{"id":13153,"date":"2021-10-07T07:00:58","date_gmt":"2021-10-07T06:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=13153"},"modified":"2021-09-07T15:07:56","modified_gmt":"2021-09-07T14:07:56","slug":"subindo-o-monte-serie-i-s-joao-da-cruz-18-subida-do-monte-carmelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/subindo-o-monte-serie-i-s-joao-da-cruz-18-subida-do-monte-carmelo\/","title":{"rendered":"Subindo o Monte [S\u00e9rie I (S. Jo\u00e3o da Cruz)] 18 &#8211; Subida do Monte Carmelo"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Subindo o Monte&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de autores carmelitas<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h2 style=\"text-align: center;\">Subida do Monte Carmelo<\/h2>\n<h3 style=\"text-align: center;\">Jos\u00e9 Vicente Rodrigues*<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 &#8211; Com o termo \u00ablinha essencial\u00bb refiro-me n\u00e3o s\u00f3 a esta obra, mas a todas as Obras maiores. Apresentamos como que a coluna vertebral, o sistema nervoso das coisas, isto \u00e9, o que d\u00e1 consist\u00eancia e mant\u00e9m em p\u00e9 a mola dos escritos, neste caso e lhes comunica movimento e ac\u00e7\u00e3o. Com isto pretendo indicar os elementos estruturais que sustentam a mola destas grandes Obras. O modo de apresentar esta linha essencial admite as suas variantes, como se poder\u00e1 comprovar em cada caso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2 &#8211; Subida do Monte Carmelo<\/em>. Jo\u00e3o da Cruz desenhou a figura do Monte (j\u00e1 comentada) que, devia ir \u00e0 frente do livro. Al\u00e9m deste esquema gr\u00e1fico comp\u00f4s as 8 can\u00e7\u00f5es da <em>Noite Escura<\/em> \u00abe nela se cont\u00e9m o modo de subir at\u00e9 ao cume do Monte\u00bb (<em>Argumento<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo diante dos olhos o Monte e as can\u00e7\u00f5es come\u00e7a o seu coment\u00e1rio aos livros <em>Subida-Noite<\/em>. A jun\u00e7\u00e3o das duas imagens: subida ao Monte e fu<em>ga da pr\u00f3pria casa, de noite, em busca do Amado, opera desde o princ\u00edpio na mente do autor. <\/em>Na <em>Subida<\/em> a aten\u00e7\u00e3o gravita para as duas semelhan\u00e7as quase a par. Na <em>Noite <\/em>atende quase exclusivamente \u00e0 fuga na noite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 &#8211; Os verbos usados <em>subir<\/em> e <em>sair <\/em>apresentam uma imagem espacial bastante movida do homem, da alma enamorada. A meta da ascens\u00e3o \u00e9 o cimo do Monte. O lugar do encontro amoroso, do encontro, de quem saiu de casa em busca do Amado, \u00e9 a torre de um castelo (cf. can\u00e7\u00e3o 7 \u201co ar da ameia\u201d\u2026; 2 N 18, 1 ss), um castelo colocado no cimo de um monte. Como n\u00e3o comentou as \u00faltimas can\u00e7\u00f5es n\u00e3o sabemos como teria montado as duas figuras ou s\u00edmbolos, embora j\u00e1 o deixa bastante claro nos versos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 &#8211; A \u00ablinha essencial\u00bb, ou ideia geral, neste caso, de <em>Subida-Noite<\/em>, vai-a o leitor descobrindo por meio dos primeiros elementos: o gr\u00e1fico do Monte e as 8 can\u00e7\u00f5es. Tendo em aten\u00e7\u00e3o o t\u00edtulo e o subt\u00edtulo de <em>Subida<\/em>, que \u00e9 uma verdadeira s\u00edntese, vai crescendo a capta\u00e7\u00e3o da mente do autor. No <em>Argumento <\/em>confluem o Monte e a <em>Noite<\/em> da fuga. A meta \u00e9 conseguir pelo caminho breve a perfeita uni\u00e3o da alma com Deus, isto \u00e9, o alto, o mais alto estado desta uni\u00e3o, que outros chamam a perfei\u00e7\u00e3o, mas, que Jo\u00e3o da Cruz, seleccionando a sua linguagem, chamar\u00e1 uni\u00e3o da alma com Deus, deixando assim frente a frente os protagonistas da busca, e do encontro; o homem e Deus, melhor, Deus e o homem. Os meios oferecidos ao homem s\u00e3o os assinalados no t\u00edtulo do livro e no das can\u00e7\u00f5es. O mesmo t\u00edtulo do livro traduz j\u00e1 o conte\u00fado real das regras para subir o Monte (cf. 1 S 13, 10-13) e das can\u00e7\u00f5es da Noite. Aconselho uma boa leitura do pr\u00f3logo program\u00e1tico no qual se manifestam as motiva\u00e7\u00f5es do autor perante a falta de