer ao mais pequeno denominador comum as mais diferentes exig\u00eancias e pretens\u00f5es pol\u00edticas, direitos e desejos de liberta\u00e7\u00e3o.\u00bb (pp. 127-128). Mais adiante se escrever\u00e1: \u00abA mudan\u00e7a pol\u00edtica mais significativa (\u2026) foi o fim da cren\u00e7a \u201cna\u201d Revolu\u00e7\u00e3o \u2013 se necess\u00e1rio armada \u2013, compreendida como a etapa seguinte do progresso social para o socialismo; foi a r\u00e1pida eros\u00e3o da esperan\u00e7a socialista. (\u2026) Uma grande \u00e9poca hist\u00f3rica que come\u00e7ou no s\u00e9c. XVIII com a \u201cdupla revolu\u00e7\u00e3o\u201d nos EUA e em Fran\u00e7a tende para o fim.\u00bb (p. 419)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 tamb\u00e9m neste novo quadro tomam espa\u00e7o p\u00fablico os que representam minorias invis\u00edveis, tidas por agredidas ou marginais. Ora um discurso que sacrifica as grandes narrativas a favor das microrealidades, como em Foucault; ora, no espa\u00e7o p\u00fablico, com a emerg\u00eancia da marginal cultura <em>punk<\/em> (\u00abwhite trash\u00bb).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Grande eco vem ainda a ter a \u00abviragem feminista\u00bb, com as seguintes caracter\u00edsticas: (i) alcance global assente em \u00aborganiza\u00e7\u00f5es de base\u00bb, sem preju\u00edzo das tens\u00f5es entre feministas do hemisf\u00e9rio norte e hemisf\u00e9rio sul (o exemplo dado \u00e9 o tema dos m\u00e9todos contraceptivos e do aborto: sustentados pelas \u00abfeministas do norte\u00bb, s\u00e3o recebidos pelas feministas do sul, \u00abque conheceram o planeamento familiar n\u00e3o raro sob a forma de esteriliza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada\u00bb, como uma forma de \u00abgenoc\u00eddio\u00bb: cf. p. 154). A palavra de ordem fundamental \u00e9 (ii) a \u00abautonomia\u00bb e a inten\u00e7\u00e3o de \u00abliberta\u00e7\u00e3o\u00bb da mulher. Se nalguns casos o movimento feminista conduz \u00e0 exalta\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio feminino \u2013 a ponto de, para alguns, a \u00abfeminilidade seria entendida como uma posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o mais compat\u00edvel com um mundo pensado como um espa\u00e7o comum para ambos os sexos\u00bb \u2013, noutros o feminino h\u00e1-de ser tomado por pura realidade meramente cultural e convencional. Problem\u00e1tico se tornar\u00e1 ent\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 a no\u00e7\u00e3o do \u00abfeminino\u00bb, mas tamb\u00e9m do \u00abmasculino\u00bb ou das demais categorias r\u00edgidas que estruturem a sociedade: prenuncia-se, para esta segunda leitura, o \u00abfim da naturaliza\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a sexual e ao mesmo tempo o in\u00edcio de uma pluraliza\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as de acordo com bem diferentes \u201cfun\u00e7\u00f5es\u201d e \u201ccategorias\u201d sociais e culturais\u00bb (p. 159). Caracteriza o movimento, ainda, (iii) a politiza\u00e7\u00e3o da vida privada. Para o significar publicamente, surge em finais da d\u00e9cada anterior o substantivo \u00absexismo\u00bb, constru\u00eddo a partir de \u00abracismo\u00bb. Como meio de sinaliza\u00e7\u00e3o do feminino, encontra-se \u00abn\u00e3o o jornal, nem a revista, nem o livro. \u00c9 o corpo\u00bb (p. 160).