{"id":13149,"date":"2021-09-30T07:00:32","date_gmt":"2021-09-30T06:00:32","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=13149"},"modified":"2021-09-07T14:59:56","modified_gmt":"2021-09-07T13:59:56","slug":"subindo-o-monte-serie-i-s-joao-da-cruz-17-o-monte-da-perfeicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/subindo-o-monte-serie-i-s-joao-da-cruz-17-o-monte-da-perfeicao\/","title":{"rendered":"Subindo o Monte [S\u00e9rie I (S. Jo\u00e3o da Cruz)] 17 &#8211; O monte da perfei\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Subindo o Monte&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de autores carmelitas<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h2 style=\"text-align: center;\">O monte da perfei\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<h3 style=\"text-align: center;\">Jos\u00e9 Vicente Rodrigues*<\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 &#8211; Os desenhos deste \u201cMonte\u201d t\u00eam duas finalidades: ser um <em>papel<\/em>, um esquema <em>isento<\/em> da perfei\u00e7\u00e3o, do caminho para a mais alta uni\u00e3o com Deus. E, al\u00e9m disso, ser o <em>esquema gr\u00e1fico<\/em> do livro da <em>Subida do Monte Carmelo<\/em> (1 S 13, 10). Neste coment\u00e1rio refiro-me ao desenho primitivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Notemos que no esquema se pintam tr\u00eas caminhos. \u00c0 esquerda, o <em>caminho de esp\u00edrito de imperfei\u00e7\u00e3o<\/em>: <em>do c\u00e9u, gl\u00f3ria, gozo, saber, consola\u00e7\u00e3o, descanso<\/em>. \u00c0 direita, o <em>caminho do esp\u00edrito de imperfei\u00e7\u00e3o<\/em>: <em>da terra, possuir, gozo, saber, consola\u00e7\u00e3o, descanso<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 &#8211; O caminho central chama-se <em>caminho<\/em> (<em>senda) do Monte Carmelo esp\u00edrito de perfei\u00e7\u00e3o<\/em>: <em>nada, nada, nada, nada, nada, nada. E ainda no monte, nada<\/em>. O qualificativo de \u00absenda\u00bb (lat. semita) indica que \u00e9 apertado e estreito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para estabelecer um coment\u00e1rio ao esquema ser\u00e1 melhor come\u00e7ar pelo cume ou pelo sop\u00e9 do monte?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 &#8211; \u00c9 necess\u00e1rio dar uma olhadela ao cume, o ponto mais alto a que se quer subir. O cimo do \u201cMonte\u201d est\u00e1 representado pelo c\u00edrculo central, s\u00edmbolo de Deus, dentro do qual se escreve: <em>S\u00f3 mora neste monte honra e gl\u00f3ria de Deus<\/em>. A saber, aqui mora exclusivamente o pr\u00f3prio Deus. O homem procura a perfeita uni\u00e3o com Deus. Com este objectivo, h\u00e1 que aventurar-se pelo caminho (senda) do meio, o \u00fanico dos tr\u00eas que chega ao cume.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 &#8211; Para come\u00e7ar a subir pelo caminho (\u00absenda\u00bb) h\u00e1 que ler os versinhos escritos no sop\u00e9 do Monte, pois, \u00abs\u00e3o doutrina para subir a ele, que \u00e9 o alto da uni\u00e3o\u00bb (1 S 13, 10). Nas vinte e duas linhas dos versinhos e nas outras seis, em pura prosa, misturam-se palavras tipicamente sanjoaninas como <em>tudo<\/em> e <em>nada<\/em>. O modo de anunciar e introduzir estas palavras de ordem \u00ab<em>para<\/em>\u2026\u00bb lembra o tom sapiencial do livro dos Prov\u00e9rbios: <em>para <\/em>aprender, compreender, adquirir, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui a doutrina se encripta em <em>vir a gostar, saber, possuir, ser<\/em> (numa dimens\u00e3o sem medida), <em>tudo<\/em>. \u00c9 um modo subtil e paradoxal de propor uma s\u00e9rie de bem-aventuran\u00e7as, como quem diz: <em>bem-aventurado aquele que n\u00e3o quer