{"id":13045,"date":"2021-08-16T07:00:23","date_gmt":"2021-08-16T06:00:23","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=13045"},"modified":"2021-08-12T12:23:51","modified_gmt":"2021-08-12T11:23:51","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-25-a-idade-da-mobilizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-25-a-idade-da-mobilizacao\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (25) \u2013 A Idade da Mobiliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>, cujo objecto foi enunciado na <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">primeira<\/a> destas composi\u00e7\u00f5es. Ap\u00f3s a leitura das tr\u00eas primeiras partes da obra (glosas <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a> a <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-22-trajectorias-novecentistas\/\">22<\/a>), inici\u00e1mos a Parte IV, de t\u00edtulo \u00abNarrativas de Seculariza\u00e7\u00e3o\u00bb. O presente texto conclui o cap\u00edtulo 12 (depois da glosa <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/category\/olhares\/glosas\/\">23<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-24-a-idade-da-mobilizacao-cont\/\">24<\/a>), o primeiro da parte IV.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 89. <em><u>Contraposi\u00e7\u00e3o entre os dois tipos ideais<\/u>. \u2013 <\/em>Os <em>tipos ideais <\/em>do <em>Ancien r\u00e9gime <\/em>e da <em>Idade da Mobilia\u00e7\u00e3o, <\/em>enquanto diferentes formas de configura\u00e7\u00e3o religiosa, podem ser contrapostos mediante quatro crit\u00e9rios:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Ideia de ordem moral:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(i) <em>Ancien r\u00e9gime<\/em>. \u2013 Ideia pr\u00e9-moderna de ordem, inscrita no cosmos ou num tempo superior;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(ii) Mobiliza\u00e7\u00e3o. \u2013 Ordem moral moderna, entre iguais, assente no benef\u00edcio rec\u00edproco (pp. 459-460).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Rela\u00e7\u00e3o com a ac\u00e7\u00e3o humana:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(i) <em>Ancien r\u00e9gime<\/em>. \u2013 As formas de organiza\u00e7\u00e3o religiosa preexistem aos seus concretos membros, recuando ao \u00abprinc\u00edpio dos tempos\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(ii) Mobiliza\u00e7\u00e3o. \u2013 As formas de organiza\u00e7\u00e3o religiosa s\u00e3o vistas como o resultado da <em>actua\u00e7\u00e3o <\/em>dos seus membros, que as constituem e animam. Da\u00ed o termo <em>mobiliza\u00e7\u00e3o<\/em>: \u00abas pessoas t\u00eam de ser conduzidas, ou for\u00e7adas, ou organizadas a fazer a sua parte na nova estrutura; t\u00eam de ser recrutadas para a cria\u00e7\u00e3o de novas estruturas.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(c) Forma de organiza\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(i) <em>Ancien r\u00e9gime<\/em>. \u2013 Estrutura\u00e7\u00e3o org\u00e2nica, assente em estados, institui\u00e7\u00f5es e pequenas comunidades, participando-se no conjunto atrav\u00e9s de cada um destes elementos (por ex., par\u00f3quia).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(ii) Mobiliza\u00e7\u00e3o. \u2013 Assenta num modelo de sociedade de <em>acesso directo<\/em>, em que todos s\u00e3o perspectivados reciprocamente como indiv\u00edduos (n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-13-povo-soberano-e-imediacao-idealismo\/\">47<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(d) Rela\u00e7\u00e3o com o mundo envolvente:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(i) <em>Ancien r\u00e9gime<\/em>. \u2013 Articula-se com um mundo visto como encantado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(ii) Mobiliza\u00e7\u00e3o. \u2013 Relaciona-se com um mundo desencantado (para estas no\u00e7\u00f5es, ver o n.\u00ba <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">6<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Repise-se que se trata de tipos meramente ideais: a concreta composi\u00e7\u00e3o eclesial pode conjugar, no mundo hist\u00f3rico real, elementos dos dois modelos (p. 460).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o muito valiosas, finalmente as reflex\u00f5es das pp. 462-466 \u2013 que n\u00e3o ser\u00e3o glosadas de perto \u2013, relativas \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o, em \u00e2mbito franc\u00eas (largamente aproveit\u00e1veis para a nossa realidade), da l\u00f3gica do antigo modelo de viv\u00eancia paroquial. A\u00ed se coloca em evid\u00eancia a tens\u00e3o entre um modelo de pr\u00e1tica religiosa assente num forte consenso comunit\u00e1rio, que (quando de um certo estilo) s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel \u00e0 custa de grande uniformiza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica religiosa, e a promo\u00e7\u00e3o de uma devo\u00e7\u00e3o pessoal intensa, que pode justamente colocar em causa a uniformiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 90. <em><u>Rela\u00e7\u00e3o com o decl\u00ednio da pr\u00e1tica religiosa<\/u>. \u2013 <\/em>A distin\u00e7\u00e3o entre as duas formas de organiza\u00e7\u00e3o eclesial \u00e9, de resto, relevante para compreender algumas din\u00e2micas de decl\u00ednio ou conserva\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica religiosa \u2013 assim como para recusar leituras lineares do processo de seculariza\u00e7\u00e3o. Com efeito, algumas din\u00e2micas pr\u00f3prias da modernidade, por ex., a urbaniza\u00e7\u00e3o, se podem atingir de modo muito profundo um modelo de organiza\u00e7\u00e3o eclesial assente no primeiro modelo, est\u00e3o aptos a serem devidamente absorvidos pelo segundo: \u00abComo o soci\u00f3logo da religi\u00e3o franc\u00eas Gabriel le Bras afirma, quando o campon\u00eas franc\u00eas chegava \u00e0 <em>Gare de Montparnasse <\/em>em finais do s\u00e9c. XIX, j\u00e1 estava perdido para a Igreja. Mas a migra\u00e7\u00e3o de camponeses semelhantes para a Am\u00e9rica do Norte trouxe frequentemente novas e mais vigorosas formas de pr\u00e1tica.