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) <em>A viagem para si pr\u00f3prio <\/em>(cap. 4). \u2013 Com os movimentos anteriores, diferentes actores sociais \u00abcome\u00e7am a afastar-se dos grandes projectos da modernidade e da cren\u00e7a numa \u201clei\u201d vigente para todos, de modo a encetarem uma viagem rumo a si pr\u00f3prias, para investigarem o seu \u201cinterior\u201d e a sua \u201cidentidade\u201d\u00bb (p. 168). Se para uns a referida viagem passaria pela \u00abliberta\u00e7\u00e3o sexual\u00bb, para \u00abos Hippies a droga milagrosa LSD parecia abrir a porta para esta viagem. Em breve seriam gurus indianos [escreve-se adiante: \u00abcom uma linguagem \u201cuniversal\u201d de \u201cespiritualidade\u201d, que j\u00e1 s\u00f3 raramente apresenta conte\u00fados teol\u00f3gicos, e faz\u00a0 exig\u00eancias m\u00ednimas aos seus seguidores, conseguiram estes guros \u201cdesetnizar\u201d o hindu\u00edsmo e torn\u00e1-lo consum\u00edvel para um apetite religioso globalizado\u00bb], budistas alem\u00e3es, monges tibetanos, esot\u00e9ricos brit\u00e2nicos e ainda um f\u00edsico austr\u00edaco que apontariam, no fim do sonho da Revolu\u00e7\u00e3o, o caminho para o \u201cinterior\u201d \u2013 a\u00ed onde a consci\u00eancia deveria ser \u201cexpandida\u201d para o Cosmos. Por diferentes formas, estes caminhos cruzam-se (\u2026) com os dos psic\u00f3logos \u201chumanistas\u201d, que limavam as novas tecnologias do Eu singular. A cren\u00e7a no racionalismo da modernidade e nas coordenadas discursivas que firmam os sujeitos no mundo come\u00e7am a deslizar nesta \u201cNew Age\u201d. Nenhuma surpresa que um fil\u00f3sofo declare em 1975, em Berkeley: \u201cVale tudo\u201d. [<em>Anything goes<\/em>.] E tamb\u00e9m nenhuma surpresa por em todo este esfor\u00e7o de procura do pr\u00f3prio eu o novo ansiado significante \u201cIdentidade\u201d comece a captar energias pol\u00edticas.\u00bb (p. 180) \u00c9 a partir de agora que se torna moda a procura da \u00abautenticidade\u00bb. Do ponto de vista pol\u00edtico, emerge, portanto, a \u00abpol\u00edtica da identidade\u00bb: o termo <em>identity politics <\/em>surge em 1977 (p. 229).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas esta identidade \u2013 ler-se-\u00e1 na conclus\u00e3o \u2013, qual \u00abpalavra m\u00e1gica de um per\u00edodo posterior \u00e9 modernidade\u00bb, ao mesmo tempo que <em>seduz <\/em>na pretens\u00e3o de dar um espa\u00e7o \u00e0 diversidade, j\u00e1 n\u00e3o \u00aboferece qualquer ponto de apoio para pensar o geral [como pretenderam as categorias jur\u00eddicas da modernidade]: a \u201cidentidade\u201d compreendida \u00e0 letra n\u00e3o pode nada incluir, mas apenas encontrar-se sempre no \u201cmesmo\u201d\u00bb (p. 421)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) <em>M\u00e1quinas culturais <\/em>(cap. 5). \u2013 Menciona-se agora o conjunto de inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas com forte impacto ao n\u00edvel cultural \u2013 e, por isso, tamb\u00e9m antropol\u00f3gico: \u00abO per\u00edodo em cujo in\u00edcio estava a produ\u00e7\u00e3o de sons com martelos e pistolas por detr\u00e1s de uma tela de cinema, passando pela inven\u00e7\u00e3o da televis\u00e3o, at\u00e9 \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o do computador pessoal, teve a dura\u00e7\u00e3o de apenas uma vida humana. Mas as mudan\u00e7as t\u00e9cnicas que trouxe consigo foram significativas. \u00c9 a hist\u00f3ria em acelera\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas culturais, que, mediante a manipula\u00e7\u00e3o de sinais, que em breve ser\u00e3o apenas electr\u00f3nicos, s\u00e3o capazes de criar mundos e permitem fazer jogos com sentidos (\u2026) Em 1977 esta hist\u00f3ria adensou-se de modo especial. Trata de computadores de todas as dimens\u00f5es [o Apple II sai para o mercado em 1977], de gira-discos e de c\u00e2maras de v\u00eddeo, de mesas de mistura e aparelhos de eco [<em>Echoger\u00e4ten<\/em>], de filmes, de luzes cintilantes e de latas de spray, assim como, mesmo no fim, de um centro de cultura [Pompidou]. (\u2026). A prop\u00f3sito: as cidades tamb\u00e9m s\u00e3o m\u00e1quinas culturais? Num certo sentido sim. Pelo menos