directores de almas id\u00f3neos, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 &#8211; A <em>palavra-chave<\/em> do livro e do itiner\u00e1rio da alma \u00e9 <em>noite<\/em>, <em>a noite<\/em> <em>escura<\/em>, da qual se faz men\u00e7\u00e3o no t\u00edtulo das can\u00e7\u00f5es (\u00abnoite escura da f\u00e9\u00bb) e no pr\u00f3logo \u00aba noite escura\u00bb (nn. 1, 2, 3). Em 1 S 1 no t\u00edtulo do cap\u00edtulo, etc., (Aconselho uma bom repasso em OC p. 176, nota 2, e em p. 177, nota 1). Assim como ultrapassa a \u00abperfei\u00e7\u00e3o\u00bb com a \u00abuni\u00e3o com Deus\u00bb, assim ultrapassa \u00abas purga\u00e7\u00f5es ou purifica\u00e7\u00f5es espirituais\u00bb com as \u00abnoites, porque a alma [\u2026] caminha como de noite, \u00e0s escuras\u00bb (1 S 1, 1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>6 &#8211; Divis\u00e3o quadripartida<\/em>. As raz\u00f5es pr\u00e1ticas, did\u00e1cticas e antropol\u00f3gicas que o levam a dividir a \u00fanica noite em quatro, influem tamb\u00e9m na configura\u00e7\u00e3o da obra escrita <em>Subida-Noite<\/em>. A verdadeira e precisa divis\u00e3o de toda a obra \u00e9 a seguinte:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 \u2013 Noite do sentido 1 S 1, 4-6; 1 S cc. 3-12; 1 S cc. 14-15.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 1 S 1, 1-3: \u00e9 como a introdu\u00e7\u00e3o geral das duas no\u00e7\u00f5es: sensitiva e espiritual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 &#8211; Noite activa do sentido: 1 S c. 13, melhor, modo activo de entrar na noite do sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 &#8211; Noite do esp\u00edrito (aspecto activo e passivo juntamente: 2 S c. 13; c. 6, 1-5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 &#8211; Noite activa do esp\u00edrito, de modo geral, incluindo entendimento, mem\u00f3ria e vontade: 2 S c. 4; c. 6, 6-8.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* 2 S c. 5 serve-lhe de par\u00eantese para falar da uni\u00e3o da alma com Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 &#8211; Noite activa do entendimento 2 S 7, 13; 2 S 8-32.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* Em 2 S 7, 1-12 fala de todo o caminho: noite do sentido e do esp\u00edrito no aspecto activo e passivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 &#8211; Noite Activa da mem\u00f3ria 3 S cc. 2. 15<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* o cap. 1\u00ba \u00e9 introdu\u00e7\u00e3o geral a todo o livro. Embora em 3 S c. 2 fala da noite activa da mem\u00f3ria, trata-se antes de resolver objec\u00e7\u00f5es que v\u00e3o muito mais longe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7 &#8211; Noite activa da vontade 3 S cc. 16-45.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">8 &#8211; Noite passiva do sentido. Noite, liv. 1\u00ba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">9 &#8211; Noite passiva do esp\u00edrito. Noite, liv. 2\u00ba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>7 &#8211; Por tr\u00eas motivos se chama noite ao tr\u00e2nsito da alma \u00e0 uni\u00e3o com Deus<\/em>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 da parte do termo de onde sai, que implica nega\u00e7\u00e3o e car\u00eancia de gosto e desapego de todas as coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 da parte do meio ou caminho por onde h\u00e1-de ir, o caminho ou a peregrina\u00e7\u00e3o da f\u00e9, em f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 da parte do termo aonde vai, que \u00e9 Deus, no seu mist\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada um destes motivos se constitui em noite (1 S 2, 5), com grandes exig\u00eancias pr\u00e1ticas na vida (1 S 2, 2-4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">8 &#8211; A defini\u00e7\u00e3o ou no\u00e7\u00e3o fundamental de noite que d\u00e1 em 1 S 3, 1: \u00aba priva\u00e7\u00e3o do gosto no apetite de todas as coisas\u00bb n\u00e3o \u00e9 completa, mas engloba, sem falta, \u00abmortifica\u00e7\u00e3o do apetite\u00bb, \u00abnega\u00e7\u00e3o de gostos em todas as coisas\u00bb, \u00abnega\u00e7\u00e3o e car\u00eancias\u00bb, tudo isto assumido evangelicamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os