{"id":13095,"date":"2021-08-30T07:00:40","date_gmt":"2021-08-30T06:00:40","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=13095"},"modified":"2021-08-25T17:51:26","modified_gmt":"2021-08-25T16:51:26","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-26-a-idade-da-autenticidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-26-a-idade-da-autenticidade\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (26) \u2013 A Idade da Autenticidade"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>, cujo objecto foi enunciado na <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">primeira<\/a> destas composi\u00e7\u00f5es. Ap\u00f3s a leitura das tr\u00eas primeiras partes da obra (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-22-trajectorias-novecentistas\/\">22<\/a>), inici\u00e1mos a Parte IV, de t\u00edtulo \u00abNarrativas de Seculariza\u00e7\u00e3o\u00bb. Visto o primeiro dos seus cap\u00edtulos (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/category\/olhares\/glosas\/\">23<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-25-a-idade-da-mobilizacao\/\">25<\/a>), iniciamos hoje o segundo, o 13 da obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 93. <em>\u00a0<u>Uma nova Idade<\/u>. \u2013 <\/em>\u00abToda a gente sente que qualquer coisa mudou. Muitas vezes a mudan\u00e7a \u00e9 experimentada como uma perda, uma quebra. A maioria dos americanos julga que as comunidades est\u00e3o em eros\u00e3o, e tamb\u00e9m as fam\u00edlias, a vizinhan\u00e7a, mesmo a comunidade pol\u00edtica; pensam que as pessoas est\u00e3o menos dispostas a participar, a fazer a sua parte; e est\u00e3o menos dispostos a confiar nos outros. (\u2026) Sem d\u00favida que percep\u00e7\u00f5es similares est\u00e3o disseminadas noutras sociedades ocidentais.\u00bb (p. 473)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A presente transcri\u00e7\u00e3o d\u00e1 a t\u00f3nica para o objecto do cap\u00edtulo 13 da obra. Depois de um laborioso de identifica\u00e7\u00e3o da genealogia da <em>Idade Secular, <\/em>eis uma surpresa: subitamente se anuncia que, algures no s\u00e9culo XX, houve lugar a uma forte revolu\u00e7\u00e3o cultural. \u00c9 ali, desde os seus anos 60, que \u00abA Idade da Autenticidade\u00bb (<em>The Age of Authenticity<\/em>), t\u00edtulo que recebe o presente cap\u00edtulo, toma o espa\u00e7o p\u00fablico, revolvendo a cultura comum herdada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O presente cap\u00edtulo \u2013 em tema ao qual o Autor dedica tamb\u00e9m a obra <em>The Etichs of Authenticity <\/em>(Harvard University Press, 2018, mas cuja primeira edi\u00e7\u00e3o fora de 1991, sob o t\u00edtulo <em>The Malaise of Modernity<\/em>) \u2013 \u00e9, a meu ver, dos mais valiosos para tomar o pulso ao (nosso) tempo. Mais do que explorar as causas que podem ter conduzido a uma Idade de individualismo \u00abexpressivista\u00bb (sociedade de consumo, mobilidade, modifica\u00e7\u00f5es na organiza\u00e7\u00e3o de trabalho, reconfigura\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es familiares, urbaniza\u00e7\u00e3o, advento da televis\u00e3o,\u2026), na linha da inten\u00e7\u00e3o \u00abgeneal\u00f3gica\u00bb que guiou as partes anteriores da obra, procura agora identificar quais os seus efeitos ao n\u00edvel <em>moral, <\/em>nomeadamente na defini\u00e7\u00e3o do crit\u00e9rio do <em>bem <\/em>e do <em>valor <\/em>(pp. 473-474). Estamos ainda a come\u00e7ar a aproximar-nos desta nova \u00e9poca \u2013 agora que est\u00e1 quase consumada a sa\u00edda da vida activa de todos aqueles que prov\u00eam de per\u00edodo hist\u00f3rico anterior, que, neste medida, entra no dom\u00ednio do <em>perfectum<\/em> \u2013, e por isso dela como nos aproximamos apenas \u00e0s apalpadelas, a partir das suas manifesta\u00e7\u00f5es exteriores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As mudan\u00e7as presentes nesta <em>Idade da Autenticidade<\/em> come\u00e7ar\u00e3o por ser vistas em sede geral (pp. 474-486); s\u00f3 de seguida se considerar\u00e3o as suas consequ\u00eancias sobre o lugar da religi\u00e3o (pp. 486-504). Entre uma e outra parte, suspenderemos temporariamente a leitura de Taylor para a considera\u00e7\u00e3o de uma outra obra, rec\u00e9m-sa\u00edda, que ajuda a ilustrar as grandes mudan\u00e7as ocorridas a partir da d\u00e9cada de 60.