ter, gostar, saber, possuir, ser nada, porque vir\u00e1 a ter, gostar, saber, possuir, ser tudo<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 &#8211; O ponto-chave, e mais ainda, a for\u00e7a que articula todo o dinamismo que surge de todas estas palavras de ordem, centra-se nesse <em>tudo<\/em> e nesse <em>nada<\/em>. Para chegar ao \u00ab<em>tudo<\/em>\u00bb, que se encontra no cume do <em>Monte<\/em> h\u00e1 que passar, obrigatoriamente, <em>por e sobre o nada<\/em>. Qualquer outra coisa, seja o que for, \u00e9 absolutamente nada comparado com Deus, que \u00e9 o TUDO. Assim o reafirma dez vezes num s\u00f3 cap\u00edtulo (1 S 4; CH 1, 32).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 &#8211; Desde este <em>tudo<\/em> e este <em>nada <\/em>se entendem os dois caminhos e o \u00fanico caminho (senda). O apego aos bens assinalados nos dois caminhos ser\u00e1 sempre e, em definitivo, um apego, um amor desmesurado a si mesmo. Pelo caminho central sobe-se sobre seis \u00abnadas\u00bb, e acrescenta-se, mais um nada, no fim do caminho. O <em>nem isso<\/em>, <em>nem aquilo<\/em> s\u00e3o a cantilena do nada para os bens da direita e da esquerda. Nenhum dos dois caminhos desemboca no cume, e, al\u00e9m disso, para escarmento, reconhecido pelos caminhantes, t\u00eam de confessar que n\u00e3o conseguiram nada com tudo isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Senten\u00e7as especiais<\/strong>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7 &#8211; Pelo monte aparecem: paz, gozo, alegria, deleite (lado esquerdo); piedade, caridade, fortaleza, justi\u00e7a (lado direito) e, no meio, mais em cima; sabedoria. S\u00e3o os frutos e os bens que a alma, que escala o cimo do <em>Monte Carmelo<\/em>, h\u00e1-de possuir e desfrutar. A eles aludem as palavras de Jeremias (2, 7) que contornam o c\u00edrculo central, s\u00edmbolo de Deus: <em>Introduxi vos in terram Carmeli ut comederetis fructum eius et bona illius<\/em> (Introduzir-vos-ei na terra do Carmelo, para comerdes o seu fruto e os seus bens). Trata-se em parte dos frutos do Esp\u00edrito Santo, em parte das virtudes, e em parte dos dons do Esp\u00edrito Santo. Jo\u00e3o da Cruz fala uma vez dos doze frutos: \u00ab\u2026 se v\u00e3o granjeando os doze frutos do Esp\u00edrito Santo\u00bb (1 N 13, 11). Fala tamb\u00e9m explicitamente dos sete dons (CB 26, 3; 2 S 29).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">8 &#8211; Dentro do c\u00edrculo formado pelas palavras de Jeremias escreve horizontalmente as palavras: <em>S\u00f3 mora neste monte<\/em> \/ <em>honra e gl\u00f3ria de Deus<\/em>. Esta honra e gl\u00f3ria de Deus, t\u00e3o inacianas, aparecem em Jo\u00e3o da Cruz assim juntas v\u00e1rias vezes ou com ligeira variante: 3 S 17, 2; 1 S 13, 4 (duas vezes); 2 S 20, 4; 2 S 22, 11; 3 S 16, 2; 3 S 20, 3, onde fala disto como do \u00abpressuposto que aqui levamos\u00bb, de cujo pressuposto cf. 3 S 17, 2. E prossegue: 3 S 27, 4, 5; CB 9, 5; CB 40, 7; CH 4, 17; Ditos n. 160; Graus de perfei\u00e7\u00e3o, n. 4. Aqui no cume do <em>Monte<\/em> aparecem \u00abhonra e gl\u00f3ria de Deus\u00bb insinuando que, desde estas coordenadas, se ilumina o caminho (senda) e para essa meta tende o escalador. N\u00e3o esque\u00e7amos que o cimo do <em>Monte<\/em> simboliza o mais alto estado de perfei\u00e7\u00e3o, a uni\u00e3o da alma (homem) com Deus (<em>Subida<\/em>, <em>argumento<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Seis confiss\u00f5es muito pessoais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>9 &#8211;<\/strong>\u00a0Quem escalou o <em>Monte<\/em> proclama por um lado: <em>nada me d\u00e1 gl\u00f3ria<\/em> e, por outro, <em>nada me d\u00e1 pena<\/em>. \u00c9 f\u00e1cil compreender