danos existenciais provocados e agravados pelos desejos, apet\u00eancias desordenadas, numa palavra pelo amor desordenado que se esconde em todos estas desordens, d\u00e3o ao Santo maior raz\u00e3o para falar da necessidade de mortificar todo este mundo de apegos e escravid\u00f5es e de caminhar, livre e sem equipamento, na noite \u00ab\u00e0s escuras e sem nada\u00bb, procurando a fonte viva e o cume do Monte (cf. 1 S cc. 6-12 onde fala dos apetites desordenados, que hoje traduzir\u00edamos talvez por fixa\u00e7\u00e3o, adi\u00e7\u00e3o, impulsos desordenados, etc., como pensam alguns modernos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">9 &#8211; Ao falar da \u00abescura noite da f\u00e9, em desnudez e purga\u00e7\u00e3o sua\u00bb, j\u00e1 no mesmo t\u00edtulo das can\u00e7\u00f5es, e assinal\u00e1-lo como o caminho por onde se chega \u00e0 uni\u00e3o com Deus, \u00e0 uni\u00e3o do Amado, j\u00e1 se est\u00e1 a apontar firmemente para o teologal, o caminho teologal, e as palavras de ordem que d\u00e1 para entrar activamente (= livremente, voluntariamente\u00bb) na noite (cf. 1 S c. 13) est\u00e3o j\u00e1 embebidas na subst\u00e2ncia teologal e cristologal. \u00c9 essencial o enamoramento do Esposo Cristo (1 S 14, 2). Reaparece assim em 1 S 5, 2 a no\u00e7\u00e3o-conte\u00fado da noite como \u00aba priva\u00e7\u00e3o de todos os gostos e mortifica\u00e7\u00e3o de todos os apetites\u00bb; e isto, note-se bem, \u00abpor amor de Jesus Cristo\u00bb (1 S 13, 4), \u00abpor Cristo\u00bb (1 S 13, 6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">10 &#8211; Em 2 S 3 estabelece-se com toda a firmeza: <em>a f\u00e9 \u00e9 noite escura para a alma<\/em>. A beliger\u00e2ncia que se d\u00e1 \u00e0 f\u00e9 \u00e9 preciso entend\u00ea-la; de facto, em todos os argumentos exibidos para provar este asserto entra tanto ou mais do que a f\u00e9 a caridade e a ren\u00fancia que \u00e9 obra da vontade. Deixa-o anteriormente dito: \u00ab\u2026 logo entra a alma na segunda noite, <em>ficando s\u00f3 em f\u00e9<\/em>, <em>sem excluir a caridade,<\/em> mas as outras not\u00edcias do entendimento [\u2026] que \u00e9 coisa que n\u00e3o cai no sentido\u00bb (1 S 2, 3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">11 &#8211; Foca devidamente a quest\u00e3o central da uni\u00e3o com Deus (2 S c. 5), deixa campo livre \u00e0s virtudes teologais, que s\u00e3o o meio pr\u00f3ximo e o caminho para chegar \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o recebida no baptismo (2 S 5, 5). H\u00e1 que fazer avan\u00e7ar todo o homem: a f\u00e9 tem rela\u00e7\u00e3o com o seu entendimento, a esperan\u00e7a com a sua mem\u00f3ria e a caridade com a sua vontade (2 S c. 6). Neste cap\u00edtulo j\u00e1 encontra plenamente Jo\u00e3o da Cruz o melhor caminho para as suas explica\u00e7\u00f5es a dar com a chave teologal, que dava a impress\u00e3o que andava a procurar anteriormente. As exig\u00eancias teologais entendem-se fixando-se em Cristo na cruz, ouvindo os seus convites e seguindo o seu supremo exemplo (2 S c. 7). Assim, a alma pode encarar o caminho teologal e compreender as raz\u00f5es mais \u00edntimas e pessoais do mesmo (2 S cc. 8-9). \u00abS\u00f3 a f\u00e9 \u00e9 o pr\u00f3ximo e proporcionado meio para a alma se unir a Deus [\u2026], e, portanto, quanto mais f\u00e9 a alma tem mais unida est\u00e1 com Deus\u00bb (2 S 9, 1). J\u00e1 fica explicada essa \u00absolid\u00e3o\u00bb da f\u00e9 e o valor de \u00abs\u00f3 a a f\u00e9\u00bb: c. 1 S 2, 3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">12 &#8211; Frei Jo\u00e3o distingue as intelig\u00eancias (not\u00edcias) e apreens\u00f5es que o entendimento pode receber por via natural e sobrenatural: 2 S c. 10, e daqui em diante vai ensinando como comportar-se, como ultrapassar danos e obst\u00e1culos e haver-se com os proveitos contr\u00e1rios atrav\u00e9s de todos os meios que Deus p\u00f5e ao alcance do homem, vivendo em f\u00e9. Tema delicado o da passagem da medita\u00e7\u00e3o \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, deixando-se conduzir por Deus (c. 2 S cc. 11-15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 que entender e entrar pelos caminhos de Deus que tem uma pedagogia e condescend\u00eancia especiais no seu trato com o homem (2 S cc. 16-21).