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 94. <em><u>\u00a0A Idade da Autenticidade. Dimens\u00e3o \u00abexpressivista\u00bb<\/u>. \u2013 <\/em>Come\u00e7aremos assim a ver as caracter\u00edsticas desta nova <em>Idade<\/em>, dita de <em>Autenticidade, <\/em>e que \u00e9 a <em>Idade<\/em> a que o nosso tempo pertence<em>. <\/em>Como ponto pr\u00e9vio est\u00e1 a advert\u00eancia de Taylor de n\u00e3o <em>reduzir <\/em>esta <em>Idade<\/em> a uma simples viragem ego\u00edstica ou hedon\u00edstica, mas de a considerar seriamente como um per\u00edodo de mudan\u00e7a efectiva no quadro de valores.\u00a0 Veremos alguns dos seus tra\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assinala-se logo a <em>revolu\u00e7\u00e3o de consumo<\/em>, passando este a ser concebido como meio para <em>express\u00e3o <\/em>de gostos, de personalidade, etc. (p. 474). Dentro ainda deste \u00e2mbito, destaca-se a cria\u00e7\u00e3o de uma espec\u00edfica cultura juvenil de \u00edndole \u00abexpressivista\u00bb, que se h\u00e1-de multiplicar num conjunto de grupos espec\u00edficos de afinidades e diferen\u00e7as espec\u00edficas: \u00abOs estilos de roupa adoptadas, os tipos de m\u00fasica ouvidos, a cria\u00e7\u00e3o da personalidade, as afinidades de quem escolhe, num amplo espa\u00e7o de moda em que as op\u00e7\u00f5es de uma pessoa podem alinhar com milhares, mesmo com milh\u00f5es de outras.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 neste \u00e2mbito que Taylor se serve do termo \u00abautenticidade\u00bb, com ra\u00edzes no romantismo e agora disseminado, assente na ideia de que \u00abcada um tem a sua forma pr\u00f3pria de realizar a nossa humanidade\u00bb. A dissemina\u00e7\u00e3o deste <em>modo de ser <\/em>d\u00e1-se j\u00e1 na segunda parte do s\u00e9c. XX, momento no qual express\u00f5es como \u00abdo your own thing\u00bb, \u00abjust do it\u00bb, se tornam correntes: \u00abUm expressivismo infiltra-se em toda a parte. As terapias multiplicam-se com a promessa de te ajudar a encontrares-te, a realizar-se, a libertar o teu verdadeiro eu, e por a\u00ed adiante.\u00bb (p. 475)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diferentes revolu\u00e7\u00f5es surgem na d\u00e9cada de 60 do s\u00e9c. XX, tamb\u00e9m em resposta \u00e0 espec\u00edfica cultura dos anos 50: \u00abRevoltaram-se contra um sistema \u201cmec\u00e2nico\u201d em nome de la\u00e7os mais \u201corg\u00e2nicos\u201d, contra o instrumental, e a favor de vidas dedicadas a bens com valor intr\u00ednseco; contra o privil\u00e9gio, e a favor da igualdade; e contra a repress\u00e3o do corpo pela raz\u00e3o, e pela plena realiza\u00e7\u00e3o da sexualidade.\u00bb (p. 476) E isto de modo a constituir um todo harm\u00f3nico entre tais diferentes elementos, que ficaria por realizar: \u00abNa medida em que os fins da auto-express\u00e3o integral, liberta\u00e7\u00e3o sexual, rela\u00e7\u00f5es iguais, e v\u00ednculos sociais n\u00e3o podem ser facilmente realizadas em conjunto \u2013 e parece que s\u00f3 podem ser unidos com dificuldade, e por tempo limitado, na melhor das hip\u00f3teses em pequenas comunidades \u2013, a tentativa de os realizar envolver\u00e1 o sacr\u00edfico de alguns elementos do conjunto em favor de outros.\u00bb (p. 477)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguem-se dois par\u00e1grafos de Taylor nos quais recenseia sumariamente a obra de David Brooks, <em>Bobos in Paradise, <\/em>que de t\u00e3o acutilantes merecem ser transcritos. Dentro da cita\u00e7\u00e3o da obra de Taylor encontra-se, por sua vez, uma cita\u00e7\u00e3o directa daquele Autor:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abDavid Brooks apresenta a s\u00edntese entre \u201cbourgeois\u201d e \u201cbo\u00e9mio\u201d que v\u00ea na actual classe alta dos EUA. Estes \u201cBoBos\u201d, como lhes chama, fizeram as pazes com o capitalismo e a produtividade, mas conservam como preponderante o sentido da import\u00e2ncia do desenvolvimento pessoal e da auto-express\u00e3o. Continuam a abra\u00e7ar de todo o cora\u00e7\u00e3o o sexo e a sensualidade como bens em si, mas procuram-no com uma esp\u00e9cie da mais s\u00e9ria preocupa\u00e7\u00e3o pelo investimento em si pr\u00f3prio que est\u00e1 a anos luz da espontaneidade dionis\u00edaca dos anos 