estas confiss\u00f5es na boca da alma chegada \u00e0 perfeita uni\u00e3o com Deus, em quem tem toda a sua gl\u00f3ria e contentamento. Diz igualmente: <em>quando j\u00e1 n\u00e3o o queria tenho tudo sem querer<\/em> (direita, verticalmente). Significa que, ao n\u00e3o querer nada, encontra tudo em Deus, que satisfaz todas as suas aspira\u00e7\u00f5es e desejos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqueles que seguiram pelos caminhos de imperfei\u00e7\u00e3o fazem tamb\u00e9m as suas confiss\u00f5es de sinal diverso: <em>quanto mais o quis querer com tanto menos me encontrei<\/em> (esquerda) e: <em>quanto mais o quis buscar, com tanto menos me encontrei <\/em>(direita). \u00c9 um pouco o que comenta o Santo em 1 S 6, 6 ao explicar como os apetites desordenados \u00abcansam e fatigam a alma\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E ainda no Monte nada<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">10 &#8211; Esta senten\u00e7a, que coroa o caminho da perfei\u00e7\u00e3o, quer dizer o seguinte: \u00abnada, porque est\u00e1 o Tudo = Deus, e porque a alma est\u00e1 desprendida e desapegada, desapropriada do nada das coisas criadas, que n\u00e3o s\u00e3o Deus, n\u00e3o quer nada, nem despreza nada. Coincide com a senten\u00e7a sanjoanina: <em>o que n\u00e3o tem nada, tem tudo<\/em> (2 S 4, 5), e \u00e9 sinal de que tem tudo quando e porque n\u00e3o quer nada; \u00abe para ter a Deus em tudo, conv\u00e9m n\u00e3o ter em tudo nada\u00bb (Ct 17 a Madalena do Esp\u00edrito Santo, Seg\u00f3via 18 de Julho 1589).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>11 &#8211; J\u00e1 por aqui n\u00e3o h\u00e1 caminho<\/em>, <em>porque para o justo n\u00e3o h\u00e1 lei<\/em>, <em>ele para si \u00e9 lei<\/em>. Esta senten\u00e7a, que se l\u00ea no mais alto do <em>Monte<\/em>, como num arco final, est\u00e1 integrada por dois textos de S\u00e3o Paulo: <em>lex iusto non est posita<\/em> (1 Tm 1, 9 e o outro: <em>ipsi sibi sunt lex<\/em> (Rm 2, 14). O texto sanjoanino, fundindo os dois textos paulinos, afirma que quando havia caminho havia lei. E quem subia o <em>Monte<\/em> precisava das duas coisas, como de algo exterior a si mesmo, distinto de si, porque n\u00e3o tinha alcan\u00e7ado esse t\u00e3o alto estado de justi\u00e7a, de santidade, de perfei\u00e7\u00e3o (= uni\u00e3o = comunh\u00e3o com Deus = \u00faltimo fim e lei suprema) no qual a caridade se transforma na \u00fanica verdadeira norma, com a qual, real e verdadeiramente, nessas alturas se supera em plenitude de cumprimento a formula\u00e7\u00e3o positiva de toda a lei. N\u00e3o \u00e9 libertar-se da lei, mas observ\u00e1-la com perfei\u00e7\u00e3o, vindo a urg\u00eancia e o facto desse cumprimento de dentro, n\u00e3o de fora. O Santo ilustra magnificamente tudo isto (CB 27, 8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Resumo conclusivo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>12 &#8211; <\/strong>Diante do <em>Monte<\/em>, que comentamos, entregue pelo Santo a Madalena do Esp\u00edrito Santo, a primeira impress\u00e3o que se recebe, \u00abse se contempla a parte central, \u00e9 a de estar diante de algo como as t\u00e1buas da Lei. Aqui o Mois\u00e9s que, depois de se encontrar com Deus no mais alto do <em>Monte<\/em>, desce com essas t\u00e1buas e as sust\u00e9m \u00e9 Jo\u00e3o da Cruz. Como para ele a ess\u00eancia, a realidade mais profunda de Deus \u00e9 o \u201c<em>Amor<\/em>\u201d, j\u00e1 podemos vislumbrar que essas t\u00e1buas cont\u00eam a lei do amor, capaz de o ensinar e de fazer subir at\u00e9 ao cume, onde mora o Senhor\u00bb (Jos\u00e9 Vicente, La escalada del Monte Carmelo, em \u00abTeresa de Jes\u00fas\u00bb, n. 61, Fevereiro de 1993, pp. 15-17).