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">13 &#8211; Voltando ao esquemas e divis\u00f5es propostas em 2 S 10, 4, examina vis\u00f5es, revela\u00e7\u00f5es, locu\u00e7\u00f5es e sentimentos espirituais, ensinando a caminhar por eles \u00e0 uni\u00e3o com Deus, sem parar nem se enredar em nada disto. E, como sempre, vai o entendimento \u00ab\u00e0s escuras e sem nada\u00bb, isto \u00e9, n\u00e3o se apegando a nada nem mudando indevidamente os meios em fins (cf. 2 S cc. 23-32).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">14 &#8211; Ao iniciar o terceiro livro de <em>Subida<\/em>, o autor faz um balan\u00e7o do que foi feito com o entendimento \u00abpara que, segundo esta pot\u00eancia, se possa unir a alma com Deus pela pureza da f\u00e9\u00bb. Apresenta o que se h\u00e1-de fazer com a mem\u00f3ria e a vontade \u00abpurificando-as tamb\u00e9m acerca das suas apreens\u00f5es para que segundo estas duas pot\u00eancias, a alma se venha a unir com Deus em perfeita esperan\u00e7a e caridade\u00bb. Em 3 S 1, 2, oferece o plano geral a seguir em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mem\u00f3ria (not\u00edcias de) e \u00e0 vontade (afei\u00e7\u00f5es de). [Leia-se o texto completo directamente e leia-se tamb\u00e9m a advert\u00eancia metodol\u00f3gica que d\u00e1 em 3 S 2, 1-3].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a <em>mem\u00f3ria e a esperan\u00e7a<\/em> fala em 3 S cc. 2-14; no cap\u00edtulo 15, 1 faz um bom resumo de todo o tema da mem\u00f3ria e esperan\u00e7a, da posse e da esperan\u00e7a. Os cap\u00edtulos anteriores tornam-se um pouco obscuros e dif\u00edceis, por isso, quer esclarecer no c. 15.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>15 &#8211; Vontade e caridade<\/em>. Isto \u00e9 o principal, por isso, escreve: \u00abn\u00e3o ter\u00edamos feito nada em purgar o entendimento para o fundar na virtude da f\u00e9, e a mem\u00f3ria na da esperan\u00e7a, se n\u00e3o purgarmos tamb\u00e9m a vontade acerca da terceira virtude, que \u00e9 a caridade, pela qual as obras feitas em f\u00e9 s\u00e3o vivas e t\u00eam grande valor, e sem ela n\u00e3o valem nada\u00bb (3 S 16, 1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta exposi\u00e7\u00e3o mais radical faz-se na base do preceito do amor, pois tudo o que o homem espiritual tem que fazer e o que frei Jo\u00e3o lhe pode ensinar compendia-se neste preceito (Dt 6, 5; 3 S 16, 1). Vai mover-se no terreno afectivo representado pelo mundo das paix\u00f5es: gozo, esperan\u00e7a, dor e temor (Ibid., 2-3). Conforme estas energias passionais estejam ordenadas ou desordenadas ir\u00e1 adiante o homem \u00abporque todo o neg\u00f3cio para vir \u00e0 uni\u00e3o de Deus est\u00e1 em purgar a vontade das suas afei\u00e7\u00f5es e apetites, para que assim de vontade humana e baixa venha a ser vontade divina, feita uma mesma coisa com a vontade de Deus\u00bb (Ibid., 3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">16 &#8211; Examinar\u00e1, em primeiro lugar, a paix\u00e3o do gozo, que est\u00e1 t\u00e3o presente na no\u00e7\u00e3o de noite escura, embora sob a palavra gosto (1 S 3, 1 ss). Divide o gozo em activo e passivo (3 S 17, 1). Haver\u00e1 que examinar e guiar a atitude da vontade diante de tantos g\u00e9neros de bens que se podem apresentar ao homem. Trata-se de que a vontade v\u00e1 sendo regida e vivificada pela virtude teologal da caridade. Os g\u00e9neros de bens de que vai falar s\u00e3o os:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 temporais (cc. 18-20),<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 naturais (cc. 21-23),<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 sensuais (cc. 24. 26),<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 morais (cc. 27-29),<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 sobrenaturais (cc. 30-32),<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 espirituais (cc. 33- 45).