60. Desenvolveram aquilo a que chama um \u201cego\u00edsmo selecto\u201d [<em>higher selfishness<\/em>]: \u201cO cultivo de si pr\u00f3prio \u00e9 o imperativo\u2026 N\u00e3o \u00e9 um ego\u00edsmo grosseiro e vulgar, procurando o seu estreito auto-interesse ou a acumula\u00e7\u00e3o insana. \u00c9 um \u201cego\u00edsmo selecto\u201d. Tem a ver com estar bem seguro de que se consegue obter o m\u00e1ximo de si pr\u00f3prio, o que significa colocar-se a si pr\u00f3prio num trabalho que realiza do ponto de vista espiritual, \u00e9 socialmente construtivo, diversificado nas experi\u00eancias que proporcionada, enriquecedor do ponto de vista emocional, que aumenta a auto-estima, sempre desafiante, e eternamente edificante.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre o que se perdeu do conjunto original est\u00e1, por um lado, a igualdade social; BoBos fizeram as pazes com a revolu\u00e7\u00e3o Reagan-Thatcher, o emagrecimento do Estado-Provid\u00eancia, e o aumento da desigualdade no rendimento, onde se sentam bem no topo. E, por outro lado, o seu estilo de vida m\u00f3vel contribuiu para erodir a comunidade. Mas h\u00e1 mais do que apenas um desconforto residual entre muitos destes grandes voadores. Querem acreditar que est\u00e3o a contribuir para o bem estar de todos; e anseiam por rela\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias mais significativas.\u00bb (p. 477)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 numa sociedade com estas caracter\u00edsticas que a invoca\u00e7\u00e3o do factor \u00abescolha\u00bb (<em>pro-choice<\/em>), enquanto tal, \u00e9 constante (p. 478), com isso de podendo esvaziar o justamente o impacto e significado moral das op\u00e7\u00f5es tomadas. E mesmo se diga a respeito da invoca\u00e7\u00e3o de \u00abdireitos\u00bb (p. 479) \u2013 embora, como adiante se dir\u00e1, a sua invoca\u00e7\u00e3o esteja agora menos ligada a uma comunidade espec\u00edfica (p. 486). Como seja, houve uma efectiva modifica\u00e7\u00e3o do contexto de discuss\u00e3o das mais diferentes quest\u00f5es pol\u00edticas (pp. 480-481).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 95. <em><u>Consequ\u00eancias sobre o imagin\u00e1rio social<\/u>. \u2013 <\/em>Tais manifesta\u00e7\u00f5es, entre outras que se poderiam convocar, se particularmente presentes na cultura juvenil, disseminaram-se j\u00e1 pelo conjunto da sociedade. Eis algumas consequ\u00eancias:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) O surgimento de um novo imagin\u00e1rio social, a acrescer \u00e0 <em>economia, esfera p\u00fablica <\/em>e <em>povo soberano, <\/em>constitu\u00eddo pela<em> moda <\/em>(<em>fashion<\/em>): \u00abO lugar da moda encontra-se num espa\u00e7o no qual sustemos uma linguagem de signos e significados que se encontram constantemente a mudar, mas que a certo ponto \u00e9 o <em>background<\/em> necess\u00e1rio para dar aos nossos gestos o sentido que t\u00eam.\u00bb (p. 481) Torna-se um espa\u00e7o relevante, uma vez que constitui um meio de comunica\u00e7\u00e3o numa sociedade urbana de indiv\u00edduos isolados: nela, \u00abcada indiv\u00edduo ou pequeno grupo age por si pr\u00f3prio, mas com a consci\u00eancia de que o seu comportamento diz alguma coisa aos outros, vai ser respondido pelos outros, vai ajudar a construir um <em>mood <\/em>ou tom comum que colorir\u00e1 as ac\u00e7\u00f5es de todos\u00bb (p. 482). Na verdade, \u00e9 esta l\u00f3gica de <em>multid\u00e3o solit\u00e1ria <\/em>que estar\u00e1 presente nas grandes mobiliza\u00e7\u00f5es colectivas, por ex., grandes eventos culturais, desportivos, como\u00e7\u00e3o geral com uma not\u00edcia (morte da \u00abPrincesa Di\u00bb), etc., e que s\u00e3o o suced\u00e2neo de express\u00f5es colectivas anteriores. [Considere-se o fen\u00f3meno dos <em>festivais de ver\u00e3o\u2026<\/em>ou as <em>Jornadas Mundiais da Juventude, <\/em>como tentativa de codificar em termos religiosos este fen\u00f3meno.] Momentos em que se partilha \u00abuma emo\u00e7\u00e3o, um forte sentimento comum. O que est\u00e1 a acontecer \u00e9 que estamos a ser todos tocados em conjunto, movidos como um s\u00f3, a sentir-nos em conjunto como fundidos no nosso contacto com algo superior, que nos comove profundamente, ou algo admir\u00e1vel; cujo poder de nos comover foi profundamente amplificado pela fus\u00e3o\u00bb (p. 482). Que constitui, afinal, uma perviv\u00eancia da dimens\u00e3o do <em>festivo <\/em>nas sociedades contempor\u00e2neas (cf. o n.