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">13 &#8211; A subst\u00e2ncia doutrinal \u00edntima, contida neste esquema sanjoanino, \u00e9 riqu\u00edssima. Al\u00e9m de ser um desenho, de que se servia para instruir os seus, e ser o <em>esquema gr\u00e1fico<\/em> da grande obra <em>Subida-Noite<\/em>, \u00e9 evidente que nela se encontrar\u00e1 a interpreta\u00e7\u00e3o e o coment\u00e1rio mais pleno. Por exemplo, 3 S cc. 18-45 fala longamente dos bens: temporais (c. 18-20), naturais (c. 21-23), sensuais (c. 24-26), morais (c. 27-29), sobrenaturais (c. 30-32), espirituais (c. 33-45).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O princ\u00edpio geral em ordem ao uso ou diante destes bens \u00e9 a mesma norma aplicada no gr\u00e1fico: \u00ab\u2026 a vontade n\u00e3o deve gozar sen\u00e3o s\u00f3 daquilo que \u00e9 <em>gl\u00f3ria e honra<\/em> de Deus\u00bb (3 S 17, 2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">14 &#8211; A realidade que, na verdade, gera todo o esfor\u00e7o asc\u00e9tico e todo o movimento ascensional da alma pelo caminho (senda) do esp\u00edrito de perfei\u00e7\u00e3o e animadora de todas as ren\u00fancias \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, \u00e9 a senten\u00e7a escrita dentro do c\u00edrculo central: <em>s\u00f3 mora neste monte honra e gl\u00f3ria de Deus<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">15 &#8211; O caminho de perfei\u00e7\u00e3o \u2013 a senda central \u2013 \u00e9 s\u00f3 um: tanto mais breve quanto mais recto, e tanto mais recto quanto mais breve, geometricamente. \u00c9 tamb\u00e9m estreito ou senda (latim, semita, caminho estreito, sendeiro). Da\u00ed que, quem quiser caminhar por ele (ela) h\u00e1-de estreitar-se. Se n\u00e3o houver isto, nem sequer poder\u00e1 entrar por ele, n\u00e3o caber\u00e1. N\u00e3o poder\u00e1 nem caminhar e muito menos chegar ao cimo com todo esse carregamento. O Santo descreve, de modo gr\u00e1fico, este facto (2 S 7, 7. 3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">16 &#8211; O segredo para percorrer o caminho ascensional, breve e seguro, est\u00e1 em viver as virtudes teologais, a mais aut\u00eantica <em>norma e ordem<\/em> pois, \u00abestas virtudes t\u00eam por of\u00edcio apartar a alma de tudo o que \u00e9 menos que Deus, (e), consequentemente, de a juntar com Deus\u00bb (2 N 21, 11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">17 &#8211; Quem renunciar evangelicamente a tudo o que n\u00e3o \u00e9 Deus e guiado pela f\u00e9, esperan\u00e7a e caridade procurar s\u00f3 a Deus poder\u00e1 subir ao cume do <em>Monte<\/em> para comunicar com Deus, sabendo que o objectivo da sua escalada e de tantas ren\u00fancias \u00ab<em>\u00e9 fazer de si mesmo altar no qual ofere\u00e7a a Deus sacrif\u00edcio de amor puro e louvor e rever\u00eancia pura<\/em>\u00bb (1 S 5, 7), n\u00e3o servindo a alma neste estado de uni\u00e3o com Deus \u00ab<em>de outra coisa sen\u00e3o de altar, no qual Deus \u00e9 adorado em louvor e amor e s\u00f3 Deus est\u00e1 nela<\/em>\u00bb, pois \u00ab<em>na alma n\u00e3o h\u00e1-de faltar amor de Deus para ser digno altar, nem outro amor alheio se h\u00e1-de misturar<\/em>\u00bb (<em>ibid<\/em>.