\u00bb Quer dizer, a ao ponto chega Taylor, tudo depende da exist\u00eancia, e em que termos, de <em>alternativas <\/em>\u00e0s formas de vida religiosa inicialmente experimentadas (p. 461), que apenas ser\u00e3o oferecidas nalguns dos modelos de presen\u00e7a da dimens\u00e3o religiosa na sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 91. <em><u>O isolamento identit\u00e1rio.<\/u> \u2013 <\/em>Ao n\u00edvel cat\u00f3lico, as diferentes formas de mobiliza\u00e7\u00e3o religiosa \u2013 \u00abrecolha de fundos, cria\u00e7\u00e3o e condu\u00e7\u00e3o de escolas, hospitais, universidades (\u2026)\u00bb \u2013 tinha em vista <em>tamb\u00e9m <\/em>\u00abisolar os fi\u00e9is, tanto quanto poss\u00edvel, de influ\u00eancias exteriores (perspectivadas como) de natureza hostil: o liberalismo, o socialismo, o protestantismo. Este \u00faltimo fim requeria tamb\u00e9m um amplo conjunto de organiza\u00e7\u00f5es, como clubes desportivos cat\u00f3licos e outros grupos recreativos. Finalmente, mas longe de por \u00faltimo, foram fundados partidos cat\u00f3licos.\u00bb (p. 467) H\u00e1 paralelos n\u00e3o cat\u00f3licos: tamb\u00e9m assim se organizavam, por ex., os partidos sociais democratas, ou comunistas; ou o protestantismo na Holanda; etc. (p. 472)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, decresce o controlo por parte da hierarquia (p. 467). Interessante \u00e9 o desenvolvimento, ao n\u00edvel cat\u00f3lico, de formas de espiritualidade an\u00e1logas \u00e0s evang\u00e9licas, sublinhando particularmente a dimens\u00e3o emocional (Sagrado Cora\u00e7\u00e3o; Santa Teresinha do Menino Jesus); a tentativa, tamb\u00e9m, de ordenamento moral (por ex., combate ao alcoolismo); a promo\u00e7\u00e3o de associa\u00e7\u00f5es mutualistas; <em>Catholic Trade Unions; <\/em>etc. (p. 468). Ainda dentro deste lado cat\u00f3lico, n\u00e3o se combateu a dimens\u00e3o <em>festiva<\/em>, embora tenha havido o esfor\u00e7o de deslocar as peregrina\u00e7\u00f5es do n\u00edvel local para regional (em Fran\u00e7a: La Salette, Lourdes, Paray le Monial), com a \u00abb\u00ean\u00e7\u00e3o da hierarquia\u00bb. \u00c9 de assinalar, todavia, que os grandes santu\u00e1rios surgidos ao longo dos \u00faltimos s\u00e9culos se tenham iniciado a partir de baixo, da viv\u00eancia popular da religi\u00e3o (p. 469). Trata-se de uma diferen\u00e7a para o campo protestante, embora, como adiante se ver\u00e1, tenha certo paralelo com o <em>revival meeting <\/em>e com formas do pentecostalismo desenvolvidas no s\u00e9c. XX, para as quais a dimens\u00e3o festiva \u00e9 central (pp. 469-470).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 92. <em><u>Dimens\u00e3o social da religi\u00e3o.<\/u><\/em> \u2013 Em suma, s\u00e3o muitas as formas de interac\u00e7\u00e3o poss\u00edveis entre a dimens\u00e3o religiosa e pol\u00edtica (pp. 470-471). Seja como for, em qualquer uma das perspectivas se torna claro: do ponto de vista crist\u00e3o, a religi\u00e3o \u00e9 perspectivada como <em>garante <\/em>da ordem social. E o seu decl\u00ednio \u00e9 temido como factor de turba\u00e7\u00e3o da ordem estabelecida: \u00abEsta vis\u00e3o \u00e9 ainda defendida hoje em alguns c\u00edrculos, mas h\u00e1 um s\u00e9culo atr\u00e1s era normal e mesmo hegem\u00f3nica entre crentes crist\u00e3os.\u00bb (p. 472) \u00c9 esta vis\u00e3o <em>mobilizadora <\/em>aquela que marca a viv\u00eancia religiosa no per\u00edodo de 1800 a 1950\/60.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deste modo, quatro factores que caracterizavam a <em>religiosidade <\/em>das elites tornam-se <em>generalizadas <\/em>neste per\u00edodo: \u00abespiritualidade, disciplina, identidade pol\u00edtica, e uma imagem de ordem civilizacional.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viriam a ser desafiadas, por\u00e9m, por uma nova Idade (p. 472).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passaremos a consider\u00e1-la na pr\u00f3xima glosa.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem | Santu\u00e1rio de Lourdes | <a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/14578371-14578371\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5151524\">Manfred Zajac<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5151524\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13049,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-13045","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13045","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13045"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13045\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13053,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13045\/revisions\/13053"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13049"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13045"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13045"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13045"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}