desde metade do s\u00e9c. XIX estabeleceu-se o<em> topos <\/em>de que os edif\u00edcios falam uma \u201clinguagem\u201d mediante a sua arquitectura \u2013 que, de facto, foi decididamente afastada pelos modernos por volta de 1920: n\u00e3o, as formas de arquitectura \u201cadequadas ao tempo\u201d expressariam doravantes apenas a verdade das leis geom\u00e9tricas, da est\u00e1tica e da fun\u00e7\u00e3o. Contra este dogma moderno levanta-se agora oposi\u00e7\u00e3o: a cidade e a sua arquitectura, disseram os te\u00f3ricos do \u201cp\u00f3s-moderno\u201d arquitect\u00f3nico, s\u00e3o geradores de sinais que t\u00eam de ser programados de novo.\u00bb (p. 262).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(d) <em><u>Na sombra da natureza<\/u> <\/em>(cap. 6)<em>. \u2013 <\/em>Finalmente, o cap\u00edtulo 6 trata da influ\u00eancia do \u00abbiologismo\u00bb sobre diferentes dom\u00ednios da vida social. Num primeiro momento, sobre as pr\u00f3prias ci\u00eancias sociais, dando-se por exemplo a economia a apropriar-se de conceitos da pr\u00f3pria biologia (em 1975 \u00e9 publicada a obra <em>Sociobiologia; <\/em>em 1976 publicara Dawkins a obra <em>The Selfish Gene<\/em>). Ecos mais distantes esta <em>biologiza\u00e7\u00e3o <\/em>da cultura encontram-se, ao n\u00edvel da cultura de massas, na dissemina\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas como o <em>body-building <\/em>\u2013 e, mais amplamente, da est\u00e9tica do corpo \u2013, o <em>fitness, <\/em>ou, finalmente, o <em>running <\/em>(movimento que engloba \u00abquase exclusivamente <em>white collar workers <\/em>e membros da classe m\u00e9dia branca, na maioria mulheres\u00bb), que se torna \u00edcone de uma p\u00f3s-modernidade que valoriza as pr\u00f3prias op\u00e7\u00f5es, os pr\u00f3prios percursos, o exerc\u00edcio da autonomia, a modela\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assinalaram-se algumas das mudan\u00e7as da d\u00e9cada de 70, hoje tornadas lugares comuns, ao menos na cultura urbana \u2013 que, por\u00e9m, pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia caminham para a hegemonia. Com a \u00aberos\u00e3o do geral\u00bb e a \u00abpluraliza\u00e7\u00e3o de verdades\u00bb, perdem relevo referentes objectivos de discurso. N\u00e3o s\u00f3 a moralidade, como tamb\u00e9m a pr\u00f3pria epistemologia \u2013 passe o paradoxo \u2013, subjectivizam-se modo radical.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos fechar o presente excurso, posto que realizado o prop\u00f3sito a princ\u00edpio indicado: ilustrar a seriedade da afirma\u00e7\u00e3o de Taylor de que estamos perante uma nova <em>Idade. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o que agora se coloca \u00e9: qual o lugar que o fen\u00f3meno religioso nela ocupa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00ea-lo-emos na pr\u00f3xima glosa.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/dg-ra-4854875\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4607378\">Rafael Javier<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4607378\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13162,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-13161","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13161","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13161"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13161\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13163,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13161\/revisions\/13163"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13162"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13161"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13161"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13161"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}