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">18 &#8211; A uni\u00e3o = comunh\u00e3o com Deus, Sumo Bem, traz consigo todos os bens e afugenta todos os males, pois, pela sua mesma natureza \u00ab<em>o sumo bem<\/em>\u00bb \u00e9 \u00abbem perfeito e suficiente que exclui todo o mal e cumula todo o desejo\u00bb. Se antes, quando ia de caminho, para ir em busca do \u00ab<em>tudo<\/em>\u00bb, renunciava ao nada e n\u00e3o se apegava a ele, agora muito menos se apegar\u00e1 quando j\u00e1 tem mais e melhor a \u00ab<em>quem<\/em>\u00bb \u00ab<em>\u00e9 o Tudo<\/em>\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">19 &#8211; \u00ab<em>Tudo-Nada<\/em>\u00bb. Esta contraposi\u00e7\u00e3o tem na pura linha doutrinal uma import\u00e2ncia extraordin\u00e1ria (cf. 1 S 4); \u00e9 o eixo e a espinha dorsal ou coluna vertebral de todo o livro <em>Subida-Noite<\/em>, cujo esquema gr\u00e1fico ou pict\u00f3rico \u00e9 o desenho do <em>Monte<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m desta import\u00e2ncia doutrinal o bin\u00f3mio assinala a fogo a realidade que cai sob a experi\u00eancia viva da alma contemplativa e enamorada. Quando o Santo formula e repete \u00abTudo-Nada\u00bb, coloca neste par de palavras toda a carga afectiva e ponderativa da experi\u00eancia vivida e padecida. Como exemplo singular deste facto citamos a seguinte texto de CH 1, 32 e CH A 1, 26: \u00abComo est\u00e1 posta [a alma] no sentir de Deus, sente as coisas como o mesmo Deus, diante do qual, como tamb\u00e9m diz David, <em>mil anos s\u00e3o como o dia de ontem que passou<\/em> (Sl 89, 4), e segundo Isa\u00edas (40, 17) <em>todas as gentes s\u00e3o como se n\u00e3o fossem<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E esse mesmo tomo t\u00eam diante da alma, que todas as coisas s\u00e3o para ela <em>nada,<\/em> e ela \u00e9 <em>nada<\/em> aos seus olhos. S\u00f3 o seu Deus \u00e9 para ela <em>o tudo<\/em>. A partir deste \u00absentir como Deus\u00bb, a partir desta experi\u00eancia, se compreende a for\u00e7a com que exprime doutrinalmente o seu pensamento sobre o \u00abTudo\u00bb e o \u00abNada\u00bb por todos os lados. O texto de Isa\u00edas tem na <em>Vulgata<\/em> alguns detalhes mais que o Santo n\u00e3o explica. Na sua totalidade, diz: \u00abOmnes gentes, quasi non sint, sic sunt coram eo, et quasi nihilum et inane reputatae sunt ei\u00bb. A palavra \u00abinane\u00bb do profeta recolhe-a frei Jo\u00e3o frequentemente como \u00abvazio\u00bb, que usa 173 vezes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>20 &#8211;<\/strong>\u00a0A partir da dial\u00e9ctica sanjoanina <em>do tudo e do nada<\/em> entende-se a bem-aventuran\u00e7a do nada, do \u00abditoso nada\u00bb (Ct de 18 de Julho de 1589 a Maria de Jesus), tendo exortado a destinat\u00e1ria da carta a contentar-se \u00abs\u00f3 em Deus\u00bb, assegurando que \u00abo pobre de esp\u00edrito nas m\u00ednguas (escassez) est\u00e1 mais constante e alegre porque p\u00f4s o <em>seu tudo em zero e em nada, e assim encontra em tudo largura de cora\u00e7\u00e3o<\/em>\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">21 &#8211; Por fim, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz faz o seu melhor coment\u00e1rio \u00e0 figura do seu <em>Monte<\/em> em 2 S 7, pois, em definitivo, a \u00fanica via, caminho ou senda para essas alturas de Deus \u00e9 <em>Cristo<\/em>: caminho, luz, modelo, guia para quantos se aproximam de Deus. E <em>Cristo <\/em>\u00e9 tamb\u00e9m o <em>Monte<\/em> a subir, transformando-se e assemelhando-se a Ele (CB 36, 6-8). <em>Cristo <\/em>\u00e9 tamb\u00e9m o \u00ab<em>Tudo<\/em>\u00bb. Assegura-o firmemente Jo\u00e3o da Cruz, quando, contemplando todo o panorama da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, e lan\u00e7ando-se desde o primeiro vers\u00edculo da Carta aos Hebreus, afirma: \u00abNo qual d\u00e1 a entender o Ap\u00f3stolo que Deus ficou como mudo e n\u00e3o tem mais que falar, porque o que antes falava em partes (parcialmente) aos profetas j\u00e1 o falou no tudo (totalmente, na totalidade), dando-nos o \u201c<em>Tudo<\/em>\u201d, que \u00e9 o seu \u201c<em>Filho<\/em>\u201d\u00bb (2 S 22, 4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">22 &#8211; \u00abOs alpinistas costumam acometer a ascens\u00e3o dos picos mais elevados durante a noite, com o fim de alcan\u00e7ar o cume ao despontar o dia; assim a subida m\u00edstica do <em>Monte Carmelo<\/em>, ser\u00e1 come\u00e7ada ao entardecer e continuada debaixo de um condensar-se das trevas, at\u00e9 ao irradiar do Sol imenso\u00bb (T. L. Penido, <em>O itiner\u00e1rio m\u00edstico de S\u00e3o Jo\u00e3o<\/em>, Petr\u00f3polis, 1949, p. 138).