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">17 &#8211; O ritmo tern\u00e1rio com que exp\u00f5e os cinco primeiros g\u00e9neros: quais s\u00e3o, danos, proveitos faz que se possa seguir a linha essencial de modo f\u00e1cil e ordenado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Adverte que se guia por um fundamento que \u00abser\u00e1 como um b\u00e1culo em que nos havemos sempre de no apoiar\u00bb e que cada leitor h\u00e1-de levar sempre entendido, pois essa \u00e9 a luz para se guiar e entender toda esta doutrina do amor-caridade e assim poder \u00abendere\u00e7ar em todos estes bens o gozo a Deus, e \u00e9: <em>que a vontade n\u00e3o deve gozar sen\u00e3o s\u00f3 daquilo que \u00e9 gl\u00f3ria e honra de Deus e que a maior honra que lhe podemos dar \u00e9 servi-lo segundo a perfei\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica; e o que \u00e9 fora disto \u00e9 de nenhum valor e proveito para o homem<\/em>\u00bb (3 S 17, 2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Firme neste princ\u00edpio, segue o ritmo assinalado e levando o homem, atrav\u00e9s do uso destes bens, \u00e0 meta da sua perfeita uni\u00e3o com Deus. Os danos nascem do apego indevido a estes bens, e os proveitos nascem de apartar o cora\u00e7\u00e3o de semelhante gozo. Na an\u00e1lise dos danos e proveitos, Jo\u00e3o da Cruz, al\u00e9m de se mostrar um grande mestre de esp\u00edrito e guia seguro, resplandece como um grande psic\u00f3logo, cheio de agudeza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">18 &#8211; Ao examinar o \u00faltimo g\u00e9nero de bens: os <em>espirituais<\/em>, quebra o ritmo tern\u00e1rio dos cap\u00edtulos. Na nossa edi\u00e7\u00e3o pode ver uma nota pertinente, de Federico Ruiz, na qual se precisa como \u00abestes cap\u00edtulos sobre os bens espirituais ou media\u00e7\u00f5es religiosas est\u00e3o constru\u00eddos sobre a estrutura e os dinamismos da vida teologal, especialmente a f\u00e9 e o amor. Tais bens s\u00e3o puros meios para entrar em comunh\u00e3o teologal com Deus: \u00abimagens\u00bb para facilitar o conhecimento da f\u00e9, e \u00abmotivos\u00bb para estimular o amor de caridade. A linguagem insistente mostra o seu af\u00e3 de que os meios cheguem a cumprir o seu objectivo pessoal e vital: f\u00e9 e devo\u00e7\u00e3o, viva imagem, ao vivo, o vivo do recolhimento, o vivo da ora\u00e7\u00e3o, a verdade do esp\u00edrito. Tem medo justificado de que tantas manifesta\u00e7\u00f5es \u00abreligiosas\u00bb fiquem em pura materialidade: figura, feitura, ornato, pintura, imagem, cerim\u00f3nia\u00bb (OC p. 404, nota 1, cap. 35).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos destes cap\u00edtulos s\u00e3o muito amenos e est\u00e3o cheios de chispa e ironia em que sabia abundar frei Jo\u00e3o da Cruz, a quem, por outro lado, n\u00e3o treme a m\u00e3o quando tem que fazer den\u00fancias de qualquer abuso ou desvio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, o livro da <em>Subida<\/em>, incompleto, enla\u00e7a com o da <em>Noite<\/em>, com o qual, como dissemos, constitui uma s\u00f3 obra, um d\u00edptico.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">*Vicente Rodrigues.<em> 100 Fichas sobre S. Jo\u00e3o da Cruz. <\/em>Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, Avessadas. Pp. 226 -230.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/kanenori-4749850\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=6486545\">Kanenori<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=6486545\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Subindo o Monte&#8217;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13154,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[172],"tags":[],"class_list":["post-13153","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-subindo-o-monte"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13153","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13153"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13153\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13155,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13153\/revisions\/13155"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13154"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13153"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13153"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13153"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}