\u00ba 91).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Os bens (<em>commodities<\/em>) tornam-se \u00abve\u00edculos de express\u00e3o individual, mesmo da auto-defini\u00e7\u00e3o da identidade\u00bb. Ao mesmo tempo que a linguagem que veiculam, \u00e9, ela pr\u00f3pria, objecto de explora\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, dado poder ser adquirida. Olhe-se o exemplo, dado por Taylor, de aquisi\u00e7\u00e3o de um produto assinalado com uma marca desportiva. Estranha simbiose, pois, entre o <em>econ\u00f3mico<\/em> e o <em>identit\u00e1rio<\/em>. O que pode, bem assim, agudizar a sensa\u00e7\u00e3o de ruptura com espa\u00e7os anteriores de perten\u00e7a (p. 483).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) N\u00e3o s\u00f3 encontramos um imagin\u00e1rio novo, como os imagin\u00e1rios existentes se v\u00eaem objecto de transforma\u00e7\u00e3o. O sentimento de perten\u00e7a deslocou-se de grandes entidades como na\u00e7\u00f5es (ou Igrejas; Partidos Pol\u00edticos,\u2026) para outros eixos de articula\u00e7\u00e3o, como, por ex., <em>estrelas medi\u00e1ticas <\/em>ou <em>produtos. <\/em>O que, se implica o enfraquecimento de certas formas de organiza\u00e7\u00e3o anteriores, sup\u00f5e tamb\u00e9m o refor\u00e7o de outros valores sociais, precisamente daqueles que s\u00e3o pr\u00f3prios da <em>Idade da Autenticidade<\/em>. Tal \u00abrelativismo soft\u00bb tem por mote: \u00abdeixa cada um fazer a sua cena [<em>their own thing<\/em>], e n\u00e3o devemos criticar os \u201cvalores\u201d dos outros; tal \u00e9 predicado com uma base \u00e9tica s\u00f3lida, na verdade, reclamado por ela. N\u00e3o se deve criticar os valores dos outros, porque eles t\u00eam o direito a viver a sua pr\u00f3pria vida como tu. O pecado que n\u00e3o \u00e9 tolerado \u00e9 a intoler\u00e2ncia.\u00bb Neste ponto, trata-se ainda de um desenvolvimento da ordem moral moderna, sobrevalorando uma das suas dimens\u00f5es e sacrificando algumas outras (p. 484).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(d) Este quadro surge desacompanhado de qualquer <em>disciplinamento, <\/em>do cultivo de uma \u00e9tica c\u00edvica-individual, da defesa de valores familiares, que como constitu\u00edam o quadro de refer\u00eancia (<em>framework<\/em>) dentro do qual se poderia procurar a felicidade individual (pp. 484-485). \u00c9 este movimento de fundo que, no conjunto do mundo ocidental, conduziu a um conjunto de altera\u00e7\u00f5es normativas em sede de moral social, tidas como de \u00abliberaliza\u00e7\u00e3o dos costumes\u00bb \u2013 quest\u00f5es t\u00e3o diferentes, mas agrup\u00e1veis sob este ponto de vista, como as relativas ao aborto, div\u00f3rcio, legaliza\u00e7\u00e3o da pornografia, etc. E \u00abo cora\u00e7\u00e3o desta revolu\u00e7\u00e3o reside nos costumes sexuais\u00bb, n\u00e3o j\u00e1 apenas ao n\u00edvel de uma elite, mas do conjunto da sociedade (p. 485).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de considerarmos o lugar da religi\u00e3o nesta nova <em>Era da Autenticidade, <\/em>suspenderemos a leitura d\u2019 <em>A Secular<\/em> <em>Age <\/em>para considerarmos brevemente a obra <em>1977, <\/em>de Philip Sarasin, recentemente dada \u00e0 estampa.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/pexels-2286921\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1850868\">Pexels<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1850868\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13096,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-13095","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13095","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13095"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13095\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13097,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13095\/revisions\/13097"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13096"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13095"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13095"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13095"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}