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Anota\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o <em>Monte<\/em>, preparado por Diego de Astor para a edi\u00e7\u00e3o pr\u00edncipe do Santo (Alcal\u00e1 1618), acumulam-se nas figuras do <em>Monte<\/em>, j\u00e1 no cume, muitos mais elementos dos que h\u00e1 no <em>Monte<\/em> por n\u00f3s comentado, por exemplo as tr\u00eas virtudes teologais. Porque n\u00e3o se encontram no desenho mais primitivo chegado at\u00e9 n\u00f3s? Na minha opini\u00e3o, a aus\u00eancia das virtudes teologais pelo cimo do <em>Monte<\/em>, como se fossem bens ou frutos a encontrar ali, justifica-se porque a alma sobe com elas \u00abpostas\u00bb; esta express\u00e3o n\u00e3o deve causar estranheza se lermos 2 N 21, todo o cap\u00edtulo, no qual o autor fala admiravelmente do significado e da raz\u00e3o de ser do <em>disfar\u00e7ar-se<\/em>. E, para se encontrar com Deus e libertar-se dos inimigos, o segredo do \u00eaxito est\u00e1 em revestir-se de f\u00e9 (t\u00fanica interior branca), de esperan\u00e7a (gib\u00e3o verde), da caridade (uma magn\u00edfica toga vermelha).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A presen\u00e7a das virtudes teologais, contudo, fica bem assinalada nas palavras de ordem dadas nas 22 linhas como doutrina para subir o <em>Monte<\/em>. Onde se fala de gostar (1 e 5) est\u00e1 presente a caridade, de saber (2 e 6) est\u00e1 presente a f\u00e9, de possuir (3 e 7) est\u00e1 presente a esperan\u00e7a. Al\u00e9m disso, a caridade est\u00e1 presente nos quatro primeiros d\u00edsticos onde se diz: \u00abn\u00e3o queiras\u00bb (cf. 3 S 16). Tamb\u00e9m n\u00e3o devemos esquecer que onde est\u00e1 e actua uma das tr\u00eas virtudes teologais numa alma em gra\u00e7a ali est\u00e3o presentes e operantes, activas, as outras duas, pois \u00ab<em>estas tr\u00eas virtudes teologais andam em uno<\/em>\u00bb (sempre juntas) (2 S 24, 8).<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">*Vicente Rodrigues.<em> 100 Fichas sobre S. Jo\u00e3o da Cruz. <\/em>Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, Avessadas. Pp. 215 -219.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/cocoparisienne-127419\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2100050\">cocoparisienne<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2100050\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Subindo o Monte&#8217;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13151,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[172],"tags":[],"class_list":["post-13149","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-subindo-o-monte"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13149","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13149"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13149\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13152,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13149\/revisions\/13152"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13151"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13149"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13149"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13149"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}